quarta-feira, 21 de junho de 2017

Loucuras de Verão

Primeiro dia de Verão. Curiosamente bem mais fresco que os últimos desta Primavera.

Depois de tudo, a lembrança desta musiquinha louca que conta as loucuras dos dias de Verão dos loucos tempos de 60/70.

Esta, do estilo skiffle*, foi mesmo editada em 1970 e foi um sucesso em Inglaterra e nos Estados Unidos. E por cá também, que eu bem me lembro... e até tenho o single...

Alguém se lembra?



* skiffle - música folk com influência de jazz e blues.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Aquecimento global

Texto recebido do nosso querido amigo blogger Rui da Fonte.

«As alterações climáticas que produziram um dia como o de sábado em meados de Junho ameaçam destruir a floresta portuguesa. E perante a iminência de um cataclismo desta dimensão, o país tem de ir muito para lá das perguntas de contexto ou da justa expressão das dores do momento: precisa de uma energia, de uma determinação e de um conjunto de meios para debelar o problema que parece estar para lá das nossas capacidades actuais.

Ainda assim, parece cada vez mais claro, a intervenção no ordenamento florestal tal como a conhecemos, parece cada vez mais condenada a resumir-se a uma medida paliativa para um problema de dimensões colossais. O planeta está a aquecer, Portugal está a aquecer e as nossas florestas, altamente vulneráveis ao fogo, parecem ser as primeiras vítimas dessas mudanças profundas. Um incêndio com as proporções do deste sábado em meados de Junho é algo inimaginável na geração dos nossos avós. E um dia nesta estação com tão altas temperaturas e zero humidade é uma circunstância meteorológica que vai tornar-se num novo normal. O pinhal em Pedrógão ardeu como ardeu porque não há defesa natural possível a um fenómeno desta intensidade.

Não sabemos se teremos recursos, energia, meios humanos, ciência ou perseverança para responder a esse dramático desafio. Soubemos sim com o fogo descontrolado deste sábado no Pinhal Interior que o aquecimento global está a tornar a aposta em leis avulsas para os proprietários ou estratégicas de combate com o nome de grandes operações militares num esforço condenado a fracassar.

Não está em causa a culpa ou a omissão dos políticos, dos proprietários florestais ou dos bombeiros: está em causa a constatação de que há uma ameaça que elevou a sua escala de periculosidade e de destruição e a noção de que, nas circunstâncias actuais, não temos forma de a travar.

Está na hora de tomarmos consciência do que nos espera. De ano para ano a temperatura vai subir e cada vez mais horrores como o de Pedrógão hão-de repetir-se. Não está em causa uma fatalidade. Está apenas em cima da mesa a pergunta dolorosa: seremos, colectivamente, capazes de encontrar meios para enfrentar um tão grande desafio?»

Manuel Carvalho – Público




segunda-feira, 19 de junho de 2017

Poema da Morte na Estrada

Na berma da estrada, nuns quinhentos metros,
estão quinhentos mortos com os olhos abertos.

A morte, num sopro, colheu-os aos molhos.
Nem tiveram tempo para fechar os olhos.

Eles bem sabiam dos bancos da escola
como os homens dignos sucumbem na guerra.
Lá saber, sabiam.
A mão firme empunhando a espada ou a pistola,
morrendo sem ceder nem um palmo de terra.

Pois é.
Mas veio de lá a bomba, fulgurante como mil sóis,
não lhes deu tempo para serem heróis.

Eles bem sabiam que o último pensamento
devia estar reservado para a pátria amada.
Lá saber, sabiam.
Mas veio de lá a bomba e destruiu tudo num só momento.
Não lhes deu tempo para pensar em nada.

Agora,
na berma da estrada, nuns quinhentos metros,
são quinhentos mortos com os olhos abertos.

António Gedeão, in 'Linhas de Força'




domingo, 18 de junho de 2017

Profundo pesar

“É triste pensar que a natureza fala e que o género humano não a ouve.” (Victor Hugo)




"Não é a Terra que é frágil. Nós é que somos frágeis. A natureza tem resistido a catástrofes muito piores do que as que produzimos. Nada do que fazemos destruirá a natureza. Mas podemos facilmente destruir-nos. (James Lovelock, ambientalista)




“Se por amor às florestas um homem caminha por elas metade do dia, corre o risco de ser considerado um vagabundo. Mas se usa seu tempo para especular, ceifando a mata e tornando a terra careca antes do que deveria, ele é visto como um cidadão industrioso e empreendedor.”  (Henry David Thoreau)





“A natureza tem uma estrutura feminina: não sabe se defender mas sabe se vingar como ninguém.” (Marina da Silva)




“Nesses tempos de céus de cinzas e chumbos, nós precisamos de árvores desesperadamente verdes.” (Mário Quintana)




“Só quando a última árvore for derrubada, o último peixe for morto e o último rio for poluído é que o homem perceberá que não pode comer dinheiro.” (Provérbio indígena)




Simplesmente trágico. A minha solidariedade, a minha compaixão, todo o meu pensamento e carinho estão com aquelas pessoas que estão a passar por este enorme provação e naqueles lugares que tantas vezes visitei no cumprimento da minha atividade. 



sábado, 17 de junho de 2017

Por outro lado...

