A ironizar quando ainda estava na escola, costumo dizer que a sexta-feira de manhã é a minha manhã livre...
É o dia de ir às compras, ao talho, à fruta, ao super, de ir ver as lojas ao shopping, de ir espreitar as livraras. Que são três! Tantas!
Há sempre um ou outro livro que teima em "agarrar-se-me" às mãos. E depois há tantos que eu gostaria de trazer mas que não posso! Pois quando os leria? (e como os pagaria?!...)
E aí lembrei-me deste textinho maravilhoso do ainda mais maravilhoso Almada...
Há dias foi transmitida a notícia
de que em França iam proibir os telemóveis nas escolas. Do jornal para onde
escrevo uns textos pediram-me, na qualidade de ex-professora e presidente de
escola, um comentário sobre o assunto para um fórum que publicam todas as
semanas.
O comentário que apresentei foi o
seguinte:
«Parece-me uma ótima medida.
Oxalá pudéssemos nós, no nosso país, aprender com esse bom exemplo. Durante as
aulas, o processo de aprendizagem necessita de atenção, concentração e sossego
para que se realize – talvez se poupasse muito dinheiro aos pais em explicações!
Por outro lado, os intervalos servem para gastar energias acumuladas, descansar
a mente e conversar de viva voz e não estar “enfronhado” nos aparelhos. Outra
vantagem será o “desligar” dos pais, tornando as crianças e os adolescentes
mais autónomos.»
Pois fiquem a saber, caros
amigos, que o meu foi o único texto favorável à medida francesa. Senti-me
autêntica «velha do Restelo»!
Os restantes participantes no
fórum eram o Professor Daniel Sampaio, dois professores da Escola Superior de Educação
e Ciências Sociais aqui de Leiria, um diretor de agrupamento de escolas e o
diretor de um centro de formação de professores. Todos liminarmente contra! com
exceção do diretor de agrupamento, que ainda falou em mudança de metodologias
na sala de aulas. Todos os restantes comentadores não são professores de
adolescentes há anos e estão a ano-luz da realidade das escolas e do ensino que,
de um modo geral, ainda se pratica nas salas de aulas.
Diz um: «Quando a escola
diaboliza uma tecnologia perde a oportunidade de educar para ela. Ao diabolizar
os telemóveis, perde também as múltiplas funcionalidades destes equipamentos para
potenciar a renovação dos contextos de aprendizagem.»
Outro acrescenta: «Há mais vantagem
no uso do telemóvel nas escolas do que na sua proibição para voltar ao uso do
dicionário de milhares de páginas e à pesquisa em atlas ou enciclopédias tantas
vezes desatualizadas.»
E ainda outro: «A proibição de
levar o smartphone para a escola é,
para mim, uma medida exagerada e que poderá revelar algum desconhecimento sobre
estas matérias.»
O Professor Daniel Sampaio, por
quem nutro a maior consideração, apresenta uma opinião um tanto naïf: «Não concordo porque o telemóvel
faz parte da vida dos adolescentes e também dos seus professores. (…) Quer em
família, quer na escola, é preciso criar regras de utilização, em que há
períodos em que é possível utilizar o telemóvel, nos outros períodos não é.»
Todos eles falaram do uso do smartphone em termos de ferramenta de
estudo e de pesquisa no âmbito da sala de aula, quando sabemos muito bem que a
grande maioria das aulas – com honrosas exceções, naturalmente! – continuam a
ser bastante expositivas, com base nos manuais adotados e pouco mais.
… … Mas como diziam os outros: don’t let me be misunderstood! * Nada tenho contrao uso das tecnologias! Eu
própria tenho um I Phone e um I Pad e gosto. Os meus netos também têm
os seus gadgets eue usam e gostam. Mas tudo tem o seu tempo e o seu espaço.
Se os miúdos os tiverem ali à mão na escola, garanto-vos que – a não ser nas
aulas de TIC ou nas bem programadas para o seu uso, que são poucas – eles não
os usam senão para irem ao facebook ou
ao Messenger, ou até com outras finalidades piores...
Sabe quem me conhece e quem já me
vai conhecendo por aqui que não sou frequentadora de missas. Não interessa
estar aqui e agora a esgrimir as razões que me levam a ter este comportamento.
Hoje, por força das circunstâncias,
assisti à missa de corpo presente de uma velha senhora professora do “liceu” de
Leiria que fazia o favor de ser minha amiga, figura grada da cidade e de quem,
também por força de não sei que circunstâncias, vou ser a seguidora na direção
de uma Academia Sénior.
A missa foi celebrada por um
padre franciscano, coadjuvado por um jovem frei, o que, já por si, a tornou
diferente das institucionais missas – entenda-se por isso o que se entender.
