quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Só à noitinha

Contava-me a minha mãe que, era eu bebezinha, lá em Algés, teve uma criada (desculpe-se-me a palavra. Nesse tempo "não havia" empregadas domésticas e, muito menos, colaboradoras como agora. Além de que eu não tenho qualquer medo das palavras ...) que tinha tido um grande desgosto de amor. (Tal como a fadista que aqui trago hoje, aliás.)

Nesse tempo - e estou a falar nos finais de 40/iniciozinhos de 50 - ouvia-se rádio a todas as horas porque não havia mais nada e a música que passava era essencialmente (para não dizer «apenas») música portuguesa e a música portuguesa era fado - a canção do regime. 

Ora a dita criada, que ao que a minha mãe dizia tratava muito bem de mim, de cada vez que na rádio passava este fado «Só à noitinha», largava-se num pranto sem fim, além de que, no final da tarde, àquela hora crepuscular que mais nostalgia nos traz, retirava-se para o seu quarto para chorar.

(Assim quase estou eu, mesmo sem o tal desgosto de amor... (muito dada a episódios depressivos, enfim!!)


Vale a pena ouvir este fado de 1945 quanto mais não seja para apreciar a voz ainda tão límpida de Amália Rodrigues.





quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

A Vieira de outros tempos

«Tenho dito aqui por mais de uma vez que, menina lisboeta, vivi cerca de ano e meio na vila da Vieira de Leiria onde fiz parte da 1ª classe, a 2ª e o início da 3ª. Foi das experiências mais ricas da minha infância por ser um ambiente tão diferente e distante daquele que conhecia. De recordar que isto se passou em 1957/58. Foi lá que, pela primeira vez, vi uma picota (que encanto!) uma lagartixa, um ancinho para ir à caruma (bem como a própria caruma), cântaros de barro com que as mulheres iam buscar água à fonte e as respetivas cantareiras, mulheres descalças com os canos de lã nas pernas, as camarinhas, aquele mar violento a levantar-se em ondas altas e furiosas, aqueles barcos lindos de proa altíssima a lembrar os Vikings, os bois e as mulheres – tão fortes quanto eles – a puxarem as redes cheiinhas de peixe a saltar, etc. etc.»

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De novo trago aqui a introdução do meu texto Génio Lusitano por se tratar de um momento da minha infância que me foi/é grato de mais e que ficou absolutamente na sombra do texto principal. Hoje deixo este pedaço de memória ilustrado por um diaporama que encontrei na net e que até parece que foi feito com tantas imagens que guardo daqueles idos de 50 de tanta beleza para mim, mas de imensa miséria para aquela gente, aquelas mulheres, que trabalhava no campo, no pinhal, na fábrica das limas, no mar. 




terça-feira, 31 de janeiro de 2017

A ressonância magnética

Sabe quem já experimentou como é desagradável fazer uma ressonância magnética. A barulheira é de tal ordem que parece que estão a britar as paredes ali mesmo em cima de nós; depois vem o som de fortes marteladas por cima da nossa cabeça, tudo isto acompanhado por aquele som trepidante dos martelos pneumáticos. Tudo isto connosco deitadinhos dentro de um exíguo tubo branco com a recomendação de que não nos movamos sob pena de se ter de começar o exame de início. Até nos põem uma campainha na mão para interromper o exame em caso de emergência.

Hoje tive de fazer um desses exames e, como não foi a primeira vez, mantive-me calma, e tentei pensar em coisas agradáveis e leves.

Foi quando, face à barulheira do “martelo pneumático” a “rebentar o chão” ali mesmo juntinho a mim, me lembrei de uma anedota muito, muito velha, do tempo do liceu que se contava assim:


Um fulano todos os dias passava por uma obra e via um operário de martelo pneumático na mão a perfurar o solo fazendo as fundações. Como era muito gozão, todos os dias lhe dizia:

- Então? A andar de lambreta?

O outro ficava furibundo mas nada podia fazer. Até que um dia pensou esperá-lo com um tijolo na mão para lho atirar em cima.

No dia seguinte, lá estava ele preparado com o tijolo junto à cara para atirar em cima do provocador.

Quando este chega e o vê naquela posição, diz com o ar mais escarnecedor:

- Então? Hoje a ouvir rádio?...


segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Génio lusitano

Tenho dito aqui por mais de uma vez que, menina lisboeta, vivi cerca de ano e meio na vila da Vieira de Leiria onde fiz parte da 1ª classe, a 2ª e o início da 3ª. Foi das experiências mais ricas da minha infância por ser um ambiente tão diferente e distante daquele que conhecia. De recordar que isto se passou em 1957/58. Foi lá que, pela primeira vez, vi uma picota (que encanto!) uma lagartixa, um ancinho para ir à caruma (bem como a própria caruma), cântaros de barro com que as mulheres iam buscar água à fonte e as respetivas cantareiras, mulheres descalças com os canos de lã nas pernas, as camarinhas, aquele mar violento a levantar-se em ondas altas e furiosas, aqueles barcos lindos de proa altíssima a lembrar os Vikings, os bois e as mulheres – tão fortes quanto eles – a puxarem as redes cheiinhas de peixe a saltar, etc. etc.

