quinta-feira, 16 de junho de 2011

Lançamento de Livro na "minha" Escola



Recebi um amável convite da professora bibliotecária da "minha" escola (uma das minhas boas amigas que ainda lá tenho) para a apresentação de um livro de uma aluna de 9º ano. Uma aluna a editar um livro? Não posso deixar de confessar que fiquei bastante surpreendida. E lá fui, cheia de curiosidade.

Era, de facto, uma menina que eu conhecia bem desse o 5º ano, ano em que ela escreveu esta história que só no passado Natal o pai, como forma de presente, a mandou ilustrar e publicar. Chama-se "A menina sem nome" e versa o tema da generosidade, bem como a falta dela. É uma história muito bonita, muito graciosa, muito poética que se resume em poucas palavras:

Numa bonita manhã de Primavera um passarinho entrou no quarto de Mariana e levou-lhe o nome. A menina saiu de casa para o procurar, pedindo ajuda a várias pessoas. Quando estava prestes a desistir, desanimada, alguém com o coração cheio de ternura lhe deu a mão...


(Capa do livrinho)


(Apresentação do livro pela autora e pelo seu professor de Português
que escreveu o prefácio)


(Colegas de vários anos e turmas que assistiam à palestra)


(E também estavam presentes outras professoras e funcionárias)

Tantas virtualidades tem a escola pública e tão destratada tem sido! 

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Vai uma ginjinha?



Árvores carregadinhas de ginjas - que, infelimente, não são nossas...


Tão lindas!


Então pus-me a fazer ginjinha! É uma das tradições da casa. Daquelas que herdei da minha mãe. Eu não sei como é que ela tinha tempo para estas coisas, mas tinha. Era professora primária – como sempre se disse sem o medo das palavras que agora se tem! – no tempo em que uma professora tinha trinta e muitos alunos de todas as classes; fazia ensino individualizado com as meninas da 1ª classe; levantava-se muito cedo para “passar as cópias” para elas e para corrigir os trabalhos das outras; tinha a casa e a família com dois adolescentes para gerir – o que não é fácil! – dava, depois das aulas curriculares, as célebres explicações para o exame de admissão aos liceus e à escola técnica e ainda tinha tempo para fazer doces e bolos e camisolas de malha para nós dois. Claro que nem é preciso dizer que andava tudo a toque de caixa à frente dela especialmente eu e as alunas, coitadas!

Mas voltando à ginjinha. Um ano, lá pelo início dos anos 60, depois da elaboração do licor, lá foram os frascos para uma janela onde dava muito sol e onde haveriam de permanecer durante aproximadamente três semanas para se fazer a respectiva fermentação. Ora nós tínhamos em casa uma cadela fox terrier muito pespeneta que se chamava Laika, como qualquer cadela que se prezasse naquela época, e um gato lãzudo, preto, de olhos verdes que se chamava Fananuque – que era a distorção do nome Faruk que o meu pai lhe pôs por ele ser todo preto... E um dia, os nossos amigos desapareceram da nossa companhia. Onde se meteu a Laika? Onde estará o Fananuque?

É preciso dizer que nós morávamos num casarão, lá em Sintra, com duas alas de divisões divididas pela enorme sala de aulas e pelo imenso refeitório que, além de um ror de escadarias para baixo e para cima, tinha uma cave que dava para um jardim e para o enorme campo de ténis que servia de recreio para as alunas da escola. E os nossos animaizinhos, quais donos da casa, tinham acesso a todo esse espaço. De modo que, lá andámos, eu e o meu primo M. escada abaixo, escada acima, à procura deles.

Eis senão quando, fomos dar com eles, muito refastelados, na divisão onde estavam os frascos da ginja, um dos quais estatelado no chão e feito em pedaços, e os bons dos bichinhos a lamberem o líquido doce e bem alcoolizado... Foi uma risota! Porque eles estavam completamente bêbados! O gato não se aguentava em pé e a tonta da cadela até entrou às arrecuas para o caixotinho forrado onde dormia!


Bom, agora só falta deixar aqui a receita da ginjinha da minha mãe, que não pode ser mais simples:

A proporção dos ingredientes tem esta base:

1 kg de ginjas
1kg de açúcar
1 litro de aguardente

Descaroçam-se as ginjas, envolvem-se no açúcar e junta-se-lhe a aguardente. Mistura-se muito bem e verte-se para frascos que, bem fechados, se põem a fermentar ao sol durante três semanas.

Se possível longe da tentação de possíveis animais caseiros...



A descaroçar as ginjas, uma a uma, com agulha de croché


Agora, só daqui a três semanas...


terça-feira, 14 de junho de 2011

Falando de Pessoa




Devia ter sido ontem, dia do aniversário do seu nascimento. Mas ontem foi dia de homenagear o nosso Santo lisboeta. E hoje, ainda vamos a tempo de falar um pouco sobre grande Fernando Pessoa. Para isso, deixo aqui uma descrição da sua natureza e maneira de ser, nas suas próprias palavras:

"É necessário agora que eu diga que espécie de homem sou.

