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quarta-feira, 22 de março de 2017

«Resposta ao pequeno holandês»

Bom, as gargalhadas que eu dei quando cheguei ao fim da crónica do Ferreira Fernandes no DN de hoje, a propósito das tolices que aquele holandês, Dij qualquer coisa, lançou pela boca fora sobre os povos do sul: "Não se pode gastar o dinheiro em copos e mulheres e logo depois pedir ajuda.

(Não fica bem falar de copos de vinho no Dia Mundial da Água, mas tem de ser…)

Já tinha lido toda a espécie de comentário no facebook, alguns bem furiosos, outros com muita piada, outros sérios, outras a desvalorizar… Enfim, no facebook encontra-se de tudo para todos os gostos, o que é por de mais divertido. E didático…

Agora, ligar aquela saída de muito mau gosto ao melhor da pintura que se fez na Flandres e depois terminar com a arte cerâmica das Caldas é que achei de mais!!

Então o cronista, em tom bem divertido, começa assim: «Ah, o que o noticiário de ontem me trouxe de arte e luxúria! Passeei-me pela Holanda, quando ela era grande e não só entreposto de impostos dos outros. Rembrandt em autorretrato, uma mão pousada no nadegueiro da sua mulher Saskia e outra levantando o cálice. Mulheres e copos.(…)»  

Depois faz um belo de um périplo pelos melhores pintores holandeses do século XVII que pintaram mulheres e vinho em situações menos próprias, terminando desta forma para além de hilariante: «Já para responder a Jeroen Dijsselbloem, um curso rápido de arte portuguesa chegava: um caralho das Caldas para ti, pequeno holandês.»

Vale a pena ler a crónica completa!


Entretanto, fui ver a tal brochura da Académie Amorim “O Copo de Vinho na Pintura Holandesa”, onde o cronista foi beber a inspiração e as referências artísticas e deixo aqui alguns dos quadros indicados.

Sei que vão gostar.


Auto-retrato de Rembrandt com a mulher Saskia

Frans Hals

Frans Hals

Gabriel Metsu

Vermeer

Jan Steen

Jan Steen

Jan Steen

Jan Steen

Jan Steen

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Em tática que empata não se mexe!

Não sou nada fã de futebol. Melhor: não ligo nenhuma ao futebol. O facto é que sou mesmo adversa à competição, por isso jogos não são para mim. Feitios, claro!!

Tenho, no entanto, a minha preferência (acesa) nas equipas nacionais, como alimento, por outro lado, o meu odiozinho de estimação (ainda mais aceso…). Nem uma nem o outro vão ser aqui desvendados, pelo menos agora, para não importunar os meus queridos amigos.

Também desejo muito que a seleção faça boa figura lá em França. Primeiro por nós e depois para mostrar a esses gauleses e afins que não somos nenhuma espécie de suburbanos – para não dizer pior. Mas não me detenho a ver os jogos porque não quero, nem por nada, despertar a minha taquicardia e também porque não percebo nada daquilo…

Todo este “relambório” para trazer aqui a espetacular crónica de Ferreira Fernandes, hoje, no DN, (enquanto não for também afastado do jornal, sei lá!) sobre o jogo de ontem, a qual me fez dar umas gargalhadas bem sonoras.

Reparem só na ironia da segunda frase do texto, como que decalcada no belo verso de Pessoa: «Deus quer, o homem sonha e a obra nasce»… Uma verdadeira delícia!

«Simplesmente, coerência. O engenheiro quer, a equipa empata e vamos em frente. Vai ficar nos anais dos confrontos este Portugal que estaca para ir cada vez mais longe. Quem era, ontem, para aviar? A Polónia, habituada a ser rasgada pelos panzers dos vizinhos. Baralhámos-lhe a tradição: ontem, calhou aos polacos a derrota por uns gajos sem repentes. Nós é mais demorar, embaraçar, embargar, estorvar, obstar, suspender e tolher - como ordenou o engenheiro. Para ter a certeza dessa progressão quieta, abrimos o jogo de portas abertas. Aos dois minutos, golo de Lewand... perdão, do engenheiro. A ordem dele era: "Que eles marquem primeiro, assim fica mais seguro não irmos por aí fora, de golo em golo como malucos..." Suspirámos, pois, de alívio com o golo deles. A perder, ficámos com a vantagem de sermos nós a impor o almejado empate. Marcássemos nós no início, corríamos o risco de eles aguentarem o resultado e ficávamos com quase hora e meia de vitória, um horror. Em 510 minutos jogados em França só estivemos a ganhar durante 22 minutos... Pronto, com o 0-1, ficámos nas nossas perdulárias CR7 quintas! Depois, lá empatámos, para continuar gloriosamente assim. Prolongamento. Desta vez, o engenheiro não admitiu o abuso do Quaresma contra a Croácia (golo aos 117 minutos): ontem, o prolongamento foi respeitado, nulo inteirinho. E só se desfez o empate nos penáltis e, atenção, no último. Pode ser feio, mas nunca nos vi tão empatados numa vontade. Confesso, adoro.»

