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quinta-feira, 27 de junho de 2019

Este país é um ESPANTO!!!

Quem não se lembra daquele excelente programa de televisão do Jô Soares «O Planeta dos Homens» aí pelos anos 70/80! E de tantas expressões que ficaram no nosso ouvido e que ainda hoje repetimos - «perguntar não ofende, oh triqui- triqui», o «tem pai que é cego!», ou o «casa, descasa, casa, descasa», ou ainda o «cale essa boca, sua múmia paralítica!»




Hoje e aqui, lembro a expressividade e o pasmo com que o Jô Soares dizia «Isto é um ESPANTO! Um ESPANTO!

Assim estou eu, PASMADA com este nosso país que é um ESPANTO!

Eu passo a explicar e espero que não pensem mal de mim… Nos quase 48 anos que estivemos casados, eu e o meu marido tivemos contas bancárias separadas. Aliás, apesar da enorme cumplicidade que sempre existiu entre nós e com as filhas – tudo sempre foi falado e discutido à frente delas à mesa do jantar – havia uma enorme liberdade de vida, d vida social, profissional, até cultural – tudo enfim! – e foi assim que nos demos bem. Muito bem!

Ora com a sua morte algo inesperada – por tão breve ter acontecido – desconhecia por completo que deveria fazer um determinado pagamento nesse mês. Assim, deixei passar a data limite e só depois o banco me avisou da minha falta. Não chegou a uma semana a falha do pagamento que fiz assim que me informaram. Aconteceu isto no mês de abril.

Para grande espanto meu e até algum constrangimento, há umas duas ou três semanas fui para pagar, como habitualmente, as minhas compras semanais no Continente, do qual possuo o chamado e muito anunciado Cartão Universo que é um cartão de registo de descontos das compras e, ao mesmo tempo, funciona como cartão de crédito – faço as compras semanais e pago no fim de cada mês. Há anos que assim é – fui para pagar com o dito cartão, dizia eu, e a máquina diz, sem apelo nem agravo: «o seu crédito está temporariamente bloqueado. Contacte o número tal e tal…»

Assim fiz. Falei com uma senhora de um qualquer call centre a quem disse que nunca tinha falhado qualquer pagamento nem sequer alguma vez tinha alcançado o plafond do cartão. Depois de consultar o meu registo, disse-me amavelmente que não tinha nenhuma dívida com eles, mas tinha falhado um pagamento num outro organismo e até me disse o montante exato do dito.

Fiquei sobre brasas, como devem calcular e dirigi-me ao “simpático” banco onde o chamado “gestor da conta” me esclareceu que assim que há uma falha de qualquer pagamento, eles (uns queridos!)  avisam não sei que entidade nacional que, de imediato, passa a notícia a todos os bancos. Mas que não me preocupasse porque isso rapidamente se trataria. Seria uma questão de dias.

Só que, em finais de junho, o meu cartão Universo continua bloqueado. De novo me dirigi ao “simpático” banco e queixei-me alto e bom som que estava a ser tratada por eles como a maior das caloteiras do país. E perguntei se fazem o mesmo a um Berardo, ou a um Dias Loureiro, ou a um Duarte Lima! A funcionária “amavelmente” respondeu que esses senhores não eram clientes deles e, receosa de que eu me comportasse mal, passou-me ao dito “gestor de conta”. Este consultou o computador, fez uns tantos telefonemas e voltou a dizer-me que a situação se resolveria em alguns dias.  Só que me anda a falar em “alguns dias” desde abril…

Dá para entenderem a minha fúria?! Porque é que o Berardo – que esse sim, é um caloteiro de papel passado – e outros, enfim, não têm os seus cartões bloqueados?!

E eu que sempre fui cumpridora e certinha em tudo, sinto-me ... sei lá... enxovalhada - ou pior!

 Não me digam que este país não é um ESPANTO!!!!     




segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

O cúmulo do ridículo

Depois do humilhante beija-mão ao «irmão» (dele, decerto) Bolsonaro...




