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sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Habemus PR Bolsonaro, Consummatum est...

Deus e os meus amigos sabem que não sou seguidora de igrejas; aprecio, porém, a filosofia de vida e a forma sensata como aborda os graves problemas do mundo. Refiro-me a Francisco, o Papa. E foi ele que, na sua sapientíssima mensagem de Ano Novo, nos exortou, a todos, a interessarmo-nos pela política, pela forma como se governa a cidade (perspetiva da Grécia Antiga). 

É nesta linha que eu me interesso pela política, seguindo a orientação de Francisco, o Papa.  

Assim sendo, não me eximi de trazer aqui a bem concebida crónica que Carlos Esperança publicou ontem no facebook.


Brasil – Habemus PR Bolsonaro. Consummatum est

«A tomada de posse de Jair Messias Bolsonaro foi o ato final de legitimação do golpe de Estado contra Dilma. Lá foi Michel Temer, que a traiu, a devolver a faixa presidencial, à espera da prisão, pois, ao contrário de Lula, há gravações que provam a sua corrupção.

Da conspiração das Igrejas evangélicas, com homilias, órgãos de comunicação e crentes destacados nas redes sociais, sai mais poderoso o bispo Edir Macedo e mais próximo do Paraíso quem paga o dízimo, em suaves prestações, na compra de uma assoalhada junto a Deus, mas foram os grandes interesses económico-financeiros que aprontaram o golpe e o conduziram.

Nos políticos conluiados com o poder judicial, para afastar o previsível vencedor, Lula da Silva, estava o juiz Sérgio Moro, cuja ambição dispensou um período de nojo entre a prisão, investigação e julgamento do adversário político e a entrada imediata no governo do fascista assumido, machista, homofóbico, racista, xenófobo e violento.

Bolsonaro, depois de uma carreira militar que terminou em capitão, de onde foi afastado por críticas públicas a baixos salários dos militares e a um alegado plano para dinamitar os sanitários da sua Academia Militar, foi para a política, onde se distinguiu mais pela boçalidade do que pela atividade legislativa, nos 27 anos de Congresso Federal, em que percorreu 8 partidos, sendo o último, PSL, que o indigitou para candidato à Presidência.

Convidou pessoalmente para a posse os primeiros-ministros de Israel e da Hungria e o chefe da diplomacia dos EUA. O pudor ou calculismo afastou figuras de primeiro-plano internacional do pungente espetáculo que contou com fortes medidas de segurança.

Em Portugal, a política externa é competência exclusiva do Governo e o PR não define relações bilaterais, mas representa o País em qualquer lugar. Apreciando os espetáculos mórbidos, mesmo assim, parecia um erro de casting no cenário e não se percebe, depois da posse, a obsessão por uma audiência, o desejo de ser figurante junto de tal figurão.

A enigmática afirmação, após o breve encontro do homem de cultura, civilizado, com o troglodita tropical, deixa um sentimento pungente a quem apreciava o discernimento de Marcelo: “Como eu disse e como disse o Presidente Bolsonaro, era uma reunião entre irmãos e entre irmãos o que há a dizer se diz rápido, como se diz em família”.

Não sei que interesses moveram Marcelo na deslocação, podia ter enviado Cavaco, em sua representação, como fizera no funeral de Bush-pai. Era a pessoa adequada ao papel e poupava-lhe a participação no primeiro ato do funeral da democracia brasileira.

A presença do PR em Brasília foi humilhante para ele e para o País. Numa atitude sem precedentes, só as televisões portuguesas fizeram pior. Deram desmedido relevo ao ato, cúmplices da vergonhosa promoção de Bolsonaro e da divulgação do seu ideário.

Para a posteridade ficaram também as alarvidades bolçadas pelo gen. Hamilton Mourão, o vice-presidente, com sequazes em delírio, como metáfora de uma ditadura de coronéis com a cultura de cabos quarteleiros, capazes de transformar a presidência em caserna.»

