quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Histórias da minha rua (9)

A vizinha tem uma filha no 10º ano. Aqui na escola secundária. Escola suburbana. Escola que a miúda frequenta desde o 7º ano com sucesso e sem problemas.

Este ano as coisas não têm corrido muito bem em termos de relação professores - alunos. Os miúdos têm vindo a queixar-se de uma boa parte do elenco dos professores da turma sobre a forma como a matéria lhes é administrada e por causa da chuva de negativas baixas que lhes caíram em cima durante todo o 1º período. De facto, não é, no mínimo, curial , um professor classificar com negativas – e algumas vergonhosamente baixas – vinte em vinte e cinco testes! Eu, professora, ficaria desesperada com esses resultados! Como é que eu teria preparado os meus alunos para esse teste?! Mal. Muito mal. Mas ali as colegas limitam-se a atribuir as culpas para os professores do ciclo anterior (que por acaso são da mesma escola) e a intimarem-nos a ler.

Ontem houve reunião com os encarregados de educação para entrega das avaliações e a vizinha veio de lá desesperada. Alguns pais queixaram-se ao diretor de turma sobre alguns professores que se limitam a ler powerpoints nas aulas e, se os miúdos dizem que não percebem, não há tempo para tirar dúvidas. Ao que lhes foi respondido que os programas mudaram, os programas têm de ser cumpridos e quem tiver dúvidas que vá às aulas de apoio. Isto agora é 10º e os professores têm que preparar os alunos para o ensino superior.

A vizinha veio angustiada e dizia que, com o que o diretor de turma dissera, tinha saído com a sensação de que agora é assim: quem entende, entende e aguenta-se; quem não entende, fica pelo caminho. Coitados dos nossos filhos, lamentava-se ela.

De facto, estes senhores professores ainda não conseguiram compreender – ainda não houve quem lhes passasse os powerpoints(!!) – que o ensino passou a ser obrigatório até ao 12º ano (se eu concordo? se calhar não concordo com esta obrigatoriedade de 12 anos, mas está legislada e aceite.) E o ensino obrigatório é para todos, não é seletivo como no tempo em que eles foram alunos. E que o ensino secundário tem os seus próprios objetivos e nenhum deles é «preparar os alunos para o ensino superior».


Ai, ai! Quando é que estes professores deixam de ser (pseudo) elitistas, deixam de se considerar máquinas de «dar matéria» e assumem a sua missão (superior) de fazerem os alunos aprender?


quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Neve

(vi no facebook e não resisti a trazer para aqui...)








«Branca e leve
Branca e fria»...


E cá em Leiria que só chove!!...

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Citadinos



Como os buracos de um crivo, apertadas,
As filas de janelas; empurrando-se,
As casas tocam-se de perto, erguendo-se
Pardas e inchadas como estrangulados.

Engalfinhadas umas nas outras vejo
No carro eléctrico as duas fachadas
De gente, descarregando olhares, caladas,
E cresce o emaranhado do desejo.

As paredes são finas como a pele,
Todos me ouvem quando choro, ou então
É como um berro a conversa ciciada:

Emudecidos, em caverna fechada,
Sem ninguém que lhes toque, olhe para eles,
Todos estão longe e sentem: solidão.


(Alfred Wolfenstein, traduzido por João Barrento, in A Alma e o Caos)

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Eduardo Lourenço

Não sei falar da obra de Eduardo Lourenço, o pensador que sabe e tem escrito (quase) tudo acerca da nossa cultura. Uma vez que falei nisso à minha saudosa amiga Amélia Pais, ela aconselhou-me a ler “Fernando, o rei da nossa Baviera”, que era o livro de Eduardo Lourenço de que ela mais gostava. Fiquei a entender o valor, a qualidade, a profundidade de pensamento e de conhecimentos que jorram dos seus textos. É por isso que não perco um texto, um comentário, um ponto de vista seu que apareça num jornal, numa revista.

Ouvi-o uma vez apenas e foi na apresentação que José Sócrates fez do seu livro na Biblioteca Nacional na primavera de 2014 e fiquei encantada com a sua eloquência fácil, a singela exposição dos factos e acontecimentos históricos e sociais que, desde a Antiguidade, têm influenciado toda a nossa vida ocidental, toda a nossa razão de ser. Ouvi-lo é como se todas as peças de um imenso puzzle rapidamente se integram umas nas outras fazendo com que tudo tenha um sentido.




E tudo isto por um senhor que já conta 92 anos de vida e de intenso estudo. É espantoso! Por isso gostei de saber que foi distinguido por mais um prémio, a primeira edição do Prémio Vasco Graça Moura (que teria feito ontem 74 anos), depois de ter recebido o Prémio Camões (1995) e o Prémio Pessoa (2008) entre muitos outros nacionais e internacionais.

