sexta-feira, 13 de junho de 2014

António Variações


Fez hoje trinta anos que António Variações deixou este mundo. 

Sempre gostei muito de o ouvir. Gostava da sua voz diferente e das suas canções originais e anti-lamechas. 

A forma como se apresentava e o seu louco estilo de vida bem como a assunção da sua homossexualidade chocavam bastante grande parte das pessoas numa época em que as mentalidades estavam ainda próximas de mais do clericalismo hipócrita do "antigamente" e em que o preconceito era tão grande que nem se dava conta que ele existia.

Agora imaginem o meu espanto quando cheguei à paragem do autocarro e a D. Julieta, uma vizinha um bom bocado mais velha do que eu,  pesarosa, me deu a triste notícia . É que não me passaria pela cabeça que uma senhora viúva, sem filhos e a viver sozinha, gostasse do António Variações. 

Em jeito de modesta homenagem, deixo aqui uma das canções das minha preferidas. Espero que gostem.




quinta-feira, 12 de junho de 2014

Milagre, meu Santo António!

(daqui)

Diz-me lá, meu Santo António,
Santo que o lisboeta adora,
Quem escolherá Lisboa
Quando o Costa for embora.

Será que é mesmo por causa
De sem teu homónimo ficar
Que impedes o Seguro
Do tal Congresso marcar?

Faz lá tu esse milagre.
Meu Santinho prazenteiro,
Lisboa tudo merece,
Mas o país está primeiro!!


quarta-feira, 11 de junho de 2014

Aceitam-se sugestões...

É daquelas amizades antigas que não se desfazem. Infelizmente. Desde muito nova que vivo paredes meias com as malditas e, por muito que faça, não me largam.

Eu nem digo nada, nem me mexo a ver se elas não reparam em mim, deito-me devagarinho, nem televisão, nem nada; um livro em silêncio, apago a luz e é um sossego. A certa altura, um sobressalto, um pulo na cama, um acelerar do coração – ou não – e trás! aí estão elas a cobrar de mim…

Ainda esta noite estiveram aí. Acendo a luz, o quarto emerge do escuro e do silêncio. Duas da manhã. (Bem bom!! – diziam as outras… E pensar que uma delas foi casada com este “primeiro”! Coitada! – Mas isso é de outra história. Voltemos atrás!) Ainda tenho muitas horas para dormir – penso eu. Apago a luz e viro-me sorrateiramente para que elas não dêem conta. Não se vão embora. Quatro da manhã! Ainda?

Aí pela adolescência já me visitavam com prenúncios de quem quer ficar. Ai os amores! Ai a idade! Ai excesso de sensibilidade! Ai os exames! Ai os medos! – disseram os doutores. Químicos – alguns, dispersos. Mas elas não desistiram e foram-me acompanhando serenamente mais de longe, mais de perto.

Depois atacaram-me forte e feio no alto da idade adulta. Meses a fio até a rirem-se na minha cara noite dentro até ao quase colapso. Mais químicos, mais terapia, mais conversa fiada…

Foi aí por finais de oitenta. Havia colegas que diziam: «levanto-me e ponho-me a ler»; «levanto-me e vou arrumar gavetas»: «levanto-me e vou passar a ferro». Houve até uma que disse «Insónias?! É coisa que não há lá em casa: dormimos todos com a consciência muito tranquila» - aí eu afinei e nunca mais me esqueci…

Mas, para compensar – que o equilíbrio cósmico acaba sempre por acontecer – houve um colega (homem, claro!) que disse: «Tu gravas os programas do Luís Pereira de Sousa e levas o vídeo para o quarto (nessa altura ainda não havia televendas nem filmes pela noite dentro) e quando não conseguires dormir, pões-te a vê-lo e vais ver que adormeces…»

Nunca experimentei e agora também já não vou fazê-lo, mas aceito sugestões… viáveis, claro!!

Luís Pereira de Sousa
(lembram-se dele?)

terça-feira, 10 de junho de 2014

Camões, grande Camões...

Babel

Cá nesta Babilónia, donde mana
Matéria a quanto mal o mundo cria;
Cá, onde o puro Amor não tem valia,
Que a Mãe, que manda mais, tudo profana;

Cá, onde o mal se afina, o bem se dana,
E pode mais que a honra a tirania;
Cá, onde a errada e cega Monarquia
Cuida que um nome vão a Deus engana;

Cá, neste labirinto, onde a Nobreza,
O Valor e o Saber pedindo vão
Às portas da Cobiça e da Vileza;

Cá, neste escuro caos de confusão,
Cumprindo o curso estou da natureza.
Vê se me esquecerei de ti, Sião!

Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"

Como o pobre poeta se queixava da Pátria sem que ninguém lhe desse ouvidos!!

(o mesmo nos está a acontecer e ninguém nos dá ouvidos...)


E que bem o entendeu Sophia,!
  

Irás ao paço. Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada.
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce.

Em tua perdição se conjuraram
Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou ser mais que a outra gente.

E aqueles que invocaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto.

Irás ao paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência.

Este país te mata lentamente.