Carlos Esperança. Facebook, 3/Jan/2019      (sublinhados meus)

A mim parece-me que o presidente Marcelo não tinha de ter tido este comportamento quase subserviente face a um proto-ditador, apaparicando-o, tratando-o de irmão, convidando-o a visitar oficialmente o país... Como diz o povo: «Não se pode estar bem com Deus e com o Diabo ao mesmo tempo».



segunda-feira, 3 de setembro de 2018

A cultura sempre em último lugar

Não venho dar-vos notícia alguma, mas há que registar: o Museu Nacional do Rio de Janeiro - que reunia os maiores acervos científicos da América Latina, laboratórios de pesquisa e cursos de pós-graduação; que possuía 20 milhões de itens das coleções científicas conservadas e estudadas pelos Departamentos de Antropologia, Botânica, Entomologia, Invertebrados, Vertebrados, Geologia e Paleontologia e que atualmente apresentava cerca de três mil peças, de seu acervo em exposições abertas ao público - ficou hoje reduzido a cinzas!

É redundante dizer aqui que é uma enorme perda de património cultural a nível da América do Sul e a nível mundial. É redundante dizer aqui que é uma perda irreparável e uma enorme tristeza. 

O que não é redundante dizer aqui - e em todo o lado - que a cultura, no Brasil e também entre nós, está sempre em último lugar! Nunca há meios para fazer a manutenção necessária nem para contratar o pessoal especializado que assegure a estabilidade e a conservação que os espaços culturais e patrimoniais exigem. 

(Também... para que serve a cultura? Um povo culto é um povo ingovernável...)

Muito lamentável!




Foi neste Palácio (de São Cristóvão) que a corte portuguesa (a rainha D. Maria I, o Príncipe D. João VI e sua esposa Carlota Joaquina com todo os eu séquito) se instalou quando saiu de Lisboa fugindo dos invasores franceses. 

O museu foi fundado em 6 de agosto de 1818 por D. João VI e é o mais antigo do país - tinha acabado de completar 200 anos.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Parabéns, Dona Cleo!

Cleonice Berardinelli – cem anos!

Esta senhora, figura grande do estudo e do ensino da literatura portuguesa no Brasil, professora universitária e membro brilhante da Academia Brasileira de Letras, completou cem anos no passado dia 28.

Especialista em Camões e Fernando Pessoa, não desmerecendo autores desde Eça até Saramago, considera a Literatura Portuguesa – que conhece profundamente – a base de tudo. E diz: «Nós chegamos até aqui porque existiu lá atrás um sujeito chamado Camões. Ninguém mais conhece Dom Diniz, que escreveu as cantigas de amor mais lindas. Então, tudo isso é o lastro de conquistas seguidas até se chegar ao século XVI, com os artistas já considerados clássicos. Até chegar o Gil Vicente, foi preciso passar antes pelos esboços de teatro de Henrique da Mota, por exemplo

Dona Cleo formou gerações e mais gerações de professores e intelectuais. Alguém lhe pergunta o que significa leccionar, ao que responde com toda a simplicidade: «Tudo. A aula é o começo de tudo. O que eu escrevi foi a partir do que eu estudei para ensinar. Os ensaios que eu escrevi nasceram na sala de aula. A minha atividade como professora, como didata, é a raiz de tudo que eu fiz, de tudo que eu escrevi. Uma pessoa que me entrevistava me perguntou: "Como pode a senhora chegar a esta idade com este entusiasmo, esta paixão pelo que faz?". Eu disse: "Porque nunca parei de dar aulas e nunca parei de fazer exatamente aquilo de que eu gosto". Então, trabalhar naquilo que se gosta é realizar-se. É a impressão que eu tenho. Se me obrigassem a pentear cabelos, eu seria uma desgraçada total. No terceiro cabelo, eu já estaria louca. Eu penso nisso porque sempre detestei me pentear.

Em magnífica forma, dizem os seus amigos, mantém a sua capacidade de comunicação e de ler bem os versos dos poetas que estudou e admira.


E em dias de festa para a língua portuguesa, a escritora e amiga Nélida Piñon também celebra: “são 100 anos augustos, benditos. E teve uma vida muito bonita. Ela serviu ao rei que ela queria: a língua portuguesa”.


Oiçamo-la!




(Para saber mais:)



segunda-feira, 29 de agosto de 2016

O impedimento

A Presidente eleita do Brasil foi impedida de governar por um grupo de pessoas que, tal como por cá, estavam com uma enorme vontade de «ir ao pote».