O Diário de Notícias noticia isso de forma quase poética: «Eduardo Lourenço junta Graça Moura a Camões e a Pessoa» e relata a forma simples e algo humilde como o grande estudioso e pensador fala daquilo que faz: «Quando lhe perguntamos como corre o seu trabalho nos dias de hoje, responde: "Tenho sempre muita dificuldade em chamar trabalho àquilo que eu fiz. Acho que era o Mastroianni que dizia que não percebia como é que lhe chamavam trabalho quando, afinal de contas, ele só tinha prazer naquilo que fazia. Eu não sou o Mastroianni, mas é a mesma coisa. Não me posso considerar um trabalhador, é ofender os trabalhadores verdadeiros." Conta que continua "a ler bastante" e "a escrever", mas di-lo como quem é obrigado a comentar uma rotina matinal.»

Mas melhor do que tudo o que eu possa dizer, será passar a palavra a Guilherme de Oliveira Martins, outro grande senhor da cultura portuguesa e presidente do júri que atribuiu o Prémio Graça Moura, que diz: «Eduardo Lourenço segue os passos da Geração de 70 demarcando-se da religiosidade tradicional, e de um sentimento universal, notados em Fradique Mendes e depois na galáxia Fernando Pessoa e no modernismo. Nesta ligação, o ensaísta assume grande originalidade ao articular (como antes ninguém fizera) as Conferências Democráticas e o Orpheu. "A história e o destino de Portugal nunca foram trágicos fora da tragédia adiada que a vida é. Também não o são agora. Pela primeira vez, o nosso país vive-se a si mesmo e começa até a ser visto pelos outros, como um povo insolentemente feliz." Lourenço falou, por isso, de "maravilhosa imperfeição", como marca indelével de Portugal. Nem contentamento nem desconcerto, do que se trata é de procura de um sentido emancipador. Perante as nuvens negras da crise, o seu tema é o da vontade, que supere uma ciclotimia antiga. O tema de Portugal como Destino está de pé. Longe dos mitos da glorificação ou do pessimismo são urgentes a liberdade e a vontade! Afinal os mitos obrigam a ter deles uma leitura exigente e crítica.»

domingo, 3 de janeiro de 2016

Netices

A Elisa e o Eduardo, filhos da minha filha mais velha, foram com os pais fazer a passagem de anos a Barcelos a casa dos avós paternos.

Na viagem para cima, resolveram parar no Porto e foram ao Norte Shopping onde o pai, fervoroso adepto do F.C. do Porto, foi mostrar-lhes a Loja do FCP.

Imaginam a cara dele quando, junto da montra, o Eduardo, que ainda nem cinco anos tem, com cara de safadinho, grita a plenos pulmões:

BENFIIIIIIIIIICA!!!



sábado, 2 de janeiro de 2016

Dá cá uma tristeza!

Dizem que a felicidade não existe, existem apenas momentos de felicidade – mais ou menos extensos. O mesmo deve acontecer com a infelicidade, suponho: haverá momentos de infelicidade mais ou menos longos.

O dia 31 trouxe consigo um momento de infelicidade. O vizinho, que também é primo, bateu-me à porta e disse, cuidadoso: «Prima, venho trazer-te uma notícia pouco agradável… A tua gatinha cinzenta e branca está ali morta.»

Balbuciei: «Tenho duas quase iguais; qual delas foi? A minha Branquinha? Foi atropelada?» Que não. Atropelada não foi. Que estava ali caída.

E lá estava, no passeio, junto ao muro da casa, inerte, de borco, as patinhas esticadas, a cauda desarrumada. A minha Nikita. Sem sinais de atropelamento nem de envenenamento. Serena.

Foi no Setembro do outro ano atrás, quando regressámos da praia. Entrou cá pela janela da frente, a fugir da irmãs e das filhitas que lhe aborreciam a existência. Novinha, novinha e cheia de apetite, um nico de gente a amamentar as crias – por isso lhe chamei Nikita, por ser um nico de gente.

(A entrar)
(A amamentar, já cá em casa)


Adotada, tratada, esterilizada, passou-se definitivamente para cá e por cá vivia feliz na companhia da mais velha, igual a ela, que até lhe lambia o pelo pela manhã.  




Teria uns três anos ou nem tanto e era tão meiga, tão fofa, com um olhar tão doce. Ainda na semana passada tinha ido renovar as vacinas e fazer a consulta anual. Estava tudo bem com ela.



Tenho tido gatos sem conto e tenho mais dois em casa e outro que me visita na qualidade de «comensal»… mas fica sempre uma tão grande saudade e uma tão grande tristeza de cada vez que um deles parte…



sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Para um novo ano

(...)

Não me dêem fórmulas certas, porque eu não espero acertar sempre...
Não me mostrem o que esperam de mim, porque vou seguir o meu coração!...
Não me façam ser o que não sou, não me convidem a ser igual, porque sinceramente sou diferente!...
Não sei amar pela metade, não sei viver de mentiras, não sei voar com os pés no chão...
Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma para sempre!
Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais amargas,
das drogas mais poderosas, das ideias mais insanas, dos pensamentos mais complexos,
dos sentimentos mais fortes.
Tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos.
Podes até empurrar-me de um penhasco que eu vou dizer:
- E então? EU ADORO VOAR!


Clarice Lispector