Ferreira Fernandes, DN, 1/Jul/2016


(daqui)

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Notícias e comentários

«(…) Rui Machete é apenas mais um que não sai pela porta pelo seu pé nem é defenestrado porque Passos Coelho não vê, Paulo Portas não ouve (está sempre muito longe, desesperado a tentar ouvir a chegada dos sapatos milionários de Carlos Slim nesta sua viagem ao México de "sucesso e pêras"... e esperas, acrescento eu). E Cavaco Silva não fala, penando, em fim de carreira, como uma maldição, a autoria da frase mais descortês e cruel que foi dita nos últimos 40 anos sobre um Presidente da República, no caso, Mário Soares: "Vamos ajudar o senhor Presidente a terminar com dignidade o seu mandato." Deus não dorme, dizem os crentes. Mas seja Deus, Osíris ou a Ísis de Machete, alguém está a fazer Cavaco Silva beberricar em colherezinhas o seu próprio veneno: ninguém o ajuda a terminar com dignidade o mandato; não fala, tartamudeia, mastiga em seco, engrola palavras e ideias, dá-se a fanicos, enfim, quem com ferros mata...» (Óscar de Mascarenhas, 1/11/2014)

«Desde que as aulas começaram, pelo menos 5140 professores já mudaram de escola. E a dança das cadeiras parece estar longe do fim.» (2/Nov/2014)

«Os concertos do Tony são a única coisa que me move para sair de casa!» (3/Nov/2014)

«Durão Barroso recebeu a mesma condecoração que Mandela, Walesa e Xanana. E Salazar.» (4/Nov/2014)

«Merkel diz que Portugal tem licenciados a mais.» (5/Nov/2014)

«(…) Vim falar desta frase: “Acreditar que os estudos superiores são o caminho de uma carreira de sucesso é uma ideia errada, da qual devemos continuar distantes, senão não conseguiremos convencer países como Espanha e Portugal, que têm demasiados licenciados, quanto aos benefícios do ensino profissional.” E vim falar de quem a disse: a chefe do governo alemão. E onde: às associações patronais alemãs. O quê, quem e em que circunstâncias – é disso que falo. Ora, a percentagem europeia de licenciados é de 25,3 e a da Alemanha ligeiramente inferior, 25,1. Para defender os méritos do ensino superior, Merkel diria: “Patrões alemães, temos de fazer um esforço.” Se fosse o contrário, ela diria: “Patrões alemães, já temos licenciados que cheguem.” Mas não, ela trouxe portugueses (17,6 % de licenciados) para a conversa. Só há uma explicação, ela estava a dizer aos seus: “Com essas ilusões das universidades, os cafres não andam a mandar os serralheiros de que vocês precisam.”» (Ferreira Fernandes, 5/Nov/2014)

(sublinhados meus)

domingo, 7 de setembro de 2014

O Processo

Não, não vou falar de Kafka, mas tão-somente do do processo kafkiano que é a justiça à portuguesa. A propósito do desfecho do processo chamado de Face Oculta.

Entendi não me meter nisso. O facebook está pejado de opiniões críticas às decisões do juízes de Aveiro e até o meu querido Ferreira Fernandes tratou do assunto no seu jeito tão peculiar. 

Não resisto, porém, a transcrever para aqui o texto que o blogger Dieter Dellinger deixou no facebook, bem como parte de outro que retirei do seu blog.

Diz assim:

«O maior assassino conhecido em Portugal, o Vitor Jorge que matou na Praia do Osso da Baleia sete pessoas em Março de 1987, incluindo a mulher e a filha, foi condenado pelo juiz Gregório Simões a 20 anos de cadeia e saiu ao fim de 14 anos.

