quarta-feira, 7 de junho de 2017

Conversas dramáticas


(Na cabeleireira)

(…) «Perguntaram pelo seu marido, D. Ernestina, e eu disse-lhe que tinha morrido.»

«Ai, D. Cristela, foram 56 anos de tormento! Quando tinha 48 anos, bem quis separar-me, mas ninguém me apoiou e tive de aguentar todos os dias de maus-tratos. Agora censuram-me porque ando vestida de preto, mas foi o meu filho que me pediu e agora tenho a roupa preta, tenho de a usar. Pelo menos até Agosto… Olhe mas ainda bem que ele morreu no hospital, foi uma sorte para mim.» (…) E caiu-se num silêncio pesado…
…..

(…) «Olha, esta também é viúva. E este também é viúvo! E este também? Ou já morreram? Têm uma cruz cada um…»

Pergunta a Cristela: «Que cruz? O seu facebook é mais atualizado que o meu? Deixe ver… Ah, essas fotos com uma cruz! São pessoas que não são suas amigas e a quem você pode pedir amizade!... » (…) Risos e gargalhadas, muitas gargalhadas…
….
(…) Diz a Cristela: «Se precisar de organizar uma festa, a qui o filho da D. Fernanda organiza eventos, festas, com brinquedos e tudo o que for preciso. A D. Fernanda faz bolos muito bons. E olhe que até já organizou festas de divórcios.» (…) Sorrisos e olhares enigmaticamente disfarçados…

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As conversas são reais: ouvi-as hoje na minha cabeleireira. Só os nomes são fictícios. 

Dramáticas, cada uma à sua maneira e no seu tom. Porém, muito mais dramático, foi ver aqui na rua uns papéis colados no portão de uma vizinha que quase apelavam à sua leitura. E eu fui ler. Eram do tribunal. E lá estavam os nomes do vizinho e da vizinha e, por baixo, o apodo de «insolvente». Não li mais. Senti que estava a violar a privacidade daquelas pessoas. Senti-me incomodada, chocada, ultrajada - podia ser eu ou alguém da minha família!

Assaltou-me de imediato o pensamento: «Será que colaram papéis destes na porta da casa do Duarte Lima? Do genro do Cavaco?»

Dramático, no mínimo!!



terça-feira, 6 de junho de 2017

As Festas de Lisboa

Leio que começaram no passado dia um as Festas de Lisboa. 

Agora a festa anda toda em redor das sardinhas decoradas que são muito bonitas, muito atraentes e têm puxado pela criatividade de tantos e tantos artistas.







Já houve tempos em que foi Almada o desenhador oficial das Festas de Lisboa.














Agora vejam esta surpreendente sardinha das festas de 2013.





segunda-feira, 5 de junho de 2017

As piscinas de S. Pedro de Moel

Posso dizer que é a minha praia do coração. Visitei-a pela primeira vez em finais de 60 pela mão do meu namorado da época (e atual marido) que passava lá os verões desde criança e logo me apaixonei por aquele cantinho implantado entre o pinhal do rei e o mar.

Praia de grande prestígio à época (lembro-me de como algumas pessoas ficavam admiradas quando, ainda a viver em Lisboa, eu dizia que vinha passar férias a S. Pedro de Muel – escrevia-se assim e eu gosto!) tinha já um moderno complexo de piscinas que até teve direito a ser inaugurado pelo Presidente Tomaz. Fez 50 anos no passado dia 1, leio no Jornal de Leiria.

De referir que era local de veraneio de gente rica, grandes e lindas moradias de férias dos industriais de Leiria e da Marinha Grande incrustadas no pinhal, tudo muito bonito, muito arranjado.

«Natural da Marinha Grande, José Nobre Marques era sócio de José Lúcio da Silva em fábricas de plásticos e borrachas. "O José Lúcio da Silva oferece o teatro a Leiria e o José Nobre Marques ficou assim um bocado pendurado na opinião pública, porque também era um homem muito rico. E então ofereceu as piscinas", conta Gabriel Roldão Pereira, morador em São Pedro de Moel e investigador da história local.»  (in JL)

O complexo das piscinas incluía piscina olímpica, restaurante, esplanada, salão de festas, cinema, bar - todos os equipamentos de lazer e bem-estar para a classe alta e média-alta daquele tempo. Era chique. E caro! Lembro-me de ter isso lá almoçar uma vez com o meu (já) noivo e pagámos cento e vinte escudos! Nessa altura eu almoçava na Tarantela, na D. Estefânia, por uns doze a quinze escudos no máximo…


(postal dos anos 70)

Muito mudou e se alterou neste cinquenta anos, mas as piscinas lá se foram aguentando com adaptações, com altos e baixos de lucros e de gestão até que fecharam em Setembro de 2013 e, desde então, encontram-se abandonadas e praticamente em ruínas. Uma tristeza!

Vejam só...









domingo, 4 de junho de 2017

Porque foi sábado

Ontem tive vontade de deixar aqui parte do extraordinário poema de Vinícius – escrito antes de eu nascer, imagine-se! – «O Dia da Criação», o sexto, exatamente porque era sábado e porque diz tanto da nossa natureza humana que tantas vezes tão pouco – ou nada – tem de humano.

Depois dos tremendos atos de violência que se viveram esta semana em Cabul e se têm vivido ultimamente por esse mundo fora, dá vontade de lamentar, como o poeta tão bem faz, o sexto dia da criação – aquele em que o Senhor criou homem.

Parecia eu que estava a adivinhar que mais um “major incident” haveria de estar para acontecer. Uma vez mais em Inglaterra. Dói-nos mais quando se passa aqui perto em locais que nos habituámos a amar como se fossem nossos. E a mim parece-me que a França e a Inglaterra têm sido por de mais massacradas.

