sábado, 11 de março de 2017

Jackie


Do Corte Inglês de Lisboa, só gosto mesmo dos cinemas. De resto é (melhor, parece-me) um espaço por de mais claustrofóbico onde temos de andar quilómetros (passe a expressão hiperbólica) para encontrarmos a escada rolante de que precisamos – se queremos descer só aparece a escada que sobre e vice-versa.

Então hoje tratei de me enfiar numa das salas de cinema a ver o filme Jackie. Tinha visto no jornal que lhe eram atribuídas pela crítica uma série de estrelas, mas ponho sempre alguma reserva às críticas pelo que ia um pouco descrente. Mas enganei-me e ainda bem. Gostei imenso do filme. Uma excelente representação por parte da artista principal – Natalie Portman. Um filme altamente emotivo e emocionante – sem lamechices, entenda-se – que retrata os quatro dias após o assassinato do Presidente Kennedy intensa e dramaticamente vividos pela recém-viúva. A “culpa” que encarna por não ter conseguido e a morte do marido protegendo-o do segundo tiro, a inesperada e atabalhoada tomada de posse de L. Johnson no avião que transportava o corpo quase ainda quente de Kennedy para Washington, o dar a notícia aos seus pequeninos, os tumultuosos preparativos do funeral, o inusitadamente apressado abandono da Casa Branca, tudo isso tendo como que inspiração no assassinato e funeral do Presidente Lincoln – uma presença que quase funciona como uma marca de água do filme.

E depois, o que mais me encantou no final do filme: a evocação da música do filme Camelot, um musical de 67 que adorei ver (com a belíssima Vanessa Redgrave) e que afirmava a magia do amor, a beleza da arte, a utopia da vida. 





sexta-feira, 10 de março de 2017

Filha única

Um dia destes, ao olhar-me no espelho para me pentear, vi o caracol que o meu irmão tinha sobre a testa e lembrei-me dele. Lembrei-me especialmente daquele retrato de quando ele era pequenino e eu ainda nem tinha nascido.

Para que conste, eu tive um irmão. Estive sempre inscrita no livro dos filhos únicos, com aqueles adjetivos todos com que gostam de apodar os filhos únicos, mas tive um irmão. Sempre gostei de espantar os meus conhecidos e amigos mais próximos dizendo «sou filha única, mas tenho um irmão!» Nascido do primeiro casamento do meu pai que, infelizmente, pouco durou, ficou órfão de mãe muito pequenino tendo sido enviado para Barcelos para a casa da avó e das tias que o criaram com o maior carinho, com o maior desvelo.

As tortuosidades da vida não permitiram que vivêssemos juntos e foram parcas as vezes que nos juntámos em crianças. Só mesmo quando fui para a Faculdade, já ele voltara a Lisboa, tivemos algum contacto e acabámos por apadrinharmos o casamento um do outro. Seguimos caminhos profissionais muito idênticos e mantivemos uma estreita relação de amizade. A doença atacou-o novo e levou-o antes de completar os 60 anos.

Não teve uma vida feliz, mas nunca se lhe ouviu um lamento sobre nada. Não foi o meu amado irmão – esse lugar guardo-o para o meu primo-irmão – mas lembro-me muito dele sempre com uma ponta de nostalgia, de tristeza. Lembro-me dele quando, em tempo de chuva, o meu cabelo fica rebelde (chamavam-me «pelo de arame» no colégio) e, ao olhar-me no espelho, vejo o caracol que ele tinha sobre a testa.





quinta-feira, 9 de março de 2017

quarta-feira, 8 de março de 2017

Mulher

A mulher não é só casa
mulher-loiça, mulher-cama
ela é também mulher-asa,
mulher-força, mulher-chama

E é preciso dizer
dessa antiga condição
a mulher soube trazer
a cabeça e o coração

Trouxe a fábrica ao seu lar
e ordenado à cozinha
e impôs a trabalhar
a razão que sempre tinha

Trabalho não só de parto
mas também de construção
para um filho crescer farto
para um filho crescer são

A posse vai-se acabar
no tempo da liberdade
o que importa é saber estar
juntos em pé de igualdade

Desde que as coisas se tornem
naquilo que a gente quer
é igual dizer meu homem
ou dizer minha mulher


Ary dos Santos


Almada Negreiros


terça-feira, 7 de março de 2017

Foi há 60 anos.

