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quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Ainda e sempre a nossa Língua

Reparem bem, meus amigos, no título deste desenho que descobri numa exposição de trabalhos antigos ali na galeria do antigo Banco de Portugal.

Viaducto no Valle d'Alcantara



Não estava datado, mas, pela ortografia usada, é com certeza anterior ao acordo ortográfico de 1911.

Imagine-se o que os contemporâneos desse acordo tiveram de gritar e barafustar quando se passou a escrever Viaduto do Vale de Alcântara...

Se não houvesse reformas ortográficas ainda estaríamos a escrever em galaico-português...

Boa noute... :)))



terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Ainda (e sempre) o acordo ortográfico

Assiste-se a uma nova movimentação (ou será sempre a mesma?) para a anulação do último acordo ortográfico. Que me desculpem talvez a brutalidade da expressão, mas as razões apresentadas para que tal aconteça até me dão volta ao estômago!

Ando a reler as «Lendas e Narrativas» de Herculano e convido os defensores do Não a lerem-nas na escrita do autor de meados de 1800…  Mas em vez de me pôr aqui a perorar sobre motivos e fundamentos sobre os acordos ortográficos que já se realizaram, deixo-vos um texto maravilhoso e até divertido de Francisco José Viegas que li na Ler deste Inverno.

«Por falar em língua – na Língua Portuguesa, permitam-me que lembre que o AO não é o nosso maior problema, nunca foi. Enquanto milhares de portugueses prometiam acorrentar-se às consoantes mudas em protesto, desculpavam-se erros de palmatória de português básico em documentos oficiais, em legendas e rodapés da televisão pública (onde, entre tantos provedores, nunca se encontrou ninguém para aplicar corretivos) ou na avaliação de testes nas escolas (houve inclusive, nos idos de 1990, uma nota distribuídas aos professores para não assinalarem erros ortográficos nas provas de avaliação porque isso seria traumatizante).

Comparando o léxico de Mau Tempo no Canal, de 1944, com o romance de um autor contemporâneo, percebe-se que desapareceu cerca de 20% do vocabulário. A língua portuguesa está confinada ao seu ersatz, um substituto ligeiro, uma língua de anúncios de aeroporto, de fala de supermercado.

A escola é muito responsável por este desastre, preferindo a pobreza do léxico, desculpabilizando os erros, desejando agradar à vulgaridade, parlapatando – esquecendo que quem fala e escreve mal, pensa mal. Para o sistema educativo fazer algo pela defesa da Língua Portuguesa? Duvido. Veja-se este pedaço de, por assim dizer, «competência linguística» do Ministério da Educação num texto sobre educação de adultos: «Este programa deverá assentar numa maior integração das respostas na perspetiva de quem se dirige ao sistema, tornando, na ótica do formando, coerente e unificada a rede e o portefólio dos percursos formativos, que no percurso individual devem ser passíveis de combinação personalizada.» Não há ortografia que lhe valha.

As novilínguas tecnocráticas que os analfabetos popularizam são também um elemento a ter em conta para a perda de identidade da língua. Mesmo desculpando «gentrificação» para significar «gentrification», do inglês (gentry), que vem do francês arcaico (genterise) – ocupação do centro das cidades por gente rica – é estranho ouvir uma pessoa altamente colocada a defender a necessidade de discutir a genderificação (do inglês gender, género) uma vez que há cargos muito genderificados. Semanas antes ouvi uma senhora exigir mais empoderamento (empowerment) para as mulheres e que ela própria tinha contribuído para empoderar mulheres num país latino-americano , e – entretanto – o presidente da Câmara de Valongo publicou um livro sobre política onde insistia na necessidade em «empoderar os cidadãos do concelho», coisa que os deve alegrar. Depois, há «os cidadãos e as cidadãs» que dizem aitem em vez de item (um pronome demonstrativo latino) – e o horror ameaça não ter fim, a avaliar pela forma como toda a gente encolhe os ombros.»

Francisco José Viegas, Revista Ler, Inverno 2016/2017




quinta-feira, 31 de março de 2016

Perguntas inocentes

Tenho esta dúvida há muito tempo: por que razão é que passaram a chamar trench coat a uma simples gabardina?!



