terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Navio que partes...



Navio que partes para longe,
Porque é que, ao contrário dos outros,
Não fico, depois de desapareceres, com saudades de ti?
Porque quando te não vejo, deixaste de existir.
E se se tem saudades do que não existe,
Sente-se em relação a coisa nenhuma,
Não é do navio, é de nós, que sentimos saudades.



1918, “Poemas Inconjuntos”

In “Poemas Completos de Alberto Caeiro”


domingo, 8 de janeiro de 2017

Elvis sempre!

Ele viveu bem «à sua maneira» e isso, de alguma forma, o levou à morte. (não nos cabe julgar, nem sequer comentar; mas apenas lamentar a perda)

Que bem cantava! (e que lindo era!) O Rei!

Nasceu faz hoje 82 anos. Fará no próximo mês de agosto 40 que partiu.

Em jeito de mera lembrança aqui fica uma das suas últimas interpretações. Aliás, belíssima.





Para quem prefere a sua versão mais jovem e ritmada, podem relembrar a sua versatilidade, o seu movimento, a sua alegria contagiante, a rutura de atitudes e de comportamentos que provocou - é preciso lembrar que se estava em 1956/57 - e que tanto nos revolucionou.








sábado, 7 de janeiro de 2017

Sem palavras



























Até sempre!!


sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Aparências

Tive umas tantas cadeiras com ele – ele em Românicas e eu em Germânicas (entrámos na Faculdade no mesmo ano, 1966) a primeira das quais, «Introdução aos Estudos Linguísticos», regida pelo pai, o saudoso Professor Lindley Cintra. Nesse tempo, ninguém falava nas aulas, pelo que quase nem me lembro de lhe ouvir a voz ou notar a atitude (ao contrário do Júdice, o poeta, que por vezes era solicitado pelo professor.)

Como não sou pessoa de teatro (desculpe-se-me a insensibilidade ou a incultura) nem apreciadora das fitas de Manoel de Oliveira, não lhe segui a carreira, sabendo de longe que era gente de vulto na “alta cultura”, contracenando com os grandes lá de fora – a linda e sensual Deneuve, o Malkovich, o da voz de veludo – e pouco mais.

Soube que vinha aqui ao Mosteiro da Batalha numa noite de Outubro fazer a leitura do Livro Eclesiastes na tradução do nosso infeliz humanista do século XVI Damião de Góis e lá nos abalámos para o ouvir.







Muito bem lido, muito bem representado, mas devo dizer que não gostei da atitude, da distância que manteve do muito público que ali se deslocou – como se tivesse provido de uma máscara. Grega. Vim algo desiludida.

Hoje li por alto – não gosto de ler entrevistas – uma longa entrevista que deu ao Jornal de Leiria e continuei e ficar com um sentimento de não simpatia pelo que afirma, ou melhor, pela forma como afirma, como transmite as suas ideias, as suas opiniões. Sempre de cima para baixo – parece-me – sempre com uma ponta de sobranceria, um pouco pedante até.

«Acho o livro Eclesiastes particularmente adequado a um recinto sobre a vaidade, um mosteiro erguido em honra de um rei para festejar uma vitória militar sobre outras pessoas.»

«Não voto porque acho evidente que o sistema político e eleitoral é uma farsa. As próprias pessoas que votam neles não lhes reconhecem autoridade como representante. Pessoas da minha geração que sonharam que o sistema político corresponderia a uma mudança sentem-se tristes, desconsoladas. No meu caso, fiquei sempre de fora, recusei tudo. Como sou artista, acho que faz mais sentido colaborar intervindo individualmente (…)»

E diz que voltou a ser católico – agora que foi envelhecendo e ficando doente – «com uma espécie de raiva por não ter entendido que era uma estupidez afastar-me da igreja.» E que se revê no Papa Francisco «pela simpatia, pela simplicidade, pela negação de tudo o que são acrescentos moralistas à verdade essencial.»

Pois eu fico com a sensação que o Luís Miguel Cintra é – ou pelo menos aparenta ser – tudo o que o Papa Francisco não é.


