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quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Uma mão cheia de lugares comuns

O Sr. Trump ganhou as eleições para a presidência dos Estados Unidos da América.

Depois de uma campanha eleitoral vergonhosa em que debitou toda a espécie de baboseiras e vilanias, o Sr. Trump ganhou as eleições para a presidência dos Estados Unidos da América.

Não aprendemos nada com a História (do século XX).

Num estado democrático o povo é soberano.

O povo é quem mais ordena. (Será?)

A democracia é o pior de todos os sistemas políticos com exceção dos outros todos.

Peace and love! Paz e amor!

Último, mas não por último: os americanos lá aguentaram ter um presidente preto. Mas uma mulher? Depois de um presidente preto? Não. Seria de mais!




segunda-feira, 29 de agosto de 2016

O impedimento

A Presidente eleita do Brasil foi impedida de governar por um grupo de pessoas que, tal como por cá, estavam com uma enorme vontade de «ir ao pote».

Foi impedida, obstruída, desacreditada, depreciada, descredenciada, despojada, impugnada – tudo sinónimos que esclarecem o significado de impeachment que os nossos irmãos brasileiros preferem referir.

Segundo a Wikipedia, na acepção jurídica, impeachment significa 'acusação e processo de uma pessoa por traição, outro grande crime ou afronta a um tribunal competente'. É disto disto que acusam a Presidente eleita do Brasil. Mesmo que, ao contrário dos seus acusadores que lhe tomaram o lugar, nada de grave haja de que possa ser incriminada ou se prove. Cometeu erros? Ah, certamente. Pois quem não os comete todos os dias, mesmo sendo figura com uma responsabilidade desta envergadura?

Hoje a Presidente eleita teve de se submeter ao mais humilhante interrogatório perpetrado por um Senado vendido (ou comprado, sei lá qual é a pior perspetiva!) para ver se a deixam continuar a ser Presidente ou se será banida e proscrita como uma vulgar criminosa. Lamento muito por ela!

Hoje deveria ter sido um dia em que todos os democratas deste mundo teriam saído à rua em defesa da Democracia. Mas sei bem que isso não acontece. Só nas palavras politicamente corretas que hipocritamente dizemos e nos contos de fadas e princesas encantadas… Sinto muito por ela…

(Faz-me lembrar – com a distância de anos-luz e com a dimensão da mais ínfima paramécia perante a grandeza de uma Presidente eleita de um país com o tamanho e a população do Brasil – como também tive de me submeter a uma entrevista realizada por um encarregado de educação novato, pequenote e com tiques de patrão, também ele "comprado" por quem quis impedir-me (e conseguiu, apesar da enorme distância de currículo que nos afastava!) de continuar a ser presidente lá do meu agrupamento de escolas. Uma entrevista a que respondi com todo o brio profissional de anos e com um «saber de experiência feito» em que o pequenote simulava fechar os olhos com sono enquanto eu falava… Nunca me senti tão humilhada na minha vida.)

O impedimento de uma Presidente eleita sem qualquer acusação jurídica formada e que dá «o peito às balas”, para ser substituída por gente com processos de corrupção pronunciados é a maior das humilhações pessoais, públicas, políticas … Sinto muito! Sinto muito pela Presidente eleita. Sinto muito pelo Brasil!



quarta-feira, 25 de novembro de 2015

25 de Novembro de 1975

Passam hoje 40 anos sobre esse dia.

O General Ramalho Eanes, que foi o discreto herói do 25 de Novembro, afirmou hoje que "O 25 de Novembro foi um momento fraturante e eu entendo que não devemos comemorar, os momentos fraturantes não se comemoram, recordam-se e recordam-se apenas para refletir sobre eles.»

Nesse tempo andava eu ocupada por de mais com a nossa primogénita bebezinha e com uma carreira profissional também a começar numa cidade que não era a minha, pelo que pouco sei para refletir sobre essa data marcante da História da nossa recém-nascida Democracia. Assim, resolvi lançar mão de quem escreveu sobre esse(s) dia(s) nos próprios dias.