Os meus planos de aula de Inglês começavam sempre pelas Assumptions que o mesmo é dizer dados adquiridos. De facto nada acontece do nada, tudo tem uma ligação, uma associação com o passado próximo ou distante. E hoje, as minhas Assumptions são as seguintes e para que constem: (i) reconheço a importância e a necessidade de se decretarem greves; (ii) fui, desde os inícios das atividades sindicais logo após a Revolução, professora “grevista” num tempo em que tivemos forçosamente de organizar a nossa vida profissional que até então se desenrolava num pano de fundo sem lei nem grei…

Então agora vamos ao que interessa. Tenho vindo a acompanhar as notícias sobre o bendito anúncio de greve de professores feito pelo senhor Mário Fenprof para o próximo dia 21, dia em que se realizam provas de exame nacionais e provas de aferição. Muito bem!

Analisemos então os motivos que levam ao anúncio de greve. Reorganização da estrutura da profissão de professor e dos horários de trabalho? Alargamento e/ou abertura de quadros de escola que se foram fechando desde há pelo menos dez anos? Aumento da contratação de professores para fazer face ao ainda tremendo insucesso escolar? Diminuição do número de alunos por turma? Diminuição da carga burocrática que se tem vindo a abater sobre o pessoal docente? NÃO! Os motivos são: o descongelamento da carreira e o regime especial de aposentação. Motivos importantes? SIM, sem dúvida. Mas não agora que se está a reverter a situação das devoluções dos direitos que foram furiosamente arrancados aos professores (e não só). Devagar, mas em marcha.

A opinião pública – leia-se nomeadamente pais e encarregados de educação – também ela fortemente penalizada pelos cortes nas suas carreiras e nas suas vida brutalmente realizados pelas forças ultraliberais que (des)governaram o país  não é capaz de entender os motivos desta greve. Eu, pessoalmente, também não e tenho filhos e familiares próximos professores. Ora o ónus da questão vai recair sobre quem? Sobre os professores grevistas. Não sobre o senhor Mário Fenprof que, no tempo em que tudo foi retirado aos professores andava caladinho e completamente desaparecido!

Não esqueço, não posso esquecer a raiva cega que o senhor Mário Fenprof instilou nos professores (e eles, coitados, tão pequeninos, também se deixaram facilmente instilar…) contra a ministra Maria de Lurdes Rodrigues. Foi essa raiva cega, esse ódio inspirado que não deu para reconhecer no senhor Mário Fenprof relativamente ao ministro (C)rato. Tendências…

Será que temos de concluir que as greves violentas (sim, porque marcar greve para dias de exames é violento e só se aceita se o motivo também tiver sido violento!) são para ser usadas apenas contra governos do PS?
De igual modo, vemos os senhores procuradores, os senhores magistrados, os senhores juízes, os senhores oficiais de Justiça cheios de vontade de paralisar as eleições autárquicas porque o documento da revisão do Estatuto das suas carreiras ainda tarda a ser concluído pela Ministra da Justiça. Por acaso, dá vontade de rir… Qual é o atraso dos tribunais em geral na análise e decisão dos processos que lá entram? E os prazos não são “apenas indicativos” segundo os senhores juízes?

Por outro lado, também não me lembro de ver anunciadas greves e outras ações de protesto por parte dos magistrados ou dos oficiais de Justiça quando o anterior governo fechou tribunais, transferiu (e perdeu) processos, deslocou o pessoal para longe de casa e sei lá o que mais…

Assim que vemos uma abertazinha na prepotência e na arbitrariedade e um leve abrandamento no chicote, vai de reclamar. Dê lá por onde der e doa a quem doer… Como alguém diz: «Fortes a reclamar, fracos a obedecer!»

Não somos um povo sério!

Lamento.


Ontem fui ao teatro

Já aqui disse que nunca fui grande fã de teatro. Contar uma história, uma situação, uma ideia para mim, é no cinema ou num livro bem escrito.

Quando morávamos em Lisboa, fomos algumas vezes ao Monumental, ao Maria Matos, ao Villaret ver algumas boas peças. Uma delas foi «Quem tem medo de Virginia Woolf?», do dramaturgo norte-americano Edward Albee (1928-2016), que vimos no saudoso Teatro Monumental, em 1971, ano em que nos casámos, com as excelentes atuações de Glória de Matos (Martha) e Jacinto Ramos (George) com encenação de João Vieira.

