quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O 5 de Outubro em Leiria



(Representação da Implantação da República no Salão Nobre
da Câmara Municipal de Leiria - Jun/2010)

«Se a notícia chegou por telegrama ainda nesse dia 5, não seria de estranhar, mas nada na cidade o indicou. Contudo, no dia seguinte todos se mexeram sem dificuldades aparentes na distribuição dos novos cargos, como se a surpresa não fosse grande.

A confirmação veio durante a noite, com a chegada em automóvel de um casal de Ourém e foi na manhã do dia 6 que o alcobacense José Eduardo Raposo de Magalhães recebeu a nomeação por telegrama às 11.45. neste da, muita gente saiu à rua. Uns com grande entusiasmo, outros por curiosidade e expectativa, ou até pelo receio de serem apontados a dedo. Curiosamente, foi o próprio presidente da Câmara monárquico, Correia Mateus, que fez a proclamação local da República, ás 16 horas a partir da janela do edifício camarário, entregando de seguida as chaves do edifício ao republicano Gaudêncio Pires de Campos.

Logo no dia 7, já após a tomada de posse do novo governador civil, Raposo de Magalhães, assumia também funções a nova Comissão Administrativa Municipal, que seria presidida pelo venerável da Loja Maçónica Gomes Freire, Inácio Veríssimo de Azevedo, tal como para a Junta de Paróquia seria destacado o “histórico” comerciante democrático José Carlos Afonso. Estas nomeações, óbvias, teriam, no entanto, sido precedidas de uma calculada e preventiva proposta do presidente da Câmara cessante, Correia Mateus, também ele, afinal, iniciado maçon.

Os meses de Outubro e Novembro foram de preparação no reposicionamento das elites. A partir deste último mês, com a sucessão de eleições nas diversas associações profissionais (Comercial e dos Operários de Leiria) e mesmo recreativas (Assembleia e Grémio), acenderam uns, reciclaram-se outros, sendo ainda substituídos o administrador do concelho e os regedores. (...)

O estatuto de governador civil e o seu impacto público na I República eram claramente desvalorizadas em comparação com o regime monárquico onde a representação do Governo Central ganhava uma maior projecção, levando geralmente a um nítido eco por parte da imprensa, sobretudo quando se dedicava às causas locais.

Um bom exemplo disso mesmo foi o que tivemos em 1907 com a criação da Liga dos Interesses de Leira, sob o patrocínio do governador civil José Jardim que reuniu na mesma assembleia todo o escol monárquico e republicano, apelando tanto ao bom senso da Câmara regeneradora como do Governo de João Franco para diversas questões infra-estruturais do concelho.

Nada disso viria a passar-se após 1910. (...)

Com o conforto de um relacionamento muito chegado entre os líderes locais e o Directório do partido e mesmo com o novo Governo, os republicanos de Leiria pareciam convencidos que iriam inverter o tradicional conservadorismo da região. Não só Bernardino Machado era um amigo, como João Soares e outros que viviam em Lisboa frequentavam o círculo restrito da cúpula partidária, o que se confirmaria pelos cargos que viriam a exercer. Também mais tarde, as relações de amizade entre o menos moderado Tito Larcher com Júlio Dantas trariam para Leiria alguns equipamentos culturais. (...)»

In “Leiria Roteiros Republicanos” Acácio de Sousa


terça-feira, 4 de outubro de 2011

No Dia do Animal



(Clique na imagem para ver o movimento)


E assim vamos de Dia em Dia. Hoje é o do Animal e, em vez de deixar aqui apelos avulsos para que se não maltratem os nossos semelhantes do reino animal, resolvi trazer um texto engraçado e algo didático que nos compara a outros seres que não primatas.

Mas atenção! Não pensem que o que aqui vai ficar escrito tem alguma coisa a ver com as outras representações que habitual e quotidianamente temos dos animais aqui referidos. Nem a favor do Benfica (t’arrenego, saramago, pé de cabra!) nem contra os nativos de Áries nos quais orgulhosamente me incluo!

