quarta-feira, 7 de maio de 2014

Chocante!

Confesso (com algum pudor embora) a minha ignorância, mas nunca tinha ouvido falar na terrível realidade descrita hoje no jornal pela jornalista brasileira Daniela Arbex, que passou para livro a história, a horrível lembrança, para que conste e para memória futura, do que foi viver (e morrer) no hospital psiquiátrico Colónia, na cidade de Barbacena em Minas Gerais, Brasil ao longo de 50 anos.

O livro tem o nome de “HolocaustoBrasileiro” e foi escrito a partir do testemunho dos poucos sobreviventes daquele autêntico campo de concentração.




O dito hospital psiquiátrico foi inaugurado no início do século XX e, até aos anos trinta, terá funcionado normalmente. Com o advento da ditadura e com a sobrelotação que passou a ter, porém, aquele espaço tornou-se num verdadeiro depósito dos indesejáveis. Apenas 30% dos doentes teriam problemas psiquiátricos, os restantes, os indesejáveis, chegavam a Barbacena no “trem do doido” sem diagnóstico e eram «meninas violadas, grávidas dos patrões, mulheres que os maridos já não queriam para ficarem com as amantes, alguém simplesmente tímido», qualquer pessoa que tivesse um comportamento social não aceitável.
Essas pessoas passavam a viver uma vida degradante: «as camas foram substituídas por uma espécie de palha para criar mais espaço», andavam nus porque não havia roupa suficiente, «a comida era escassa e as condições de higiene inexistentes». Homens, mulheres e crianças eram torturados com choques eléctricos pelos guardas que era a forma que eles encontravam para os conter.





Estima-se que tivessem morrido à volta de 60 mil pessoas em 50 anos de violência vivida no Colónia. Um verdadeiro holocausto que apenas acabou nos anos 80, quando a ditadura terminou no Brasil.





Verdadeiramente chocante o que a natureza humana consegue fazer aos seus iguais!

terça-feira, 6 de maio de 2014

Os Memoráveis



É sabido que me agrada muito ler Lídia Jorge. Desde que tomei conhecimento do seu nome pela «Conta Corrente» do admirável Vergílio Ferreira. Li vários dos seus romances todos atinentes a temas marcantes da vida e da história do país. Todos muito bons. Todos muito bem arquitetados, todos muito bem escritos. Não posso dizer qual o que achei melhor no seu todo, mas aquele de que mais gostei foi «O Vale da Paixão» que pinta a saga de uma família no Algarve rural.

Nestas últimas semanas detive-me a ler «Os Memoráveis» e adorei! É, de longe, o mais conseguido dos seus romances – talvez depois de «A Costa dos Murmúrios», mas mais maduro que este em termos da arquitetura do romance e, mais importante ainda (pelo menos na minha ótica) na maestria da palavra.

Não adianta deixar aqui apontamento sobre a trama do romance porque isso encontra-se facilmente na mais básica pesquisa na net ou lendo a contracapa do livro. Além de que é sabido que se trata de uma revisitação ao que aconteceu na noite de 24 para 25 de Abril de 74 contada por uns tantos dos responsáveis pelo golpe e por dois poeta, passados trinta anos. E aí é que está a ficção, a originalidade e a perfeição de um romance de qualidade.

Dois aspectos de grande interesse e novidade no plano da narrativa – na minha simples opinião: primeiro, as alcunhas escolhidas para cada um dos «memoráveis» que a narradora decide entrevistar para dar o seu testemunho sobre as circunstâncias do golpe e que, tirando duas ou três exceções, dificilmente serão identificadas pelo leitor; e depois as máscaras de anti-herói (com as suas decepções, as suas fragilidades, os seus dilemas) com que cada um dos «memoráveis» nos é apresentado trinta anos depois daquele feito heróico por eles perpetrado naquela noite de Abril de 74.

No plano da abordagem à realidade, de notar a quase colagem à sequência dos acontecimentos hora a hora que levaram à realização cabal do golpe, embora em modalidade de puzzle que se ia completando à medida que a narrativa avança e, por outro lado, a impressão digital da autora no desenvolvimento da entrevista à viúva de Charlie 8 e a forma quase violenta e sarcástica como é tratado o facto de lhe ter sido negada uma pensão por serviços distintos enquanto uma idêntica foi atribuída, nesse mesmo prazo, a dois pides. Outro aspeto bem repisado ao longo da obra é a noção de que, quer na preparação, quer na operacionalização do golpe, nenhum dos intervenientes queria ser reconhecido acima dos outros, que «todos somos capitães» - dizia Charlie 8 e que cada um mais não era do que um entre os cinco mil que estiveram envolvidos no «milagre», no dizer do “Oficial de Bronze”- «porque havia cinco mil efectivos dispersos no terreno, mas unidos pela amizade».

