quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Tão baralhada!

A minha hortense mais antiga anda mesmo baralhada... Não sabe se ainda é Verão ou já é Inverno. É que ainda há uma semana estava tanto calor e agora está cá uma nortada! E, como não chove, se calhar ainda não estamos no Outono - pensa ela. Como há de florir?!






Invejo as flores que murchando morrem,
E as aves que desmaiam-se cantando
E expiram sem sofrer...

Álvares de Azevedo


terça-feira, 7 de novembro de 2017

A Vida

A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa;

A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai:
A vida dura num momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cai!

A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave:

Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares,
Uma após outra lançou,
A vida – pena caída
Da asa da ave ferida
De vale em vale impelida
A vida o vento levou!

João de Deus


Perdi hoje a última pessoa da minha família materna. A última e a mais próxima. O meu querido primo-irmão, presente na minha vida desde que me lembro. Criados juntos, vivemos juntos até ao dia de cada um seguir a sua própria vida.

Mais novo do que eu um ano, partiu em grande sofrimento de uma doença daquelas más que se declarou há menos de dois meses.

Grande dor. Grande tristeza.  

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Gisela João

Li por ai que a menina faz anos hoje - 34. Um escândalo! Quem é que tem 34 anos?! E como é natural de Barcelos - terra do meu pai e de toda a sua família - resolvi trazê-la aqui...

Vejam, que a miúda é bem divertida e tem boa voz...

(A canção é do saudoso Carlos Paião e também foi cantada por Amália)




domingo, 5 de novembro de 2017

A Revolução Russa - uma opinião e uma história

Gosto de ler os textos que o José Jorge Letria vai escrevendo no jornal. Hoje escreveu sobre a Revolução Russa que faz cem anos que se deu. Achei interessante mais pela história do pobre embaixador português que a viveu. Como sempre, os nossos governantes sempre esquecem os seus representantes que se encontram em dificuldades.

Escreve Letria: «No princípio de abril estive em Moscovo por motivos profissionais e institucionais, na minha quarta deslocação à capital russa depois do 25 de Abril, e confesso que nada vi nas ruas, no hotel, no metro e até em espaços museológicos que me fizesse lembrar a comemoração do centenário da Revolução Russa. O sentido do marketing político e a relação pragmática com a sociedade de consumo recomendaria uma presença visual mais forte desse imaginário que reflete mudanças profundas na história da Rússia e do mundo. Mas fiquei com a sensação, talvez próxima de uma complexa realidade política e psicológica, de que o país de Putin não se revê na Rússia revolucionária de Lenine e bolcheviques, embora o presidente seja resultado desse contexto e do quadro político que ele implantou. (…)

A Revolução Russa ocorreu há um século e contribuiu para mudar o mundo. Houve um português, o diplomata Jaime Batalha Reis (1847-1935), que a viu de perto, por ser embaixador em Petrogrado. Estava ali acompanhado por duas filhas adultas e, sendo republicano, não nutria particular simpatia pela transformação política operada no país. Não gostou do que viu e viveu. Viu lojas e casas assaltadas, teve fome e frio e viu assassinatos. Teve medo e disse-o em português nos relatórios enviados a Lisboa. "Vivo com a família há pelo menos seis meses em perigo de vida permanente agravada por falta de dinheiro. Tenho tido fome e frio. Terei de partir inopinadamente com dificuldade. Suplico a V. Exa. que leia meu último telegrama sobre assunto não respondido e mande pôr urgentemente à minha ordem no Provincial National Bank Londres pelo menos mil libras esterlinas extraordinárias."

O seu senhorio octogenário, que fizera parte da corte do imperador, foi enforcado ao fim da tarde na sala de jantar. Batalha Reis estava exausto e aterrorizado. Queria fugir e chegar a Lisboa. Tinha 66 anos, em fim de carreira e chegou a conhecer Lenine, na presença de outros embaixadores, em clima de grande tensão. Só o jornalista comunista norte-americano John Reed se movimentava em Moscovo com liberdade e conhecimento profundo, o que lhe permitiu escrever a obra-prima Dez Dias Que Abalaram o Mundo, que ainda se lê com emoção e prazer. De Lisboa chega ao diplomata Batalha Reis pouco amparo e consolo. (…)

Lenine e os bolcheviques triunfaram e o resto é o que a história registou e que mudou em aspetos tão profundos a relação dos povos em vários continentes. Estava lá um português, mas de partida, no meio de grande sofrimento.»

Para ler o artigo completo:


Jaime Batalha Reis





sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Leitores atentos...

Cada um faz as leituras que mais lhe convêm ...

Que vos parece? :))



quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Mais três Cidades Criativas em Portugal

A UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – atribuiu, no passado dia 31, o título de Cidade Criativa às cidades portuguesas de Amarante, Barcelos e Braga.

Braga foi distinguida na categoria de Artes Mediáticas, Barcelos na categoria de Artesanato e Arte Popular, e Amarante na categoria de Música.