«O Presidente da República entrou em direto por telefone na estreia do programa de Cristina Ferreira na SIC para lhe desejar felicidades, apanhando a apresentadora – e os telespectadores – completamente de surpresa. Fê-lo, disse ao PÚBLICO fonte de Belém, porque quis estabelecer alguma igualdade com o concorrente direto, o programa da TVI apresentado por Manuel Luís Goucha, a quem tinha concedido uma entrevista na véspera de Natal.»

Reflitamos sobre o que pretende o senhor presidente com este estonteante vai-vem que o obriga a «ir a todas»... Foi o mesmo presidente que, na Mensagem de Ano Novo, avisou sobre os riscos da demagogia e do populismo.


quarta-feira, 7 de março de 2018

Ano Europeu do Património Cultural

Por proposta da Comissão Europeia aceite pelo Parlamento Europeu, o ano de 2018 foi declarado Ano Europeu do Património Cultural. O AEPC 2018 «é enquadrado pelos grandes objetivos da promoção da diversidade cultural, do diálogo intercultural e da coesão social, visando chamar a atenção para o papel do património no desenvolvimento social e económico e nas relações externas da União Europeia.»

Ao abrir oficialmente este Ano Europeu, o comissário europeu para a Educação e Cultura que «não estamos apenas a falar de literatura, arte, objetos, mas também de competências aprendidas, de histórias contadas, de alimentos que consumimos e de filmes que vemos.»

A propósito, o Professor Guilherme de Oliveira Martins, Coordenador Nacional do AEPC 2018, escreveu que «precisamos de preservar e apreciar o nosso património, como realidade dinâmica, para as gerações futuras. Compreender o passado, cultivá-lo, permite-nos preparar o futuro.» (…) «Procuramos, assim, sensibilizar a sociedade e os cidadãos para a importância social e económica da cultura - com o objetivo de atingir um público tão vasto quanto possível, não numa lógica de espetáculo ou de superficialidade, mas ligando a aprendizagem da História e o rigor no uso e na defesa das línguas, articulando educação e ciência, numa perspetiva humanista, aberta e exigente.» (…) «O conceito moderno de património cultural, definido na Convenção de Faro do Conselho da Europa de 2005, valoriza a memória e considera-a fator de cidadania, de dignidade e de democracia - eis o que está em causa.»

A RTP2 – “culta e adulta” como eles gostam de dizer – apresentou ontem, integrada no jornal das nove, uma longa reportagem ligada ao património com centro na belíssima Torre dos Clérigos, passando à respetiva Igreja e à Casa da Irmandade e falando largamente do seu arquiteto, Nicolau Nasoni (1691-1773), um toscano fixado em Portugal, no Porto mais propriamente, onde casou e realizou vários trabalhos de arquitetura e de pintura, acabando por ser sepultado na cripta da Igreja dos Clérigos.

Sobre este artista italiano chamado para proceder a melhoramentos na Sé do Porto, escreveu o Cabido da Sé o seguinte:

«Para se fazerem logo com perfeição e acerto todas as obras, e se evitar o perigo de se desmancharem e fazerem 2ª vez por falta de preverem os erros, vieram não só de Lisboa, mas de outros reynos, arquitectos e mestres peritos nas artes a que erão respectivas as obras. Veyo Niculau Nazoni arquitecto, e pintor florentino exercitado em Roma, donde foi chamado a Malta para pintar o pallacio do Grão M(estre)…» (in Wikipedia)

(Deixo aqui algumas fotografias retirada da Wikipedia que ilustram um pouco o excelente património mostrado no programa que refiro acima.)


(Conjunto dos Clérigos)





(Interior da Igreja)

(Capela-Mor)

(Retábulo de Nº Sº da Assunção)

(Urna do Santíssimo Sacramento)

(Órgão da Igreja)

(Cadeiral da Igreja)

(Edifício da Irmandade, grande mesa de reunião dos mesários)

(Vista do Porto da Torre dos Clérigos)


sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Século XXI



A propósito do excelente programa documental  «2077 - 10 Segundos para o Futuro» que a RTP1 tem passado à terças-feiras, lembrei-me do poema «Século XXI» de Fernando Pinto do Amaral.


