quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Os vampiros

Só lhes faltava mostrar os dentes pontiagudos de cada vez que sorriam – sorriam, não, que o sorriso é um sinal de amor, de compreensão, de satisfação benigna e eles queriam manifestar tudo menos isso.

Quais vampiros adejaram muitos e muitos dos nativos deste "país de gente culta e sabedora" por sobre as notícias que jorraram (e continuam a jorrar) por todos os lados sobre os resultados da vergonhosa, da desastrosa prova de avaliação de conhecimentos e capacidades a que os professores contratados foram submetidos, em busca dos erros, das falhas, dos chumbos que muitos deles sofreram.

Como se daí viesse a salvação do país ou mesmo do mundo, os resultados obtidos foram esquadrinhados ao milímetro para mostrar como os professores são uma cambada de energúmenos ignorantes e preguiçosos que não merecem nem sequer viver.

Imagine-se, disseram os vampiros, que houve não sei quantos professores que deram não sei quantos erros de ortografia e não sei quantos erros de pontuação – disse também o IAVE que, como o ministro (C)rato, considera que estes resultados “permitem verificar a importância de uma avaliação como esta”. E, de seguida, veio o puxa-saco do dito professor Ramiro Marques, da Escola Superior de Educação de Santarém – que foi daqueles sortudos a quem o Ministério mandou para Boston nos anos 80 fazer uns mestrados de três ou quatro meses de forma a poder semeá-los pelas recém-criadas Escolas Superiores de Educação – dizer, cheio de razão, que os alunos não trazem do Secundário hábitos «de escrita de textos com sentido» e que isto acontece «por causa da degradação progressiva do ensino da língua nas últimas décadas, da falta de rigor que passou a existir nas salas de aula (…)»

A chamada tutela e os seus puxa-sacos querem muito, por questões não só economicistas mas também e especialmente de ideologia, desvitalizar a chamada escola pública e desacreditar os professores junto do público é um processo fácil e produz efeitos.

Erros de ortografia, de pontuação, de sintaxe, de semântica, toda gente faz: uns mais, outros menos e os professores não são exceção. Muito mais graves serão os erros de didáctica, de pedagogia, de avaliação, de relação pedagógica, de entendimento psico-pedagógico da pessoa que é cada aluno. E com esses, o senhor (C)rato bem como o senhor Ramiro e outros quejandos não estão nada preocupados. Até porque esse tipo de erros o grande público nem entende.

Duas ou três coisas para concluir:

Primeiro é que os livros que li da autoria dos senhores acima citados, não tendo embora erros ortográficos, até porque foram sujeitos a correctores, não estavam mesmo nada bem escritos;

Em segundo lugar, do alto dos meus 40 anos de leccionação, da minha licenciatura de cinco anos, das minhas três pós-graduações em Ciências Pedagógicas e em Administração Escolar, e do meu estatuto de formadora de professores, continuo a dizer e a bradar aos quatro ventos que, se tivesse de ser submetida a essa espécie de prova de conhecimentos, poderia não dar os tais cinco erros, mas podem ter a certeza que chumbaria;

E, por último, uma pergunta retórica, naturalmente!: que percentagem alcançariam o senhor (C)rato e outros bons rapazes lá do ministério se, por uma qualquer ironia do destino, fossem também à dita prova submetidos?...


quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Ericeira



«Fica a sete léguas de Lisboa e tem cêrca de 700 fogos.

Se exceptuarmos Olhão, no Algarve, é esta a terra mais asseada de Portugal.

As ruas estão escrupulosamente varridas como as de um jardim. As mais pequenas casas têm as vidraças nìtidamente lavadas e as paredes exteriores caiadas de branco.

Quási ao meio da vila, sobranceira ao mar, fica num alto a capela de Santo António, circundada de bancos, ponto de reünião dos banhistas à hora do pôr do sol e à do despontar da lua.

(Capela de Santo António)
Para o norte da capela há uma praia de banho, para o sul há outra. A cada uma destas praias corresponde um bairro. a praia do sul, perfeitamente abrigada por uma cortina de rocha que a rodeia como um biombo, é a mais agradável, e o seu respectivo bairro o mais importante. Para o lado do norte ficam as pequenas casas quási todas de um só pavimento, abarracadas.

