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terça-feira, 26 de maio de 2020

Faz cem anos que nasceu Rúben A.

(daqui)


Faz hoje 100 anos que nasceu Ruben A., o mais “secreto” dos grandes autores portugueses. Ruben Alfredo Andresen Leitão nasceu em Lisboa (1920) e morreu em Londres (1975), cidade onde viveu entre 1947 e 1952. (Era primo direito de Sophia de Mello Breyner.)

Aos 7 anos mudou-se de Lisboa para o Porto, ali tendo ficado até aos 19 anos. Quem leu «Os Meninos de Ouro» de Agustina Bessa-Luís reconhece-o numa das personagens da quinta do Campo Alegre. Esse intervalo fora de Lisboa coincide com a licenciatura em Ciências Histórico-Filosóficas, na Universidade de Coimbra.

Em Novembro de 1950, já com obra publicada — contos, monografias históricas, uma bibliografia sobre os Arquivos de Windsor, dois volumes do diário, uma peça de teatro e a biografia de D. Pedro V, rei de quem disse ter sido «o primeiro homem moderno que existiu em Portugal» —, e sendo leitor de português do King’s College de Londres, Salazar foi peremptório: «O Autor não pode representar Portugal nem ensinar português.» Não obstante, «o maluco...» (assim lhe chamava o ditador) manteve-se no lugar, que dependia do Instituto de Alta Cultura. Durante esses anos, Ruben A. divulgou na Universidade de Londres autores como Gil Vicente, os modernistas portugueses e Miguel Torga, ao mesmo tempo que fazia conferências em Oxford e Cambridge. Data dessa época a sua relação com T.S. Eliot, de quem viria a traduzir «The Cocktail Party» (1949, teatro).

De regresso a Lisboa, casou com Rosemary Bach (mãe dos seus quatro filhos) e fez uma passagem fugaz pelo ensino secundário. Entretanto, torna-se funcionário da embaixada do Brasil, onde permanecerá entre 1954 e 1972, ano em que foi para a administração da Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Antes de morrer ainda ocupará o cargo de director-geral dos Assuntos Culturais do ministério da Educação e Cultura.

Embora publicasse desde 1949, ano em que deu à estampa o primeiro dos seis volumes do seu diário — «Páginas» —, o essencial da obra literária arranca com a edição de «Garanguejo» (1954), atingindo o cume com «A Torre de Barbela» (1964) e «Silêncio para 4» (1973). Os três volumes da autobiografia — «O Mundo à Minha Procura» — serão publicados entre 1964 e 1968. Depois da sua morte chegou às livrarias o romance «Kaos» (1981), posfaciado por José Palla e Carmo. A obra de historiador é muito extensa, terminando em 1975: «A Acção Diplomática do Conde de Lavradio em Londres 1851-1855». Além dos títulos aqui citados, Ruben A. publicou outros romances, livros de contos, narrativas de viagem, peças de teatro, volumes de correspondência de D. Pedro V e ensaios de investigação histórica.

A 26 de Setembro de 1975, um ataque de coração fulminante impede-o de ocupar o cargo de Senior Fellow no St Antony’s College, de Oxford. Tinha 55 anos e vivia então com Maria Luísa Távora. Está sepultado em campa rasa no cemitério de Carreço, perto de Viana do Castelo.


(Texto de Eduardo Pitta)

Deixo aqui  um texto deste (des)conhecido autor.

O Amor é Inevitável


(O Amor) É inevitável, faz parte da combustão da natureza, é força, mar, elemento, água, fogo, destruição, é atmosfera, respira-se, quando se morre abandona-se, o amor deixa, fica isolado, é um elemento, come-se, bebe-se, sustenta pão, pão diário para rico e pobre, pão que ilumina o forno do amassador, aparece nas condições mais estranhas, bicho que nasce, copula dentro de si mesmo, paira, espermatozóide e óvulo, as duas coisas ao mesmo tempo, amor é assim outro elemento fundamental da natureza, as pessoas vivem tanto com o amor, ou tão alheias do amor, que nem notam, raro percebem que o amor existe, raro percebem que respiram, que a água está, é indispensável, ninguém pode viver alheio aos elementos, ao amor.

