terça-feira, 1 de novembro de 2016

1 de Novembro de 1755

«Sabe-se que naquele dia, um sábado, algures entre as 9 e meia e as 10 da manhã, “começou o território de Lisboa a tremer de sorte que dentro de pouco tempo se sentiu abalar a terra de vários modos. […] No princípio foi mais brando o abalo. Mas pouco depois crescendo cada vez mais o tremor, começaram primeiramente a estalar os forros e sobrados, logo a despegarem-se os rebocos, depois a abaterem-se com grande estampido as abóbodas, caindo ou abrindo-se por último as mesmas paredes e torres.” Assim principia o padre Pereira de Figueiredo a sua descrição da catástrofe, para depois continuar: “alguns sete minutos durou o tremor de terra, o mais formidável que jamais viram os Portugueses. A este se seguiram outros quatro, mais pequenos na duração, mas iguais na força […] ao primeiro tremor de terra se seguiu imediatamente no mar uma extraordinária alteração e crescimento das águas […] e em Lisboa saindo dos seus limites, e entrando pela terra dentro mais de cinquenta estádios, romperam as ondas algumas pontes, desfizeram muros, e arrojaram à praia madeiras de demarcada grandeza.” A destruição não ficou por aí: “mas ainda se não dava por satisfeita com estes castigos a ira de Deus que no mesmo dia afligiu com outro novo, e muito sensível golpe a infeliz Lisboa. Foi esse grandíssimo incêndio, que de repente se ateou em vários sítios da Cidade […] e como o susto tinha afugentado de tal sorte a gente, que atónitos e espavoridos andavam quase todos dispersos pelos campos, puderam as chamas discorrer livremente por várias partes, e consumir em quatro dias as riquezas de uma cidade, que era o Empório de toda a Europa.” Eis, de forma concisa, o que se passou naquele dia. […]

Os efeitos sobre o património edificado foram devastadores, afirmando-se pouco depois da ocorrência que mais de dois terços da cidade se encontravam inabitáveis. A esmagadora maioria das cerca de quatro dezenas de igrejas paroquiais ficou destruída ou em risco de ruína. Todos os hospitais soçobraram. Destruídos ficaram a maioria dos edifícios da administração central e das alfândegas, tal como o Paço Real da Ribeira e, com ele, as edificações mais emblemáticas de D. João V e de D. José na cidade: a Igreja Patriarcal e a Ópera do Tejo, respetivamente. […] Por fim, terão sido destruídos a maioria dos stocks de mercadores existentes nas alfândegas, nos armazéns e nos próprios navios, com notórios efeitos em todo o comércio internacional da época.»


(in «D. José Na Sombra de Pombal», de Nuno Gonçalo Monteiro, Círculo de Leitores, 2006, pp. 81-82)




segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Postal

Já aqui disse por mais de uma vez que adoro postais. Gosto, mesmo agora que caíram em desuso, de os escrever e mandar pelo correio e gosto ainda mais de os receber.

A minha boa amiga Susie, uma senhora canadiana que viveu aqui em Leiria durante alguns anos e a quem ensinei português, tendo já regressado à sua terra natal, envia-me postais lindíssimos, daqueles que não se encontram por cá.

Hoje recebi um postal do Halloween que não resisto a mostrar aqui. Lindo e cheio de significado. Encheu-me o coração.



Desdobrando:

(Mesmo sendo um longo caminho até tua casa)


(o calor que partilhamos)


(chega para o caminho todo)

Lindo, não é?

Tenham um bom feriado!


domingo, 30 de outubro de 2016

Hallowe'en? Porque não?

... que não é uma tradição nacional... que nós temos o Pão-por-Deus e mais o Dia do Bolinho... para que é isto agora... que a culpa foi dos professores de Inglês... que já substituímos o Menino Jesus pelo Pai Natal  (e até é fino substituir o almoço de domingo pelo "brunch" e ninguém se queixa!) e mais não sei o quê...

Ora se até já fomos levados a aceitar o músico Bob Dylan como o vencedor do Nobel da Literatura, por que diabo não podemos aceitar o Hallowe'en como (mais) uma festa (quase) nossa?!

Vejam se não é bonita esta festa.





E se vos aparecesse uma bruxinha destas bem atrevida que encontrei à solta no facebook, não ficavam convencidos?



Bom Dia das Bruxas!

sábado, 29 de outubro de 2016

O país dos ais

Foi a meio da manhã. Cheguei à florista e estavam duas pessoas à minha frente. Olhei para as imensas vasilhas com flores e respectivos preços e, com o olhar, escolhi um gordo ramo de belas margaridas brancas de corolas bem cheias.