Vergílio Ferreira, na entrada de 26 de Novembro de 75 do seu diário «Conta-Corrente 1», escrevia no seu estilo seco:

«Na madrugada de ontem, sublevaram-se os pára-quedistas, que ocuparam várias bases. Reacção dos militares «fiéis». Declarado o estado de sítio. Confrontos. Tiros. Alguns mortos, para começar a haver revolução. Mas tudo isto é quase abstracto, porque nada vimos. Só a rádio não há jornais. Consta que o Otelo está preso. Presos outros, menores. Um momento de esperança de que a democracia triunfe. Entretanto a vida continua. (…)

27-Novembro (quinta). Ontem foi declarado o estado de sítio em Lisboa. Houve mortos num confronto de militares, hoje, aviões em esquadrilha sobre a cidade.

29-Novembro (sábado). Notícias da rádio dizem que terminou a resistência dos pára-quedistas de Tancos. Presos três oficiais e seis sargentos. A rádio transmite «folclore» português, dizendo com alegria que há muito não era transmitido. Limpeza geral nas redacções e administrações de jornais estatizados. Iremos enfim respirar? (…)

2-Dezembro (terça). Terminou o estado de sítio, no fundo, não se acreditou sequer que tivéssemos estado ameaçados. A nossa «brandura de costumes» é a nossa superficialidade de ser. A nossa infância prolonga-se até muito tarde e tudo assim nos é um jogo infantil. Simplesmente, com oitocentos anos de História, a nossa infância é a infância da velhice. O mais difícil sempre para nós é assumirmos gravemente o que somos. Assim o que nos perde (ou nos salva) é a nossa inconsciência.»

(in conta-corrente 1; Livraria Bertrand, Lisboa, 1982, pp 294-5)





Entretanto Natália Correia, no seu estilo emotivo, romântico, quase épico, escrevia em 25 de Novembro de 1975:

«Finalmente! Cessa o rodar de suspeita em suspeita, de ansiedade em ansiedade.  (…) Estávamos fartos de granadas fantasmas a rebentar-nos dentro do crânio.

É, por enquanto, inapreensível a dimensão do rebentar do fogo. Mas o que já se sabe torna inequívoco que o país está à beira de servir o sangue a uma guerra civil.

Os «páras» insurrectos que em Tancos levaram os oficiais moderados a abandonar a unidade num acto de protesto contra a subversão da hierarquia destituíram o chefe do seu Estado-Maior. Tancos, Monte Real, Ota e Montijo, assaltadas durante a noite, estão dominadas pelo braço armado do poder popular. (…) Vasco Lourenço acaba de ser nomeado comandante da Região Militar da Lisboa, apeando com o coração desfeito o parasita da sua afeição. (…) O Ralis (…) põe à porta do quartel o seu aparato bélico. Elementos dos Copcon ocupam a Emissora Nacional e o Rádio Clube Português. A EPAM apossa-se dos estúdios da RTP. No ecrã surge o emblema do poder popular enfeitando as bravatas de um vaqueiro western populista – o capitão Durand Clemente.  (…) A Frente Militar Unida, na qual o «grupo dos nove» é uma peça destacada de entre centenas de oficiais, acelera as suas reuniões clandestinas. (…) Otelo esbraveja contra o VI Governo, vetando publicamente a nomeação de Vasco Lourenço. Por largas horas o país dividido ao meio. Corta-o o levantamento de pequenos e médios agricultores concentrados em Rio Maior. (…) De facto esse esquiço da divisão do país em dois corresponde a um esquema de que tomei conhecimento na reunião de Cascais: no caso de se perder Lisboa e de resultar infrutífera a «selagem» da cintura da cidade por Cascais e Sintra, recuar para o paralelo entre Mafra e Santarém, para onde avançarão tropas vindas do Norte. Este projecto implica naturalmente a transferência do Governo e da Presidência da República para o Porto.

O telefone retine insistentemente. São amigos do Porto e de Coimbra. Pedem-me que saia de Lisboa.

(…) Fico.

O Presidente da República acaba de decretar o estado de emergência na capital.

28 de Novembro de 1975

À meia-noite uma última badalada varre os ruídos da cidade. O estado de emergência não foi considerado suficiente para a gravidade da situação militar e o estado de sítio passa a vigorar na Região Militar de Lisboa.