Sophia de Mello Breyner Andersen
Grades (1970)

segunda-feira, 9 de junho de 2014

A minha pátria é a língua portuguesa

Deixei aqui dito há uns dias, a propósito do aforismo pessoano «o melhor do mundo são as crianças» que o bom do Pessoa não tem culpa nenhuma que lhe estafem as tiradas. E assim é! O mesmo acontece com o seu belo verso «tudo vale a pena se a alma não é pequena», com a sua tirada publicitária «primeiro estranha-se, depois entranha-se» e também com a extraordinária frase do Livro do Desassossego «a minha pátria é a língua portuguesa».



Lido mal com o chamado «lugar-comum» desde cedo e exultei quando aí por setenta e tal li um texto do poeta José Gomes Ferreira (não confundir com o papagaio de serviço da SIC) em que ele, no seu habitual tom irónico, faz o levantamento de todos os “bordões” de linguagem usados à época. É que nós, portugueses, por preguiça ou mesmo por falta de vocabulário, somos exímios em deixar que se nos colem ao ouvido palavras ou expressões que depois usamos até à metafísica (esta também é do Pessoa, mas muito pouco usada…)

Bom, mas para introdução, isto já vai longo. Trago aqui esta frase porque, de facto, eu gosto muito da nossa língua e, como já devem ter notado, não gosto de usar palavras emprestadas, nomeadamente do inglês (apesar de ser de Germânicas…) Gosto muito da minha língua ouvida falada, escrita, usada na poesia, no romance, no jornal, seja onde for, seja na sonoridade portuguesa, brasileira, africana...

Sou daquelas que não estou nada preocupada com o acordo ortográfico mais recente. Entendo-o e sei que acontece como já aconteceram uns tantos outros ao longo dos tempos. Já leram Saussure? Já leram Coseriu? Já leram Chomsky? Não? Então, leiam! E desenganem-se aqueles que muito pomposamente vêm com a falácia de que este acordo vem corromper a «bela língua de Camões» porque, garanto-vos que o Camões não escrevia a nossa bela língua de acordo com nenhum dos acordos ortográficos que conhecemos! Além de que as línguas corrompem-se é com o uso ao longo dos tempos e se não se corrompessem, a esta hora, ainda estaríamos a falar latim!

Lá estou eu a divagar!

Ora voltando ao tema: hoje li no jornal que as universidades portuguesas já têm mais de 170 cursos dados em inglês. E estavam todos muito contentes com o facto! Como se estivéssemos a vender cursos superiores para o estrangeiro ministrados em Portugal. Uma espécie de exportação, um empreendedorismo, como se diz agora! Assim como quem faz sapatos, ou camisas ou rolhas, ou garrafas de azeite ou secretos de porco preto para melhorar os níveis da economia.

Fiquei chocada! Se calhar é por estar velha, mas não dá para entender este novo-riquismo provincianês! E onde fica a nossa língua? Já não bastava assistir ao triste espetáculo dos “nossos” “governantes” a realizarem conselhos de ministros para inglês ouvir, senão agora também ver os nossos professores universitários a papaguear fórmulas químicas ou noções de literatura portuguesa em inglês…

Desculpem-me mas não serão estes sinais muito mais preocupantes do que tirar um c ou um p que nem é vocalizado de uma ou outra palavra?


domingo, 8 de junho de 2014

Queres ver a minha passarinha?

Um dia, há já alguns anos, a minha colega e amiga Clotilde chegou à Sala de Professores lá da nossa escola e, com aquela beleza e alegria contagiantes que lhe são características, e disse alto e bom som:

- Alfredo, queres ver a minha passarinha?

O nosso colega Alfredo, um distinto senhor, um bom bocado mais velho do que nós, ficou meio atrapalhado sem saber o que responder, enquanto o resto dos presentes arregalaram os olhos a ver como iria continuar terminar a cena.

Eis senão quando, a Clotilde, pintora e amante incondicional de Cabo Verde, de onde tinha regressado dias antes, saca de uma moeda daquele nosso país irmão cujo símbolo é a passarinha, uma pequena ave colorida que nidifica em Cabo Verde.

Claro que rompemos todos em grandes gargalhadas, tendo o bom do Alfredo ficado bem aliviado…



Lembrei-me hoje desta história quando hoje vi na RTP 2 um programa sobre a biodiversidade de Cabo Verde em que se dava grande destaque à passarinha…




Por acaso nunca deu à Clotilde para pintar passarinhas, mas pintou lindas mulheres de Cabo Verde. Querem ver?






Boa semana e cuidado! É que a língua portuguesa é muito traiçoeira...

sábado, 7 de junho de 2014

Você usaria brinquinho?!



Um dia, no escritório de advocacia, um dos advogados reparou que um seu colega, homem muito conservador, reconhecidamente muito sério, usava um brinco.

- Não sabia que você gostava desse tipo de coisas -  comentou.

- Não é nada de especial, é só um brinco.

- Há quanto tempo você o usa?

- Desde que a minha mulher o encontrou, no meu carro, e eu disse que era meu...