E depois assalta-me outra pergunta: quantas destas pessoas que usam o anglicismo «supé-na-moda» dizem cobras e lagartos do novo acordo ortográfico porque defendem a boa utilização da língua de Camões?! 





quarta-feira, 22 de julho de 2015

A Duração dos Crepúsculos

Incondicionalmente rendida, como sempre, às obras de (bons) autores portugueses, trouxe para férias, entre outros, o livro «A Duração dos Crepúsculos» de Filomena Marona Beja, de 2006 e que comprei em 2009, por cinco euros, numa daquelas feiras de livros para limpeza de stocks. Dessa autora tinha já lido, com muito agrado, «A Cova do Lagarto», excelente romance sobre a vida do engenheiro Duarte Pacheco, o grande Ministro das Obras Públicas e Comunicações de Salazar.

Não menos interessante foi a leitura desta obra da autora, naquele seu estilo fragmentário e breve de constantes avanços e recuos na narrativa que nos fazem estar atentos e despertos ao tempo, ao espaço, à continuação da diegese, da ação. Além de que nos surpreende constantemente com apontamentos culturais do nosso país.

O tempo da ação decorre por quase todo o século XX, tocando mais ou menos a fundo nas épocas das duas Guerras Mundiais, num espaço que se expande entre Lisboa, Paris e a zona norte da Ilha de São Miguel, nos Açores, tudo enleado por breves romances de amor, tudo em termos fugidios como terá convindo aos terríveis tempos de guerra. Sem dramas, porém. E sempre presente a perspetiva cultural: a literatura, a ciência, as artes plásticas. O António Dacosta, o António Pedro, os surrealistas da Casa Repe, Bento de Jesus Caraça, a investigação sobre Pedro Nunes, o nosso matemático do tempo das Descobertas. Muito bom!

Para mim a novidade foi a descoberta da escritora Virgínia Folque de Castro que, no início do século XX, se dedicou a escrever (talvez dos primeiros) livros para crianças, livros sobre figuras importantes da História, argumentos para filmes. «A História de DonaRedonda», talvez o mais conhecido, por ter sido a primeira obra da literatura fantástica escrita em português.

Toda a história é relembrada e narrada em 1ª pessoa pelo cineasta Ayres de Aguiar, amigo da Senhora Dona Virgínia, a Gy dos livros infantis, depois de, já velho, se ter refugiado na sua velha casa na Lomba da Maia, na parte norte da Ilha de São Miguel.

Boa literatura! E sabem o que mais me chocou? Muito boa literatura por cinco euros em limpeza de stocks. Juro que nunca vi os livros destes “autorzinhos” da moda nem os best-sellers tipo Margarida Rebelo Pinto ou Rodriguinho dos Cantos a cinco euros para limpeza de stocks….


Mas, entretanto, o pessoal que tem estes gostos – ou outros piores – em termos de leituras em bom português, empenha-se muito na defesa da língua de Camões e até quer referendar o último acordo ortográfico…. De partir a rir!

quinta-feira, 9 de julho de 2015

O Palácio de Valenças

Encontrei este textinho encantador escrito antes da Primeira Reforma Ortográfica de 1911 no Rio das Maçãs e apressei-me a copiá-lo para o passar aqui já que deve fazer as delícias dos meus amigos que se opõem dramaticamente ao  Acordo Ortográfico de 1990. Desculpar-me-ão a ironia, mas veja.se só o que aqueles malandros fizeram à «língua de Camões» já no início do século passado... (e em todos os séculos para trás, claro!)

"Cintra era então um refugio, onde se gosava socegadamente longe do bulicio da cidade, sem importunos e sem caminho de ferro.

Podia-se ali viver por gosto alguns mezes do anno, os mais quentes, cada familia em sua casa, ou no hotel do Sant’Anna, o que valia o mesmo.

Passavam-se os dias em deliciosos passeios ora á Peninha, á Penha Verde, á Varzea de Collares, a Sitiais, a S.Pedro, onde se encontravam francas as quintas dos srs. Marquezes de Vianna e de Vallada, ou ao Duche a gosar a frescura perenne d´aquelle logar, onde a agua nasce borbotando da areia e as arvores seculares se fecham em cerrada aboboda, onde os passarinhos chilreiam e os doirados raios solares a custo penetram por entre a folhagem.