Esperei. A senhora que estava a começar a ser atendida optou por deixar as flores encomendadas porque estava com um bocadinho de pressa. Bem encostada ao balcão, ditou, com todas as delongas, para a empregada o tipo de flores que queria, o preço limite do ramo e depois, demorou um bom pedaço de um bocado para decidir a que horas haveria de ir levantar a encomenda. «A que horas fecham?» E a empregada, sorridente mas a pretender mostrar o ar mais estafado do mundo afirmava que a patroa era capaz de nem fechar. Aí a dona da loja arremelgou os olhos mostrando o seu ar mais cansado e disse que fechar, fechava, mas não sabia quando, pois se já não aguentava com tanta dor nas costas. E mais já estava drogada. A partir daí foi um desfiar de ais e de uis que nunca mais acabavam. A segunda cliente meteu-se na conversa reclamando horas e horas de trabalho que ainda teria de cumprir, ao que a empregada respondeu que estava ali que nem a conseguia ver de tão tonta que se sentia e por aí fora… A senhora que afirmara estar com um bocadinho de pressa lá se decidiu a marcar a recolha das flores para as sete e meia e a segunda cliente – que asseverara ter muito trabalho pela frente – foi placidamente atendida pela dona da loja (que já se drogara) enquanto eu, que já tinha as minhas margaridas de braçado, entreguei apressadamente a nota sem troco à empregada (antes que ela, no transe de uma tontura, se espetasse no chão) e quase nem lhe dava tempo para enrolar as flores numa folha de papel para que não pingassem…

Saí breve. Nunca suportei queixumes no trabalho! A atitude no trabalho tem de ser diligente e ativa. Se está doente, trate-se. Se está contrariado, mude-se. 

É uma das nossas (tristes) maneiras de ser: o lamento é o nosso melhor suporte. Se não nos queixamos, podemos dar a ideia que não “nos matamos” a trabalhar e, por outro lado, não granjeamos a piedade dos outros. Assim um pouco como na tragédia grega…





sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Recado

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas.
Quando se vê, já é sexta-feira.
Quando se vê, já terminou o ano.
Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê, já passaram-se 50 anos.
Agora é tarde demais para ser reprovado.

Se me fosse dada, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas.
Desta forma, eu digo:

Não deixe de fazer algo que gosta, devido à falta de tempo, 
pois a única falta que terá,
será deste tempo que infelizmente não voltará mais.



(Mário Quintana)

(Foto de F. Mendes)

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Vendo-a como a comprei…

Não se trata de uma anedota. A história verdadeira foi-nos contada há pouco e passou-se com uma familiar próxima de quem no-la contou. E rimos a bom rir. Eu vou apenas (re)contá-la para todos vós. «Vendo-a como a comprei». Mais ou menos. Com mais ou menos particularidade, com mais ou menos adjectivo, com mais ou menos advérbio. Sabe-se que «quem conta um conto, aumenta (sempre) um ponto»…

Era uma senhora distinta, já avó de netos, temente a Deus, respeitadora constante de todos os Mandamentos da Santa Madre Igreja e presença assídua na missa e em outros acontecimentos da sua paróquia.

Um dia veio de passeio até às Caldas da Rainha, cidade por de mais conhecida pelas suas vistosas loiças – e nem é preciso nomear o Bordalo Pinheiro – e pensou que lhe ficaria bem levar uma lembrança ao senhor prior.

Entrou em diversas lojas da especialidade e bem lhe mostraram as belas peças em forma de folha de couve, outras ornamentadas com belas lagostas e outros animais e apetitosos frutos, mas nada disso – pensava a piedosa senhora – agradaria ao senhor prior.

Até que lobrigou uns frades capuchos muito rechonchudos e de olhar seráfico que fizeram as delícias da senhora: seria a prenda ideal para o senhor prior. Mandou embrulhar, pagou e sentiu-se satisfeita no seu intento.

Já os meus amigos estão a ver a cara da senhora e do senhor prior quando este recebeu e abriu a prenda!!


     


    

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Cópia da cópia é no que dá...

(Pode ser já vossa conhecida, mas esta chegou-me hoje por mail.)

Um jovem noviço chegou ao mosteiro e logo lhe deram a tarefa de ajudar os outros monges a transcrever os antigos cânones e regras da Igreja.

Ele surpreendeu-se ao ver que os monges faziam o seu trabalho copiando a partir de cópias e não dos manuscritos originais.



Foi falar com o velho Abade e comentou que, se alguém cometesse um erro na primeira cópia, esse erro se propagaria em todas as cópias posteriores.

O Abade respondeu-lhe que sempre fizeram assim, há séculos copiavam da cópia anterior, na verdade desde o início da Igreja, para poupar os originais. Mas admitiu que achava interessante a observação do noviço.

Na manhã seguinte, o Abade desceu até às profundezas da cave do mosteiro, onde eram conservados os manuscritos e pergaminhos originais, intactos e com a poeira de muitos séculos . . .

Pois passou-se a manhã, a tarde e a noite, e ninguém mais vira o Abade. O último que o vira informou que ele estava indo na direcção da cave. Preocupados, o jovem noviço e mais alguns monges decidiram procurá-lo.

Nos labirintos do mais profundo e frio compartimento da cave, encontraram o velho Abade completamente descontrolado, tresloucado, olhos esbugalhados, espumando e com as vestes rasgadas, batendo com a cabeça já ensanguentada nos veneráveis muros do mosteiro.

Apavorado, o monge mais velho do grupo de busca perguntou:

- Mas, Abade, pelo amor de Deus, o que aconteceu?

- IMBECIL ! IMBECIL ! IMBECIL o primeiro copista! Desgraçado, que arda no Inferno! CARIDADE! . . . era CARIDADE !!! Eram votos de "CARIDADE" que tínhamos que fazer . . . e  não de "CASTIDADE"!!! . . . .


Tenham uma boa noite!