Falam de tudo como se a razão
lhes ensinasse desesperadamente
a mentir, a lançar
sem remorso nem asco um novo isco
à espera que alguém morda
e acredite nessa liturgia
cujos deuses são fáceis de adorar
e obedecem às leis do mercado.

Falam desse ludíbrio a que chamam
o futuro
como se ele existisse
e as suas palavras ecoam
em flatulentas frases
sempre a favor do vento que as agita
ao ritmo dos sorrisos ou das entrevistas
em que tudo se vende
por um preço acessível: emoções
&sexo&fama&outros prometidos
paraísos terrestres em horário nobre
- material reciclável
alimentando o altar do esquecimento.

O poder não existe, como sabes
demasiado bem-apenas uma
inútil recidiva biológica
de hormonas apressadas que procuram
ser fiéis ao comércio
dos sonhos sempre iguais, reproduzindo
sedutoras metástases do nada
nos códigos de barras ou nos cromossomas
de quem já pouco espera dos seus genes.


Fernando Pinto do Amaral
(in Luz da Madrugada)

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

O massacre diário das televisões

Para que fique bem claro e não restem quaisquer dúvidas, devo aqui afirmar perentoriamente que sinto a maior compaixão pelas tragédias florestais que se abateram sobre o país este terrível verão alongado.

O que não dá para suportar é o massacre diário e de hora a hora que tem vindo a ser feito pelas televisões e pela comunicação social em geral sobre nós. E não se pense que o seu objetivo seja o de mostrar a sua comiseração pelas perdas das pessoas, dos animais e do património, mas antes vincar, por um lado, as falhas que levaram aos acontecimentos trágicos – da responsabilidade do governo e, por outro, repisar as tiradas mais contundentes do omnipresente presidente da República e dar a máxima cobertura aos representantes principais dos partidos da oposição, nomeadamente à D. Assunção Cristas que, branqueada agora pelos votos que conseguiu sacar ao PSD em Lisboa, aparece sempre cheia de razão, passando uma esponja de esquecimento sobre a sua desastrosa conduta no anterior governo.

Confesso que fiquei de boca aberta quando, na véspera da apresentação da moção de censura ao governo pelo CDS, uma daquelas meninas jornalistas que agora brotam nas estações de televisão perguntou a Passos Coelho se iria votar a favor da moção e a sua resposta, naquele ar chasqueado que ele sabe colar na cara, respondeu: «Claro! Eu sinto-me envergonhado com o que aconteceu no país!» - Como se nada tivesse a ver com ele!

E depois leio que o PSD e CDS-PP, entre 2011 e 2015, cortaram mais de 20 milhões na defesa da floresta!

O orçamento de despesa do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) responsável pela gestão do património florestal do Estado e das áreas protegidas caiu mais de 25%, passando de mais de 82 milhões de euros para pouco mais de 61 milhões.

A fusão da Autoridade Florestal Nacional e do Instituto de Conservação da Natureza e da Biodiversidade em 2012 resultou num corte de 10 milhões de euros no seu financiamento, logo no primeiro ano completo do governo do PSD e do CDS-PP.

Até à derrota eleitoral de 2015, o orçamento do ICNF foi sofrendo cortes sucessivos, perdendo outros 10 milhões de euros até ao final da legislatura. O orçamento para investimento foi o que mais sofreu a partir de 2013: nesse ano passa de 9 para 3 milhões de euros; em 2014 é praticamente obliterado, passando para 500 mil euros.

Para que melhor entendermos como a área da proteção da natureza era assaz importante para aqueles governantes, devemos recordar que, em 2011, o anterior governo retirou a isenção de taxas moderadoras aos bombeiros. Era ministro da Administração Interna Miguel Macedo (PSD) e secretário de Estado Filipe Lobo D’Ávila (CDS-PP).