Pois foi n’este logar, onde se bifurcam as estradas que vão para a recente Villa Estephania e para a velha fonte da Sabuga, que o bem conhecido negociante da praça de Lisboa, sr. António Lopes Ferreira dos Anjos mandou edificar o palacio, que faz o assumpto da nossa gravura, palacio magnifico que attesta o bom gosto do seu fundador e que é uma das melhores coisas que ha para ver em Cintra.

O sr. Anjos confiou o risco e a direcção da obra ao notavel architecto italiano José Cinatti, mas não teve a satisfação de a ver concluida, porque a morte o arrebatou, em 31 de Outubro de 1879, tendo principiado a edificação em 1877.

Este palacio, assim como toda a propriedade do Duche, deixou o sr. Anjos a sua filha, a ex.ma sr.ª condessa de Valenças ficando assim vinculado a essa casa.(...)"

Excerto de um texto publicado na "Revista Occidente" em 15 de Julho de 1896


Junto tinha a respetiva gravura do grandioso e belo palácio.



Vista atual do mesmo Palácio, no qual funcionou a Biblioteca Municipal durante grande parte do século XX (onde li e requisitei tantos livros!)








(Brasão dos Condes de Valenças)

Vivi quase duas décadas ali por trás do Valenças...




segunda-feira, 13 de abril de 2015

Ainda a questão da língua

Como prometi na entrada de anteontem, trago aqui a posição do nosso Nobel da Literatura acerca da (pouca) importância que tem a ortografia (que é uma parte da gramática) no amplo universo da língua. Noutra altura trarei outros textos de grandes figuras das nossas letras para corroborarem esta ideia.

«Num programa de televisão em que se abordava a questão do acordo ortográfico, José Saramago disse: «Aprendi a escrever mãe com “e” no final, depois veio uma reforma e tive de aprender a escrever com “i” no final, veio mais uma reforma e voltou a ser com “e” no final. E com essas mudanças a mãe, posso-vos garantir, era sempre a mesma. E agora se mudarem de novo ela só não é mais a mesma porque já morreu.»

Esta relação com a língua, que é mais do que a soma das palavras ou das suas regras, visível em quase todos os seus textos (mas principalmente em Memorial do Convento), foi seguramente aquilo que mais me marcou em José Saramago. A língua precisa de seus sinais para se constituir como língua, mas os sinais são apenas sinais e não a língua, são as roupas e não a pessoa que as veste. Com esta posição, Saramago perguntava (nos fazia perguntar) onde estava a língua. O que é a língua? A palavra aponta coisas. Stone em inglês aponta o mesmo que pedra em português. Mas muda assim tanto, se for pedra? (…)

A convenção das sinaléticas da língua não deve desviar a nossa atenção do principal da língua: o desvelar de nós e do mundo; que tanto mais intenso e profundo será quanto mais exercitamos a língua. Podemos talvez não conseguir libertar o país, o povo, nós mesmos, mas podemos e devemos libertar a língua.»

(Paulo José Miranda, in Palavras para José Saramago, Lisboa: Caminho. 2011)




sábado, 11 de abril de 2015

Ensinem esta gente a falar português!

Anda meio mundo por este «jardim à beira-mar plantado» a bater no acordo ortográfico de 1990 por causa de menos um p ou menos um c que nem se pronunciam inventando mentirinhas e falácias como aquela patetice do «cágado» e do «cagado» (porque a ignorância é tanta que nem sabem que as esdrúxulas são todas obrigatoriamente acentuadas) e ninguém se preocupa em ensinar esta juventude a falar convenientemente.

