Ouvi hoje de manhã na rádio. Sabem
que não sou grande fã do fado, mas a este achei piada por ser brincalhão e
saltitante. É que para mim o fado é como o jazz: à partida digo que não gosto de
jazz porque me aborrecem – irritam-me
mesmo, como o canto de alguns pássaros – os sons repetitivos e estilhaçados como se de
arestas se tratasse do saxofone ou mesmo do piano ou as vozes secas
e metálicas que muitos cantores de jazz gostam de forçar, nomeadamente as
mulheres cantando o chamado jazz contemporâneo em português. Mas se me perguntarem se gosto de Glenn Miller,
sim, adoro! Se me perguntarem se gosto dos blues
e do jazz dos pretos de New Orleans
da primeira metade do século XX, sim, adoro! Se me perguntarem se gosto de
Louis Armstrong, de Otis Reding, de Ray Charles, de Frank Sinatra, de Nat King
Cole, sim, adoro!!
Com o fado é a mesma coisa. Se me perguntarem se gosto de fado, a minha primeira resposta é «Não». Na minha infância
o fado era doentio, queixinhas, por de mais dramático, deprimente, cinzento –
como a alma dos portugueses nessa época (e se calhar na actual também, mas
enfim…). O fado era o Marceneiro (que nunca consegui ouvir) o Carlos Ramos (um
chato!) o Fernando Farinha (o miúdo da Bica) e a Amália (cuja voz comecei a
apreciar apenas há meia dúzia de anos) que achava fascizante com aquela medonha
”Casa Portuguesa” que pretendia mostrar como era bom viver numa casinha
portuguesa modesta, pobrezinha e assim. Eu era miúda, mas intrinsecamente detestava!...
E, por oposição (tantas coisas senti e defendi na vida por oposição!) gostava
do fado gingão, divertido, folgazão que nos fazia sentir como um povo vivo. Fado
do tipo A Casa da Mariquinhas, do Zé da Samarra com a amante ao seu lado, do Eh
pá, não fiques calado e outros de que já nem me lembro (isto foi nos anos 50).
Claro que depois passei a apreciar o fado cantado por Maria Teresa de Noronha,
por Vicente da Câmara, depois por Carlos do Carmo, Paulo Bragança, Camané e assim…
Bom, mas voltando ao começo: ouvi
hoje na rádio e achei graça por ser divertido e gingão, bem ao meu gosto - o
Fado da Procura pela Ana Moura.
E, já agora, também vou deixar
aqui a nova versão da Casa da Mariquinhas, toda modernizada, pela Gisela João,
que ouvi há dias e achei uma graça… Espero que gostem.