O silêncio exaspera. Estamos sem jornais. Lacónicos comunicados informam espaçadamente a nossa ansiedade. O mais angustiante é que dessas escassas informações não conseguimos concluir se estamos ou não numa guerra civil.

(…) registo outro nome: Ramalho Eanes. Discretamente – pouco se fala dele – este Major é o coordenador do auge das operações contra golpistas que desde Agosto, pelo menos, têm, na clandestinidade, encontrando nele um firme atirador.

(…) Enfim: espremido o limão verde do 25 de Novembro resta-me a convicção de que o fogaréu revolucionário está a passar a cinzas. Estão criadas as condições para que a revolução recolha a penates e se institucionalize a democracia.»

(in «não percas e rosa», Editorial Notícias, Lisboa, 1978, pp 349-360)


quinta-feira, 10 de abril de 2014

Baixo nível II

Com esta idade toda ainda me deixo espantar perante manifestações de falta de verticalidade e de coerência na atuação (coluna vertebral, diz-se) por parte de pessoas que acreditamos pertencer a um determinado nível sociocultural, de formação e detentores de graus académicos de prestígio.

Não consigo aceitar gente com falta de escrúpulos, para quem vale tudo para atingir os seus intentos, que enganam, ludibriam, cometem ilegalidades e, mais que tudo, as mentiras com que pretendem enganar quem os conhece bem – não tanto pela mentira em si que essa, dizem, tem perna curta, mas mais pela ofensa que fazem à nossa inteligência.

Mas que digo eu? Como posso encrespar-me contra comportamentos destes por parte de pessoas (mais não posso nem devo alargar-me sobre quem falo) que se movem numa esfera “cá de  baixo”, quando a segunda figura do país – a “nobre” barata-loura com fatinhos e passinhos à Charlot, que preside (sabe Deus como certa gente ascende onde ascende) à Assembleia da República  – se comporta como um verdadeiro galináceo perante os jornalistas que apenas pretendem desempenhar a sua função e, não contente com isso, responde não informalmente – o que já seria mau atendendo ao alto cargo que desempenha – mas de forma altiva e deseducada, boçal mesmo aos Homens que permitiram que ela própria e os apaniguados dos partidos que a escolheram possam ter ascendido aonde ascenderam – à Casa da Democracia.

Costumo dizer que temos 100 anos de atraso em relação às restantes democracias ocidentais em termos de cidadania, de justeza, de noção de igualdade, de legalidade, de noção de direitos e deveres, de representatividade e sei lá o que mais.

Mas em termos de comportamento vivencial, temos mais de trezentos anos de atraso: são os 300 anos de “santa” Inquisição mais 48 de ditadura que fizeram de nós um povo acorrentado aos grilhões da ignorância, da ruralidade, da incultura, da superstição, da mordaça clerical imposta.

E para submergirmos de todo esse lodo, desse lamaçal, desse nevoeiro, desse sebastianismo pacóvio que nos atiraram para cima, não chegam 40 anos!


Os eleitos da triste figura!

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Privatizações



Já todos conhecemos a fúria liberalizadora deste governo e dos seus apaniguados; todos sabemos que com a maioria absoluta com que este povo (altamente manipulado pelas mentiras que, da forma mais calculista, lhe insuflaram nos ouvidos) e este clone de presidente da República os muniu, este governo desnorteado mas democraticamente eleito funciona como uma tirania realizando toda a espécie de dislates sob o manso olhar bovino deste mesmo povo e daquele mesmo presidente. O maior de todos os dislates é o das vendas do país ao desbarato e das privatizações bárbaras. 

O senhor António Borges, um dos muitos mega-boys que o governo contratou a preço de ouro para seu consultor veio a terreiro "mandar a boca" (que o senhor PM ou senhor "doutor" Relvas já nem se dão ao trabalho de anunciar os seus disparates pessoalmente ao povo) que "concessionar a RTP1 a investidores privados é um cenário muito atraente" e que "a RTP2 irá muito provavelmente fechar independentemente do cenário a adotar para o futuro da empresa, dado o seu avultado custo para reduzidas audiências".