Ruben A., in 'Silêncio para 4'


domingo, 24 de maio de 2020

Maria Velho da Costa




A escritora portuguesa Maria Velho da Costa, Prémio Camões em 2002, morreu ontem, repentinamente, aos 81 anos.

Nascida em Lisboa, em 1938, Maria Velho da Costa faria 82 anos no próximo dia 26 de junho.

Considerada uma das vozes renovadoras da literatura portuguesa desde a década de 1960, Maria Velho da Costa é autora de conto, teatro, mas sobretudo do romance tendo obras como "Maina Mendes" (1969), "Casas Pardas" (1977) e "Myra" (2008).

Maria Velho da Costa foi  ainda uma das coautoras, juntamente com Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno, de "Novas Cartas Portuguesas" (1972), uma obra literária que denunciava a repressão e a censura do regime do Estado Novo, que exaltava a condição feminina e a liberdade de valores para as mulheres, e que valeu às três autoras um processo judicial, suspenso depois da revolução de 25 de Abril de 1974.

As três Marias

Em singela homenagem, deixo aqui o seu emblemático e bem conhecido poema Revolução e Mulheres.


Elas fizeram greves de braços caídos.
Elas brigaram em casa para ir ao sindicato e à junta.
Elas gritaram à vizinha que era fascista.
Elas souberam dizer salário igual e creches e cantinas.
Elas vieram para a rua de encarnado.
Elas foram pedir para ali uma estrada de alcatrão e canos de água.
Elas gritaram muito.
Elas encheram as ruas de cravos.
Elas disseram à mãe e à sogra que isso era dantes.
Elas trouxeram alento e sopa aos quartéis e à rua.
Elas foram para as portas de armas com os filhos ao colo.
Elas ouviram falar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas.
Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra.
Elas choraram de verem o pai a guerrear com o filho.
Elas tiveram medo e foram e não foram.
Elas aprenderam a mexer nos livros de contas e nas alfaias das herdades abandonadas.
Elas dobraram em quatro um papel que levava dentro uma cruzinha laboriosa.
Elas sentaram-se a falar à roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões.
Elas levantaram o braço nas grandes assembleias.
Elas costuraram bandeiras e bordaram a fio amarelo pequenas foices e martelos.
Elas disseram à mãe, segure-me aí os cachopos, senhora, que a gente vai de camioneta a Lisboa dizer-lhes como é.
Elas vieram dos arrabaldes com o fogão à cabeça ocupar uma parte de casa fechada.
Elas estenderam roupa a cantar, com as armas que temos na mão.
Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens.
Elas iam e não sabiam para onde, mas que iam.
Elas acendem o lume.
Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado.
São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas.

(In Cravo, Dom Quixote, 1976) 


sábado, 23 de maio de 2020

Faz hoje 97 anos!

Filósofo, crítico e ensaísta literário associado ao existencialismo, tomou a poesia como fonte preferencial da sua obra. Fernando Pessoa, o Modernismo e Portugal são temas recorrentes nos seus ensaios.

Eduardo Lourenço (de Faria) nasceu em São Pedro de Rio Seco, concelho de Almeida,distrito da Guarda em 23 de maio de 1923.  

Frequentou a Escola Primária na sua terra natal. Depois ingressou no Liceu da Guarda e terminou os seus estudos secundários no Colégio Militar em Lisboa. Frequentou o Curso de Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra que terminou em 1946.

Assume as funções de Professor Assistente nessa Universidade, cargo que desempenha até 1953. Desde então e até 1958 exerce as funções de Leitor de Língua e Cultura Portuguesa nas Universidades de Hamburgo, Heidelberg e Montpellier. 