Diz então o texto:

«O mundo é composto por dois tipos de pessoas, carneiros e águias. Os dois podem coexistir, pois nenhum deles é um predador para o outro. Noventa e cinco por cento da população enquadra-se na categoria dos carneiros. Eles são a espinha dorsal da população. Cinco por cento enquadra-se na categoria das águias (é por isso que as águias estão na lista das espécies ameaçadas de extinção). Não é uma questão de bom e mau, apenas um facto da personalidade com que as pessoas nascem. Os carneiros vivem em grupos, vêem as coisas a partir do chão, constituem a maior parte da força de trabalho e assim não diferem muito uns dos outros à excepção da aparência física. Os carneiros têm uma qualidade universal inerente. Há carneiros bons e carneiros maus e o mesmo se passa com as águias.

As águias vivem no alto das fragas, não seguem as massas, levantam voo livremente, vêem as coisas a partir de um panorama aéreo e são muito independentes. Não pode haver muitas pois elas não vivem em grupo. Não caçam carneiros, mas também não estão realmente interessadas neles, mas os carneiros gostam de assistir ao voo das águias. As águias são pessoas como Bill Gates, que mudam o mundo com as suas invenções, ou Warren Buffet, que dá quarenta mil milhões de euros para caridade3, melhorando centenas de milhares de vidas. Podem até mesmo ser Hitler, pois não é a espécie que os torna bons ou maus; isso é escolha delas. Águias são aqueles sobre quem lemos nos livros de história. São os artistas, os estilistas de moda, os inventores, os arquitectos, os artistas de espectáculo, os presidentes, os cientistas, etc. que deixam uma marca tão grande no mundo que perdura até muito depois de terem passado por esta esfera terrestre. Os carneiros não conseguem compreender a mente e a alma de uma águia e uma águia não consegue viver confinada na mediocridade. Não é que os caneiros não tenham talento ou inteligência; o que eles não têm é personalidade para alcançar todo o seu potencial. Os carneiros são sonhadores, mas não estão dispostos a fazer os sacrifícios necessários para serem verdadeiramente bem-sucedidos a nível global e a águia tem de correr esses riscos, sensatos ou não, pois a vida de um carneiro é pior do que a morte para elas.

Ambos são como o universo projectou que fossem e ambos são igualmente importantes para o futuro do mundo. Nos negócios como na vida diária, é importante perceber com qual deles estamos a lidar. Se estivermos à espera de que um carneiro aja como um carneiro e uma águia aja como uma águia, não ficaremos desapontados, mas nunca devemos esperar que ajam da mesma maneira.»

(Lorre White, in Life)

Agora, caros amigos, não nos ponhamos todos a pensar que somos todos águias….



 




segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Procissão na minha rua




A minha rua é apenas uma afluente da rua principal do sítio – subúrbio de Leiria que nem aldeia é – onde moramos há muitos anos. Isto vem ao caso para falar da festa do Bairro das Almoínhas que se realiza sempre no primeiro fim de semana de outubro e cuja procissão de Nossa Senhora vem, desde sempre e sem falhar, lá do Bairro, pela Estrada da Estação para entrar na minha rua, a tal afluente, no fundo da qual pára tudo – padre, andor e fieis acompanhantes – para procederem a uma pequena celebração, uma vigília, ou como lhe queiram chamar.


A minha pouca, pouquíssima, mínima educação religiosa não chega para perceber porque é que a procissão vem de lá de longe passar por esta rua e não pela rua principal, mas dá para entender o zelo, o carinho e o divertimento até, com que grande parte das moradoras aqui da rua adornam, dias antes e ano após ano, as casas, as suas e as outras – como é o caso da minha – para receber a visita da Senhora.










E, pelas nove da noite, de sábado, o cortejo chega então à nossa rua, com a Senhora num pequeno andor atapetado de flores brancas, a voz do padre rezando ouve-se através da aparelhagem sonora e o corredor de fieis segue, cantando e rezando, animado pelas velas acesas que empunham cheios de fé.



A minha neta Elisa, que veio com os pais e com o pequenino Eduardo jantar cá a casa, encantou-se com a ornamentação da rua sem perceber do que se tratava e ficou entusiasmadíssima com a perspetiva de assistir ao vivo e a cores a uma coisa que não fazia ideia nenhuma do que se tratava.