Foi impedida, obstruída, desacreditada, depreciada, descredenciada, despojada, impugnada – tudo sinónimos que esclarecem o significado de impeachment que os nossos irmãos brasileiros preferem referir.

Segundo a Wikipedia, na acepção jurídica, impeachment significa 'acusação e processo de uma pessoa por traição, outro grande crime ou afronta a um tribunal competente'. É disto disto que acusam a Presidente eleita do Brasil. Mesmo que, ao contrário dos seus acusadores que lhe tomaram o lugar, nada de grave haja de que possa ser incriminada ou se prove. Cometeu erros? Ah, certamente. Pois quem não os comete todos os dias, mesmo sendo figura com uma responsabilidade desta envergadura?

Hoje a Presidente eleita teve de se submeter ao mais humilhante interrogatório perpetrado por um Senado vendido (ou comprado, sei lá qual é a pior perspetiva!) para ver se a deixam continuar a ser Presidente ou se será banida e proscrita como uma vulgar criminosa. Lamento muito por ela!

Hoje deveria ter sido um dia em que todos os democratas deste mundo teriam saído à rua em defesa da Democracia. Mas sei bem que isso não acontece. Só nas palavras politicamente corretas que hipocritamente dizemos e nos contos de fadas e princesas encantadas… Sinto muito por ela…

(Faz-me lembrar – com a distância de anos-luz e com a dimensão da mais ínfima paramécia perante a grandeza de uma Presidente eleita de um país com o tamanho e a população do Brasil – como também tive de me submeter a uma entrevista realizada por um encarregado de educação novato, pequenote e com tiques de patrão, também ele "comprado" por quem quis impedir-me (e conseguiu, apesar da enorme distância de currículo que nos afastava!) de continuar a ser presidente lá do meu agrupamento de escolas. Uma entrevista a que respondi com todo o brio profissional de anos e com um «saber de experiência feito» em que o pequenote simulava fechar os olhos com sono enquanto eu falava… Nunca me senti tão humilhada na minha vida.)

O impedimento de uma Presidente eleita sem qualquer acusação jurídica formada e que dá «o peito às balas”, para ser substituída por gente com processos de corrupção pronunciados é a maior das humilhações pessoais, públicas, políticas … Sinto muito! Sinto muito pela Presidente eleita. Sinto muito pelo Brasil!



quinta-feira, 4 de agosto de 2016

A Sagres no Rio



Quarenta e três dias depois de ter partido de Lisboa, o navio escola Sagres  (apreciem-lhe a elegância!chegou ontem ao Rio de Janeiro. A embarcação vai ficar na "cidade maravilhosa" até ao final dos Jogos Olímpicos e ser a "Casa de Portugal", apoiando o Comité Olímpico Português e os atletas que vão participar no torneio.




Durante a tarde de ontem, o Presidente da República entregou a bandeira de Portugal ao velejador João Rodrigues que será o porta-estandarte na abertura oficial dos Jogos no próximo dia 6.

Marcelo Rebelo de Sousa recebeu a bandeira nacional do comandante do navio escola Sagres, levou-a ao peito e entregou-a ao atleta João Rodrigues.




sábado, 14 de maio de 2016

Brasil





Este é o nosso Brasil. O Brasil brasileiro. O Brasil do povo. Alegre e cheio de vida e de cor. O povo que, de uma forma ou de outra, viu as suas vidas algo melhoradas pelos governos que ontem terminaram. Brutalmente e da forma mais anti-democrática que se possa imaginar. Por meio não de um golpe, mas de uma golpada. Um ajuste de contas permitido por uma Justiça fraca e vendida que permite que uma governante «limpa» seja afastada por outros muitos indiciados de crimes e com imensas contas a prestar aos tribunais.

Agora é mesmo de Temer pelo Brasil. Muito trágico. Muito assustador. Muito lamentável.

Daqui o nosso forte e caloroso abraço ao nosso Brasil brasileiro.


segunda-feira, 18 de abril de 2016

Não me conformo!

Não me conformo com o que se está a passar no Brasil, nosso país irmão. Um brutal ataque à Democracia.

Uma vergonhosa votação da Câmara dos Deputados de 367 votos a favor contra apenas 137 contra a destituição da Presidente a propósito da qual transcrevo um cometário-lamento com que concordo em absoluto.