Não importa o meu nome, nem quaisquer outros pormenores externos que me digam respeito. É acerca do meu carácter que se impõe dizer algo.

Toda a constituição do meu espírito é de hesitação e dúvida. Para mim, nada é nem pode ser positivo; todas as coisas oscilam em torno de mim, e eu com elas, incerto para mim próprio. Tudo para mim é incoerência e mutação. Tudo é mistério, e tudo é prenhe de significado. Todas as coisas são «desconhecidas», símbolos do Desconhecido. O resultado é horror, mistério, um medo por demais inteligente.

Pelas minhas tendências naturais, pelas circunstâncias que rodearam o alvor da minha vida, pela influência dos estudos feitos sob o seu impulso (estas mesmas tendências) — por tudo isto o meu carácter é do género interior, autocêntrico, mudo, não auto-suficiente mas perdido em si próprio. Toda a minha vida tem sido de passividade e sonho. Todo o meu carácter consiste no ódio, no horror da e na incapacidade que impregna tudo aquilo que sou, física e mentalmente, para actos decisivos, para pensamentos definidos. Jamais tive uma decisão nascida do auto-domínio, jamais traí externamente uma vontade consciente. Os meus escritos, todos eles ficaram por acabar; sempre se interpunham novos pensamentos, extraordinárias, inexpulsáveis associações de ideias cujo termo era o infinito. Não posso evitar o ódio que os meus pensamentos têm a acabar seja o que for; uma coisa simples suscita dez mil pensamentos, e destes dez mil pensamentos brotam dez mil inter-associacões, e não tenho força de vontade para os eliminar ou deter, nem para os reunir num só pensamento central em que se percam os pormenores sem importância mas a eles associados. Perpassam dentro de mim; não são pensamentos meus, mas sim pensamentos que passam através de mim. Não pondero, sonho; não estou inspirado, deliro. Sei pintar mas nunca pintei, sei compor música, mas nunca compus. Estranhas concepções em três artes, belos voos de imaginação acariciam-me o cérebro; mas deixo-os ali dormitar até que morrem, pois falta-me poder para lhes dar corpo, para os converter em coisas do mundo externo.

O meu carácter é tal que detesto o começo e o fim das coisas, pois são pontos definidos. Aflige-me a ideia de se encontrar uma solução para os mais altos, mais nobres, problemas da ciência, da filosofia; a ideia que algo possa ser determinado por Deus ou pelo mundo enche-me de horror. Que as coisas mais momentosas se concretizem, que um dia os homens venham todos a ser felizes, que se encontre uma solução para os males da sociedade, mesmo na sua concepção — enfurece-me. E, contudo, não sou mau nem cruel; sou louco, e isso duma forma difícil de conceber.

Embora tenha sido leitor voraz e ardente, não me lembro de qualquer livro que haja lido, em tal grau eram as minhas leituras estados do meu próprio espírito, sonhos meus — mais, provocações de sonhos. A minha própria recordação de acontecimentos, de coisas externas, é vaga, mais do que incoerente. Estremeço ao pensar quão pouco resta no meu espírito do que foi a minha vida passada. Eu, um homem convicto de que hoje é um sonho, sou menos do que uma coisa de hoje."

1910?

(in "Fernando Pessoa Quando fui outro" por Luiz Ruffato, Alfaguara, Editora Objctiva, Lisboa, 2010)


segunda-feira, 13 de junho de 2011

Pedidos a Santo António





Faz hoje (123) anos que nasceu o grande, o nosso maior poeta do século XX, Fernando Pessoa.
Também se festeja o dia da freguesia de Leiria e, por coincidência, é também o dia do Agrupamento D. Dinis - vulgo, a "minha" escola.

Mas, mais que tudo, é Dia de Santo António. Dia de feriado em Lisboa, de marchas e bailaricos, de sardinhas assadas e de manjericos enfeitados de quadras populares. 




E, desta vez, também me atrevi a escrever algumas quadras populares - ou popularuchas! - com alguns pedidos ao Santinho milagreiro.

A ver se tenho sorte!

Ó meu rico St.º António,
Meu santinho milagreiro,
Traz alegria p´ra gente
E também algum dinheiro!


Se lá do alto avistares
Este blogger com seus autores,
Diz-lhes que mandem de volta
Todos os meus seguidores.


Tira o paleio aos políticos,
A fanfarra ao FMI;
Manda a troika arejar
Para bem longe daqui.


Nem Merkel, nem Sarkozy
Nos levam mais ao engano!
Temos o bom do Paulinho
Mais um Coelho africano.


Por isso, Santo Antoninho,
Meu pezinho de açucena,
Já estamos no bom caminho
De nós não há que ter pena...

domingo, 12 de junho de 2011

Adivinha


Hoje deixo aqui uma adivinha infantil para ver se os meus especiais amigos conseguem descobrir. Fácil de mais, como de costume, para amigos tão perspicazes...



Neste bairro nasci
nesta cidade cresci.
Mais tarde saí
Viajei.
Procurei.
Em muitas terras vivi
Numas destas morri.
Em todos os momentos o Amor aprendi.

