Ontem não deu porque a filha foi «de charola» ter o seu segundo bebé - nosso quarto neto. (Maravilha!)
Mas hoje venho aqui deixar o meu sentir pela condição da Mulher nas lindas palavras de Adélia Prado.
Com licença poética
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
( Adélia Prado )
do livro Bagagem. São
Paulo: Siciliano, 1993)