A minha gatinha preta tigrada, a
Boneca Pipoca, tem estado intermitentemente internada desde o início de
setembro. Sofreu o segundo atropelamento que lhe afetou a parte traseira: a
cauda ficou sem sensibilidade e por algum tempo deixou de conseguir controlar
os esfíncteres.
Foi sempre uma gatinha pouco
feliz: foi a mais débil de uma ninhada de cinco gatinhos de uma gata da vizinha
da frente que fugiam para o meu quintal. Foi sempre protegida pelo único irmão
que era bem robusto e sofreu o primeiro atropelamento uma vez que atravessou a
nossa rua. Foi depois disso que a adotei definitivamente.
Está bastante melhor, embora
ainda tenham de lhe amputar a cauda.
Hoje fui buscá-la para vir passar o fim de semana a casa …
Num dos compartimentos ao lado,
estava uma gatinha a miar pedindo festinhas que lhe prodigalizei… Tinha uma
ferida enorme no pescoço protegida por um daqueles colares horríveis que não os
deixam lamber-se como eles tanto gostam. Disse a veterinária que sofria de stress. A dona ficou doente e foi lá
para casa uma pessoa para tratar de tudo. Com a ausência da dona, a gatinha
começou a coçar-se incessantemente. A princípio fazia peladas que melhoravam
quando a dona voltava para casa. Da última vez que se viu “abandonada”
conseguiu esburacar o pescoço…
Verdadeira auto mutilação.
Por momentos passaram-me pelos
olhos imagens daqueles adolescentes (lá
da minha escola) que, com vidas tão difíceis, tão problemáticas, traziam os
braços ou as pernas cheias de cortes feitos por eles próprios como forma de
tentarem esquecer os seus problemas, as suas tristezas, as suas outras dores.
Auto mutilavam-se. Uma e outra e outra vez… Prometiam não repetir, mas lá
voltavam ao mesmo escondendo os golpes com as roupas. Penso que por
necessidade, ou para aliviarem a pressão, mostravam-nos ou falavam disso a
um(a) ou outro(a) colega ou a algum adulto em quem confiassem bastante.
Prometiam não voltar a fazê-lo,
continuavam a cortar-se…