Quem sou eu?


sábado, 11 de junho de 2011

Estamos quase lá!





Ontem de manhã, como habitualmente, enquanto tomava o pequeno almoço, tinha a televisão acesa no Canal 1 e, como os festejos do dia de Camões (e de Portugal) se realizavam em Castelo Branco, o apresentador do programa fez uma chamada para o repórter a fazer serviço na capital da Beira Baixa para saber o que se passava por lá no que tocava à organização dos espaços e dos tempos, sobre a chegada do Presidente da República, se havia muita gente por lá.

Não queiram saber! Apresentou-se um senhor de fato e gravata, com um ar muito circunspecto, extremamente contido, seráfico mesmo, a falar muito baixinho e muito pausadamente, deslocando-se quase a medo entre as pessoas a quem ia fazendo perguntas decoradas – ou devo dizer descoradas? – que previam as respostas politicamente correctas, como se diz agora. E, o que mais me incomodou foi o modo assaz subserviente como se referia ao Senhor Presidente da República e à hora da sua chegada, e das pessoas que, ansiosas o esperavam, e das enormes expectativas com que aguardavam o seu discurso – como se falasse da própria Divindade que estivesse para descer dos Céus ali de Castelo Branco!

Não era sequer o tom com que eram, em tempos, feitas as transmissões televisivas das peregrinações de Maio à Cova de Iria. Aquele tom sussurrado, provinciano e servil transportou-me, de imediato, para o tempo em que, na televisão e na rádio, os apresentadores tinham de se comportar como se estivessem na Igreja, escolhendo umas palavras e silenciando outras para não serem eles próprios silenciados.

Veio-me à cabeça o que a avó de um colega lá da escola disse quando se deu o 25 de Abril: “O tempo que vamos ter de esperar para voltar a pôr tudo na mesma!” Estamos quase lá!


sexta-feira, 10 de junho de 2011

Dia de Camões





Para mim, o 10 de Junho foi sempre o dia de Camões. Foi assim que me ensinaram lá em casa, já que fora decretado nos primórdios da jovem República Portuguesa. Luís de Camões representava o génio da pátria na sua dimensão mais esplendorosa, significado que os republicanos atribuíam ao 10 de Junho, apesar de nos primeiros anos da república ser um feriado exclusivamente municipal de Lisboa.

Com Salazar o dia de Camões passou a ser festejado a nível nacional, passando a ser conhecido como o dia de Camões, de Portugal e da Raça. Este último epíteto, da Raça,  foi criado por Salazar na inauguração do Estádio Nacional no Jamor em 1944. (Quem não se lembra da gaffe do actual Presidente da República, no ano passado, quando se referiu a este dia como o dia da Raça? ... Confusões lá da cabeça dele!)  A partir de 1963, o 10 de Junho tornou-se numa homenagem às Forças Armadas Portuguesas, numa exaltação da guerra e do poder colonial.

Depois da Revolução de Abril, mas apenas em 1978, o 10 de Junho passou a ser chamado dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas. Deixou de se assistir ao folclore das festividades fascistas apresentadas no Estádio Nacional à boa maneira hitleriana, para passarmos a ter outro tipo de folclore distribuído, em cada ano, pelas diversas cidades do país, com discursos de Estado e  imposição de insígnias a figuras que os vários Presidentes da República entendem que devem homenagear.

Folclore por folclore, eu prefiro dizer que é apenas do Dia de Camões, o grande poeta da Língua Portuguesa.

Assim, deixo aqui dois ou três poemas da sua vastíssima e riquíssima lírica.

Um dos seus muitos e belíssimos sonetos:

Que me quereis, perpétuas saudades?
Com que esperança ainda me enganais?
Que o tempo que se vai não torna mais
E, se torna, não tornam as idades.


Razão é já, ó anos, que vos vades,
Porque estes tão ligeiros que passais,
Nem todos pera um gosto são iguais,
Nem sempre são conformes as vontades.


Aquilo a que já quis é tão mudado
Que quase é outra cousa; porque os dias
Têm o primeiro gosto já danado.


Esperanças de novas alegrias
Não mas deixa a Fortuna e o Tempo errado,
Que do contentamento são espias.

Uma cantiga:

Mote


De que me serve fugir
da morte, dor e perigo,
se me eu levo comigo?


Voltas


Tenho-me persuadido,
por razão conveniente,
que não posso ser contente,
pois que pude ser nacido.
Anda sempre tão unido
o meu tormento comigo
que eu mesmo sou meu perigo.


E se de mi me livrasse,
nenhum gosto me seria;
que, não sendo eu, não teria
mal que esse bem me tirasse.
Força é logo que assi passe,
ou com desgosto comigo,
ou sem gosto e sem perigo.


E ainda o mais belo de todos os seus sonetos "Amor é fogo que arde sem se ver"  nesta engraçada versão figurativa que encontrei num blog chamado textos-e-reflexoes 




(informações sobre o Dia de Camões retiradas da Wikipédia)