Haverá alguma comparação entre assassinar a mulher, a filha, o namorado desta e mais 4 amigos e um pequeno caso de eventual corrupção com oferta de uns robalos e até uns dinheiros que não foram provados, pois os robalos foram vistos por testemunhos, os 25 ou 50 mil euros dados ao Penedos e ao Varas ninguém viu.

O assassinato de sete pessoas deu dois anos por cada uma, sem esquecer a barbaridade de matar a própria filha e a mulher, o que já não é tão invulgar em Portugal devido à forma mole e atenuada com que são condenados os criminosos domésticos.

Um homem que não matou ninguém leva 17 anos porque os juízes querem vingar-se de duas coisas; do PS que lhes tirou os três meses de férias, deixando-os apenas com um mês como toda a gente e do fato de terem estado a escutar o Sócrates durante mais de um ano e o Noronha do Nascimento, presidente do STJ, ter mandado destruir as escutas porque o processo era de sucatas e Sócrates não falou desse assunto tão baixo com o seu amigo Varas.

Sócrates perguntou ao então administrador bancário Varas quem eram os donos da TVI e quem financiava a estação para o atacar tão vilmente. Pergunta que o Supremo Tribunal de Justiça achou normal e isenta de qualquer criminalidade, quando os juízes na sua fúria neurótica queriam fazer da pergunta um "atentado ao estado de direito". De resto, o termo “face oculta” pretendia dar a entender criminosamente por parte dos procuradores que a tal “face oculta” era a de Sócrates. Por vezes a Justiça em Portugal perde a cabeça e torna-se mesmo criminosa.

A Justiça só pode agir por atos e não por perguntas. De resto, as informações comerciais sobre qualquer empresa relatam isso. Saliente-se que o assassino libertado pela justiça portuguesa, Vitor Jorge, conhecido na prisão pelo "mata sete", vive atualmente em Nice e já ameaçou de morte uma sobrinha que vive em Paris e que, segundo um jornal, mudou de casa por isso. As autoridades portuguesas não comunicaram à Polícia Francesa a presença de pessoa tão perigosa porque acharam bem que fosse assassinar mais pessoas em França. O homem anda tresloucado e já tentou suicidar-se várias vezes e pode muito bem voltar ao seu desejo íntimo de matar pessoas em série.

Este texto foi cortado da minha página e de outras em que estava inserido. Juízes ou procuradores fazem censurar; pretendem ser a nova PIDE.»


No seu blog, escreveu:

Escutas Ilegais no Processo Face Oculta

Gostei de ouvir Sócrates salientar dois aspetos do Processo Face Oculta. Primeiro, foi escutado inicialmente de uma forma acidental porque era o Armando Varas a ser escutado e depois continuou a ser escutado durante meses pela PJ e Procuradores de Aveiro sem pedido prévio ao presidente do Supremo Tribunal de Justiça como manda a lei da República Portuguesa, a quem todos devem obediência; segundo, o presidente do STJ mandou destruir as escutas e quatro anos depois, estas mantêm-se intactas e fizeram parte da sentença escrita, neste aspeto ilegalmente, pelos juízes de Aveiro.

Nas escutas nada havia sobre negócios de sucata, pelo que é manifesto o crime praticado pelos juízes de não pedirem licença ao presidente do STJ e não obedecerem à ordem de destruição das escutas. Sócrates chamou-lhes indiretamente e muito bem de pistoleiros que eu considero com objetivos de massacre político. Os juízes de Aveiro quiseram e ainda querem "degolar" politicamente Sócrates com as tais escutas porque não lhe perdoam ter-lhes tirado os três meses de férias.

(…)

Recordo que a PJ e os procuradores chegaram a acusar Godinho de ter oferecido viaturas Mercedes de topo de Gama a Penedos e outros para se verificar depois que a Mercedes não vendeu nenhuma viatura dessas a Godinho ou aos seus colaboradores e Penedos e outros nunca tiveram esses carros em seu nome ou de familiares. O agente da PJ entrevistado hoje não conseguiu provar de onde vieram os tais Mercedes que ele disse terem sido oferecidos a Penedos e quem terá ficado com os mesmos, apesar de ter investigado todos os concessionários da marca.»