A vida é extremamente cómoda na Ericeira. As casas alugam-se com mobília, e pode-se ter igualmente de aluguer a louça e a roupa das camas. Uma família de quatro pessoas aloja-se còmodamente por seis libras por mês. O preço do hotel é de 800 réis por pessoa com cozinha sofrível e serviço regular. Há um clube e um pequeno teatro. (…)

O aspecto só deferia do que é em Agosto ou em Setembro pelo número de pessoas. De resto, o mesmo asseio, as mesmas lojas abertas; ao fim da tarde algumas famílias passeavam na praça do Jôgo da Bola. À noite acenderam-se luzes em quási tôdas as casas. Nos pavimentos do rés-do-chão via-se, através dos vidros, os cortinados das janelas, a gaiola envernizada ao centro das duas cortinas; um candeeiro de sala, de globo fôsco ou de abat-jour, sôbre a mesa do centro  confortàvelmente coberta com um tapête; o cabide, o espelho, o vaso com flores, todos os pequenos característicos da vida serena, bem administrada, com orçamento regular, com hábitos adquiridos, com costumes de família. Devemos especificar que em duas casas chegámos a avistar alguns livros: caso extraordinário e raríssimo em Portugal, onde nas pequenas casas de província o livro é um objecto de luxo que ninguém se permite (…)»

(in “As Praias de Portugal: Guia do Banhista e do Viajante” de Ramalho Ortigão, Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1943 (1ª edição: 1876)

Foi quase neste ambiente que, noventa anos depois de esta descrição ter sido tão formosamente feita, cheguei com os meus pais, o meu primo-irmão e uma jovem amiguinha para passarmos as nossas férias de Verão a banhos. Tinha acabado de saber que tinha passado no Exame de Aptidão à Faculdade de Letras tendo sido aceite para cursar Germânicas (o que não era fácil à época) e ia feliz e resplandecente no meu fato de banho branco, arrendado à frente, a roçar o estilo bikini que, como já aqui disse, o meu pai não me deixava usar…

Ainda fomos ao areal ao fim da tarde e aí mudou para sempre a minha vida: estava lá um tímido belo Apolo que me arrebatou. 


Faz hoje 48 anos.



terça-feira, 5 de agosto de 2014

Dos seguros - parte II

Está na hora de me retractar do que aqui disse sobre os seguros (não sobre o Seguro, repito) na semana passada.

Dois dias passados sobre a minha conversa telefónica com o funcionário da seguradora que me atendeu e me foi dizendo que não tinha direito a nada e depois de eu lhe ter despejado em cima todo o meu educado sarcasmo, recebi a visita de um perito que conseguiu ainda vislumbrar o maravilhoso buraco aberto à porta de casa com os canos já reparados mas ainda à vista. Seco, sisudo mas ainda jovem, armado de computador, impressora, medidor electrónico e mais não sei o quê, depois de ver, fotografar, medir e remedir, perguntou se podia usar uma mesa onde dispôs toda a sua parafernália electrónica; fez cálculos e mais cálculo e depois de me perguntar se alguma vez tinha accionado o seguro e eu não, nunca, e ele, então como isto fica abaixo dos mil euros, vamos pagar-lhe X que dá à vontade para pagar as despesas.

Fiquei estupefacta! Assim, do nada…

Hoje fui à seguradora com a intenção (já antiga) de melhorar as condições do seguro – um upgrade….

Uma vez mais apreciei – sinceramente – os maneirismos de atendimento dos funcionários, digo, colaboradores, da seguradora: boa apresentação, cumprimentos de mão, tom modelado de voz, «peço desculpa», «dá-me licença», camisa azul anilado e gravata fininha… só que não há bela sem senão: a meio da explicação dos procedimentos e das hipóteses de mudança, o jovem colaborador diz-me: depois você vê o que prefere fazer.


Você? Deu-me vontade de lhe perguntar se por acaso tínhamos andado juntos na escola, mas refreei-me. Quando é que explicam a estes jovenzinhos, que se calhar até têm alguma licenciatura, que não se tratam os clientes, nem as pessoas que não conhecemos, nem as pessoas (muito) mais velhas por você?!


Que raiva! É que, além do mais, é mais um mau trato, um grande desconhecimento da nossa língua! Em português existem várias gradações no que toca à 2ª pessoa, especificidades que  a tornam complexa. Não é como na língua inglesa em que o you serve para todos os tratamentos entre as pessoas. E depois vêm-me com a teimosia de que umas alteraçõezinhas sem importância na ortografia de algumas palavras destratam a «bela língua de Camões»…

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Ridículo!