Agora «sacodem a água» de cada um dos seus capotes e são os que mais vêm a terreiro apresentar razões, apontar os dedos e dar palpites acertados – com o doce beneplácito do presidente da República e o constante estrondo das televisões.

Mas a esses ninguém pede para apresentar desculpas pelo sucedido…




segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Do telejornal das 8

A notícia tinha a ver com os incendiários que foram apanhados este Verão – alguns deles “repetentes”. Contavam-se pelos sessenta e tal homens e treze mulheres. E aí o apresentador/jornalista tratou de falar no psicólogo da PJ. Não consegui ouvir o que o psicólogo terá feito ou irá fazer porque me pus, ato contínuo, a vociferar!

Psicólogo, psicólogo! Eu lhes dava o psicólogo! E desculpem-me a violência ou a ausência do “politicamente correto”, mas por causa de tanto psicólogo e de tanta lei a proteger os direitos de não sei quem…  e mais não sei o quê e mais os paninhos quentes com que nos habituaram (por medo, por ignorância ou por incúria até) a tratar os prevaricadores é que chegamos aos limites ou muitos para lá dos limites do humanamente e do socialmente aceitável. No caso dos incêndios e não só!

Disse!

Ah, mas depois o dito apresentador/jornalista/escrevinhador lá continuou com as notícias e, a propósito do enfermeiro alemão acusado de matar dezenas de pessoas com overdose de medicamentos, o dito apresentador, naquele seu ar teatral cheio de  trejeitos com os olhos e de entoações do discurso, saiu-se com a seguinte “bojarda”:  «O enfermeiro terá morto mais de trinta pessoas!!!»

Terá morto?! Terá morto? – senhor apresentador/jornalista/escrevinhador? Ou terá querido dizer: terá matado? É que se trata de um tempo composto pelo que deverá usar-se o particípio passado normal. Enfim… sem importância…

Depois o telejornal passou a mostrar os passeios da Senhora Cristas por Mação, bem como o discurso do presidente CDS da dita vila ribatejana a zurzir o governo por causa do incêndios, que eu já ouvira em todos os telejornais anteriores, ou seja, propaganda eleitoral do partido em questão, seguido de uma arrastada e desenxabida reportagem sobre a importantíssima universidade de Verão do PSD na qual iam ser apresentados quase todos os betinhos participantes, ou seja, propaganda eleitoral do PSD…  Nada de novo no canal público… e eu decidi passar para o Canal Panda ou para o futebol… esses, ao menos, não apresentam “propaganda institucional” dos partidos … do sistema!




terça-feira, 23 de maio de 2017

Morreu O Santo!

Já toda a gente sabe, mas não quero deixar de aqui a minha modesta homenagem a Sir Roger Moore que me habituei a ver nos idos de 60, ainda a branco e preto, na série de televisão O Santo, atrevido, vaidoso e ... lindo!!




Deixem-me recordar-vos uma ou outra cena.




O seu grande papel foi, porém, o desempenho da personagem Bond, James Bond, o 007, tendo sucedido, neste papel, ao famoso e, a todos os níveis, grande Sir Sean Connery (que eu sempre preferi a todos os outros atores que se lhe seguiram incluindo Roger Moore).




Sir Roger Moore morreu hoje, na Suíça, aos 89 anos, após uma "curta, mas corajosa batalha contra o cancro", nas palavras dos seus três filhos. 

De referir ainda o seu empenho e entusiasmo como embaixador da boa vontade da UNICEF, uma função para a qual fora nomeado em 1991.

Usando as palavras de um amigo: O século XX insiste em desertar à força toda.

Lembremo-lo senhor de todo o seu charme.








terça-feira, 7 de março de 2017

Foi há 60 anos.

Quem se lembra?



As primeiras vezes que vi televisão foi na esplanada em Algés. Via-se tão mal! Um aparelho enorme lá ao longe e toda a gente nas mesas a tentar ver e ouvir com a maior atenção. A imagem cheia de "grão" e com tantas interrupções... «o programa segue dentro de momentos».... 