E porque ontem foi mais um sábado desses violentos e violentados e eu falhei com o poema, deixo-o aqui hoje … porque ontem foi sábado.

(…)

«Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia,
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, frequentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.»

Vinícius de Morais, 1946
(para ler o poema completo, clique aqui)


sábado, 3 de junho de 2017

De onde viemos?




Tenham um bom fim de semana!

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Indian Love Call

Lembrei-me desta linda canção de amor, não sei bem porquê. Do tempo (que não o meu, mas do tempo do meu pai que assobiava estas maravilhas lá por casa) das operetas na Broadway no início do século passado, esta era a canção principal do musical Rose-Marie. A história desenrola-se nas Montanhas Rochosas do Canadá e conta a história de uma rapariga canadiana que se apaixona por um mineiro que vai ser acusado de um crime.

Foi o musical dos anos 20 do século passado que mais tempo esteve em cena na Broadway e acabou por ser adaptado ao cinema por mais de uma vez.

Apreciem o momento em que o mineiro se afasta de Rose e ela canta a canção que era de ambos: Indian Love Song.





quinta-feira, 1 de junho de 2017

Os Conselhos Gerais das Escolas

Leio sem qualquer resquício de espanto a deceção que a ex-ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, manifesta no seu artigo de opinião semanal de ontem no DN face à não consecução dos objetivos gerais do Regime Jurídico das Instituições do Ensino Superior (RJIES) aplicado pelo ministério de Mariano Gago há dez anos, quando ela própria detinha a pasta da Educação.

Centra-se a articulista, estudiosa e bem conhecedora que é destas e de outras coisas do governo das escolas, sejam eles do ensino superior ou de qualquer outro, em dois aspetos determinantes:
  • um é a ausência da avaliação da sua aplicação ao fim de cinco anos como estava consagrado na lei, nem ao fim de quase dez anos que faz em Setembro próximo;
  • o outro, que é aquele que me aqui traz, é a relação entre os reitores e os conselhos gerais. E explicita a Professora:

«Os conselhos gerais foram concebidos como órgãos de orientação estratégica das instituições de ensino superior, com elementos externos à universidade, e de supervisão geral da instituição. Têm competências de escolha e fiscalização do reitor. Os seus poderes são o contraponto dos poderes executivos reforçados dos reitores. Porém, na prática, em muitas universidades o reitor exerce um papel ativo na criação e composição do conselho geral, transformando-o numa extensão do seu poder e inviabilizando o necessário equilíbrio e separação de poderes pretendido na lei.(…) É o princípio da separação de poderes substituído pelo do alinhamento.»

Meses mais tarde, em Abril de 2008, fez a Ministra aprovar – depois de uma consulta pública «à portuguesa» – o Dec. Lei 75/2008 (de muito má memória, em minha opinião, que fiz questão de dar a conhecer ao meu “superior” que fez o favor de o meter na gaveta) que aprovou o regime de autonomia, administração e gestão dos estabelecimentos públicos da educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário.

[Aproveito para esclarecer quem tiver a paciência de ler este meu texto que nunca fiz parte daquele número infinito de professores desagradados com as medidas desta ministra, nomeadamente no que toca à avaliação dos professores, não fiz manifestações à laia do senhor Mário FENPRF (que, curiosamente, está a voltar à carga, enquanto esteve quase desaparecido no tempo do governo anterior) nem conspirei contra ela.]

Voltando ao regime de autonomia, administração e gestão das escolas, cumpre-me aqui informar que, tal como previsto para o ensino superior, também as escolas secundárias e os agrupamentos de escolas passaram a ter um conselho geral - que desempenharia as funções da administração, substituindo em muito, pelo menos teoricamente, a administração central. Seria (e é) composto por um número relativo de professores e pessoal não docente eleitos, encarregados de educação auto-designados, membros designados pela autarquia e membros designados por organizações da comunidade local. As escolas secundárias também elegem alunos para o CG. O seu presidente é eleito pelos seus membros (num máximo de 21) não sendo obrigatório que seja escolhido um professor.

As competências do CG são essencialmente de eleição e supervisão do diretor (nome já de si de má memória e muito mal escolhido) podendo demiti-lo, e de supervisão geral do(s) estabelecimento(s) de educação e ensino.

Teoricamente muito bem! Lembro-me de ter estudado esta partição de poderes – administração/gestão, a primeira para a comunidade educativa, a segunda para o diretor – quando fiz a minha primeira Pós-graduação em Administração Escolar na Universidade de Aveiro em inícios de 90. Influências da governação das escolas nos países da Europa do Norte.

A aplicação veio quase vinte anos mais tarde. Mas, tal como a Professora aponta para a relação de autêntica manipulação do CG pelos Reitores, o mesmo – ou pior – acontece no geral das escolas e agrupamentos: Os diretores “mandam” nos CG, manipulam-nos para a sua eleição ou continuidade no cargo, os membros do dito CG estão completamente desinteressados das suas funções e competências e as reuniões são praticamente reduzidas a carradas de informações dadas pelos diretores. [Fico a saber que, infelizmente, os Conselhos Pedagógicos – órgão da máxima importância nos regimes jurídicos anteriores – limitam-se agora também a ouvir infindáveis informações dos diretores… ]

Quem disse, quem pensou, quem acreditou que este povo, amarfanhado na sua maioria pela ignorância rural e eclesiástica e pela desinstrução instituída ao longo de séculos, estaria já pronto para responder aos desafios da democracia representativa, da cidadania ativa, da intervenção dinâmica nas instituições?

Que me desculpem, mas vão ter de passar décadas antes que isso aconteça. E, por favor, não me venham com exemplos esporádicos, que esses, embora muito apreciáveis, não contam para a generalidade de um país que se quer moderno e interventivo.