quarta-feira, 16 de abril de 2014

Bibelots

Não sou grande amante das coisas da casa nem me preocupo muito com enfeites e bibelots, mas gostava de vos mostrar uns bibeblots especiais...









O nosso Socas pode ser um gato vaidoso e exibicionista mas não dispensa o cravo revolucionário...

Faz muito melhor que muito boa gente que conhecemos!...

terça-feira, 15 de abril de 2014

Eu, o doutor

Entrei uma tarde numa camisaria de onde gastava, com o fim imaginado de comprar uma gravata. O caixeiro que estava livre de freguês, e que há muito me conhecia, cumprimentou-me alegremente: «Boa tarde, senhor doutor.»

«Não sou doutor», disse-lhe, e era a verdade. «Porque é que me julga doutor?»

«Ah, eu realmente julgava…», respondeu ele limpidamente.

Pedi gravatas, escolhi a que preferi, paguei. Nesta altura, o outro caixeiro, que também de há muito me conhecia, veio para ao pé do colega.

«Boa tarde», disse eu para ambos.

Os dois caixeiros inclinaram-se amáveis e sincrónicos, e, como um só, disseram:

«Boa tarde, senhor doutor, e muito obrigado.»

Moralidade:
Quando a opinião nos faz doutores, doutores temos de ser. Na vida social, somos o que os outros nos julgam, e não o que até fingidamente somos. A nossa personalidade social, para todos, ou histórica, para os célebres, é uma ideia de nós que nada tem de nós. O estadista que saiba saber isto tem a chave do domínio do mundo. Pode, é claro, faltar-lhe a porta; isso, porém, é já destino.

31/1/1932


(in «Contos Completos», Fernando Pessoa)
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Quando li este pequeno conto de Pessoa, lembrei-me de quando cheguei a Leiria em finais de 74. Muito lisboeta, jovial, muito independente, muito liberal, muito imbuída do espírito de Abril, mas já licenciada e profissionalizada, pronta a concorrer a professora efetiva, o que, à época, era ainda muito pouco comum.

Um dia entrei numa loja de modas e, conversa para cá, conversa para lá, até porque eu era uma cara nova na pequena cidade, acabei por dizer que dava aulas na D. Dinis. Automaticamente passei a ser tratada por «doutora» e eu, do alto da minha simplicidade, da minha pouca idade e da minha «mini-saia», tratei de dizer: «Ai, por amor de Deus! Não me trate por doutora! O meu nome é Graça Maria e eu gosto.» E logo a senhora que me estava a atender ripostou: «Mas porquê, é professora de Trabalhos Manuais?»

Grande Fernando Pessoa que tão bem entendia a nossa pequenez!

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Ramos

Ontem foi Domingo de Ramos. Ouvi dizer. Nunca assisti a uma missa de entrega dos ramos. Não frequento missas. A minha educação religiosa foi extremamente parca: batizaram-me em Vieira de Leiria tinha eu sete anos não entendi porquê ali que nada tinha a ver com a nossa terra. Mais tarde, já em Sintra, depois de três reprovações por faltas na catequese porque não suportava as patetices que lá ensinavam baseadas num catecismo escrito para criancinhas pequenas que eu já não era, uma senhora nossa amiga lá me preparou, (não sei muito bem como é que ela conseguiu…) para fazer a primeira comunhão – tinha onze ou doze anos. Para além disso, as aulas de Moral no colégio eram passadas a ler e a ouvir ler Novo Testamento (e a rir e a falar para o lado...)  e só duraram até ao 3º ano (atual 7º). E fiquei por aí no que toca à Igreja.

Mas de cada vez que oiço falar na festa dos Ramos, que celebra a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, lembro-me sempre da cena do extraordinário filme Jesus Christ Superstar que vi em 1973 e que ainda gosto de rever e de reouvir – tem uma banda sonora fora de série!

Querem recordar?




domingo, 13 de abril de 2014

Marido ao domicílio!




Atenção, mulherio!
Pode ser publicidade enganosa, mas eles dizem que fazem tudo o que o seu marido não faz!!!