A trama, que entrecruza o plano histórico com o plano familiar da narradora, está por de mais bem urdida mas há episódios tão fortes, tão intensos, tão complexos apesar de nos serem apresentados simplesmente, que senti, por vezes necessidade de voltar atrás e reler alguns trechos para sentir o pulsar dos acontecimentos e ligar o puzzle da teia.

Muito, muito mais haveria a dizer sobre esta obra tão emblemática mas escrita com o coração, mas não quero nem devo alongar-me. E, apenas para deixar a marca de esperança que este livro pretende deixar no ar e para os vindouros, transcrevo o poema “Um Dia” que o poeta Francisco Pontais – que, curiosamente, tem uma perspetiva bem crítica do que realmente foi aquele dia de Abril – sobre o mesmo compôs:

«Um dia os rapazes serão louvados
Hão-de passar entre multidões floridas.
Levarão riso na boca e os braços levantados.

Um dia os rapazes hão-de ser punidos
Pelos males que hão-de vir dos quatros pontos cardeais.
Terão latrinas derramadas nos portais.

Um dia esses heróis serão esquecidos
Os seus nomes alinhados entre conchas e espinhas.
Hão-de constar de uns livros nunca lidos.

Mas um dia, esse dia será o dia do idílio.
Os rapazes ainda não desistiram de soltar os braços dos escravos.
E os escravos ainda não renegaram a cor dos cravos.

Ainda estamos no princípio desse dia.»


segunda-feira, 5 de maio de 2014

As 50 sombras de Grey...



... em versão alentejana...

«Quatro alentejanos costumam ir pescar há muitos anos, sempre na mesma época, montando um acampamento para o efeito.

Este ano, a mulher do João bateu o pé e disse que ele não ia. Profundamente desapontado, telefonou aos companheiros e disse-lhes que, desta vez, não podia ir porque a mulher não deixava.

Dois dias depois, os outros chegaram ao local do acampamento e, muito surpreendidos, encontraram lá o João à espera deles e com a sua tenda já armada.

- Atão, João, comé que conseguisti convencer a tua patroa a deixar-te viri?

- Bêm, a minha mulheri tên estado a ler "As Cinquenta Sombras de Grey" e, ontem à nôte, depois de acabar a última página do livro, arrastô-me para o quarto.

Na cama, havia algemas e cordas!

Mandô-me algemá-la e amarrá-la à cama e opois disse: «Agora, faz tudo o que quiseres...»


E Ê ... VIM PESCARI !!!»


Há que riri, né?!


domingo, 4 de maio de 2014

Mães

No Dia de todas as Mães.





















Não sei se COELHO tem mãe...


sábado, 3 de maio de 2014

O Ministro Veiga Simão

(imagem retirada daqui)

Morreu o Professor Doutor Veiga Simão. Licenciado em Ciências Físico-Químicas pela Universidade de Coimbra onde também foi professor, doutorado em Física Nuclear por Cambridge e Reitor, quase fundador, da Universidade de Lourenço Marques, nos anos 60 do século passado.

Não foi, porém, por tudo isso que ficou por de mais conhecido e porque o recordo aqui. É que este homem extraordinário foi o primeiro Ministro da Educação que falou e lutou pela «democratização do ensino» em Portugal.


(imagem retirada daqui)
Escolhido por Marcello Caetano para integrar um governo que – dizia ele – tinha o propósito de reorganizar a vida nacional e para suceder ao “desastroso” ministro José Hermano Saraiva de má memória, foi designado Ministro da Educação em 1970 e logo começou a trabalhar na reforma do sistema de educação vigente, apresentando ao país, logo em 1971, dois projectos de reforma para discussão pública. Em Julho de 1973, seria aprovada a Lei nº 75 que estabelecia as bases a que deveria obedecer a reforma do sistema educativo. De entre as inovações nela contidas, são de apontar:

  • a institucionalização da educação pré-escolar;

  • a extensão da escolaridade obrigatória (que não era nada obrigatória, mas enfim…) de seis para oito anos;

  • a polivalência do ensino secundário e acréscimo de um ano na sua duração;

  • a expansão e diversificação do ensino superior, a criação de cursos de pós-graduação, um novo enquadramento da formação profissional;

  • a estruturação da educação permanente ;

  • e a consagração «de forma inequívoca» do princípio da democratização do ensino.