Mais dinâmica, mais natural, mais alegre (apesar da circunstância) mais
coloquial, enfim. (paradoxalmente, nem
queiram saber as saudades que eu tenho de uma missa em latim…)
Mas, no meio dos habituais
rituais das missas, das orações estereotipadas e do continuado senta-e-levanta a
que os frequentadores tão bem obedecem – e que eu ordeira e educadamente imito –
hoje gostei e aprendi mais uma lição: quando o celebrante disse que Deus gosta
que sejamos agradáveis para Ele e uns para os outros.
Tocou-me fundo esta ideia de que
devemos esforçar-nos por sermos agradáveis uns para os outros. A noção de
agradar aos outros entra bem na minha ideia dos grandes pilares da nossa dádiva,
da nossa abertura ao outro: a compaixão e a generosidade. Compaixão que não é
sinónimo de «pena»; generosidade que não é sinónimo de «ser bonzinho».
Sejamos, pois, agradáveis uns
para os outros – o que não é sinónimo de mostrar «boas maneiras».
Apesar das caretas que o verão tem feito, as noites têm sido amenas e, se houver chuva, há abrigos por aí.
Por isso a gataria cá da casa, gosta de sair depois do jantar e é um castigo para os voltar a meter em casa. Brincam, correm uns atrás dos outros, sobem às árvores e afiam as unhas na casca e, quando as chamo, correm corredor fora e saltam o muro para o amplo terreno ao lado.
De manhã, quando lhes abro a porta do quintal, entram cheios de fome, miam desalmados, "tomam o pequeno almoço, e depois dá nisto...
A costureira é uma jovem senhora
que trabalha ali num armazém de roupas de uma loja fina de Leiria. Faz os
arranjos nas roupas das clientes da loja fina e, para além disso, faz arranjos
nas roupas da clientela aqui da(s) rua(s). Farta-se de trabalhar e não tem mãos
a medir.
Trabalha ali sozinha e, muitas
vezes, há vizinhas que se sentam lá a conversar e a fazer-lhe companhia (e a moer-lhe a cabeça com conversas da
treta…).
Hoje tive de lá ir descarregar
mais umas coisinhas para arranjar – que eu de costura só pregar botões e coser
bainhas e já não é mau! – e ela, que é uma doçura de pessoa, pediu desculpa por
não ter feito ainda as emendas noutras peças que lá tinha deixado. Que as
pessoas não fazem ideia do trabalho que dá fazer uma emenda nem que se seja
para apertar ou alargar uma saia ou umas calças.
Estava lá uma senhora de mais de
oitenta anos de idade que se apressou a dizer que sabia bem dar o valor a esse
trabalho porque, na sua juventude, trabalhara de costura, no tempo em que tudo
se costurava em casa, cuecas, combinações, camisas de homem. «A primeira camisa
de homem que fiz foi para o meu irmão ir às sortes, toda branquinha, toda feita
por mim. Morreu na tropa na Índia.» - acrescentou com tristeza mal contida.
E, a propósito dos trabalhos
desses tempos longínquos, contou como, aos sete anos, lá na serra (da Estrela)
foram ela e os irmãos (depois de irem ao primeiro dia de escola nunca mais lá
puseram os pés porque havia que ir trabalhar no campo – só a mais nova teve
permissão para ir à escola e fez a 3ª classe) postos na serra a tomar conta das
ovelhas, com aquele frio, com a neve, ela com um xaile preto pela cabeça que,
quando chovia, deitava tinta preta porque era tingido… e o pai que lhe dizia
que não deixasse as ovelhas saltarem para fora da cerca que o patrão
cobrava-lhes vinte e cinco tostões por cada ovelha que saltasse…
E contou de como fez a sua vida
sem nunca ter aprendido a ler e de como conseguia ajudar as filhas a fazer os
problemas da escola: elas liam-lhos e ela fazia os cálculos de cabeça e
explicava-lhes… e de como aprendeu a fazer tantas coisas. E disse-o sem
saudosismos nem autocomiseração, sem aquele ar patético do bafiento culto das
tradições, num tom lavado e até um tanto envaidecido.
Gostei de ouvir as suas
histórias, mas não me venham nunca com aquela de que «antigamente é que era bom» - porque não era. Não era mesmo!
As belas instalações do Banco de
Portugal em Leira, depois do encerramento daquela dependência, foram transformadas
em espaço para exposições de arte.
Ontem, com tempo que me sobrou de
alguns “recados” que tinha para fazer, e também para refrescar do calor do
início da tarde, entrei para visitar a exposição “Os Ateliers” do leiriense José Luís Tinoco. Esse mesmo: o da
música!
José Luís Tinoco nasceu em Leiria
em 27 de dezembro de 1932. (o resto da
vida de Tinoco dedicada às artes poderão lê-la aqui)