sexta-feira, 25 de novembro de 2011

A todas as mulheres que sofrem

No Dia Internacional da Luta pela Não Violência contra as Mulheres, deixo o belo poema de Gedeão, Calçada de Carriche, cantado por Carlos Mendes numa composição de José Niza (1972).                                                  


Luísa sobe, sobe a calçada,
sobe e não pode que vai cansada.

Sobe, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.

Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.

Anda, Luísa. Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas
não dá por nada.

Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu a sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.

Anda, Luísa. Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada,
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa, larga que larga,
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa, larga que larga,

Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.

Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada,

Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.




10 comentários:

  1. O poema
    (e a canção)
    mais ajustados ao dia...

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  2. Bela homenagem a um facto horrível!
    Eu assinalei o dia no FB!

    Abraço

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  3. Carol
    Bonita homenagem!!! Infelizmente este dia só é recordado uma vez no ano.
    Beijiho bom fim de semana

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  4. Bonita homenagem para viver e recordar todos os dias. Continuamos no submundo do crime da violência e do desrespeito pelos mais simples e mais fracos.

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  5. Há uns anos publiquei esse belíssimo poema lá no CR, a propósito do Dia Internacional da Mulher.
    Bom fds

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  6. Obrigada, amigos.

    É bem verdade, Luís. A violência não acontece apenas contra as mulheres; é contra todos os mais fracos: os velhos, as crianças, os simples, os deficientes, os animais. Pura cobardia.

    Flor, infelizmente a violência não é recordada apenas neste dia, mas de cada vez que é notícia nos jornais e isso acontece diariamente.

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  7. Querida Carol, sempre me cansou este poema! Mas o intuito é mesmo esse, verdade?

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  8. É isso mesmo, Manelinha, a intenção do poeta seria mesmo essa!
    Beijinho

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  9. Gosto muito deste poema. Tive uma grande professora de português no 10º e no 11º anos e lembro-me dela a declamá-lo, com um ritmo e força especiais.
    um beijinho
    Gábi

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  10. Um bom professor faz SEMPRE a diferença, não é?
    Obrigada pelo comentário.
    Beijinho

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