Nos anos de 1958 e 1959, rege, na qualidade de Professor Convidado, a disciplina de Filosofia na Universidade Federal da Baía (Brasil). Ocupa depois o lugar de Leitor a cargo do Governo francês nas Universidades de Grenoble e de Nice. Nesta última Universidade irá desempenhar posteriormente as funções de Maître-Assistant, cargo que manterá até à sua jubilação no ano letivo de 1988-1989.

Eduardo Lourenço é ainda Doutor Honoris Causa pelas Universidades do Rio de Janeiro (1995), Universidade de Coimbra (1996), Universidade Nova de Lisboa (1998) e Universidade de Bolonha (2006). Desde 2002 exerce as funções de administrador não executivo da Fundação Calouste Gulbenkian.

Para além dos numerosos prémios com que foi agraciado ao longo da sua vida mercê das obras que escreveu sobre literatura, filosofia e sobre a cultura em geral,  em dezembro de 2011, foi-lhe atribuído o Prémio Pessoa. 



Fica ainda aqui um pequeno vídeo com mais informação sobre este brilhante autor que, para além de palavras do próprio, conta com as opiniões e testemunhos de outros estudiosos de nome sobre o nosso homenageado de hoje.





sexta-feira, 1 de maio de 2020

Uma canção de luta!

Agora é uma festa. A festa dos trabalhadores. Celebrado em todo o mundo ocidental. Mas o 1º de Maio foi desde 1886 (em Chicago) um dia de luta. Da luta dos trabalhadores por melhores condições de trabalho.

Foi também neste âmbito que nasceu esta canção de luta - Bella Ciao! - uma canção popular italiana, provavelmente composta no final do século XIX. Na sua origem, teria sido um canto de trabalho das Mondine, trabalhadoras rurais temporárias, em geral provenientes da Emilia Romagna e do Veneto, que se deslocavam sazonalmente para as plantações de arroz da planície Padana. Luta por melhores condições de trabalho.

Mais tarde, a mesma melodia foi a base para uma canção de protesto contra a Primeira Guerra Mundial. Finalmente, a mesma melodia foi usada para a canção que se tornou um símbolo da Resistência italiana contra o Fascismo durante a Segunda Guerra Mundial. 

(in Wikipedia)



Recentemente foi recuperada para genérico da belíssima série espanhola « A Casa de Papel».

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Coro do Orfeão de Leiria

Neste tempo de reclusão forçada e de afastamento compulsivo à conta do tal vírus, o Coro principal do Orfeão de Leiria gravou o vídeo da cantiga medieval - Tourdion - em modo de vídeo conferência, o que eu considero uma experiência quase impossível.  (Se bem que nos tempos atuais quase não haja impossíveis...)

E porque está um trabalho tão bem conseguido e porque alguns dos/das coristas são meus amigos e meus conhecidos, não pude deixar de o trazer aqui.

São só três minutos e é tão bonito! Se puderem, vejam, oiçam... É um brinde à Vida!




«Quand je bois du vin clairet
Amis tout tourne, tourne, tourne, tourne
Aussi désormais je bois
Anjou ou Arbois

Chantons et buvons
À ce flacon faisons la guerre
Chantons et buvons
Mes amis
Buvons donc

Hey, der gute, kühle Wein
Macht alles kunterkunterbunt sich drehen
Holt die Gläser schenket ein
Anjou und Arbois…»



domingo, 29 de março de 2020

Morreu Mécia de Sena (1920-2020)

Foto de Mécia, por Fernando Lemos (1949).
Na Califórnia, onde vivia, morreu,ontem, dia 28, Mécia de Sena (1920-2020), viúva de Jorge de Sena e mãe dos seus nove filhos.


Organizadora incansável (e rigorosa) da obra do marido, Mécia de Sena era irmã do crítico literário e historiador da literatura Óscar Lopes.