O facto é que eu que não vou a missas, reprovei três anos na catequese por faltas, fiz apenas a primeira comunhão tarde e a más horas – já tinha onze anos! – não casei na Igreja (para grande escândalo da minha mãe) nem batizei as filhas (para ainda maior tristeza da minha mãe) dei comigo a ver passar a procissão com a Elisa no colo e, de vela em punho, lá segui o ajuntamento com a neta pela mão até ao fim da rua...



domingo, 2 de outubro de 2011

É dia de lembrar a minha Mãe



Hoje é dia de lembrar a minha Mãe.  Não vou, porém,  falar dela porque isso daria uma novela... Vou deixar aqui umas fotografias dos seus tempos mais antigos e elas falarão por si.


A minha mãe aos quinze ou dezasseis anos, sorridente e brincalhona.


Ali, ao centro, risonha como sempre, num passeio a Caxias,
com o irmão Mário (que sempre a acompanhava) o 1º da esquerda.


Em Algés, à porta de casa, com amigos, elegante e bem disposta,
em 1946, ano em que conheceu e casou com o meu pai.

 Num picnic, com o meu pai, pouco antes de eu nascer, em 1948.


A primeira da esquerda, frofessora na Escola de Stª Maria, em Sintra no início dos anos 60.
Austera, como convinha à época.


 
Partiu, sem sequer ter tido tempo de se despedir da vida, faz hoje 23 anos. A sua última palavra foi «Ana», o nome da minha filha mais velha.
Tinha 62 anos. Apenas.


sábado, 1 de outubro de 2011

No Dia da Música


 

Na Casa da Música

A Música – como a Mulher – não precisaria de um Dia Internacional. Todos os dias são dias da música. A música nasceu com a Natureza que se nos apresenta toda ela numa pauta matizada e policromada que alterna sons e silêncios. É a mais pura, a mais completa e a mais abstrata das artes, a que nos entra e toca no mas físico e no mais sentido de nós sem que a possamos ver.

Mas é moda esta dos dias internacionais. Mandam os States e a ONU e pronto! Por mim, se fosse preciso, guardaria o dia 22 de Novembro – dia de Santa Cecília, padroeira dos músicos – para celebrar a música.

Toda a gente gosta de música. Ou melhor, quase toda a gente gosta de música. Há os (poucos) que não lhe dão muita importância e que o admitem e há os que não ligam muito mas dizem que gostam para não parecer mal – como em tudo e não apenas na música. Como aquelas pessoas – e todos nós conhecemos uma ou outra – que, sem terem tido qualquer educação musical ou sequer o hábito de ouvir música clássica, têm o carro ou o escritório inundados de música sinfónica, ou de câmara, ou de ópera que se obrigam e aos outros a ouvir apenas para impressionarem.

Difícil é escolher um tema para celebrar este Dia da Música: os géneros são tantos, os estilos são tantos, as canções são tantas, as árias, os trechos e as minhas preferências são ainda mais. Queria muito recordar aqui a primeira música que dancei – com o meu pai – na minha festa dos 13 anos, a primeira para a qual pude convidar alguns amigos da escola, e que foi My Foolish Heart pela finíssima orquestra de Mantovani. Mas, com grande pena minha, não encontrei na net gravação dessa versão para expor aqui. Por isso virei-me para as “minhas raízes” que foram criadas e lançadas baseadas nos gostos musicais do meu pai que tendam para a música americana e sul americana dos anos 40 e 50 – nunca vou esquecer a grande, a estupenda abertura dos Jogos Olímpicos de Los Angeles, no verão de 1984, a única que segui do princípio ao fim, e que fez uma retrospetiva das excelentes música e dança norte americana – e aí escolhi uma canção lindíssima – Tonight – do extraordinário musical de Leonard Bernstein, West Side Story, numa interpretação de grande excelência.






sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Tradutores





Fiquei a saber pela minha querida amiga e antiga aluna Rita “Aimée”, tradutora de formação e de profissão (a quem dedico a entrada de hoje), na sua página do Facebook, que hoje é o Dia Mundial do Tradutor. E lembrei-me de um pequeno texto de Sofia Barrocas sobre a árdua tarefa dos tradutores, que li e tenho guardado desde Maio último à espera do momento oportuno para o trazer para aqui. Hoje é o dia ideal para o fazer.

