domingo, 8 de novembro de 2015

Uma morte mais

(daqui)

Recebi a notícia de manhã: que tinha falecido de madrugada. Já se falava nos últimos meses do mau estado da sua saúde. Confesso que me foram sempre indiferentes essas notícias. E o seu passamento apenas me sugeriu um pensamento – que descanse em paz e que deixe os outros também em paz. A morte não pode forçar o branqueamento automático de todas as maldades que se foram fazendo ao longo do nosso trajeto.

Pessoa ressentida com a vida, sem modos, nem polidez, nem a civilidade que a sua profissão exige, foi quem mais me desconsiderou na escola sem outro motivo que fosse o ataque pelo ataque, a vingançazinha por ter ganho as eleições ao “grupinho” da sua predileção. E, tirando as pessoas que integravam o tal “grupinho”, posso aqui afirmar com um «saber de experiência feito» que incomodou muita e boa gente naquela escola, para além de mim. A mim incomodou-me muito. Posso dizer desafrontadamente que me fez chorar muitas lágrimas com as suas palavras e comportamentos, quase sempre, injustamente (digo eu!) agressivos e deseducados.


Se lhe consigo perdoar todas essas ofensas? Não, meus amigos. Não tenho esse poder. Tenho para mim, desde sempre, que o perdão como a vingança é para os deuses, não para nós simples mortais. Se outros não me perdoarem as minhas ofensas? Paciência! Fica na minha conta-corrente. E depois logo se vê.

sábado, 7 de novembro de 2015

Camilo


Zurzida publicamente por Mega Ferreira quando há uns meses se deslocou a Leiria para apresentar o seu livro “Viagem pela Literatura Europeia” por nunca ter lido Camilo já que nunca consegui passar da segunda página do “Amor de Perdição”, resolvi-me a começar a tapar essa indizível lacuna nas minhas leituras e pus-me à procura pelas minhas estantes de livros daquele autor ultra-romântico das nossas Letras da primeira metade de 800. 

O primeiro que me apareceu foi “O Retrato de Ricardina”, um dos primeiros números da velhinha coleção de bolso da Europa-América. E lá me decidi a lê-lo. E o certo é que consegui lê-lo até ao fim e em tempo record dado o suspense que o autor consegue imprimir ao devir dos acontecimentos e dos capítulos.

A intriga está muito bem urdida e tem os ingredientes todos que uma novela sentimental exigia à época: amores impossíveis e contrariados, as mulheres tratadas como propriedade dos pais e mais tarde dos maridos bem como a sua entrada forçada nos conventos, a sociedade bem estratificada, a superiorização e a influência do alto clero e, tal como as novelas da TVI (?!) gasta mais de metade da narrativa a “enrolar” desgraças sobre desgraças para depois a menos de um terço do final desenrolam-se todas as infelicidades e tudo começar a rodar em favor dos até então infelizes protagonistas.

A beleza da obra está essencialmente na excelência da escrita: o vocabulário é muito rico, variado e naturalmente posto na boca das diversas personagens e a sintaxe – por vezes de bem difícil compreensão – revela quem conheceu bem as regras da gramática do latim. Tantas palavras de cujo significado eu nem desconfiava! Tantos parágrafos que tive de reler a fim de entender a mensagem!  – A propósito, como lamento quem afirma e defende que os jovens de hoje não se interessam pelas obras dos nossos autores, bons autores, porque usam um vocabulário que eles desconhecem! Coitadinhos dos jovens de hoje que não sabem, nem podem usar o dicionário… Seria uma boa maneira de melhorar e muito a sua forma de falarem e de escreverem…

Por mim, agora vou passar às “Novelas do Minho”…


Ah! Ia esquecer-me de dizer que passam este ano 125 anos sobre a sua acidentada morte – um tiro na cabeça aos 65 anos de idade depois de ter vivido uma vida de aventura(s) e desventura(s), de amores e desamores, sempre no fio da navalha. (De ler o excelente e super completo artigo sobre Camilo de Hugo Pinto Santos na revista Ler deste Outono)


sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Cores de Outono

Aqui por Leiria

(Foto de Estela Couto)

(Foto de Estela Couto)





Lá por Sintra










E pelo Norte











E esta, hein?



quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Vamos tocar o disco?

Não sei, já não me lembro como nos encontrámos e como nos começámos a dar. No nosso curso nós éramos tantos! Era sempre o curso com mais alunos – a moda, o fascínio pelo Inglês. O certo é que, desde logo nos passámos a sentar sempre juntas nas aulas e a andar sempre juntas. Faculdade de Letras de Lisboa, Outono de 1966, 1º ano de Germânicas. Muitos caloiros chegados do Alentejo, todos muito queridos, muito simpáticos, mas aquela é que foi especial.