Mécia tinha feito cem anos no passado dia 16.

(do blog do escritor Eduardo Pitta)


O Diário de Notícias desenvolve a notícia, dando relevo à sua extraordinária obra, que passou essencialmente por organizar, tratar e fazer publicar a imensa obra de seu marido, o escritor Jorge de Sena.

(Para ler mais: https://www.dn.pt/cultura/morreu-mecia-de-sena-escritora-e-guardia-do-para-sempre-que-a-ligou-a-jorge-de-sena-12001038.html    )


Jorge de Sena e Mécia de Sena em Londres

https://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/15504.pdf

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Pessoa nasceu num 13 de Junho

Foi no dia 13 de junho de 1888 que, no Largo de São Carlos em Lisboa, nasceu o poeta Fernando Pessoa Há precisamente 131 anos.




Não obstante o seu valor poético e inovador de enorme figura das Letras da primeira metade do século XX, não viveu uma vida feliz. 

A angústia existencial, a nostalgia de outros tempos mais felizes, a dor que lhe causava o seu pensar multifacetado estão patentes em muitos dos seus poemas enquanto Pessoa  pessoa, como em Álvaro de Campos, o seu alter-ego, como em Bernardo Soares, o seu semi heterónimo.

E porque o momento, por cá, também não é dos mais felizes, a minha homenagem deste ano ao grande poeta de Orpheu, fica-se por aqui:


Desperto de sonhar-te

Desperto de sonhar-te
Quando inda a noite é funda,
E um céu estelar faz parte
Do silêncio que inunda.
Perdi poder amar-te
E a treva me circunda.

Talvez que relembrasse,
Sonhando-te, outro ser,
E aquilo que sonhasse
Fosse tornar a ter.
Mas despertei, e faz-se
Claro em meu quarto a ver.

Insónia de perder-te!
Quem foste já não sei.
Pela janela verte
Cada astro a sua lei.
Como, sem sonhar ter-te?...
Porque não dormirei?

(1932)

Fernando Pessoa, in  Pessoa Inédito (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Agustina (1922 - 2019)


Infelizmente morta há anos de mais para a escrita, a imensa escritora Agustina Bessa-Luís deixou-nos hoje fisicamente, aos 96 anos.

Figura controversa desde sempre, sobre ela escrevia Sophia de Mello Breyner na sua correspondência com Jorge de Sena:

[Paris, Março de 1961]

(…) Fui para Florença com a Agustina Bessa-Luís que era a delegada portuguesa [ao Congresso COMES – Comissão Europeia de Escritores] (…) Vim para Lisboa pensando que se tratava dum congresso apenas literário. Vim encontrar um congresso político, praticamente exclusivamente político, anti-fascista. (…) O Congresso era anti-fascista – coisa com que concordo, mas os métodos usados foram fascistas, mal-educados e policiais. (…)

 Criaram à volta de Agustina um clima de suspeição e inquisição. E isto foi-me dito por uma pessoa de direita e de carácter: Disseram-me que eu a devia abandonar pois o facto de eu andar com ela me comprometeria. Como você sabe, eu não sou capaz de abandonar nenhuma pessoa que está só e que é injustamente acusada e perseguida na sua liberdade. (…)

Quanto à atitude política de Agustina penso poder garantir que ela não é nem salazarista nem fascista. Considera o nosso governo criminoso mas considera também inoportuno afirmá-lo no estrangeiro. Pensa também que a COMES deve defender a liberdade do escritor mas sem espírito partidário.

A minha atitude política é diferente da de Agustina, como você sabe, mas penso que a atitude dela deve ser respeitada porque acredito na liberdade. Acho que não se pode criar em nome do anti-fascismo um novo fascismo. (…)

Hoje no caminho em Montpellier fomos abordados por um jornalista espanhol que nos fez um interrogatório habilíssimo e cerrado ora dizendo bem do Salazar e do Franco, ora dizendo mal – foi muito estranho. Admirei a extrema inteligência com que a Agustina conseguiu não responder a nada. Fiquei com a impressão que éramos seguidos. Tenho quase medo de que não me deixem entrar em Portugal. (…)
……………………………

Esquecida da coterie literária depois da Revolução pelas suas escolhas políticas encostadas à chamada direita, tem visto ultimamente a sua imensa obra literária reeditada. 