Depois, já em Sintra, íamos ver televisão à Periquita (sim, a das queijadas e dos travesseiros deliciosos...)

Só em 59 ou 60 é que tivemos televisão em casa. Que luta para termos imagem! Que luta para orientarmos a antena... Mas, às nove horas em ponto, lá estávamos todos em frente ao aparelho - caixote enorme! - para ouvir o sinal de abertura e ouvir o telejornal.




quarta-feira, 27 de abril de 2016

Mário de Sá-Carneiro


Ontem à noite, quase por acaso, assisti a um excelente programa na RTP2 sobre Mário de Sá-Carneiro, poeta de Orpheu, no centenário do seu suicídio que aconteceu precisamente no dia 26 de Abril de 1916, no seu quarto do Hotel de Nice em Paris.

Foi o programa “O Estranho Caso Do Mário De Sá-Carneiro” com comentários de estudiosos do Orpheu e dos seus poetas como Richard Zenith, Fernando Cabral Martins, Jerónimo Pizarro, Rui Afonso Santos e Eduardo Lourenço.

O poeta, diretor – com Fernando Pessoa – da bombástica revista Orpheu, cujos dois únicos números foram editados em 1915 a expensas do pai de Sá-Carneiro, era esperado em Portugal em Março de 1916, mas por essa altura já ele estava a considerar a hipótese de se suicidar tomando «uma forte dose de estricnina».

Em 31 de Março escreve uma carta ao seu amigo Fernando Pessoa em que diz:

Paris - 31 Março 1916

Meu Querido Amigo.

A menos de um milagre na próxima segunda-feira, 3 (ou mesmo na véspera), o seu Mário de Sá-Carneiro tomará uma forte dose de estricnina e desaparecerá deste mundo. É assim tal e qual – mas custa-me tanto a escrever esta carta pelo ridículo que sempre encontrei nas "cartas de despedida"... Não vale a pena lastimar-me, meu querido Fernando: afinal tenho o que quero: o que tanto sempre quis – e eu, em verdade, já não fazia nada por aqui... Já dera o que tinha a dar. Eu não me mato por coisa nenhuma: eu mato-me porque me coloquei pelas circunstâncias – ou melhor: fui colocado por elas, numa áurea temeridade – numa situação para a qual, a meus olhos, não há outra saída. Antes assim. É a única maneira de fazer o que devo fazer. Vivo há quinze dias uma vida como sempre sonhei: tive tudo durante eles: realizada a parte sexual, enfim, da minha obra – vivido o histerismo do seu ópio, as luas zebradas, os mosqueiros roxos da sua Ilusão. Podia ser feliz mais tempo, tudo me corre, psicologicamente, às mil maravilhas: mas não tenho dinheiro. [...]

Mário de Sá-Carneiro

Poucas semanas mais tarde, Mário de Sá-Carneiro encenará no hotel onde vive em Paris a sua trágica morte: com cinco frascos de arseniato de estricnina e um único espectador convidado – José Araújo – morrerá, depois de um enorme sofrimento, às oito horas e vinte minutos do dia 26 de Abril de 1916. Os haveres do poeta – uma mala com cartas recebidas dos seus amigos, nomeadamente de Fernando Pessoa – foram confiscados pelos donos do hotel como forma de pagamento das dívidas por falta de pagamento. Tinha apenas vinte e cinco anos.

«Vítima de uma doença moral terrível e, no fundo incapaz de atapetar a vida contra nós e contra o mundo» (Sá-Carneiro)

 «Ele tinha a doença de todos nós, o desalento crónico.»

Fernando Pessoa dirá dele:

«Génio na arte, não teve Sá-Carneiro nem alegria nem felicidade nesta vida. Só a arte, que fez ou que sentiu, por instantes o turbou de consolação. São assim os que os Deuses fadaram seus. Nem o amor os quer, nem a esperança os busca, nem a glória os acolhe. Ou morrem jovens, ou a si mesmos sobrevivem, íncolas da incompreensão ou da indiferença. Este morreu jovem, porque os Deuses lhe tiveram muito amor.»