O projeto apresentado pelo município de Braga “aprofunda o cruzamento entre arte e tecnologia e reconhece o grande esforço da sociedade civil e de diversas instituições da cidade na transformação digital da cidade”.




O concelho de Barcelos realça que se trata de um título inédito entre cidades portuguesas, sendo Barcelos o único representante da Península Ibérica na categoria de Artesanato e Arte Popular.



Por seu lado, a candidatura de Amarante fundamentou-se na importância e no papel da música na história da cidade, destacando desde logo a presença de quatro órgãos de tubos ibéricos em três igrejas do centro histórico, recentemente restaurados e a funcionar regularmente.



De referir que havia já dois concelhos com a classificação: Óbidos, no domínio da literatura, e Idanha-a-Nova, na música.

A Rede de Cidades Criativas da UNESCO foi criada em 2004 para fortalecer a cooperação entre cidades que consideram a criatividade um fator estratégico de desenvolvimento urbano sustentável com impacto social, cultural e económico.

Parabéns às cidades distinguidas! Enchem de orgulho todo e qualquer português.


quarta-feira, 1 de novembro de 2017

A Voz da Terra

«Chamando os fiéis para a missa, os sinos de São Domingos vibravam, tangendo e reboando sobre Lisboa, unindo-se às melopeias de bronze que vinham da Madalena, da Sé, da Conceição-Velha, de São Paulo, da Boavista, de São Cristóvão, chegavam do Carmo, ao convento da Trindade, subiam ao Loreto, a São Roque, alongavam-se por São Mamede, pelo convento dos trinos no Rato, na Estrela voltava a descer para São Bento, para Santos, atingia Santa Apolónia, o convento da Madre de Deus, a igrejinha de Marvila, de sininhos tangendo à beira Tejo – compondo harmónica e argentífera a voz de Deus, brônzea, ecoante, poderosa, repercutindo-se sob o céu de Lisboa, era a Voz de Deus, organizando o tempo e a azáfama dos homens, ritmando a cidade de Santo António, a voz da ordem, do domínio da paixão, do império do espírito, da submissão do corpo, a voz do Homem Filho de Deus, senhor e mestre da natureza.

(…)

Um trovão estourou dentro da terra (…) Julinho, encostado ao muro da fonte do Rossio, deu um salto, especado, olhando para o chão de terra batida, notou que o clangor dos sinos se desafinava, desarmonizando a Voz do Céu, e que, a seu lado, as abelhas que zuniam em torno do cesto de maçapão do vendedor de confeitos tinham desaparecido (…) no solo, gatos, cães, formigas e baratas do Rossio giravam tontos.

Então a Voz da Terra falou, um fragor cavo, seco e conflituoso, lento, crescente, uma fala cavernosa, rugente, um som rouco, avolumando-se sob Lisboa, emergindo dos subterrâneos, dos túneis, das fossas, dos buracos, das cloacas, das sentinas, dos regueirões, dos boqueirões, das caverna e grutas (…) ressoou pela cidade, não era um urro, um berro, um grito, era um lamento de pedra, prolongado e bafo, que reboava nas naves das igrejas, (…) estremecia as paredes dos prédios, invadia as casas (…) A Voz da Terra tornara-se hiante, aterradora, ensurdecedora, como milhões de bombardas explodindo sob os pés dos homens (…) Num átimo, o povo de Lisboa imobilizou-se, fixou os olhos no chão e levou as mãos aos ouvidos, tapando-os, aterrados, mas a brutalidade do rugido entrava-lhes pelos pés, pelas pernas (…) o pavor acolhia-se na barriga, no coração (…) na nave de São Domingos, iluminada por duzentas velas, ecoou um pasmo colectivo, um ah grave (…) que foi engolido pela voz medonha que saía da terra, furando as lajes e as paredes de pedra e barro (…) 

(…) era dia 1 de novembro, dia de Todos-os-Santos, Lisboa cultuava os seus mortos, para que tão mortos não estivessem (…) o Rossio abria-se ao meio e ondulava, saracoteava, coleava, o Rossio tornara-se no convés do São Bartolomeu oscilando sobre águas alterosas (…) o colégio da Companhia de Jesus desabou inteiro sobre homens e animais, submergindo-os (…) de uma só vez, como peça única, a mole dos telhados do convento [do Carmo], dos caixotões do tecto, do zimbório, da torre sineira, do coruchéu do terraço, do pináculo frontal, abateu-se sobre o balcão do coro, a sacristia, a nave central, os dois claustros laterais, o casario dos dormitórios e do refeitório dos monges , a massa de pedra e madeira ruiu sobre si própria (…) corpos esmagados , de carne retalhada, retorciam-se sobre os vultos quebrados de São Domingos e Santo Inácio de Loyola (…) submergidos numa fenda que o terramoto abrira ao lado da Misericórdia (…)

Lisboa, tocada pela Voz da Terra, convulsionara-se. (…)» 

(de “A Voz da Terra”, Miguel Real, 2005, pp 147 – 158, com supressões)