De referir ainda a completíssima biografia da romancista modernista e neo-romântica (como diz Eduardo Lourenço) «O Poço e a Estrada» da autoria da escritora Isabel Rio Novo.


Agustina, Sophia e Eugénio de Andrade (1958)

sexta-feira, 8 de março de 2019

Mulher


A Luz que Vem das Pedras

A luz que vem das pedras, do íntimo da pedra,
tu a colhes, mulher, a distribuis
tão generosa e à janela do mundo.
O sal do mar percorre a tua língua;
não são de mais em ti as coisas mais.
Melhor que tudo, o voo dos insectos,
o ritmo nocturno do girar dos bichos,
a chave do momento em que começa o canto
da ave ou da cigarra
— a mão que tal comanda no mesmo gesto fere
a corda do que em ti faz acordar
os olhos densos de cada dia um só.
Quem está salvando nesta respiração
boca a boca real com o universo?

Pedro Tamen, in "Agora, Estar"



A Vénus de Botticelli


sábado, 23 de fevereiro de 2019

José Afonso (1929 -1987)

Faz já 32 anos que tão cedo partiu. Tinha apenas 57 anos. Vale bem a pena recordá-lo pela voz, pelas músicas que compôs, pelas letras que escreveu e que musicou, pela luta que empreendeu ao longo da vida!





quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

«Tenho uma saudade braba»


Passam já 41 anos (fez ontem) sobre a partida do grande senhor da Letras e da Língua e Cultura Portuguesas, meu querido Professor, Vitorino Nemésio. 

Não esqueço nunca a sua erudição, a sua imensa sabedoria, a sua terna sensibilidade nas aulas e nas provas orais a que tínhamos de nos sujeitar obrigatoriamente...

Deixo aqui a minha «saudade braba» do professor e desses tempos de juventude.


Tenho uma saudade tão braba
Da ilha onde já não moro,
Que em velho só bebo a baba
Do pouco pranto que choro.

Os meus parentes, com dó,
Bem que me querem levar,
Mas talvez que nem meu pó
Mereça a Deus lá ficar.

Enfim, só Nosso Senhor
Há-de decidir se posso
Morrer lá com esta dor,
A meio de um Padre Nosso.

Quando se diz «Seja feita»
Eu sentirei na garganta
A mão da Morte, direita
A este peito, que ainda canta.

Vitorino Nemésio, in "Caderno de Caligraphia e outros Poemas a Marga"



Obra de V. Nemésio
(foto de Adélio Amaro)

domingo, 11 de novembro de 2018

Dia da Papoila

No dia do centenário do Armistício da Grande Guerra, volto a trazer aqui o poema que o soldado canadiano John Mcrae escreveu em plena guerra., pouco antes de ser morto.


IN FLANDERS FIELDS

In Flanders fields the poppies blow
Between the crosses, row on row,
That mark our place; and in the sky
The larks, still bravely singing, fly
Scarce heard amid the guns below.

We are the Dead. Short days ago
We lived, felt dawn, saw sunset glow,
Loved, and were loved, and now we lie
In Flanders fields.

Take up our quarrel with the foe:
To you from failing hands we throw
The torch; be yours to hold it high.
If ye break faith with us who die
We shall not sleep, though poppies grow
In Flanders fields.


(John Mcrae, em 3 de maio de 1915)
NOS CAMPOS DA FLANDRES

Nos campos da Flandres
as papoilas florescem entre as cruzes
que em fileiras e mais fileiras assinalam
nosso lugar; no céu as cotovias voam
e continuam a cantar heroicamente,
e mal se ouve o seu canto entre os tiros cá em baixo.