(In Athena n.º 2, Lisboa, Novembro, 1924.)

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Amadeo de Souza-Cardoso

A fim de assinalar os 50 anos da Gulbenkian em Paris, inaugurou-se hoje a exposição da extraordinária obra do modernista Amadeo Souza-Cardoso (1887-1918) no Grand Palais daquela capital.

A RTP1 passou há pouco um excelente documentário sobre a vida e a obra do grande pintor, que ombreou com os grandes pintores europeus da época e que, ainda em vida,  foi descoberto, apreciado e divulgado nos Estados Unidos, enquanto aqui neste paísinho submerso em ditadura após ditadura e em grande cinzentismo, só foi conhecido quando, nos anos 50, alguns dos seus quadros foram expostos no Museu em Amarante e reconhecido apenas nos anos 80 quando a Gulbenkian apresentou devidamente a sua obra.

Deixo aqui uma breve apresentação da exposição que abriu hoje em Paris. Mas vale a pena ver o documentário da RTP. (Uma verdadeira exceção na programação daquele canal...)


quarta-feira, 4 de março de 2015

El Príncipe


Primeiro foi «Borgen», a série dinamarquesa transmitida diariamente na RTP2 que apaixonou meio país. Duas ou três séries e acabou! 

Depois começaram a transmitir «El Príncipe», com um tema bem atual,  cheia de ação e com homens e mulheres lindos de morrer, série que fazia uma pessoa ansiar pelas dez da noite e acabou agora mesmo de forma inconclusiva... Não há direito! Será que já compraram a segunda série?

Não acompanharam? Se não acompanharam, deviam! Há anos que não seguia uma série com tanto afã! Até me fazia esquecer a crise política, social, moral e outra que tal em que o país está atulhado!

E amanhã que vou eu ver às dez da noite?!... (É que eu não sou fã das sempre iguais séries americanas...) 








São ou não são lindos de morrer? Eu acho!!

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Aceitam-se sugestões...

É daquelas amizades antigas que não se desfazem. Infelizmente. Desde muito nova que vivo paredes meias com as malditas e, por muito que faça, não me largam.

Eu nem digo nada, nem me mexo a ver se elas não reparam em mim, deito-me devagarinho, nem televisão, nem nada; um livro em silêncio, apago a luz e é um sossego. A certa altura, um sobressalto, um pulo na cama, um acelerar do coração – ou não – e trás! aí estão elas a cobrar de mim…

Ainda esta noite estiveram aí. Acendo a luz, o quarto emerge do escuro e do silêncio. Duas da manhã. (Bem bom!! – diziam as outras… E pensar que uma delas foi casada com este “primeiro”! Coitada! – Mas isso é de outra história. Voltemos atrás!) Ainda tenho muitas horas para dormir – penso eu. Apago a luz e viro-me sorrateiramente para que elas não dêem conta. Não se vão embora. Quatro da manhã! Ainda?

Aí pela adolescência já me visitavam com prenúncios de quem quer ficar. Ai os amores! Ai a idade! Ai excesso de sensibilidade! Ai os exames! Ai os medos! – disseram os doutores. Químicos – alguns, dispersos. Mas elas não desistiram e foram-me acompanhando serenamente mais de longe, mais de perto.

Depois atacaram-me forte e feio no alto da idade adulta. Meses a fio até a rirem-se na minha cara noite dentro até ao quase colapso. Mais químicos, mais terapia, mais conversa fiada…

Foi aí por finais de oitenta. Havia colegas que diziam: «levanto-me e ponho-me a ler»; «levanto-me e vou arrumar gavetas»: «levanto-me e vou passar a ferro». Houve até uma que disse «Insónias?! É coisa que não há lá em casa: dormimos todos com a consciência muito tranquila» - aí eu afinei e nunca mais me esqueci…

Mas, para compensar – que o equilíbrio cósmico acaba sempre por acontecer – houve um colega (homem, claro!) que disse: «Tu gravas os programas do Luís Pereira de Sousa e levas o vídeo para o quarto (nessa altura ainda não havia televendas nem filmes pela noite dentro) e quando não conseguires dormir, pões-te a vê-lo e vais ver que adormeces…»

Nunca experimentei e agora também já não vou fazê-lo, mas aceito sugestões… viáveis, claro!!