Hoje telefonei para um restaurante que vende refeições para fora a fazer uma encomenda para um quarto para uma e diz-me a menina que me atendeu lá do outro lado: «então isso é para as 12 e 45, não é?» Depois de lhe parecer que eu estaria a falar chinês, acabei por lá chegar à hora marcada (fosse ela qual fosse…) e nem pedido havia registado! Mas isso é outro assunto que nada tem a ver com o conhecimento da língua portuguesa…


(Casa da Música - foto de F. Mendes)

Ontem, como toda a gente sabe, celebraram-se os dez anos da inauguração da Casa da Música e a TVI, numa iniciativa muito louvável, juntou-se às comemorações fazendo um acompanhamento próximo, divulgando o espaço, a sua construção, concertos, como os visitantes são conduzidos pela Casa por guias que vão mostrando e explicando o que deve ser conhecido. Muito bem! Quando lá fui há cinco anos, infelizmente ainda não havia este serviço. O pior foi ver uma jovem guia, que parecia bem conhecedora e bem desembaraçada, dirigir-se ao grupo de visitantes por «Vocês»… Apanágio da gente nova e dos vendedores que levam «injeções» de marketing à americana, ninguém lhes diz que o tratamento por «você(s)» não deve ser utilizado com pessoas que não conhecemos – é extremamente indelicado!!

Isto para não falar na «perca» (que não do Nilo, mas de oportunidades ou de direitos) ou no «houveram» com que os “nossos” bem-falantes políticos nos brindam constantemente, ou na avalanche de termos americanos infiltrados por via das ciências da gestão e sem os quais parece que já ninguém consegue viver.


É que a nossa língua, a dita «língua de Camões» com que toda a gente enche a boca para enfatuadamente atacar o pobre do acordo ortográfico de 1990, não precisa de infiltrações americanas porque é rica e plástica de mais! O pior é que também é difícil de mais e muitas dessas pessoas não a conhece bem.


(Casa da Música - Reflexos - foto de F. Mendes)

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Ai, a língua portuguesa!

Ouvi ontem o bolorento banqueiro Ulrich a dizer no telejornal: «Houveram bancos que…» quando se sabe que o verbo haver é um verbo impessoal que se usa apenas na 3ª pessoa do singular.

Outro dia atrás, na primeira página do meu jornal diário, vinha escarrapachado o título «Por   que o Brasil castiga as empresas portuguesas», quando deveria ser usada a forma «porque» tem um nexo causal. A forma separada «por que» usa-se em frases como «a razão por que …».

Algumas páginas à frente, numa entrevista a um ex-ministro, a primeira pergunta do jornalista começa assim: «Agrada-o que o Manifesto dos 74 (…) tenha chegado à Assembleia da República (…)?» Agrada-o? Agrada-o?! Então um profissional da língua não sabe quando há-de usar um complemento direto (o) ou um complemento indirecto (lhe)?

Noutro jornal daqui da cidade minha hospedeira pude ler outra pérola da língua que foi: «serviriam-lhes». É incrível a ignorância que envolve a pronominalização das formas verbais do futuro do indicativo e do condicional quer nos jornais, nas legendas e, no registo oral então, nem vale a pena falar!

Pior ainda é a importação de estruturas frásicas da língua inglesa e imediata colagem à nossa língua como é o caso do «É suposto» que é a tradução direta da passiva idiomática inglesa que não existe em português; e, mais irritante, a utilização do pronome «tu» em substituição da apassivante «se» que implica um maior esforço gramatical para o falante pouco conhecedor do funcionamento da língua. Por exemplo, para descrever um determinado procedimento, em vez de dizer «pegue-se em seis ovos, separem-se as gemas das claras, misture-se o açúcar com a farinha, utilize-se uma caçarola, etc…», o que implica a utilização do modo conjuntivo (que é uma dor de cabeça para muitos dos falantes) a pessoa – que se acha super-moderna – dirá: «tu pegas em seis ovos, separas as gemas das claras, misturas … etc, etc.»

E depois de todos estes atentados à nossa língua (e muitos, muitos outros) ainda há uma boa parte de pessoas, algumas das quais de elevado saber, que andam muito raladas com um «c» ou um «p» a mais ou a menos na ortografia de algumas palavras…





terça-feira, 5 de agosto de 2014

Dos seguros - parte II

Está na hora de me retractar do que aqui disse sobre os seguros (não sobre o Seguro, repito) na semana passada.