Somos os mortos... Ainda há poucos dias, vivos,
ah! nós amávamos, nós éramos amados;
sentíamos a aurora e víamos o poente
a rebrilhar, e agora eis-nos todos deitados
nos campos da Flandres.

Continuai a lutar contra o nosso inimigo;
 a nossa mão vacilante atira-vos o archote:
mantende-o no alto. Que, se a nossa fé trairdes,
nós, que morremos, não poderemos dormir,
ainda mesmo que floresçam as papoilas
nos campos da Flandres.





terça-feira, 6 de novembro de 2018

No aniversário de Sophia



Nascida no Porto em 6 de novembro de 1919, faria hoje 99 anos a voz helénica que sempre se elevava contra todas as injustiças do seu tempo.

Aqui fica um dos seus poemas sempre belos e atuais.

Com Fúria e Raiva

Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada

De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse

Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"

sábado, 6 de outubro de 2018

Montserrat Caballé (1933 - 2018)




Morreu a Diva!

Duas vozes extraordinárias
que, infelizmente, não se encontram já 
entre nós...



sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Lobo Antunes na Pléiade

Fiquei feliz quando, esta manhã, ouvi a notícia de que António Lobo Antunes – o nosso melhor escritor vivo (digo eu) – vai ter a sua obra editada pela Biblioteca Pléiade incluída na coleção que desde 1931 reúne a obra de uma selecionada lista de grandes autores mundiais.

De referir que o único autor português que até hoje teve a sua obra publicada por aquela Biblioteca de referência foi o poeta Fernando Pessoa, em 2001.

O escritor afirma que este “é o maior reconhecimento que algum escritor pode ter". A escolha da Pléiade é dedicada pelo escritor "aos meus amigos, aos meus leitores e ao meu irmão José Cardoso Pires, que esteja onde estiver estará muito feliz". (daqui)




Parabéns ao escolhido pelo seu talento, pela sua entrega, pelo seu valor!

E para falar de Lobo Antunes, chamo aqui o poeta Manuel Alegre que escreveu assim:

«António Lobo Antunes é um dos que sabe, como o poeta René Char, que certas guerras não acabam nunca. Devemos-lhe as páginas que sobre ela escreveu. Mas devemos-lhe sobretudo a revolução literária em que ele trouxe para a escrita a continuação, as consequências, o rasto e o rosto dessa guerra cá dentro. Está nas docas, nos contentores. E nas personagens que trazem dos arrabaldes para o centro uma fala nova. cada uma delas é à sua maneira o regresso das caravelas. Não só os que partiram, mas os que nunca mais terão oportunidade de o fazer.

Do Esplendor de Portugal ao Manual dos Inquisidores ou ao Sôbolos Rios Que Vão às vezes eu não sei se é o António que escreve ou um coro que fala por ele naquela estranha forma de partitura em que se vão transformando os seus romances. Como uma sinfonia de muitas vozes. Dizem alguns que não há história. São os que não percebem que pela pena do António todas as vozes estão a contar a nossa História, ainda que por vezes pareça uma história dos subúrbios que são afinal os arredores da História. Sinais, ecos, rastos de um império e de uma guerra que acabou e não acaba. Se repararmos bem, nós estamos nessas frases, somos essa paródia, falamos nessas falas. E somos esse texto.»

Manuel Alegre, in “Uma outra memória”, 2016



quinta-feira, 16 de agosto de 2018

In memoriam

Não me canso de repetir a frase que li de um amigo meu: «O século XX está a deixar-nos.»

E de lágrimas nos olhos.

Hoje foi a vez da cantora soul Aretha Franklin (1944-2018)

Resta-nos recordar a sua atribulada vida (aqui)

E dizer uma pequenina oração com ela, por ela e para ela.

