A partir de hoje o aeroporto da
Portela passa a ser chamado de aeroporto Humberto Delgado, o militar português
da Força Aérea que mais lutou contra Salazar, candidatando-se à Presidência da
República em 1958 e enfrentado e suportando assim toda a espécie de ameaças, de
ilegalidades e fraudes durante a campanha eleitoral bem como no próprio
processo eleitoral. A sua intrepidez e temeridade que mostrou sempre contra o
ditador valeu-lhe passar a ser conhecido por General Sem Medo, mas também deu azo a ser morto pela polícia
política cinco anos mais tarde, no dia 13 de Fevereiro de 1965.
Hoje, dia em que se celebra o
aniversário do seu nascimento – 15 de Maio de 1906 – e por se lhe dever a
criação das primeiras ligações aéreas portuguesas, a República decidiu
homenageá-lo associando o seu nome ao principal aeroporto do país.
Vale a pena reler, no seu livro
de memórias, o que o próprio General diz acercado assunto.
«Quando os americanos convocaram
a Conferência de Chicago em 1944, Salazar ficou desesperado porque éramos a
única potência colonial sem ligação aérea com os nossos territórios ultramarinos!
Criou-se portanto o Secretariado de Aeronáutica Civil e fui nomeado director.
Começámos do zero porque, como
disse um americano, as linhas aéreas portuguesas consistiam em «um piloto, um
avião, um mecânico, uma carreira por semana para Tânger»! A 31 de Dezembro de
1946, inauguraram-se as linhas aéreas para Luanda e Lourenço Marques e, nesse
mesmo dia, pedi a demissão.
Era um trabalho difícil e um
pequeno incidente mostrará melhor como era a situação. O subdirector, nessa
altura major, hoje general, Humberto Pais, fora escolhido por Salazar sem me
consultar. Eu disse então a Salazar que não havia lugar para dois Humbertos à
cabeça da aviação civil, mas ele levou muito tempo antes de se decidir a afastá-lo.
(…)
Durante oito anos participei em
inúmeras assembleias internacionais democráticas e em dúzias de conferências
internacionais e negociações para vários tratados. Tudo isto dará alguma ideia
da experiência excepcional que adquiri em debate democrático e em tolerância, a
qual teve profunda influência no meu pensamento. (…)
A minha licença especial [como representante
nacional na NATO] terminou a 23 de Novembro, pelo que tive de regressar a
Washington, pagando a viagem do meu bolso. Quando por fim consegui voltar definitivamente
Portugal, em Setembro de 1957, não me foi dado qualquer comando militar, ou
porque já estivesse sob suspeita, ou por ser efectivamente malquisto. Retomei o
cargo de director-geral da Aviação Civil a 1 de Outubro de 1957.»
(in “Memórias de Humberto Delgado”, Humberto Delgado, Publicações Dom
Quixote, 2009, pp.94-95 e 116)