Foi das imagens mais ridículas que tenho visto nos últimos tempos: o “nosso” primeiro armado em cidadão comum a conduzir um pequeno Clio (que dizem que é de 2009) em direcção ao Algarve com a família para passar as “merecidas férias” numa altura em que o país, já meio ou mais de meio destruído por força da sua ignóbil governação, enfrenta mais um descalabro económico perpetrado por mais um dos “grandes” da enorme família que é o PSD da qual saíram nomes de monta como o de Dias Loureiro, Oliveira e Costa, Duarte Lima, Arlindo de Carvalho e outros.




Apetece transcrever a opinião do sempre crítico Sérgio Lavos que li hoje: «Não há memória de tal demonstração de cobardia política, de tanta cobardia pessoal. A imagem de Passos Coelho em trajes menores passeando pelo areal de Manta Rota enquanto fala para as câmaras sobre a falência do BES com a leviandade de um inimputável ficará como corolário de uma governação marcada por uma trágica sucessão de actos e acontecimentos indignos.»





Esta imagem de pessoa séria, comum, poupadinha, provinciana (um Salazar dos tempos modernos) deu frutos no período eleitoral e nas primeiras semanas de governação. Presentemente duvido que ainda haja muitos portugueses que acreditem no ar tipo «escuteirinho de Massamá» a entrar no mar com a mulherzinha atrás…

Ridículo!!

domingo, 3 de agosto de 2014

A Guerra

O Padre António Vieira descreveu-a assim:  

«É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e quanto mais come e consome, tanto menos se farta.
É a guerra aquela tempestade terrestre que leva os campos, as casas, as vilas, as cidades, os castelos, e talvez em um momento sorve os reinos e monarquias inteiras. É a guerra aquela calamidade composta de todas as calamidades, em que não há mal algum que ou não se padeça ou não se tema, nem bem que seja próprio e seguro (...)»

Que diria o grande senhor da língua portuguesa se, por uma qualquer ironia do tempo, pudesse assistir à dizimação vingativa que Israel está a levar a cabo na faixa de Gaza?


(Imagem retirada do facebook)



sábado, 2 de agosto de 2014

Gaba-te, cesto!

Não se pode dizer que a rapariga tivesse mau gosto! E tinha apenas 16 anos.

Foi da primeira vez que viemos passar férias à Nazaré. Verão de 1964. Duas semanas em Agosto. Ainda não se vestia bikini por cá, nem o meu pai me deixaria alguma vez usá-los. Mas eu queria muito um fato de banho diferente, que arrasasse! E então imaginei um com uma alça apenas e com riscas enviesadas que descessem do lado da alça para baixo.

E aí “obriguei” a minha mãe a ir comigo procurar o fato de banho que tinha imaginado por tudo quanto era loja desde o Chiado até ao Rossio. (Era das poucas coisas em que a minha mãe me fazia as vontades: nas farpelas. Se calhar porque ela própria sempre gostou de se vestir bem…)

Quanto a encontrar o fato de banho de uma alça só, nada! E nem me escusei de ver na cara de algumas empregadas (nesse tempo não se chamavam «colaboradoras»…) um ar de espanto ou de troça, sei lá, quando lhes falava na peça de uma alça só.

Acabei por comprar um fato de banho lindo! azul escuro, de cintura descida com cintinho de malha e fivela de metal de onde subiam umas riscas encarnado escuro enviesadas que iam morrer nas alças. Nas duas, claro!

Não dá para ver bem porque a fotografia é antiga, pequena e a preto e branco, mas era muito elegante.



Ora todas estas lembranças me vieram à cabeça quando hoje, ao folhear o jornal, vi na rubrica “Moda de praia: novidades ‘made in Portugal’” esta maravilha de fato de banho!



Digam lá se a miúda tinha ou não tinha bom gosto?!... Só lhe faltam as riscas enviesadas... Além de que é muito mais caro...



sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Olá, Agosto!

«Primeiro de Agosto, primeiro de Inverno» - dizia todos os anos a minha avó. E, se estivermos com atenção, os dias já começaram a tornar-se um tudo nada mais curtos.

Apesar de o tempo de hoje também não ter sido, nem de perto nem de longe, tempo de Verão ou de praia, deixo aqui uma imagem poderosa do mar numa bela praia deste lindo país que é o nosso.

Serão capazes de adivinhar de que praia de trata?