Dois dias passados sobre a minha conversa telefónica com o funcionário da seguradora que me atendeu e me foi dizendo que não tinha direito a nada e depois de eu lhe ter despejado em cima todo o meu educado sarcasmo, recebi a visita de um perito que conseguiu ainda vislumbrar o maravilhoso buraco aberto à porta de casa com os canos já reparados mas ainda à vista. Seco, sisudo mas ainda jovem, armado de computador, impressora, medidor electrónico e mais não sei o quê, depois de ver, fotografar, medir e remedir, perguntou se podia usar uma mesa onde dispôs toda a sua parafernália electrónica; fez cálculos e mais cálculo e depois de me perguntar se alguma vez tinha accionado o seguro e eu não, nunca, e ele, então como isto fica abaixo dos mil euros, vamos pagar-lhe X que dá à vontade para pagar as despesas.

Fiquei estupefacta! Assim, do nada…

Hoje fui à seguradora com a intenção (já antiga) de melhorar as condições do seguro – um upgrade….

Uma vez mais apreciei – sinceramente – os maneirismos de atendimento dos funcionários, digo, colaboradores, da seguradora: boa apresentação, cumprimentos de mão, tom modelado de voz, «peço desculpa», «dá-me licença», camisa azul anilado e gravata fininha… só que não há bela sem senão: a meio da explicação dos procedimentos e das hipóteses de mudança, o jovem colaborador diz-me: depois você vê o que prefere fazer.


Você? Deu-me vontade de lhe perguntar se por acaso tínhamos andado juntos na escola, mas refreei-me. Quando é que explicam a estes jovenzinhos, que se calhar até têm alguma licenciatura, que não se tratam os clientes, nem as pessoas que não conhecemos, nem as pessoas (muito) mais velhas por você?!


Que raiva! É que, além do mais, é mais um mau trato, um grande desconhecimento da nossa língua! Em português existem várias gradações no que toca à 2ª pessoa, especificidades que  a tornam complexa. Não é como na língua inglesa em que o you serve para todos os tratamentos entre as pessoas. E depois vêm-me com a teimosia de que umas alteraçõezinhas sem importância na ortografia de algumas palavras destratam a «bela língua de Camões»…

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Asneiras e Bacoquices

Como já deu para ver, não resisto a uma boa crítica a alguns «utilizadores/trucidadores» da nossa língua, por isso hoje vou transcrever uma crónica do sociólogo Moisés Espírito Santo que saiu no Jornal de Leiria do passado dia 12 e que tem o título de

Asneiras e Bacoquices

«Tenho momentos em que me entretenho a notar as asneiras em português ouvidas nas televisões. Não me refiro às pessoas entrevistadas na rua. Só tenho atenção aos jornalistas, políticos e outras personalidades.

Já se sabe que o Presidente da República (e de todos os portugueses) diz «cidadões» em vez de cidadãos. A presidente do Parlamento inventa palavras: «o inconseguimento... é frustracional» (deve ser para passar por sábia). Não há um assessor que aconselhe o ministro do Emprego e da Solidariedade a deixar de dizer «treuze»? Eu dir-lhe ia que «treuze» é uma saloiice chapada; seria menos criticável dizer «auga» em vez de água porque estávamos a usar uma metátese que é um fenómeno corrente na língua. Ao dizer «treuze» está-se, propositadamente e por vaidade, a tentar usar um processo provinciano de distinção bacoca.

Já se torna raro que alguém nas TV/s utilize correctamente o verbo haver que (aprendam por uma vez!) só se usa na terceira pessoa do singular. Um deputado perguntava ao chefe do governo: «Haverão mais cortes...?». Um jornalista disse: «Vão haver dois pedidos de esclarecimento...». Um anúncio oral na TV diz «Há cem anos não haviam telemóveis nem existia computadores». Duas asneiras. Digam-lhe que, se o verbo haver só se usa na terceira pessoa do singular, o verbo existir conjuga-se em todas as pessoas. Um cartaz da Unilever (entretanto retirado) dizia «Já experimentás-te o chocolate Olá?». Esta maneira de escrever o pretérito também é muito comum. Um rodapé da RTP dizia «Extra-munção» em vez de Extrema-unção. Se dissesse «estra-monção» até tinha lógica...