Por mim ainda me dá vontade de acrescentar o seguinte: 

Será que os juízes vão ter de igual modo mão pesada para os processos BPN e BES, ou vão concluir que não há provas suficientemente incriminatórias para penalizar os réus (quais?!) ou até, quiçá, deixá-los prescrever?

Deveriam atribui-los aos juízes de Aveiro que, ao contrário do ovos, de moles nada têm!

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O País a nu


Anda o país todo eriçado com as praxes desde que se deram aquelas seis inefáveis mortes à beira-praia vai para um mês.

Somos assim. Reagimos apenas quando algo de muito grave acontece. Somos do tipo reativo e a longo prazo. Uma pena. Um deixa-andar, um desleixo de pensamento, um desinteresse por tudo (quanto não seja futebol, voyeurismo, e carros a ganhar no Cola-Cau) que só se explica pela enorme ignorância e pelo imenso provincianismo que nos define.

Sempre me crispei (e encrespei) de cada vez, desde há muitos anos, que via aqui nesta pequena cidade onde vivo, hordas de miúdos “mascarados” com as capitas pretas (que por história e tradição apenas se viam em Coimbra) com as caras pintadas com marcadores e com um penico na mão a berrarem que nem borreguitos desmamados aquilo que um outro borreguito saído há mais tempo da barriga mãe lhes vociferava ao megafone. E mais eriçada ainda ficava quando, ano após anos, numa qualquer tarde de 5ªa feira de maio, se entupia a cidade com carros ditos alegóricos dos cursos (diziam eles) com récuas de fedelhos insanos atrás a encharcarem-se em latas de cervejas que emborcavam e arremessavam ao chão deixando no ar um fedor a álcool e a transpiração absolutamente nauseabundo. Passavam na estrada defronte da “minha” escola, enlouquecendo os miúdos pté-adolescentes que abandonavam desvairados as salas de aulas e acorriam imparáveis para os recreios já que aqueles lhes ofereciam cervejas por entre as grades. Os pais e as mães, muitos bem vestidos e rebentando de orgulho pelas figuras que os seus meninos-doutores iam fazendo, apinhavam-se nos passeios para verem o espectáculo do “cortejo” que demorava horas! E, ao fim da tarde, quando eu saía da escola, ia encontrá-los muitos deles e delas, perdidos de bêbados, a chafurdarem em T-shirt na fonte luminosa. Entretanto, já as equipas de limpeza da Câmara lhes tinham seguido no encalço para lavarem as ruas enlameadas de cerveja e recolherem as centenas de latas que ficaram pelo chão.

Posso, de facto, ser apelidada de velha antiquada, mas nunca quando andei na Faculdade assisti a nada parecido sequer com desmandos destes. Praxes nesse tempo havia-as quando os agentes da PIDE iam “assistir” às aulas de Linguística e de Literatura para espiarem falas e comportamentos de alunos e de professores e depois prendiam ou torturavam uns tantos…

Mas também não me lembro de qualquer das minhas filhas – e essas, felizmente, nascidas já depois de Abril – se submeterem às ordens esquizofrénicas de nenhum colega mais velho para depois ganharem o estatuto de esquizofrenia necessário para fazerem submeter outros mais jovens.
Por outro lado, também me farto de dizer que, se os meninos e meninas se “submetem” a estas “cenas” é só porque querem e acham giro. E não me venham com a treta da integração e de virem a ser postos de parte se não as cumprirem.
E, enquanto tudo isto foi acontecendo em onda crescente, toda a gente, pais, professores, responsáveis governamentais, sorria com uma bonomia amarela que talvez mascarasse, em muitos, o medo, o acanhamento de mostrar uma posição contrária. Tão giro! Os meninos a brincarem às seviciazinhas para mostrarem que eram… universitários! Muito degradante!

Mas calo-me já! E deixo aqui o melhor texto dos que tenho lido sobre este assunto da estupidez das “praxes”!

O País a nu, como no Meco.