Foi lá que, pela primeira vez, fui a um baile numa sociedade recreativa, fui empalhar garrafões, fui à caruma, fui a um funeral enquanto menina da escola de batinha branca em fila atrás do féretro.
Foi lá que também pela primeira vez assisti a uma espetáculo estilo revista à portuguesa realizada e interpretada por pessoas da vila e talvez de Leiria, não sei bem. Lembro-me de alguns quadros muito engraçados e houve um que me marcou bastante: era um diálogo em que um dos artistas ia criticando várias circunstâncias e contingências do povo e do país enquanto o outro, vestido de jardineiro – lembro-me bem! – respondia sistematicamente: «Ah! Isso é lá com eles!»

Vem isto a propósito de um artigo que li hoje no DN cujo título é exatamente Génio Lusitano. O autor, que é português mas que tem uma avó checa e outra catalã, um avô austríaco e um pai alemão, faz uma crítica muito bem feita e bem divertida (?) à nossa capacidade (ou será uma incapacidade?) de olhar para o lado…

Diz ele: (…) «Os problemas impossíveis de se resolver em terras lusas são regra geral minúsculos: a luz dum poste de iluminação pública que não funciona há anos, o funcionário sem meios ou vontade para atender pessoas, os fios de telecomunicações que alastram nas fachadas dos prédios como a peste negra, a sala de aulas sem aquecimento, o devedor que não paga, o senhorio que não faz obras, o tempo de espera pela consulta, o autocarro que não passa, o vizinho que estaciona o carro no passeio sem deixar espaço para passar um chico fininho.

Esta prodigiosa faceta do carácter nacional permite deixarmos de ver as pequenas monstruosidades que nos rodeiam e é única na Europa. Num país, que por semana fica à frente em dezenas de rankings, é estranho não ter ainda aparecido uma revista internacional a colocar-nos em primeiro lugar na modalidade "olhar para o lado". (…) Tentar fazer alguma coisa não serve de nada, é a desculpa que se ouve sempre, por isso não se tenta fazer nada. "Eles", seres distantes algures nos centros de decisão, "também não fazem a ponta de um corno", "aquilo é só tachos", "anda tudo na mama" ou "só mudam as moscas". Em vez de tomarmos a iniciativa e limparmos nós a porcaria à pazada, é uma enxurrada de desculpas para não mexer uma palha e tudo ficar igual.


Em Portugal a cidadania não é vivida como um direito. É um fardo que se carrega às costas. E por cima do fardo ainda estão "eles" empoleirados, os "lá em cima". Se, por sua vez, pergunto a um de "eles lá em cima", também olham para o lado e dizem-me que são "eles", os "ali ao lado", que lhes empatam o serviço. (…)»

Connosco é mesmo assim: «Isso é lá com eles» e assobiamos para o lado.




domingo, 29 de janeiro de 2017

Medicina cubana

E para começar bem a semana, aqui fica uma consulta médica bem divertida.


sábado, 28 de janeiro de 2017

Ano do Galo




Telas de Clotilde Fava.


(Desconheço o autor)


(Galaró de crista... Não da Cristas...)

(De uma amiga que vive na China)

(Galo armado em carapau de corrida...)


O ano de 2017 será o ano do Galo, e como o calendário chinês é diferente do nosso, a mudança do ano é hoje, dia 28 de janeiro.  O signo do Galo caracteriza pessoas cheias de coragem, honestidade e ambição. Portanto, esse ano estará contagiado com essa energia de dinâmica, mudança, de novas ideias e oportunidades. Será um ano para quebrar barreiras, perder o medo, ser uma pessoa destemida em busca do seu destino, ele exigirá muito esforço das pessoas para atingir os seus objetivos. Todos estarão almejando o mesmo, o sucesso pessoal e profissional e estarão, em maior ou menor grau, contagiados com a energia intensa do Galo. Por isso, se você quer ter sucesso e atingir os seus objetivos em 2017, terá a energia ao seu favor mas precisa se dedicar muito para enfrentar a concorrência….


(E eu que sou do signo do Rato... ...)

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Spanish Harlem

Em tempos uma das minhas canções preferidas. Com estas tiranias que aquele troll que ascendeu a presidente  dos Estados Unidos tem prometido fazer - e até já começou a fazer - lembrei-me dos bairros de Nova Iorque com as suas comunidades variadas e veio-me à cabeça esta linda canção.

Nem é preciso dizer que a minha versão preferida é a do Cliff, se bem que o original tenha vindo da multifacetada música americana.

Vejam se se lembram. E se gostam. E qual preferem.







(East Harlem, também conhecido como El Barrio ou Spanish Harlem, é um bairro em Manhattan na cidade de Nova Iorque, no estado de Nova Iorque, nos Estados Unidos. A maioria de sua população é formada de latino-americanos. Harlem é uma das maiores comunidades de predominância latina em Nova Iorque. A comunidade latino-americana cresceu rapidamente após os anos de 1950 e ao final dos anos 60 já compunha a maior parte da população.)  

(informação retirada da Wikipedia)