sábado, 7 de maio de 2011
Sábados
Morte procriadora de bens que são ser e nada ter
Olhos de seda e aço penetrando a fronteira
Guerreiro sem espada cansado das pedras que lhe arremetem
E a terra lavrada com flores de pêssego e bandeiras de milho
Misturando orvalho chuva água da mina ao leite branco e doce
E nos baldios cabras buscando secos arbustos sem amoras
E sem amores
Aos sábados visito-te de longe monto num cavalo verde
E fico à porta atrás das grades
Não me perguntes se durmo se estou acordada nada nunca
Em vida me perguntaste
Na coragem do pacto da solidão
E eu passo no cavalo verde cavalo limpo de sela
Mas pelas grades não passam nossas lágrimas brancas
E eu passo ao sábado todos os sábados e fico atrás das grades
São tardes calmas em que os homens velhos de pijamas às riscas
Dependuram as mãos nos parapeitos das janelas e olham para fora
E as mulheres velhas encostam os peitos derrotados à tristeza dos próprios braços
E olham também
Matilde Rosa Araújo
sexta-feira, 6 de maio de 2011
A propósito de José Coelho Pacheco
Pelo que li num texto excelente de Teresa Rita Lopes no Jornal de Letras de 20 de Abril, haveria (mais) sub-heterónimo de Fernando Pessoa, chamado José Coelho Pacheco, a quem eram atribuídos uns tantos poemas, nomeadamente “Para Além doutro Oceano”.
Resultante da incansável pesquisa da autora referida, chegou-se à conclusão que, afinal, José Pacheco Coelho foi, na sua juventude, juntamente com Almada Negreiros e António Ferro, um dos “putos” do Orfeu. (E, a propósito, tenho de referir que fiquei deveras surpreendida com o facto de já nesse tempo se usar a expressão “putos” para se falar dos jovens, até porque no meu tempo de juventude não me lembro de ser utilizada)
Ora esse “puto” enveredou pelo caminho dos negócios, tendo sido proprietário de um stand de automóveis em Lisboa sem deixar, porém, de “ser amante das artes e praticante da escrita literária”. Numa carta que Coelho Pacheco escreveu a Fernando Pessoa em 20 de Fevereiro de 1935 para agradecer o exemplar da Mensagem que ele lhe enviara, "diz-lhe que esse livro lhe dera uma alegria maior do que teria se recebesse, da sua fábrica, um automóvel novo!” E recorda os velhos tempos do Orfeu e da Renascença.
Uns românticos estes homens! E é isso mesmo que nos falta actualmente! Falta-nos a formação humanista e das humanidades. Na ânsia incontrolada de, desde as últimas décadas, todos seguirem as áreas das ciências e das economias porque todos têm de ser médicos e gestores de sucesso, as humanidades caíram no maior obscurantismo ficando completamente fora de moda. E assim estamos a tornar-nos cada vez mais secos, menos emotivos, menos ligados aos sentimentos, mais dominados pelos números e pelos americanizantes ratings e assessements de tudo e de mais alguma coisa!
Na nossa formação como pessoas, faz-nos falta a poesia, a(s) humanidade(s)!
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quinta-feira, 5 de maio de 2011
Dia da Língua Portuguesa
Comemora-se hoje, 5 de Maio, o Dia da Língua e da Cultura Portuguesa. Foi em 2005 que, numa reunião da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) realizada em Luanda, esta organização decidiu que, neste dia, se celebrasse, em todos os países membros, o Dia da Língua Portuguesa e da Cultura.
Muitos textos poderiam ser transcritos aqui com o objectivo de mostrar como a nossa Língua é bela e rica.
Por exemplo, a língua portuguesa é vista ainda por Vítor Aguiar e Silva como «a mais esplendorosa, perdurável e irradiante criação de Portugal».
E, num dia como este, não podemos deixar de referir o texto de Bernardo Soares em que está integrada a poderosa frase de todos nós conhecida que é “Minha pátria é a língua portuguesa.” que não posso deixar de transcrever para que se conheça bem o contexto:
“ Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez, numa selecta, o passo célebre de Vieira sobre o Rei Salomão. «Fabricou Salomão um palácio...» E fui lendo até ao fim, trémulo e confuso; depois rompi em lágrimas felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais – tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei; hoje, relembrando, ainda choro. Não é – não – a saudade da infância, de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfónica.
Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pearia que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em quem se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo que é senhora e rainha.”
(Fernando Pessoa, “Livro do Desassossego”, Assírio e Alvim, pág. 262)
Manuel Alegre, por sua vez, canta desta forma, o bravo nascimento da língua portuguesa:
“Era um país ainda por dizer
e uma flauta cantava. Nos salgueiros pendurada
ou na palavra. Uma flauta
a tanger
a língua apenas começada. Subia
pelo nervo e pelo músculo
como quem assobia no acento agudo
e no esdrúxulo. Algures por dentro
do país mudo. Uma flauta floria
sobolos nomes que vão
para nenhures. Algures
contra o vento. Com seus cântaros
e alegrias suas câmaras
da memória. Uma flauta ainda
sem história. Chamavam por ela
os antigos e os apelos ecoavam.”
(Manuel Alegre, Com Que Pena. Vinte poemas para Camões, Lisboa, Dom Quixote, 1992, p.11.)