Lembram-se bem do que muitos de nós vociferámos quando, há anos, o também tiranete ministro Nuno Morais Sar(n)ento acabou, também por razões economicistas e de poucas audiências, com o excelente programa diário da 2, Acontece, do saudoso jornalista Carlos Pinto Coelho!

Pois agora, acabe-se com o resto! Venda-se! Privatize-se! Para que quer o povo programas culturais se tem tantas novelas, tanto futebol, tantos programas da Júlia Pinheiro e da Fátima Lopes?!

E, já agora, para quando a privatização do CCB (poderia mesmo ser vendida ao mesmo senhor que comprou o Pavilhão Atlântico e ficava tudo em família!)? Para quando a privatização dos Jerónimos ou mesmo do Palácio de Belém?

Apesar de por de mais divulgado e utilizado por muitos e muitos blogs, não resisto a transcrever para aqui o pequeno mas forte texto de Saramago que, melhor que todos nós, consegue exprimir a fúria que muitos de nós sentimos perante todas estas barbaridades a que estamos sujeitos por "nossa" culpa.


(Daqui)

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Querem enganar quem?



Ouvi ainda agora num telejornal. A nota de rodapé dizia: «Novas regras para escolha das chefias na Administração Pública». E a imagem mostrava o ministro Gaspar, um bocado atrapalhado, a tropeçar nas palavras enquanto lia um pedaço de um texto que, segundo entendi, dizia que irá haver uma comissão “independente” que avaliará (ou apresentará, não sei bem) os candidatos de entre os quais a entidade competente escolherá o que entender ser melhor. E, logo de seguida, foi introduzido um professor universitário algo sabedor e bem-intencionado que perorou sobre o assunto concluindo que se trata de um enorme avanço na escolha dos dirigentes da Administração Pública porque assim serão escolhidos os melhores. 

 Aí lembrei-me de uma noticiazinha que li há meses que dizia que no Diário da República se publicara um decreto que alterava as regras de recrutamento e designação dos gestores públicos. E que iria ser criada uma Comissão de Recrutamento e Seleção (como terão sido escolhidos os elementos que integraram essa comissão?!...) que teria a responsabilidade de definir os critérios aplicáveis na avaliação dos candidatos, competindo-lhe elaborar os respetivos pareceres sobre cada um deles. Porém… porém… o tal decreto também outorgava que os pareceres da dita Comissão não eram vinculativos para o governo…

 E, professora/gestora de muitos anos, lembrei-me ainda com mais veemência do pior de todos os decretos-lei do ministério de Maria de Lurdes Rodrigues, o 75/2008, que, na altura em que foi posto à discussão pública, não vi ser renegado por nenhum professor tão cegos andavam todos na luta insana contra a avaliação – como se os outros trabalhadores da administração não fossem de igual modo avaliados! Pois foi esse o decreto-lei que previu a enormidade dos mega-agrupamentos, foi esse o decreto-lei que fez renascer a figura (de má memória) do diretor de escola ou agrupamento de escolas. Foi esse decreto-lei que foi deixado passar pelo todo dos professores porque pensaram que o único mal que lhes caía em cima era a avaliação! 

Pois já esse decreto-lei, que juntamente com a Lei conhecida como o Estatuto do Aluno, na época me revolveu as entranhas de tão mau, de tão chegado às políticas ditas de direita, determinava que os candidatos a diretor apresentassem os seus currículos e um projeto de intervenção a aplicar na escola que seriam analisados por uma comissão escolhida pelo Conselho Geral a qual apresentaria de seguida o seu parecer sobre cada uma das análises realizadas. Depois, sem nada que os obrigasse a terem em conta esses pareceres, o dito Conselho Geral elegia por votação secreta (e continua a eleger, que esse DL não foi ainda revogado) o candidato que muito bem entendesse… 

Então para quê a “palhaçada” da “comissão independente” e as análises de currículos e sei lá o que mais, se depois é escolhido o candidato mais conveniente? Deve ser só para brincar aos procedimentos democráticos. Sim porque nós não temos ainda (e duvido que alguma vez cheguemos a ter) a noção de seriedade, de justeza, de caráter, de vivência democrática que têm os dinamarqueses ou os suecos.