Um pivô do telejornal entendeu distinguir-se da gente comum dizendo que uma mulher islâmica tinha sido condenada por «apostásia» (duas vezes) em vez de apostasia. O mesmo pensou que seria mais chic nomear a capital da Turquia por Âncara em vez de Ancara. Um político dizia «inclusível» por inclusive. Outros pivôs ou jornalistas pressupõem que, perante uma palavra estrangeira, esta só pode ser do inglês: o termo item (que é do latim e significa «o mesmo») passa a ser dito «aitem»; climax (também do latim, «cúmulo»), ouvi-o a ser pronunciado «claimex». Já para o nome da cidade francesa Chamonix ouvi «Cheimonixe» e Nice, «Naice».

A par deste português cada vez mais mal falado vamos assistindo à invasão dum imenso palavreado inglês quando temos palavras que exprimem as mesmas ideias. Os programas das TV/s passaram a chamar-se Big Brother, Masterchef Portugal, Chef’s academy, Voice Portugal, A tua cara não me estranha - kids, etc. Isto só se justifica por uma palavra: estupidez. Falam mal a sua língua materna e fingem que «falam estrangeiro». (...) Ainda há pouco ouvi, num café, pedir uma «coca-cola leite» (em vez de light, [lait], fugindo-lhe o pé para o chinelo).

E que dizer da praga do inglês nas conversas, teorias ou tretas dos economistas - que fazem lembrar os astrólogos que também usam «língua de pau» para ludibriar - quando há expressões portuguesas exactamente equivalentes? O problema é que, com essa verborreia, os seus autores procuram distinguir-se dos indígenas que por cá vegetam. Isto faz-me crer que quanto mais avança a escolaridade, mais mal se fala a língua portuguesa.»


E, já agora, deixem-me perguntar (de forma retórica e nada mais...) quantas destas pessoas retratadas na crónica se dirão perentoriamente contra o último acordo ortográfico com a desculpa pseudo-purista de que não querem corromper a «bela língua de Camões»…

(gargalhadas...)

segunda-feira, 9 de junho de 2014

A minha pátria é a língua portuguesa

Deixei aqui dito há uns dias, a propósito do aforismo pessoano «o melhor do mundo são as crianças» que o bom do Pessoa não tem culpa nenhuma que lhe estafem as tiradas. E assim é! O mesmo acontece com o seu belo verso «tudo vale a pena se a alma não é pequena», com a sua tirada publicitária «primeiro estranha-se, depois entranha-se» e também com a extraordinária frase do Livro do Desassossego «a minha pátria é a língua portuguesa».



Lido mal com o chamado «lugar-comum» desde cedo e exultei quando aí por setenta e tal li um texto do poeta José Gomes Ferreira (não confundir com o papagaio de serviço da SIC) em que ele, no seu habitual tom irónico, faz o levantamento de todos os “bordões” de linguagem usados à época. É que nós, portugueses, por preguiça ou mesmo por falta de vocabulário, somos exímios em deixar que se nos colem ao ouvido palavras ou expressões que depois usamos até à metafísica (esta também é do Pessoa, mas muito pouco usada…)

Bom, mas para introdução, isto já vai longo. Trago aqui esta frase porque, de facto, eu gosto muito da nossa língua e, como já devem ter notado, não gosto de usar palavras emprestadas, nomeadamente do inglês (apesar de ser de Germânicas…) Gosto muito da minha língua ouvida falada, escrita, usada na poesia, no romance, no jornal, seja onde for, seja na sonoridade portuguesa, brasileira, africana...

Sou daquelas que não estou nada preocupada com o acordo ortográfico mais recente. Entendo-o e sei que acontece como já aconteceram uns tantos outros ao longo dos tempos. Já leram Saussure? Já leram Coseriu? Já leram Chomsky? Não? Então, leiam! E desenganem-se aqueles que muito pomposamente vêm com a falácia de que este acordo vem corromper a «bela língua de Camões» porque, garanto-vos que o Camões não escrevia a nossa bela língua de acordo com nenhum dos acordos ortográficos que conhecemos! Além de que as línguas corrompem-se é com o uso ao longo dos tempos e se não se corrompessem, a esta hora, ainda estaríamos a falar latim!