A escritora brasileira Clarice Lispector mostra assim o seu amor pela nossa língua :
Esta é uma declaração de amor;
amo a língua portuguesa.
Ela não é fácil. Não é maleável.
E, como não foi profundamente trabalhada pelo
pensamento, a sua tendência é a de não ter sutileza
e de reagir às vezes com um pontapé contra
os que temerariamente ousam transformá-la
numa linguagem
de sentimento de alerteza.
E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro
desafio para quem escreve.
Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e
das pessoas a primeira capa do superficialismo.
Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado.
Às vezes assusta com o imprevisível de uma frase.
Eu gosto de manejá-la - como gostava de estar
montando num cavalo e guiá-lo pelas rédeas,
às vezes lentamente, às vezes a galope.
Eu queria que a língua portuguesa chegasse
ao máximo nas minhas mãos. e este desejo
todos os que escrevem têm.
Um Camões e outros iguais não bastaram para
nos dar uma herança de língua já feita. Todos nós
que escrevemos estamos fazendo do túmulo do
pensamento alguma coisa que lhe dê vida.
Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do
encantamento de lidar com uma língua que não foi
aprofundada. O que recebi de herança não me chega.
Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever
e me perguntassem a que língua eu queria pertencer,
eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como nasci
muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro
para mim que eu queria mesmo era escrever em português.
Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só
para que minha abordagem do português
fosse virgem e límpida
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quarta-feira, 4 de maio de 2011
Leiria Antiga
Hoje deixo aqui um trabalho que acho muito bonito de uma amiga sobre a Leiria antiga com as suas belezas de outros tempos tendo como música de fundo o fado "Dentro de ti, ó Leiria", ou melhor dizendo, a "Balada do Encantamento".
Dentro de ti, ó Leiria
Dentro de ti, ó Leiria
Vive uma moira encantada
Vive uma moira encantada
Não sabes é minha amada
Não sabes é minha amada
E tem por nome Maria
E tem por nome Maria
Leiria foste um ladrão
Leiria foste um ladrão
Leiria do Rio Liz
Leiria do Rio Liz
Roubaste-me um coração
Roubaste-me um coração
E vê lá tu sou feliz
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terça-feira, 3 de maio de 2011
Ninhos de cegonhas
Alentejo acima, lá encontrámos aquele restinho de árvore onde as cegonhas ainda continuam a utilizar os seus ninhos há muito contruídos. Pareceu-nos estar mais reduzida a árvore e registámo-la para a podermos comparar com outra fotografia antiga.
Abril/2011

Julho/2003
Mas afinal a diferença era apenas na cor da paisagem. Aqui tínhamos os amarelos alentejanos de pleno Verão, enquanto lá em cima, temos o campo verdejante da Primavera. E muitas nuvens no céu.

Não são lindas estas árvores na lonjura, na estiagem, carregadinhas de ninhos de cegonhas?
Árvores do Alentejo
Horas mortas... Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido... e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção duma fonte!
E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!
Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!
Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
- Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!
Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"
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segunda-feira, 2 de maio de 2011
Que vergonha!
Recebi há pouco um mail que me apresso a transcrever. Custou-me a crer que fosse verdadeiro, mas fiz uma pesquisa breve e vi que até é verdade. Veio noticiado nos jornais e comentado em blogs.
"Julgamento no dia 3 de Maio, pelas 9h15, Lisboa, no 2º Juízo Criminal, 3ª Secção, Avenida D. João II, 10801 - Edifício B. Parque das Nações.
Dia 3 de Maio, pelas 9h15, um julgamento que nos remete para os tempos da ditadura...
Os réus: Margarida Fonseca Santos (autora), Carlos Fragateiro e José Manuel Castanheira (ex-directores do Nacional D. Maria II) - somos acusados, pelos sobrinhos de Silva Pais, dos crimes de difamação e ofensa à memória de pessoa falecida. No seu entender, denegrimos a imagem do último director da PIDE com a adaptação para teatro do livro A Filha Rebelde (de José Pedro Castanheira e Valdemar Cruz), feita para o TNDM em 2007, com encenação de Helena Pimenta.
O Ministério Público não acompanhou a queixa.
Conquistámos, no 25 de Abril, a liberdade de expressão, que está agora posta em causa. Mas, mais grave ainda, esta é uma tentativa de branquear a imagem daquele que foi o responsável máximo da PIDE - a polícia política que perseguiu, torturou e matou muitos opositores ao regime, entre eles o General Humberto Delgado.
Pedimos que divulguem isto aos quatro ventos.
Um abraço
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domingo, 1 de maio de 2011
No Dia da Mãe
Agora que morreste Mãe
e só em mim te tenho
sou mais que o meu tamanho
porque sou tu também
Tuas mãos afagam minhas mãos
De quem são estes gestos esta pele?
Nunca me deste irmãos
só contigo reparto o meu farnel
de quotidianos fardos e alegrias
breves e desta brasa em chaga
que é a tua ausência nos meus dias
órfãos mas sempre ao colo desta mágoa
de não te ter de te ter sido esquiva
de não te ter nunca aberto as portas
do meu ser de nunca te ter dado vivas
o que hoje já só são carícias mortas
Teresa Rita Lopes
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