sábado, 20 de janeiro de 2018

Ciumes


Arlequim e Colombina de José de Almada Negreiros


Pierrot dorme sobre a relva junto ao lago. Os cisnes junto d’elle passam sêde, não n’o acordem de beber.

Uma andorinha travêssa, linda como todas, avôa brincando rente á relva e beija ao passar o nariz de Pierrot. Elle accorda e a andorinha, fugindo a muito, olha de medo atraz, não venha o Pierrot de zangado persegui-la pelos campos. E a andorinha perdia-se nos montes, mas, porque elle se queda, de nôvo volta em zig-zags travêssos e chilreios de troça. E chilreia de troça, muito alto, por cima d’elle. Pierrot já se adormecia, e a andorinha em descida que faz calafrios pousou-lhe no peito duas ginjas bicadas, e fugiu de nôvo.

                De contente, ergueu-se sorrindo e de joelhos, braços erguidos, seus olhos foram tão longe, tão longe como a andorinha fugida nos montes.

                De repente viu-se cego – os dedos finissimos da Colombina brincavam com elle. Desceu-lhe os dedos aos lábios e trocou com beijos o arôma das palmas perfumadas. Depois dependurou-lhe de cada orelha uma ginja, á laia de brincos com joias de carmim. Rolaram-se na relva e uniram as boccas, e já se esqueciam de que as tinham juntas…

                - Sabes? Uma andorinha…

                E foram de enfiada as graças da ave toda a paixão. Pierrot contava enthusiasmado, olhando os montes em busca da andorinha, e Colombina torceu o corpo numa dôr calada e tomou-lhe as mãos.

                Havia na relva uma máscara branca de dôr, e a lua tinha nos olhos claros um um olhar triste que dizia: Morreu Colombina!

(José de Almada Negreiros, in Orpheu I, 1915)

Não suporto o ciúme, (eu sei que ele existe e estou a sentir-lhe o cheiro acre muito de perto...) mas descrito assim… quem lhe pode resistir?



sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Século XXI



A propósito do excelente programa documental  «2077 - 10 Segundos para o Futuro» que a RTP1 tem passado à terças-feiras, lembrei-me do poema «Século XXI» de Fernando Pinto do Amaral.


Falam de tudo como se a razão
lhes ensinasse desesperadamente
a mentir, a lançar
sem remorso nem asco um novo isco
à espera que alguém morda
e acredite nessa liturgia
cujos deuses são fáceis de adorar
e obedecem às leis do mercado.

Falam desse ludíbrio a que chamam
o futuro
como se ele existisse
e as suas palavras ecoam
em flatulentas frases
sempre a favor do vento que as agita
ao ritmo dos sorrisos ou das entrevistas
em que tudo se vende
por um preço acessível: emoções
&sexo&fama&outros prometidos
paraísos terrestres em horário nobre
- material reciclável
alimentando o altar do esquecimento.

O poder não existe, como sabes
demasiado bem-apenas uma
inútil recidiva biológica
de hormonas apressadas que procuram
ser fiéis ao comércio
dos sonhos sempre iguais, reproduzindo
sedutoras metástases do nada
nos códigos de barras ou nos cromossomas
de quem já pouco espera dos seus genes.


Fernando Pinto do Amaral
(in Luz da Madrugada)

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Casa de intelectuais...

Pois é para que conste: cá em casa somos todos tão intelectuais, mas tanto que até as gatas se interessam pelas fontes do saber...










Se isto é com as gatas, imagine-se o que não será com os donos...

(gaba-te, cesto!!)

domingo, 14 de janeiro de 2018

Dia de Reis

Juro que não estou trelida! Ainda...
Tal como "o Natal é quando um homem quiser" - Ary dixit - também o Dia de Reis é quando um homem (ou uma mulher) quiser, pois então!

Então não é que ontem me apareceu aqui uma amiga com este bolo-rei (ou rainha, ou seja lá como se chama!)? E foi ela que o fez! Ora vejam. 



E agora sem capota...



E este veio hoje - de uma das filhas. Mostro-o cortado para verem bem o interior.

Feito a pensar no sportinguista nº 1 da casa, que está doentinho...




Espero que estejam já a salivar...

Boa e doce semana para todos!

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Assédio

O tema está na ordem do dia.Com todas as verdades e com todos os exageros. 

Veio de Hollywood e até a Catherine Deneuve se meteu ao barulho.

E hoje dei com este caso. Grave.




quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Obrigada!

Dizem as redes sociais que hoje se celebra o Dia Internacional do Obrigado (por elas criado, aliás). 

Então é dia - como o são todos os dias - para agradecer a todos os amigos que por aqui têm passado e que têm deixado palavras carinhosas, de ânimo e de coragem. O meu mais sincero e sentido Muito Obrigado!



A primeira vez que fui a Inglaterra, nos idos de 70, já depois da Revolução, fiquei por de mais admirada com a frequência com que os ingleses agradeciam e pediam por favor. Nos restaurante, nos cafés, nas lojas, sempre diziam um "thank you" depois de nos servirem o que tínhamos pedido. Não estava instituído esse hábito por cá.

Felizmente, aos poucos, - poucos que são muitos dado o salto civilizacional, cultural e educacional que demos em tão pouco tempo (40 anos são pouco mais do que uma geração) - o atendimento por cá sofreu uma evolução enorme e já são poucos, quer atendedores quer atendidos, os que não têm uma palavra de agradecimento ou um pedido por favor.

(Há, porém, ainda muita arrogância para arrasar...)




terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Desculpem qualquer coisinha...

Falhas de textos meus, falhas de publicações diárias, falhas – e grandes – de visitas aos blogs amigos e de comentários às respetivas publicações, falhas de atenção…

… que me desculpem todos. 

Desde o passado dia 28 em que o meu companheiro de uma vida foi longa e delicadamente intervencionado, parece que não consigo concentrar-me nas rotinas habituais, parece que tudo está diferente… entontecida me sinto.

Além de que, regressado a casa passados dez dias, os cuidados necessários são os exigidos por um cálice de cristal, deixando-me pouco tempo e pouca energia para estoutras atividades.

… que me desculpem todos.


E, se por ventura, teimo em vir aqui, é talvez mais por vício, talvez porque em tempos li no blog do Carlos Oliveira um slogan engraçado de mais que aconselhava: «Este verão não abandone o seu blog!».