Tenham uma boa semana!

sábado, 12 de abril de 2014

Cratinices



O ministro (C)rato embandeirou em arco com os resultados do Eurostat que registaram o aumento do número de licenciados em dois pontos percentuais e a redução do abandono escolar em 1,6% no ano de 2013. Muito bem!

Também os resultados apontados no relatório PISA 2012 foram bem favoráveis para Portugal já que refere o nosso país como um exemplo de evolução positiva no que respeita às Ciências, à Leitura e à Matemática tem do os resultados melhorado sobretudo na Matemática. Neste caso o ministro (C)rato, não se sabe muito bem porquê, desvalorizou um bocado as evidências dizendo que «ainda muito há a fazer».

Suponho que se esquece o douto ministro, bem como supostamente os habituais “treinadores de bancada” da educação (Guilherme Oliveira, Henrique Neto, Graça Moura, Ramiro Marques e outros entre os quais muito professorzinho) que, mau grado para eles, estes resultados decorrem em proporção direta com aquilo a que esses senhores apelidaram de “eduquês” e que nasceu das tendências inovadoras suscitadas pelas Ciências da Educação – tão mal vistas por eles – e postas em prática após a chamada reforma do excelente – não me canso de o dizer e repetir – Ministro – este sim escrito com letra maiúscula – Roberto Carneiro.

É que as coisas em Educação não têm resultados imediatos. Não se tomam medidas num ano para os resultados aparecerem no ano seguinte. Sabemos disso. (Saberemos?) Tudo é lento na Educação e os resultados demoram por vezes décadas. (Como na mudança das mentalidades – estas com um ritmo muito mais lento.)

Agora pense-se no retrocesso que vão sofrer os relatórios internacionais que se venham a lavrar acerca da Educação daqui a meia dúzia de anos decorrentes das medidas pedagogicamente infundadas e desconexas que o ministro (C)rato tem vindo a tomar desde que, com grande aplauso de grande parte dos professores, tomou conta deste ministério. A saber:

  • A indizível protecção do ensino privado em desfavor da escola pública;

  • A redução drástica do número de professores por escola;

  • O fecho dos quadros das escolas, não permitindo a substituição dos professores efectivos que se têm aposentados aos milhares – o que produz a não fixação dos docentes às escolas, prejudicando grandemente a aprendizagem dos alunos;

  • O aumento do horário lectivo dos professores (com a respectiva diminuição dos vencimentos e subsídios…) É muito comum haver professores com oito ou nove turmas, o que poderá corresponder à leccionação de 250 alunos. Como se conhecem, se diferenciam, se ensinam se avaliam de forma séria 250 alunos, cada um com o seu ritmo de aprendizagem e os seus condicionalismos?

  • O aumento excessivo da carga burocrática e da exigência informatizada que recaiu sobre os professores e a disparidade de tarefas que têm de desempenhar semanalmente;

  • O aumento desconforme do número de alunos por turma; o número de turmas do 1º ciclo com diferentes anos de escolaridade tem vindo a crescer;

  • A redução do número de aulas no horário semanal dos alunos;

  • A redução violenta dos apoios pedagógicos e técnicos para os alunos com dificuldades de aprendizagem e com necessidades educativas especiais;

  • A loucura dos exames nacionais desde os dez anos. As provas de exame, além de serem um crescendo de rasteiras e armadilhas para o aluno “cair” e um amontoado de “critérios” que espartilham a correcção das mesmas, não provam minimamente o que o aluno sabe ou não sabe. Além disso, os professores vêem-se forçados a gastar aulas e aulas a preparar os alunos para saberem onde hão-de colocar as cruzinhas para contornarem as armadilhas em detrimento da prática da compreensão da leitura, da escrita criativa, do conhecimento articulado das matérias. Digo muitas vezes por brincadeira, mas talvez sem cair em erro que se o Fernando Pessoa tivesse de responder a uma prova de exame do 12º ano sobre um dos seus poemas, certamente não passaria do 10!

  • E por último, mas não em último, o falacioso crescimento da autonomia das direcções das escolas. Tomariam as direcções e os professores gozar da autonomia de que se gozou a partir de finais de 80!