Quem se lembra?



As primeiras vezes que vi televisão foi na esplanada em Algés. Via-se tão mal! Um aparelho enorme lá ao longe e toda a gente nas mesas a tentar ver e ouvir com a maior atenção. A imagem cheia de "grão" e com tantas interrupções... «o programa segue dentro de momentos».... 

Depois, já em Sintra, íamos ver televisão à Periquita (sim, a das queijadas e dos travesseiros deliciosos...)

Só em 59 ou 60 é que tivemos televisão em casa. Que luta para termos imagem! Que luta para orientarmos a antena... Mas, às nove horas em ponto, lá estávamos todos em frente ao aparelho - caixote enorme! - para ouvir o sinal de abertura e ouvir o telejornal.




segunda-feira, 6 de março de 2017

Hoje temos gato estufado...

Isso mesmo! Gato estufado.      Mas não é no tacho. Acreditavam alguma vez que eu fosse capaz disso? 

Só que a língua portuguesa é muito traiçoeira...

Estufado, quer dizer...          em estufa...

Ora vejam.




Quando chove, metem-se debaixo do plástico que protege o banco...

Quando faz Sol, saem da estufa...





domingo, 5 de março de 2017

Devo ser mesmo o diabo!

Que fique aqui bem claro que não venho em busca de palavras de conforto dos meus amigos que tantas vezes fazem o favor e têm a generosidade de mas prodigalizarem …

Como considero este espaço um diário de bordo, um weblog, costumo aqui registar os momentos, os acontecimentos, os sentimentos, as emoções que mais me tocam.  É o que, uma vez mais, vou fazer.

Devo ser o diabo!! Hoje de manhã, encontrei dois ex-colegas lá da “minha” escola e, de alguma forma, fiquei indisposta. Uma foi “minha” vice-presidente nos meus tempos de presidente do Conselho Diretivo nos idos de 80. Colegas e amigas. Tive várias equipas porque, desde finais de 70, dirigi, sempre que foi necessário e não havia mais ninguém disponível, a escola – mais tarde agrupamento – e, felizmente, sempre consegui uma especial parceria, uma familiaridade, uma cumplicidade até entre os vários membros. Para isso concorriam o trabalho que tínhamos de desenvolver em comum, as muitas horas que trabalhávamos juntos e as por vezes, muitas vezes, difíceis decisões que tínhamos de tomar.

Pois essa minha ex-colega, ex-vice, ex-amiga dizia (hiperbolicamente, claro!) que tudo o que sabia (em termos de gestão, naturalmente!) tinha aprendido comigo. Hoje – aliás como de há uns anos para cá – falou-me fria e superficialmente sem sequer olhar para mim.
Saí da frutaria onde nos cruzámos com essa quase mágoa e passa por mim um outro dos meus ex-colegas – esse, porém, não meu ex-amigo – que recebi no meu último grupo de trabalho para evitar que fosse dar aulas, que não era das tarefas que ele mais gostava de desempenhar, num momento de regresso à escola após um destacamento terminado e a quem consegui passagem para o nono escalão que ele, por si só, não conseguira – passa por mim, dizia eu, de cara fechada, zangada, azoada, e nem ao meu marido foi capaz de dar os bons-dias…

Devo mesmo ser o diabo!! Ri-me, pois que mais?

Mas logo, logo relembrei como me “apunhalaram pelas costas”; logo, logo revivi as trapaças que, com o seu grupo de amiguinhos congeminaram para porem lá um diretor fraquinho, facilmente manipulável pelo lobby; logo, logo me doeram as reuniões em casa de uma delas – que sempre se fez, e faz, minha amiguinha – para me afastarem.

As fraudes foram várias e queixámo-nos delas, mas os “superiores” e os Inpetores em educação pouco querem saber do que se passa nas escolas desde que lhes apresentem papeis com muitos gráficos coloridos e muitas frases bonitas.

E afastaram-me, mau grado as velhacarias e a má-fé. Mas, ao fim deste tempo todo – sete anos passados – são eles que não me falam!

Devo ser mesmo o diabo!

(brinco muito com o diabo e o inferno… costumo dizer que sou tão má que, quando morrer, vou logo de cabeça para o inferno, mas quantas as pessoas boazinhas que lá vou encontrar!!!...)