Luís Pereira de Sousa
(lembram-se dele?)

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Incomodou-me!

Incomodou-me! Pois como poderia não incomodar? Logo após o telejornal, um programa de propaganda à associação Missão Sorriso em que um chefe de família desempregado há mais de três anos falava desassombradamente da ausência de comida em casa, do frigorífico vazio, da única refeição que faziam que normalmente era arroz, ou massa, ou uma lata de salsichas, de como o filho não tinha leite para beber antes de sair de casa.

Uma dor de coração ouvir isto de cidadãos como eu. Um remorso intenso por os meus gatos comerem melhor que muitas pessoas, cidadãos como eu. Uma vergonha indizível por, aqui e agora, se estar a passar pelo mesmo a que assisti nos idos anos de 50 e 60.

No fim do programa, o elogio ao trabalho meritório – meritório, claro!  – da organização e dos voluntários. Mas porquê estes programas? Para nos mostrarem que fomos cigarras e esbanjámos, «vivemos acima das nossas possibilidades» - que náusea! – e que agora temos de  sofrer o castigo adequado? Ou tão simplesmente para mostrar às pessoas em necessidade e sofrimento que o melhor que têm a fazer é recorrerem à caridade? E onde fica o “governo” no meio de tudo isto? Qual é o seu papel? Empurrar as pessoas para a emigração, para a caridade, para o degredo?

Incomodou-me! Mesmo!

E, a fechar, em jeito de final feliz, passaram a belíssima canção Smile pelo Nat King Cole. Bem sei que quiseram fazer a analogia da Missão Sorriso com a canção que aconselha a sorrirmos mesmo quando o coração nos dói, mas situações como a que aquele senhor descreveu podem dar para tudo menos para sorrir!





sábado, 31 de agosto de 2013

Levando o governo ao colo


Não é novidade para (quase) ninguém que os media estão a fazer de tudo para levar os portugueses a voltarem a votar na vergonhosa direita que tomou o poder de assalto (com a conivência de igual modo vergonhosa dos partidos lá da esquerda do fundo, diga-se). O nosso amigo do cronicasdorochedo escreve sobre este assunto hoje e mais não ouviu – e fez ele muito bem! – o omnisciente “comentador” Luís Marques Mendes que ainda há pouco perorou sobre o chumbo pelo TC da lei da mobilidade especial – vulgo despedimento em massa – dos funcionários públicos.


Foi a primeira vez que me deu para o ouvir e, garanto, fiquei “vacinada”. Calhou passar para a SIC para evitar a carochinha de serviço ao Jornal da TVI e um qualquer programa supercretino que um qualquer garotelho também supercretino apresentava na RTP1. Pois o senhor em questão, aluno incondicional do “saber de experiência feito” do senhor presidente e do estilo inconfundível do supercomentador da TVI, falou dos juízes do Tribunal Constitucional e da sua atuação com um desbrido  tom de desapreço e de desconsideração mencionando a idade em que se podem aposentar e o facto de não terem interrompido as férias «como faz o primeiro-ministro e o presidente», “paleio” que realmente agrada a uma determinada camada de pessoas e sempre manipulando-lhes as vontades. Por outro lado, foi acicatando outra camada de pessoas no sentido de lhes avolumar o odiozinho que sentem pelos “benefícios” de que gozam os malandros dos funcionários públicos!

“A decisão do Tribunal Constitucional tem de ser respeitada, mas merece ser criticada. No sector público não se pode despedir, mas pode despedir-se no privado. Na Constituição não está esta distinção”, acusou. “O que está aqui em causa não é uma lei da Constituição é um princípio e o princípio é subjetivo. Se fossem outros juízes se calhar a interpretação era outra”, reiterou. E depois ainda ameaçou com novo aumento de impostos se os “incompetentes” dos juízes do TC chumbarem os cortes nas pensões!

