domingo, 15 de março de 2015

Superstições

Não temos a culpa. Somos modelados sem que nos demos conta desde a mais tenra idade e vão ser esses arquétipos que nos vão marcar indelevelmente para o resto da vida. Por muito que os combatamos.

A avó com quem fui criada na infância, sem se dar conta, modelou-me à sua imagem e muito do que sou, como sou e em que creio tem a ver com ela. Dela – e também de minha mãe – herdei algumas crenças daquelas que, simbolicamente, eram passadas às mulheres e a muitos homens naquele tempo obscuro do Portugal de 40/50. Era, porém, de ideias bem arejadas a minha avó espanhola e até a minha mãe – foi o que valeu!

Nunca suportei ouvir cães a uivar – uma das crenças de miúda – porque sempre ouvi dizer que era sinal de morte próxima. Havia um cão grande na quinta de uma família inglesa fronteira à casa onde vivíamos em Sintra, Brownie, chamava-se e fazia os nossos encantos de bonito e majestoso que era! Na véspera de meu pai morrer repentinamente, toda a tarde o bom do Brownie uivou e toda a tarde estivemos, sem qualquer êxito, a mandá-lo calar.

Mais profunda se tornou em mim a aversão aos uivos dos cães.

(possível imagem do Brownie)

Foi, toda a semana, um exagero de uivos da cadela dos vizinhos da frente que encontraram eco noutros cães da rua. Várias vezes estremeci de vago susto tentando, ato contínuo, afastar da cabeça maus pensamentos.

Hoje aconteceu. Uma vizinha aqui da rua, na sua habitual pressa de uma vida feita de corre-corre, não respeitou a barreira que as cancelas baixas impunham aos automóveis, quis atravessar a linha antes do comboio – que passa ali ao fundo da minha rua – e foi mortalmente colhida por ele. Apesar de ronceiro, apesar de anunciado, apesar de alguns outros terem sofrido antes igual sorte.

São uns fofos, mas não suporto ouvi-los a uivar!


27 comentários:

  1. Um cão de uns vizinhos uivava quando eles iam para férias porque estava com fome, a minha mãe dava-lhe comida e ele parava de uivar.

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  3. Empolgante e assustador, este teu belo e arrepiante texto, Graça.

    É coincidência demais... Acho que os cães têm um instinto muito apurado e quem sabe não 'sintam' que algo de muito grave vai acontecer com pessoas que eles conhecem?
    Para quem conhecia a vítima, deve ter sido um choque terrível!
    É melhor perder um minuto na vida do que a vida num minuto! Palavras sábias da minha querida Mãe, quando carregávamos um bocado mais no acelerador do carro!

    Um beijinho.

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  4. Desde menina sempre ouvi isso e por isso mesmo também não suportava ouvi-los uivar. Há uns anos tive uns vizinhos com um cão que não suportava ficar sozinho, que desatava logo a uivar. Mal os donos saíam para o trabalho desatava a uivar até eles voltarem. Eu batia na parede e ele calava-se uns minutos e logo recomeçava.
    Fiquei vacinada. Se fosse o vaticínio da morte, não havia gente suficiente na zona para aquilo que ele uivava.
    Um abraço e uma boa semana

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  5. Também detesto, Graça.
    E também por influência da avó.
    Beijinhos, boa semana

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    1. As avós e a sua boa influência sobre os netos....

      Beijinho cá de longe.

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  6. ~ São aprendizagens que ficam registadas num lugar muito especial, relacionado com a auto-defesa. Perante o objecto, reagimos instintivamente.

    ~ Há muito, ensinaram-me que os cães uivam com saudade dos donos, parceiros ou cheiro de uma dama canina. De facto, cães mimados não uivam. Carinhos e companhia são o melhor remédio.

    ~ Não gosto nada de me cruzar com um gato preto, quando vou a conduzir, fico com uma má disposição visceral, que resiste ao bom senso e à prova de que a visão dos bichinhos nunca me provocou nenhum mal.

    ~ Primeiro reagimos por instinto e só depois racionalmente.
    ~ Felizmente, as gerações de hoje não são criadas com estes conceitos.

    ~ ~ ~ Excelente semana, Graça. ~ ~ ~
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~

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  7. A notícia trágica do acidente que por aí aconteceu ontem , incomodou-me e só vi na TV. Para quê tanta pressa ? Calma , na idade dela , minha , de muitos de nós , o plano já está inclinado e não devemos dar-lhe nenhuma ajuda.
    Quanto aos cães , aliás muitos animais têm a faculdade de perceber o que aí vem...isto é , se o bicho não é doido. Veja como no Japão , pelo comportamento dos animais sentem o aproximar de um sismo ?!
    No tempo da última guerra , li , que os patos e gansos eram os primeiros a ficar agitados com a aproximação dos aviões alemães.
    Ultimamente , até há cães treinados para farejar o cancro....Quanto mais para idosa caminho , mais respeito tenho pelos animais.
    M.A.A.

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    1. Têm, de facto, uma acuidade muito especial em sentir os fenómenos naturais.
      Mas foi chocante o que aconteceu aqui na rua, com uma vizinha conhecida de 40 anos. Mau de mais!

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  8. Lembro na minha aldeia, os mais velhos dizerem que o cantar da coruja durante a noite, perto das casas, anunciava uma morte.

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    1. Superstições... (e que ninguém diga que não tem ao menos uma...)

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  9. também não gosto de ouvir os cães uivarem mas, nada mais.
    Esqueça, Graça.

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  10. Lembra-se do meu poema - Sons da madrugada editado em 20/12/2014.
    Não morreu ninguém, graças a Deus ,mas eles uivaram bastante nessa noite.

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  11. Gracinhamiga

    Lagarto, lagarto,lagarto, figas e signo simão... :-) :-) :-) :-) :-) ;-)

    Qjs de Goa

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    1. Cruzes canhoto, gato preto, saramago, pé-de-cabra....

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  12. ~
    ~ Volto ao debate com a intenção de aliviar o teu trauma.
    ~ Eu também te entendo, porque - como expus - também sou vítima.

    ~ ~ De facto, os cães são capazes de feitos que nos parecem incríveis, todos baseados na extraordinária acuidade sensorial, nomeadamente, auditiva e olfactiva.

    ~ Um cão deitado no solo sente as vibrações que antecedem um terramoto e ouve o leve rumor que o estremecimento dos objectos provoca.

    ~ Tudo o que é extra-sensorial é adivinhação e de tal coisa, nem cão, nem bruxo é capaz.

    ~ ~ ~ ~ Precisas racionalizar e brincar com essas más sensações. ~ ~ ~ ~
    ~~Bjs~~~~~~~~~~~~~~~~

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    1. E é o que eu tento fazer, claro!! O racional tem de mandar mais que o extra-sensorial...

      Beijinho.

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  13. Li no jornal.
    Há coisas que escapam à nossa compreensão.

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