Para celebrar este Dia das
Crianças, este ano trago umas sugestões de leituras para e sobre crianças que
podem, de alguma forma, ser interessantes para quem por aqui passar.
Primeiro, não posso deixar de referir o livrinho que a nossa amiga
poeta Lídia Borges lançou há meio ano e que teve a gentileza de mo oferecer
para os meus pequeninos – O Mistério dos
Sonhos Roubados – que é um convite aos mais jovens para aproveitarem as
delícias da leitura.
Começa assim:
«Chovia. Chovia sempre! Uma chuva
miudinha, pingabirrenta que obrigava o Rui a ficar dentro de casa. Ora, ora! Assim
as férias não prestavam para nada!
Já estava farto de jogar no
computador e de ver televisão. Metido no quarto, riscava com o dedo os vidros
embaciados da janela, enquanto se perdia nas lembranças das últimas férias de
verão. Divertira-se à grande com o primo Francisco que mora numa cidade, lá
para o Algarve. Deitou-se na cama preguiçosamente a recordar esses dias
passados na praia entre mergulhos, gelados, risadas e alegrias ensolaradas.
- Quem me dera estar agora com o
Francisco! – desabafou em voz baixa.
De repente, a cortar o silêncio
do quarto, como que por artes mágicas, ouviu-se uma voz que sussurrava:
- Ei… Ei…. Olha para aqui!
O Rui levantou-se de um pulo,
muito assustado.
- Não tenhas medo. Sou eu, aqui,
na prateleira de cima…»
Outra leitura interessante é O
Senhor Pina de Álvaro Magalhães que é uma enternecedora homenagem que o
autor faz ao poeta, jornalista, escritor Manuel António Pina desaparecido há
dois anos.
Começa assim:
«O senhor Pina queria escrever
uma história para a Ana e para a Sara, que fosse diferente e tão divertida que
pusesse as palavras na brincadeira. E, já agora, que não fizesse muito sentido,
ou que fizesse sentido de outra maneira.
Era terça-feira, que não era o
melhor dia para começar esse género de história, talvez de escrever poesia, mas
nunca se sabia. Por isso, ele espreitou para a rua pela janela do escritório e
viu um rapazinho a fazer o pino no meio da relva do jardim. Depois, veio outro
e fez o mesmo e a seguir um terceiro, que também tentou, mas desequilibrou-se e
caiu no meio de um canteiro.
O senhor Pina pôs-se então a
pensar num país onde as pessoas andassem todas de pernas para o ar. Era,
talvez, uma boa ideia para a tal história, apesar de ser uma terça-feira. Como pensaria
uma pessoa de pernas para o ar? Não o mesmo que pensaria se estivesse de pernas
para baixo. Com toda a gente a pensar como toda a gente, ninguém pensava nada
diferente.»
A minha terceira sugestão, de crianças tem apenas o título – Meninas, de Maria Teresa Horta, uma
série de contos de alguma forma ligados entre si cujas protagonistas são todas
meninas quase todas negligenciadas, quando não abandonadas e maltratadas, que
se entregam à imaginação, à magia ou à leitura salvadoras.
"Meninas que são ela, mas
que também são outras, inventadas ou recriadas, mas sempre reflexo do que se
tem feito ao longo dos séculos a quem nasce mulher."
(Sobre este grande pedaço de crua prosa poética falarei quando acabar de o ler.)