O pai dele, esse sim, terá sido bem mais parecido com o atual Papa. Pela sua simpatia, pela sua simplicidade, pela generosidade das suas atitudes, das suas crenças, dos seus valores, dos seus comportamentos.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

O desconcerto da Natureza

Janeiro entrou frio e chuvoso. Depois daquele Dezembro soalheiro de tardes primaveris, pensei que agora sim, tinha entrado o inverno. Não que eu goste por aí além do clima invernoso, mas as coisas querem-se a seu tempo.

As plantas no meu nano-mini-micro jardim andam completamente baralhadas. Senão, veja-se.

Os brincos-de-princesa continuam a florir.





As rosinhas de Santa Teresinha não param de desabrochar para a sua duração breve de um dia. «Essas volucres amo, Lídia, rosas /Que em o dia em que nascem, /Em esse dia morrem.» (Ricardo Reis)




A cameleira, que costuma dar botões com os primeiros frios de Novembro, ainda agora mostrou o seu primeiro botão.




 Está na altura de cortar as hortenses mas elas ainda estão a florir.









Últimas hortenses do ano

Que enorme desconcerto!!!


terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Uns bons acordes de guitarra

Nada como uns bons acordes de guitarra elétrica para animar o início do ano!

E um bom ritmo. E uma boa voz. E uma boa encenação. Ah! E muita sensualidade....

Vamos relembrar - Man! I feel like a woman!


Let's go, girls!!




segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

«Ronda da mil belas em frol»

Começar bem o ano é a falar de Literatura. E escolhi a «Ronda das mil belas em frol», o último livro de Mário de Carvalho, um dos meus autores preferidos da atualidade. Trata-se de uma série de 16 pequeninos contos sobre sexo, dedicados pelo autor «com recomendações mil, aos fariseus pudibundos deste país. E aos filisteus também.»

Comprei o livro para o homem da casa – que isto de contos sobre sexo diz-lhes muito a eles (!) – e depois li-o eu. E, para parafrasear o comentário de Miguel Real no Jornal de Letras, considero-o «excelente, excelente, excelente, excelente». Quatro vezes excelente.

«Excelente porque faz o milagre de contar histórias sobre sexo cruzando o atrevimento da intimidade com o pudor da linguagem.»

«Excelente porque escreve sobre sexo sem encher o texto de impropérios, ausente de um calão doesto próprio dos antigos bordéis de Alfama e do Intendente.»

«Excelente porque a mulher (o narrador é um homem) não é, nestes contos, um objeto de prazer do homem, como o era Amélia para o padre Amaro, não é um objeto de uma paixão devastadora, como a de Simão Botelho por Teresa, não é uma heroína saramaguiana, uma desequilibrada loboantunesiana, uma ingénua ou interesseira agustiniana, uma voragem de prazer lúbrico luispacheciano, ou uma vexada ou opressa à Maria Teresa Horta, não. É um ser humano completo, normal, curioso do seu corpo, considerando a monogamia (as casadas) uma imposição social a que se deve obedecer, sem que deixe de aproveitar-se um momento de distração conjugal e se experimente uma relação carnal com outros homens.»

«Excelente porque o léxico é ambicioso, mais amplo não podia ser, um imenso leque semântico como o autor há muito nos habituou (…) uma escrita clássica, proporcionada nas partes, única no todo, operando uma síntese da história da língua portuguesa. (…) Está aqui tudo – o primeiro Eça de perto, todo o Camilo de longe, (…) a serenidade literária de Fernanda Botelho quando descreve um corpo macho a penetrar um corpo fêmea. Não está aqui a raiva explosiva e insurrecta de Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta nem a lubricidade patológica de Luís Pacheco.»

A apreciação crítica plasmada na contracapa do livro diz que «Todas as histórias nele contidas narram percalços, espantos e sobressaltos de ligações íntimas entre homens e mulheres, o que se desvenda, o que se oculta. Rasgos perversos. Permanências e rupturas. Nem sempre se encontra o que se espera, nem se espera o que se encontra. A variedade é avassaladora. A diferença inevitável. (…)»

E tudo sempre narrado com a naturalidade mais desassombrada, sempre de forma elegante e requintada. Textos salpicados com algum humor, outras vezes com um final surpreendentemente inesperado, mas sempre temperados com aquela ironia fina que o autor tão bem domina.


Vale a pena ler.