Não muito longe do que, anos mais tarde, ficaria inscrito na Lei de Bases do Sistema Educativo de 1986 que ainda nos rege.

No ano lectivo de 72/73, foi lançada em algumas Escolas Preparatórias do país uma experiência pedagógica que acabou por funcionar como o embrião do que viria a ser o Ensino Unificado dos 7º, 8º e 9º anos. Depois da Revolução de 74, a Reforma do Ministro Veiga Simão acabou (mal, mas as revoluções são mesmo assim) por ser posta de parte, tendo ainda funcionado até 76/77.

Tive a sorte de ter sido escolhida pela direcção da “minha” escola para integrar essa experiência onde aprendi muito do que fui como professora ao longo da minha carreira. As escolas da experiência foram equipadas com um excelente acervo de livros para as suas Bibliotecas e com textos de apoio para todas as disciplinas dos 3º, 4º e 5º anos experimentais. Foram escolhidos os alunos e os professores e estes recebiam formação trimestral em Lisboa. Tudo muito bem pensado e muito bem organizado.

Que não me venham agora chamar saudosista do antigamente ou comparar esta minha apreciação com a expressa pelo cherne Durão a propósito da educação do tempo da ditadura!

É que o Ministro Veiga Simão era, realmente, de outra têmpera!

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Foi para isto?!



Já nem vale a pena falar nas mentiras que Passos Coelho pregou ao pessoal na campanha eleitoral que essas já lá vão…

Vale a pena é repisar a falta de idoneidade pessoal, política e ética por parte da súcia que ascendeu ao “governo” a começar pelo seu principal.

Disse ele: “Nós, na próxima semana, iremos comunicar essas medidas. Não são medidas que incidam em matéria de impostos, salários ou pensões, creio que já esclareci bem essa matéria e não creio sinceramente que devemos estar todos os dias a criar uma notícia em volta dessa matéria”.

Para atingir a meta de défice de 2,5% em 2015, o primeiro-ministro referiu que terão de ser identificadas “poupanças ao nível da máquina do Estado que honrem esses compromissos”.

Não é um trabalho que se faça de um dia para o outro, mas é um trabalho que será apresentado ao país muito proximamente e creio que, sinceramente, não há nenhuma razão para estar a criar um bicho-de-sete-cabeças à volta desses cortes que o Estado vai ter de fazer para o próximo ano”, sublinhou.

Passos Coelho salientou que, na próxima semana, será divulgado “o essencial dessas medidas, que serão depois completadas com a apresentação do Orçamento de Estado para 2015.

Vivemos, felizmente cada vez mais, tempos de normalidade e não deixaremos de transmitir com muita transparência aos cidadãos aquilo que são as nossas intenções”, afirmou. (Negócios Online).»

Passadas duas semanas, Passos Coelho e os seus ministros fazem o oposto do que prometeram. E aprovado o DEO – abençoada a moda das siglas que ajudam a tapar a lançar poeira para os olhos dos já cegos – ficamos a saber que:

  • Esta espécie de governo aumenta IVA para 23,25% e agrava TSU aos trabalhadores;

  • As pensões a partir de €1000 vão sofrer cortes definitivos entre 2% e 3,5%;

  • Os funcionários públicos terão os salários cortados durante oito anos (com a falácia de que vão começar a reaver o que lhes foi cortado);

  • Haverá 6 mil milhões de euros de austeridade até 2016;

  • A dívida pública ainda sobe mais em 2014.


E toda esta trapaça acompanhada por pérolas como estas:

«O aumento do IVA será amigo da economia(Passos Coelho)

«O DEO é um bom documento para a economia(Pires de Lima)

«O aumento da TSU deveu-se ao exigido pelo Tribunal Constitucional que quis equidade(Mª Luís Albuquerque)

«O aumento de impostos serve para sustentar as pensões dos reformados(Passos Coelho)

«O governo tem a preocupação de proteger os mais desfavorecidos.» (Mª Luís Albuquerque)

Privatizações ultrapassam os números da troika, mas o governo quer mais…



Foi para isto (e para muito mais) que a autodenominada esquerda impoluta e o senhor presidente da República tanto se empenharam em fazerem eleger esta espécie de governo?!


quinta-feira, 1 de maio de 2014

Dia do Trabalhador

Como nunca mais voltaremos a ter um 1º de Maio como este...







... fica apenas a homenagem em termos artísticos.

"Operários" 
(de Tarsila do Amaral, 1933)