Descansa em paz!




quarta-feira, 23 de maio de 2018

Parabéns, Professor Eduardo Lourenço!




O Professor Eduardo Lourenço, grande pensador, filósofo, ensaísta, conhecedor da cultura e da literatura portuguesas, figura ímpar da cultura portuguesa e europeia, completa hoje 95 anos.

Como “prenda de aniversário”, a produtora Longshot resolveu convidar o realizador Miguel Gonçalves Mendes «para dirigir uma equipa de exigência cinematográfica que, num ambiente de extraordinária beleza (Bussaco) pudesse captar a essência do extraordinário pensamento do ‘ator de si próprio’, Eduardo Lourenço.»

O “Labirinto da Saudade”, adaptação da obra homónima, é um ensaio documental narrado pelo próprio Eduardo Lourenço que percorre os espaços da sua memória e da própria história e identidade portuguesa, em busca da resposta do que é, afinal, isto de se ser português.

Manuel Halpern, o conhecido crítico de cinema, diz o seguinte acerca do filme: «Lídia Jorge faz de telefonista, Siza Vieira de barman, José Carlos de Vasconcelos de amigo. Em O Labirinto da Saudade, cada um desempenha o seu papel. E estes são apenas alguns exemplos. Porque neste inesperado elenco de atores de ocasião também fazem parte Ramalho Eanes, Jorge Sampaio, Pilar del Rio, Gonçalo M. Tavares, Ricardo Araújo Pereira, Gregório Duvivier, entre outros. O próprio Eduardo Lourenço vagueia por aquele mundo onírico, que funciona como uma viagem dentro da sua própria cabeça.» (…)

Acerca do filme, o homenageado, na sua imensa simplicidade, disse: «Nunca imaginei na minha vida ser ator de mim próprio. Obrigado, Miguel. Isto foi uma das grandes surpresas da minha vida, tudo isto. Que não sei bem o que é: uma espécie de ficção – uma ficção encantatória – diria, para me dar algum releve antes de me ir embora. Ou uma espécie de requiem.» (…) «Tudo foi uma ventura. Uma aventura sobretudo para uma pessoa, como eu, que nunca procurou a ribalta nem gota dela.»

O filme vai passar em antestreia hoje, dia 23, pelas 21 horas na RTP1. Não percamos!

https://www.comunidadeculturaearte.com/o-labirinto-da-saudade-documentario-sobre-eduardo-lourenco-estreia-na-rtp1/


segunda-feira, 16 de abril de 2018

Que me dizem de vozes como estas?

No dia em que mundialmente se celebra a Voz, a minha escolha recai sobre duas vozes sensacionais, absolutamente poderosas que, infelizmente, não poderemos mais ouvir ao vivo. 

Aqui fica a minha homenagem póstuma e o meu agradecimento por terem existido e terem assim cantado.







quarta-feira, 21 de março de 2018

Viva a Poesia!

Para saudar a Poesia, já que hoje é o dia dela, deixo aqui um belo poema do saudoso Manuel António Pina, que assim a define:

Poesia, saudade da prosa;
escrevia "tu", escrevia "rosa";
mas nada me pertencia,

nem o mundo lá fora
nem a memória,
o que ignorava o que sabia.

E se regressava
pelo mesmo caminho
não encontrava

senão palavras
e lugares vazios:
símbolos, metáforas,

o rio não era rio
nem corria e a própria morte
era um problema de estilo.

Onde é que eu já lera
o que sentia, até a
minha alheia melancolia?




sexta-feira, 9 de março de 2018

Ontem não deu, mas hoje...

Ontem não deu porque a filha foi «de charola» ter o seu segundo bebé - nosso quarto neto. (Maravilha!)

Mas hoje venho aqui deixar o meu sentir pela condição da Mulher nas lindas palavras de Adélia Prado.

Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

( Adélia Prado )
do livro Bagagem. São Paulo: Siciliano, 1993)