Antes, tínhamos visto o filme (que arrebatou cinco óscares) com o mesmo nome com as interpretações da grande e lindíssima Elizabeth Taylor contracenando com o marido Richard Burton.

Ora ontem houve teatro em Leiria. Veio a peça «Quem tem medo de Virginia Woolf?» que tem estado em exibição no Teatro Trindade, em Lisboa, interpretada por Diogo Infante e Alexandra Lencastre nos papéis principais e nós lá fomos. Foi bom. O Diogo Infante (George) está sempre muito bem em qualquer papel e a Alexandra Lencastre (Martha) tem todo o à-vontade em palco. O jovem casal que alterna com eles também vai muito bem.

Mas, de facto, o grande protagonista da peça é o argumento em si. Trata-se de um drama psicológico bem ao estilo da literatura norte-americana dos anos sessenta do século passado que põe a nu os medos, as frustrações, os fantasmas de cada uma das personagens. Isto é feito numa linguagem e com comportamentos de grande agressividade ente Martha e George: ele,  um professor algo decadente numa universidade cujo diretor é o autoritário pai de Martha, na presença de um jovem casal, ele  - Nick - professor recém-contratado para a universidade e ela, uma jovem dona de casa simples e pouco letrada, com o adequado nome de Honey.

A peça tenta explorar de forma impiedosa os pontos fracos das pessoas a partir dos mais íntimos segredos de cada uma dos personagens o que cria um clima de grande tensão no grupo – mais no jovem casal do que nos veteranos que estão habituados a jogar estes jogos entre si.

O título tem a ver com uma brincadeira quebra-gelo que tinha tido lugar na festa de receção aos novos professores da universidade da qual as personagens principais regressam bem embriagadas e é um trocadilho entre o nome da bem conhecida escritora inglesa Virginia Woolf e a canção do desenho animado de Walt Disney «Quem tem medo do lobo mau?», em inglês «Who’s afraid of the big bad wolf?» que também aponta para a simbologia do lobo e dos medos íntimos de cada um de nós.

Muito interessante. Se puderem, gostarem e tiverem oportunidade, não deixem de ir ver.




quarta-feira, 14 de junho de 2017

Fernando Pessoa e o Santo António

Foi exatamente no dia de Santo António que Fernando Pessoa nasceu. Em 13 de Junho de 1888. Há 129 anos.


E, sensível como era, o poeta não ficou indiferente a esse facto. Escreveu mesmo um enorme poema de que deixo aqui alguns excertos.


«Nasci exactamente no teu dia —
Treze de Junho, quente de alegria,
Citadino, bucólico e humano,
Onde até esses cravos de papel
Que têm uma bandeira em pé quebrado
Sabem rir...
Santo dia profano
Cuja luz sabe a mel
Sobre o chão de bom vinho derramado!

Santo António, és portanto
O meu santo,
Se bem que nunca me pegasses
Teu franciscano sentir,
Católico, apostólico e romano.


(Reflecti.
Os cravos de papel creio que são
Mais propriamente, aqui,
Do dia de S. João...
Mas não vou escangalhar o que escrevi.
Que tem um poeta com a precisão?)

Adiante ... Ia eu dizendo, Santo António,
Que tu és o meu santo sem o ser.
Por isso o és a valer,
Que é essa a santidade boa,
A que fugiu deveras ao demónio.
És o santo das raparigas,
És o santo de Lisboa,
És o santo do povo.
Tens uma auréola de cantigas,
E então
Quanto ao teu coração —
Está sempre aberto lá o vinho novo.

Dizem que foste um pregador insigne,
Um austero, mas de alma ardente e ansiosa,
Etcetera...
(…)

Valem mais que os sermões que deveras pregaste
As bilhas que talvez não concertaste.
Mais que a tua longínqua santidade
Que até já o Diabo perdoou,
Mais que o que houvesse, se houve, de verdade
No que — aos peixes ou não — a tua voz pregou,
Vale este sol das gerações antigas
Que acorda em nós ainda as semelhanças
Com quando a vida era só vida e instinto,
As cantigas,
Os rapazes e as raparigas,
As danças
E o vinho tinto.
(…)

(Qual santo nem santeza!
Deita-te noutra cama!)
Santos, bem santos, nunca têm beleza.
Deus fez de ti um santo ou foi o Papa? ...
Tira lá essa capa!
Deus fez-te santo! O Diabo, que é mais rico
Em fantasia, promoveu-te a manjerico.
(…)

Sê sempre assim, nosso pagão encanto,
Sê sempre assim!
Deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,
Esquece a doutrina e os sermões.
De mal, nem tu nem nós merecíamos tanto.
Foste Fernando de Bulhões,
Foste Frei António —
Isso sim.
Porque demónio
É que foram pregar contigo em santo?


O poema completo fica aqui