É de facto abjeta a forma como este e todos os outros comentadores de direita manipulam, mentem, inventam para levarem este “governo” ao colo!

Dramática, porém, a forma como este povo se deixa manipular e convencer por gente tão pequena como esta!

Comentadores da direita


quinta-feira, 8 de março de 2012

Foi em 1957


 












(Primeira emissão da RTP)

Faz hoje 55 anos que se iniciaram as emissões de televisão no nosso país. Eu tinha quase nove anos, mas não vi as primeiras emissões. Para vermos televisão lá em Algés, tínhamos de ir à esplanada e foi onde vi o primeiro programa de televisão foi parte do filme "Nazaré", um daqueles dramalhões à portuguesa, a preto e branco e com uma imagem bastante nublada que metia medo...

Depois, em Sintra, íamos por vezes, depois do jantar, ver as notícias à Piriquita (sim, a dos deliciosos travesseiros e das queijadas) que era a pastelaria mais próxima da nossa casa. Só aí por 1959 é que o meu pai levou um aparelho de televisão para casa - um "caixote" enorme e pesado - à frente do qual nos sentávamos todos os dias impreterivelmente às nove da noite para não perdermos nada, nada, desde o sinal que era assim:



E quem não se lembra de figuras da televisão desse tempo como estas?


(Anthímio de Azevedo)
(João Vilaret)
(António Lopes Ribeiro)
(Artur Agostinho)
(Jorge Alves)


(Lopes Ribeiro e António Melo)

(Vitorino Nemésio)
(Pe Raul Machado)



(Engº Sousa Veloso)

Entre muitos outros.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Intolerável!





O “papagaio de serviço” que faz os comentários que muito bem entende aos domingos na TVI, lá veio ontem, uma vez mais, perante o ar absolutamente enfeitiçado (ou apalermado se preferirem) do gaseado apresentador do Telejornal, pôr água na fervura do vergonhoso caso das contas da Madeira, dando a entender que não foi nada de mais, que o anterior governo... que o Tribunal de Contas... que o Banco de Portugal... que... que... E lá acabou por concluir brilhantemente que o senhor em causa não pode ser deixado cair pelo partido em que milita (só podia ser aquele, pois nenhum outro o suportava!) porque ganha eleições. José Sócrates foi eleito há dois anos e já lá não está. Mas o Alberto João Jardim ganha eleições!

É inacreditável, não é? (Esqueceu-se foi de dizer que o primeiro foi apeado pelo senhor presidente da República logo no seu famigerado discurso de tomada de posse; enquanto o segundo, não obstante o ter achincalhado publicamente por mais de uma vez, continua a ser alvo de palavrinhas mansas e de comentários de circunstância.)

Porém, pior do que as carradas de demagogia avulsa do dr. Marcelo, pior que os sorrisinhos matreiros e dos silêncio estudados, pior que os convenientes pigarreios e aclarar da garganta que usa não inocentemente, pior que aquela (parola) daquela professora que entrevistou antes dos comentários e da apresentação dos novos livros que disse tanto disparate pela boca fora que até senti vergonha de ter sido professora toda a vida, pior, pior, pior... é o facto de as doutas opiniões do dr. Marcelo – qual divina encarnação do Oráculo de Delfos – serem referidas pelos jornais e repetidas nos telejornais das 2ªs feiras.

Não se pode! Marcados indelevelmente pelos 300 anos de Inquisição e pelos 48 anos de ditadura moralista a que nos ativemos como bons alunos, continuamos – não obstante termos votado até junho último maioritariamente à esquerda – a ser um povo de direita. Castrado, condicionado, subserviente, atendente à “sábia” palavra do “mestre” – de um mestre qualquer que queira e saiba meter-nos a areia para os olhos.

Intolerável. Verdadeiramente intolerável!



Mas é  disto que o pessoal gosta...