Ficámos amigas até hoje embora não nos vejamos há muitos, muitos anos. Nunca deixámos de nos lembrar uma da outra nomeadamente nas datas festivas.

Estudávamos juntas, partilhávamos apontamentos, almoçávamos juntas na Cantina da Universidade, escolhíamos juntas os horários e os professores. As brincadeiras loucas que fizemos nas aulas e fora delas! O que nos divertimos!

Confidentes de todas as horas e de todos os segredos sobre as nossas vidas, sobre os nossos “conversados” como dizíamos ironicamente usando o divertido vocabulário alentejano, elegemos uma canção da época como sendo a canção das nossas noites de núpcias – imagine-se a ingenuidade! – e sempre que nos referíamos a ter relações sexuais, falávamos em «ir tocar o disco» e ríamos, ríamos… Era um código. Tínhamos, de facto, os nossos códigos… Lembro-me de nos pormos a dizer frases da Crónica Breve de Santa Cruz (das extraordinárias aulas do nosso saudoso Professor Lindley Cintra) em português antigo junto dos colegas do Técnico e ríamos como tontas.

Hoje é o dia do aniversário da minha amiga de sempre do tempo da Faculdade e é em sua homenagem que aqui deixo o «disco» para quem o quiser tocar…


There’s a kind of hush… dos Herman's Helmits, 1967.  Tenho a certeza que ninguém se lembra…

Querem ouvir?


terça-feira, 3 de novembro de 2015

Gatices

Esta é a minha mesa de trabalho. Na tal sala dos quadros com os «peixitos, ou lá o que é»...



Muitas vezes, quando vou pôr-me a trabalhar, fica assim...








Hoje, com o tempo outonal que se fazia sentir, com aquela chuvinha chata que não dava para ir para o quintal pôr a barriguinha ao sol, foi assim...



E onde é que eu me sento?!...




segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Dia de Finados



Dia de Finados. Dia de lembrar os que já partiram. Dia chuvoso de Outono. Dia triste. 
Dia de poesia, contudo.



Poema de Finados

Amanhã que é dia dos mortos
Vai ao cemitério. Vai
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.

Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho:
O filho tem mais precisão.

O que resta de mim na vida
É a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero.
E em verdade estou morto ali.


(Manuel Bandeira, in Libertinagem, 1930)

domingo, 1 de novembro de 2015

As Pérolas



Não, não vou falar daquelas preciosidades que se formam com muito sofrimento e ao longo do tempo dentro das ostras «vandalizadas» por simples grão de areia e que as senhoras tanto apreciavam. Nem das verdadeiras, nem das de cultura. São as de plástico que hoje aqui me trazem.

Nas pequenas cidades suburbanas de um pequeno país também suburbano que viveu, até há quarenta anos atrás, submerso no maior obscurantismo fruto da ignorância imposta e suportada clericalmente, parece sentir-se a necessidade de criar, de exibir as ditas pérolas. De plástico.

A cor, o tamanho, o aspeto podem sugerir uma pérola, mas falta-lhes o brilho. O que é compreensível: o brilho encandeia, ofusca, tolda quem se lhes aproxima e isso não traz vantagem. Assusta. Causa tremor – temor. Além disso, pérolas verdadeiras, daquelas acetinadas e com brilho, não abundam por aí. Muitas estão escondidas. Vivem escondidas.

As outras – e vêem-se tantas por aqui! Pululam nos eventos, nos organismos que nos decidem a vida, ocupam os melhores lugares – aparecem em bicos de pés, mostram-se, exibem os seus encantos. Maleáveis, adaptam-se a toda e qualquer situação para que são chamadas e ficam sempre bem. E são sempre chamadas porque estão sempre disponíveis. Fazem vida disso – e muitas vezes uma bela vida – mas não passam disso. «Triste de quem é feliz!» - dizia o Pessoa – ele próprio uma dessas pérolas com aquele brilho fulgurante que quase cega e, por isso, ignorado.

Este pequeno país suburbano que viveu séculos submerso no cinzentismo da sua ignorância, da sua tacanhez, da sua cupidez – de que não dá mostras de se querer separar – sempre conviveu mal com o brilho das pérolas verdadeiras. Veja-se como foi com Camões, com Pedro Nunes, com Damião de Góis, com Fernando Pessoa, com Jorge de Sena para falar apenas dos que de momento me assaltam a ideia.

Preferem-se sempre os Dantas e os Cavacos do regime. As pérolas opacas, baças, ocas. As de plástico.