«Brasil – A destituição de Dilma Roussef

Foi a primeira vez que vi a justiça popular, no que tem de mais irracional e execrável, a funcionar por interpostos deputados brasileiros.

O mal-estar, a que a corrupção não é alheia, nem nova, deve-se à crise do capitalismo e à queda brutal dos preços das matérias-primas, especialmente do petróleo, provocando a recessão que impediu a continuidade do ‘milagre brasileiro’ que retirou da miséria milhões de pobres.

A ansiedade e a revolta, essas, foram estimuladas e ampliadas nas ruas pelos que nunca perdoaram as medidas sociais e o êxito dos governos de Lula, pelos que detêm os meios de comunicação social, pelos que, através de ditaduras militares, fruíram privilégios que procuram recuperar.

O absurdo e imoral processo de destituição de Dilma Roussef foi conduzido por muitos deputados arguidos em processos de corrupção contra uma das raras personalidades da política brasileira que não aparece como suspeita em é alvo de qualquer investigação – a PR.

Não podendo a PR eliminar os corruptos, destituíram-na estes.

O Brasil entrou num processo estranho onde se confundem interesses pessoais, luta de classes, ódios velhos e vinganças mesquinhas, com o país a encaminhar-se rapidamente para o abismo da guerra civil e/ou da ditadura.

No descalabro de um país de ‘portugueses à solta’, vejo a alegria esfuziante de um povo a transformar-se em medo, revolta e desespero, com os velhos demónios despertos.»


Carlos Esperança, facebook, 16/4/2016




quarta-feira, 7 de maio de 2014

Chocante!

Confesso (com algum pudor embora) a minha ignorância, mas nunca tinha ouvido falar na terrível realidade descrita hoje no jornal pela jornalista brasileira Daniela Arbex, que passou para livro a história, a horrível lembrança, para que conste e para memória futura, do que foi viver (e morrer) no hospital psiquiátrico Colónia, na cidade de Barbacena em Minas Gerais, Brasil ao longo de 50 anos.

O livro tem o nome de “HolocaustoBrasileiro” e foi escrito a partir do testemunho dos poucos sobreviventes daquele autêntico campo de concentração.




O dito hospital psiquiátrico foi inaugurado no início do século XX e, até aos anos trinta, terá funcionado normalmente. Com o advento da ditadura e com a sobrelotação que passou a ter, porém, aquele espaço tornou-se num verdadeiro depósito dos indesejáveis. Apenas 30% dos doentes teriam problemas psiquiátricos, os restantes, os indesejáveis, chegavam a Barbacena no “trem do doido” sem diagnóstico e eram «meninas violadas, grávidas dos patrões, mulheres que os maridos já não queriam para ficarem com as amantes, alguém simplesmente tímido», qualquer pessoa que tivesse um comportamento social não aceitável.
Essas pessoas passavam a viver uma vida degradante: «as camas foram substituídas por uma espécie de palha para criar mais espaço», andavam nus porque não havia roupa suficiente, «a comida era escassa e as condições de higiene inexistentes». Homens, mulheres e crianças eram torturados com choques eléctricos pelos guardas que era a forma que eles encontravam para os conter.





Estima-se que tivessem morrido à volta de 60 mil pessoas em 50 anos de violência vivida no Colónia. Um verdadeiro holocausto que apenas acabou nos anos 80, quando a ditadura terminou no Brasil.





Verdadeiramente chocante o que a natureza humana consegue fazer aos seus iguais!

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Para os nossos irmãos do Brasil



COMPANHEIROS

quero
escrever-me de homens
quero
calçar-me de terra
quero ser
a estrada marinha
que prossegue depois do último caminho

e quando ficar sem mim
não terei escrito
senão por vós
irmãos de um sonho
por vós
que não sereis derrotados

deixo
a paciência dos rios
a idade dos livros

mas não lego
mapa nem bússola
porque andei sempre
sobre meus pés
e doeu-me
às vezes
viver
hei-de inventar
um verso que vos faça justiça

por ora
basta-me o arco-íris

em que vos sonho
basta-te saber que morreis demasiado
por viverdes de menos
mas que permaneceis sem preço

companheiros


Mia Couto


Faço minhas as belas e sábias palavras do poeta. Força, irmãos brasileiros!