Amanhã, os jovens corvos voltarão às ruas. Não se escondem, o fato é comum para todos, preto e sobre ele uma capa pesada, faça sol ou frio. Aqueles fato e capa não escondem, expõem a aceitação da mais bizarra das afirmações: somos manada. Num jovem não seria de esperar rebeldia e inquietude? Ora, ora, talvez agora o padrão seja outro, ser rancho, ser grupo. E de grupo sem mérito nem voo. Ali, naquele país inculto e pobre, anunciar pelo fato e pela batina uma conquista, mesmo patética, já é conquista: olhem, sou estudante universitário! Fica com a taça, jovem corvo. Nunca saberás que o mérito seria teres participado em debates e ganho, ou perdido, mas participado; seria teres gozado o prazer de aprender, de duvidar, de perseguires, mesmo erradamente, a luz. Mas esse não és tu. Tu, goza os teus três, quatro anos de fato de luto - o único diploma que te distinguirá a vida inteira, três, quatro anos a andar pelas ruas a proclamar nada. Entretanto, sobe um patamar e praxa. Isto é, leva a tua ambição ao nível dos fundilhos do teu traje. No começo, obedece e humilha-te. Serás premiado, depois, com mandar e humilhar. Fica-te por aí, rasteiro. De grande, só a colher de pau. Fica-te por aí, és o País. Sem saberes que um só dos teus podia redimir a todos. Um só estudante, bela palavra, no pátio de uma universidade, bela palavra, dizendo as mais certas das palavras para um jovem: não vou por aí.

Ferreira Fernandes, DN, 25 de Janeiro de 2014



quarta-feira, 17 de outubro de 2012

No jornal de hoje


Por vezes o meu jornal diário não traz “de jeito”. Quer dizer, não traz nada que realmente me diga alguma coisa, que me encha as medidas. 
  • Hoje, pelo contrário, traz muita coisa “de jeito”. Até porque é 4ª feira e é dia de crónica de Baptista-Bastos, o grande senhor da ironia mais fina, das figuras de estilo mais estudadas, da escolha das palavras mais adequadas à crítica mordaz das situações da atual conjuntura mais bem captadas. A crónica de hoje intitula-se “D. Policarpo não está cá” e zurze, da forma mais literária e mais elegante a «enormidade» e a «insensatez» das palavras que o cardeal que em tom grandíloquo chama de «o solene purpurado» recentemente proferiu contra o povo que saiu para as ruas a manifestar-se contra a opressão de que está sendo vítima diariamente às mãos de uns governantes que sofrem da «insolência de quem se julga detentor do direito absoluto». Penso que a frase que mais certeiramente pretende atingir o cardeal enquanto homem de Deus, da Igreja e da caridade cristã deverá ser a que diz: «numa altura em que o País vive uma crispação inédita, onde a fome, a miséria e a angústia estão generalizadas, as palavras de D. Policarpo não são, somente, insensatas – colocam o autor no outro lado do coração das coisas.» 
            Lê-se este texto e fica-se com o coração pesado, em sangue. 

  • Já a crónica de Ferreira Fernandes, Vítor Gaspar, o anti-Nobel primário, zurze forte e feio o “nosso” robot das Finanças comparando-o, ou melhor, anti-comparando-o com os dois americanos que ganharam este ano o Nobel de Economia. Diz ele com muita graça: «Leram as justificações do comité sueco ao atribuir o Nobel de Economia? É um ataque claro a Vítor Gaspar, só pode. (…) Se era para sublinhar exatamente o que Gaspar não sabe fazer – ele que até o seu Governo desune – não podia ser mais acintoso.» E, depois de quase rir às gargalhadas com o que desenvolve na sua breve crónica, termina: «Enfim, coisas da vida. Da vida, área que o nosso ministro das Finanças desconhece (e, suspeito, tem raiva de quem conhece). (…) Tudo o que foge ao acerto de contas é-lhe indiferente. Mas esse não é o problema maior. O problema maior é que, depois, ele não acerta as contas.»

    Lê-se este texto e, embora retrate uma realidade bem triste, ficamos com uma enorme vontade de rir. E rir faz bem!

  • Outro texto extraordinariamente justo, elegante e bem escrito – e que merece ser lido – é Para uma breve homenagem de Vasco Graça Moura sobre os 90 anos que escritora Agustina Bessa-Luís cumpriu ontem. É, de facto, nisto que VGM é realmente muito bom: a fazer crítica literária, a discorrer sobre a nossa Literatura, a escrever poesia ou a traduzi-la. Nunca – digo eu – deveria perder o seu precioso tempo a escrever textos de cariz político por ser insidiosamente tendencioso, aleivosamente demagógico, chegando muitas vezes a faltar à verdade da forma mais vil e perversa.