Fiquei a saber que foi escolhido o dia 30 de setembro para celebrar os profissionais de tradução por ser o dia de S. Jerónimo, patrono dos tradutores, que foi quem recebeu do Papa S. Dâmaso, no século IV, a incumbência de traduzir a Bíblia do hebraico para o latim.

Diz então o breve trecho:

«Há uma profissão tão difícil quanto delicada e muito pouco reconhecida: a dos tradutores. Embora quase nunca pensemos neles, um tradutor é tão importante como um autor. Em textos técnicos, um erro de tradução pode implicar prejuízos de milhões, quedas de infra-estruturas, conflitos diplomáticos e uma miríade de inimagináveis desastres. Em textos literários, pode implicar o sucesso ou o fracasso de um escritor: uma má tradução torna impossível - ou, pelo menos, desgastante – a leitura de uma obra, nem que tenha sido escrita por um dos maiores génios da literatura. Mesmo sem termos a menor noção do texto original, tropeçamos nas frases, chocamos com incongruências, sentimos que alguma coisa “não está bem”. Uma boa tradução faz-nos aderir ao universo do autor, deixa-nos subentender as nuances de uma língua que não dominamos, permite-nos entrar noutros mundos. E tão importante é a tradução de uma obra de um elaborado poeta do século XVII como a de um livro infantil de «bonecos». (...)»

Sofia Barrocas
Notícias Magazine, 15 de Maio de 2011

Por mim, as minhas preferências de leituras foram sempre para as obras de autores portugueses para evitar a(lguma)s traduções. Lembro-me de ter desistido da leitura de O Erro de Descartes de António Damásio pela tradução pobre que dele foi feito para a nossa língua. Por outro lado, não podemos deixar de pensar que muitos dos nossos melhores autores e, em especial, poetas, são ou foram também tradutores. É o caso de Jorge de Sena, Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner, Fernando Pinto do Amaral, Nuno Júdice, João Barrento, José Agostinho Baptista, Mário Cesariny, para não falar de Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós e muitos, muitos outros excelentes autores portugueses.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A minha Avó





Esta é uma fotografia da minha avó materna quando era ainda solteira e vivia na sua terra natal, Calañas, Rio Odiel, Huelva. Lá nasceu no dia 29 de setembro de 1895. Faria hoje... muitos anos.

Veio para Portugal ter com uma das irmãs mais velhas, no ano de 1926, viúva, com dois filhos e depois de ter perdido outros dois - Lucas e Francisco - que, tal como o pai,  por lá ficaram sepultados.


(Não é uma graça este passaporte?)

Anos mais tarde, quando resolveu voltar a casar cá em Portugal e precisou de documentos de registo de nascimento, teve imensa dificuldade em consegui-los porque os registos tinham ardido ao tempo da Guerra Civil. Depois de muito andar e mexer junto do Consulado e da Embaixada espanhois, lá conseguiu, passados anos e muitas manobras, um certificado de nacionalidade que, dizia a minha avó, vinha com o ano de nascimento errado... Verdade ou não, o certo é que sempre brincámos com ela relativamente à idade que tinha (ou não)...


Era a minha avó do coração.  Era a minha Memé - como eu a chamava. Nasci em sua casa, quase vivi com ela até aos dez anos e quando enviuvou pela última vez, tinha eu 14 anos, veio viver connosco para Sintra.  Quando vim viver para Leiria, veio comigo. Ajudou a tratar da minha filha mais velha e saiu de minha casa para a sua última morada em 28 de Dezembro de 1982.

Não era uma pessoa fácil, não senhor! Não se dava muito bem com a filha, a  minha mãe (que também não fácil, diga-se!), e fez "a vida negra" à nora (que era um doce de pessoa). Mas era a minha Memé e eu gostava muito dela.