Lá estou eu a divagar!

Ora voltando ao tema: hoje li no jornal que as universidades portuguesas já têm mais de 170 cursos dados em inglês. E estavam todos muito contentes com o facto! Como se estivéssemos a vender cursos superiores para o estrangeiro ministrados em Portugal. Uma espécie de exportação, um empreendedorismo, como se diz agora! Assim como quem faz sapatos, ou camisas ou rolhas, ou garrafas de azeite ou secretos de porco preto para melhorar os níveis da economia.

Fiquei chocada! Se calhar é por estar velha, mas não dá para entender este novo-riquismo provincianês! E onde fica a nossa língua? Já não bastava assistir ao triste espetáculo dos “nossos” “governantes” a realizarem conselhos de ministros para inglês ouvir, senão agora também ver os nossos professores universitários a papaguear fórmulas químicas ou noções de literatura portuguesa em inglês…

Desculpem-me mas não serão estes sinais muito mais preocupantes do que tirar um c ou um p que nem é vocalizado de uma ou outra palavra?


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Dia da Língua Materna

 Por acaso não sabia que o dia 21 de Fevereiro tinha sido instituído pela UNESCO o dia da Língua Materna. E já foi em 1999! Fiquei a saber há pouco. Por isso ainda me deu tempo para deixar aqui um texto que li há algum tempo no blog sorumbático e que dedico especialmente a todos os meus amigos e outros que por aqui passem e que são manifestamente contra o novo acordo ortográfico.

Hum aucthor distincto e intellectualarchaico 

«Teophilo d’AssumpçãoThomaz era parocho e, em 1912, sem darsatisfacções sôbre a orthographia, prohibiu na sua parochia que apronuncia do Portuguez modificasse a ethymologia na escripta, decisão de Carolina Michaëlis, Cândido de Figueiredo, AdolfoCoelho, Leitede Vasconcelos e outros. 

O parocho defendia o systema de orthographia da monarchiacomo o chimico defendia os manipulados da pharmacia. As phrases da rhetorica,fructo do seu talento, e as do theatro de que era aucthor, tinham a syntaxed’esta lingua portugueza em que cantava os psalmos. Elle era humintellectual distincto, não na arithemetica e na gimnastica, com intrucção paraanalysar a incoherencia e a differença da orthographia dos scelerados.  

Teophilo odiava que o incommodassemcom o novo systema de orthographia, abysmo que não approvava. Mandou collocarannuncios nos edificios da parochia a prohibir a nova orthographia eaffligia-se com o que succedia nos novos livros.

Teophilo Thomaz foi um Vasco Graça Moura, fructo d’aquelletempo. Perdia a phleugma e ficava exhausto nos combates mas, prompto,salvava o estylo e os diphthongos, às vezescom uma lagryma propria de quem se offendia com aexpressão graphica das novas regras da Esthetica, que causavam damno à linguaportugueza. 

Gostava de lyrios e melhoravaa psychologia cantando psalmos. O extincto parocho não usou a assignaturaarchaica em paginas mal escriptas nem foi presidente do CCB.»

 Nota – Por decisão pessoal o autor do texto não escreveu segundo a Reforma Ortográfica de 1911.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Língua





Língua;
língua da fala;
língua recebida lábio
a lábio; beijo
ou sílaba;
clara, leve, limpa;
língua
da água, da terra, da cal;
materna casa da alegria
e da mágoa;
dança do sol e do sal;
língua em que escrevo;
ou antes: falo.

(Eugénio de Andrade, Rente ao Dizer)

(Ontem, por acaso, vi o programa Prova dos Nove. Não, não vou referir a discussão entre Pedro Santana Lopes e Fernando Rosas à roda do entendimento de democracia de cada um. O que me surpreendeu completamente e me deixou verdadeiramente espantada comigo própria foi o facto de ter concordado com o que foi dito (e com a forma entusiasta e esclarecida como foi dito) por Santana Lopes, enquanto discordei em absoluto da opinião (que denotou apenas falta de conhecimento) de Francisco de Assis sobre ... o acordo ortográfico.)