terça-feira, 30 de novembro de 2010

O Liceu Maria Amália


Não sou seguidora dos Morangos com Açúcar, mas também não tenho a pretensão de pertencer àquele número de portugueses moralistas e pseudo-bem-comportados que renegam com desprezo terem já visto uma ou outra novela ou uma ou outra série da novela para garotos com receio de que os apelidem de parolos ou incultos. Lembro-me que segui com menos do que com mais atenção a primeira série dos Morangos e que achei engraçado até porque tinha de estar “actualizada” para falar com os meus alunos sabendo do que falava. Nestas últimas séries até tenho assistido a alguns momentos de dança e de canto muito giras, bem treinadas, com boas vozes e miúdos e miúdas que se sabem mexer muito bem em termos de coreografias. Todos nos lembramos da Fame nos anos 80 e de como estávamos a anos-luz de distância daquelas actuações irrepreensíveis em termos de voz e de movimento.

Mas vem tudo isto a propósito do facto de terem sediado a escola dos Morangos – que aliás está muito mal desenhada com aquela directora ignorante e tonta e com aquele corpo docente constituído por apenas três ou quatro professores quase da idade dos alunos e com centenas de alunos – no Liceu Maria Amália.

Desculpem falar em Liceu e não em Escola Secundária como se passaram a designar os liceus depois do 25 de Abril, mas é que quando lá andei, era Liceu Maria Amália que se chamava. Liceu Feminino de Maria Amália Vaz de Carvalho. Porque naquele tempo, nos idos de 60, não havia mistura de sexos nas aula, nem nas escolas das cidades maiores, como era o caso de Lisboa. E naquele “meu” liceu, que era do mais fascizante que havia à época (talvez por causa dos recém-acontecidos casos Ballet-Rose) não entravam homens. Havia o jardineiro, o Sr. Carlos, que, no seu fato-macaco azul eléctrico, era mais velho que as árvores do recreio e, às vezes entrava o rapaz que entregava os bolos e as bananas no bufete. Imaginem que para o baile de finalistas do meu ano, a Senhora Reitora comunicou pelo seu inter-comunicador para as salas de aulas (que ela ligava quando muito bem entendia, para escutar o que lá se passava) que as meninas do 7º ano (ano das finalistas e que corresponde ao actual 12º) poderiam convidar rapazes até aos nove anos de idade. Estão a ver o estilo...

No passeio frente à entrada principal do Liceu não poderia haver ajuntamentos de alunas, nem namorados à sua espera e, na paragem do autocarro, era norma termos de dar a nossa vez na bicha (eu não gosto de dizer “fila” que considero um estrangeirismo) a qualquer professora que chegasse entretanto para apanhar um autocarro.

Imaginem o que a Sr.ª D. Maria Guardiola ou a Sr.ª D. Alice Andrade, (no Liceu nós tratávamos as professoras por Senhoras Donas e não por doutoras como agora) Reitoras daquele Liceu nos anos 50/60, pensariam e sentiriam se pudessem ter conhecimento que o seu Liceu, onde se pretendiam formar as elites femininas do salazarismo, está a emprestar a imagem a uma pseudo escola de dança moderna para uma série de televisão “duvidosa” que nem sequer passa no canal público...


4 comentários:

  1. Afinal na província a coisa não era tão grave!
    Por não haver tantos alunos, os liceus eram frequentados por rapazes e raparigas em turmas separadas até ao 5º ano e em turmas mistas nos 6º e 7º anos.
    E os reitores que tive no Liceu de Leiria e de Santarém só se preocupavam se trazíamos a bata vestida por baixo do casaco comprido no Inverno... :-))
    Imagina que nos mandavam desapertar o casaco!
    Claro que também havia ordens para não haver ajuntamentos de mais de duas pessoas frente ao liceu...:-))
    Que nós não cumpríamos!
    Sempre houve formas de resistir, não é Carol?

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  2. É claro! Encontrávamo-nos com os namorados mais abaixo, na outra rua, no Parque Eduardo VII (cuja passagem Sr.ª Reitora também proibia pelo seu inter-comunicador)ou no comboio para Sintra (que bom!) Também era preocupação da senhora da entrada ver se trazíamos bata e se trazíamos meias calçadas - até nos apalpava as pernas! Que ridículo!

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  3. Adorei o seu texto! Fiquei a saber muito mais sobre o Liceu Maria Amália, agora designado por Escola Secundária Maria Amália Vaz Carvalho.
    Poderia descrever-me como era a escola por dentro naquela altura?

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