Dois dos meus netos mudam de ciclo este ano: a mais velha vai para o 2º
ciclo, para uma escola nova para ela, no centro da cidade, ela que fez sete
anos numa bela escola da periferia. O mais novo vai entrar no 1º ciclo na dita
excelente escola da periferia. Estão expectantes, ansiosos, nervosos, naturalmente.
Mas a mãe está bem mais nervosa do que eles… E não adianta que seja, ela
própria, professora de carreira com alguns 20 anos de serviço por esse país
fora. Quando nos toca nos nossos filhinhos é sempre de outra maneira…
É neste âmbito que trago aqui algumas das considerações apresentadas num
artigo que uma jornalista escreveu na revista do DN a propósito da entrada da
filhita para o 5º ano. Da escola pública, claro. (Como os meus netos –
absolutamente fora de hipótese o ensino privado.)
Diz ela: «A minha escola era parecida
com a da Rita. Pública. Aprendi (mais ou menos) as mesmas coisas, da mesma
maneira. Na verdade, e isso é um pouco desconcertante, o ensino em Portugal não
evoluiu muito em trinta e tal anos. E, no entanto, aqui estou eu, filha da
escola pública, a escrever esta crónica, com o suficiente pensamento crítico
para dizer que preferia uma escola diferente. Não me entendam mal. Não sou
ingrata. Defendo-a com unhas e dentes. E é por isso que queria que também ela,
a escola, crescesse, não olhasse para trás e fosse mais feliz.»
Muito bem. Tem alguma razão. Alguma apenas porque a dita jornalista
é jovem por de mais para fazer uma pequena ideia do(s) salto(s) imenso(s) que a
escola pública conseguiu dar entre os anos 70 e os anos 90. Mas, pronto! essa é
outra discussão.
E como pretende ela que a escola cresça? Muito simplesmente – e aí é que
eu, que acompanhei de perto e bem por dentro a escola desde antes da Revolução
até há bem pouco tempo, concordo a 100% com a jovem jornalista. Diz ela: «Que se deixasse de rankings e de quadros de
honra com cheiro a bafio e de turmas em que se juntam os melhores alunos e os
melhores professores a trabalhar para os resultados, enquanto outras acumulam
quase trinta miúdos.»
Isso mesmo! Acabe-se com a competição entre escolas, entre turmas, entre
alunos! Americanices que, infelizmente, se importaram da gestão de empresas. Só
que A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA! Para quê os rankings?
Para quê os quadro de honra – como nos cinzentos tempos salazaristas? Para quê
a competição entre turmas? Para quê formar as abomináveis turmas de nível em
que se separam os bons para um lado, os médios para outro e os ditos maus para
outro? Para quê as execráveis e pouco fiáveis avaliações externas que a
Inspeção-Geral de Educação lançou há uns dez anos? Competição, mais competição,
mais competição!
Em três dias, chegam três inspetores aos agrupamentos e, se não lhes forem
apresentadas resmas de documentos – e quando digo resmas, podem crer que são
mesmo resmas – mesmo que cheios de mentiras e de abstrações, mas muito bonitos,
com muitos gráficos e estudos comparativos e outras belezas que a informática
inventou, podem ter a certeza que a escola fica imediatamente avaliada por
baixo. Mesmo que os resultados dos alunos sejam excelentes e que os pais
prefiram aquela a outras escolas.
Para isso, os professores gastam horas e horas e todas as suas energias em
reuniões intermináveis e a preencher papéis e mais papéis. Em vez de terem
tempo para estudar, para aprenderem mais sobre pedagogia, para criarem formas
renovadas para as suas aulas.
Assessment, mais assessment, e mais assessment à americana!
Outra vez e outra vez mais nos concentramos no acessório e deixamos escapar
o essencial.