Crime e castigo

Dia de compras no Continente. Muita gente nas caixas para pagar. E, atrás de mim, a querer muito passar-me à frente, uma senhora bem mais velha do que eu, olhava aflita para o relógio. Estava quase a dar-lhe passagem à minha frente, quando chega outra senhora que a aconselha a ter calma, ainda falta meia hora para o autocarro, eu vou no mesmo e ainda há tempo. E daí começaram a falar disto e mais daquilo.

Falam de como as pessoas trabalham muito, muitas horas e cada vez ganham menos e cada vez mais lhes cortam os apoios e os subsídios; aí a senhora que tinha resposta para tudo para a senhora mais velha, sai-se com aquela máxima paroquialmente doentia «andaram a dar-nos de mais e agora temos de pagar!» Crime e castigo!

Virei-me para a frente para abstrair e não me meter onde não era chamada e tratei de pôr as minhas compras no tapete da caixa. Esqueci a conversa das minhas vizinhas de trás e tratei de pagar. «Vai querer o número de contribuinte na fatura?» pergunta a senhora da caixa. «Não!» respondi rindo, que não é por aí que vamos lá… E responde a empregada com aquele ar assustado de português que foi apanhado a fazer asneira: «andaram a dar-nos a mais e agora temos de pagar!»

Duas vezes em parcos minutos, não!! «Minha querida, - disse chegando-me perto - não andaram nada a dar-nos de mais! Andaram foi a roubar de mais! E agora somos todos nós que temos de pagar!» Farta de que nos acusem de termos andado a gastar de mais!! Farta de que nos digam que andámos a viver acima das nossas possibilidades! Houve foi quem andasse a roubar acima das suas possibilidades! (infelizmente, essa nossa veia de rapina já vem do tempo das descobertas).

Farta de que inculquem nas mentes mais indefesas, mais desvalidas que andámos, de facto, a gastar acima das nossas possibilidades para que aceitemos de cabeça baixa como castigo todos os desmandos que queiram desferir sobre nós! Castigo sem crime!




quinta-feira, 10 de abril de 2014

Baixo nível II

Com esta idade toda ainda me deixo espantar perante manifestações de falta de verticalidade e de coerência na atuação (coluna vertebral, diz-se) por parte de pessoas que acreditamos pertencer a um determinado nível sociocultural, de formação e detentores de graus académicos de prestígio.

Não consigo aceitar gente com falta de escrúpulos, para quem vale tudo para atingir os seus intentos, que enganam, ludibriam, cometem ilegalidades e, mais que tudo, as mentiras com que pretendem enganar quem os conhece bem – não tanto pela mentira em si que essa, dizem, tem perna curta, mas mais pela ofensa que fazem à nossa inteligência.

Mas que digo eu? Como posso encrespar-me contra comportamentos destes por parte de pessoas (mais não posso nem devo alargar-me sobre quem falo) que se movem numa esfera “cá de  baixo”, quando a segunda figura do país – a “nobre” barata-loura com fatinhos e passinhos à Charlot, que preside (sabe Deus como certa gente ascende onde ascende) à Assembleia da República  – se comporta como um verdadeiro galináceo perante os jornalistas que apenas pretendem desempenhar a sua função e, não contente com isso, responde não informalmente – o que já seria mau atendendo ao alto cargo que desempenha – mas de forma altiva e deseducada, boçal mesmo aos Homens que permitiram que ela própria e os apaniguados dos partidos que a escolheram possam ter ascendido aonde ascenderam – à Casa da Democracia.

Costumo dizer que temos 100 anos de atraso em relação às restantes democracias ocidentais em termos de cidadania, de justeza, de noção de igualdade, de legalidade, de noção de direitos e deveres, de representatividade e sei lá o que mais.

Mas em termos de comportamento vivencial, temos mais de trezentos anos de atraso: são os 300 anos de “santa” Inquisição mais 48 de ditadura que fizeram de nós um povo acorrentado aos grilhões da ignorância, da ruralidade, da incultura, da superstição, da mordaça clerical imposta.

E para submergirmos de todo esse lodo, desse lamaçal, desse nevoeiro, desse sebastianismo pacóvio que nos atiraram para cima, não chegam 40 anos!


Os eleitos da triste figura!