sexta-feira, 14 de março de 2014

Que vergonha!



Contraria-me sobremaneira ouvir algumas pessoas (e algumas com formação para o não fazerem) dizerem que têm vergonha de serem portugueses. Não admitiria mostrar vergonha de ter nascido no meu país tivesse eu nascido na Coreia do Norte, na Guiné Equatorial, no Paquistão, na Suécia, em Marrocos, ou nos States! Nasce-se e pronto! Não depende da nossa vontade e nada podemos fazer por isso ou contra isso. Além de que é uma imensa falta de cidadania, de classe, de educação renegarmos o nosso país: quase um paralelo com quem, mercê da instrução que cavalgou chega – ou pensa que chega – a um patamar em que se permite envergonhar-se dos pais que lhes deram o ser (e, muitas vezes, o dinheiro para aceder à dita instrução que os pais não tiveram).

Já ter vergonha do que este nosso povo – ou parte dele, grande parte dele – faz e diz e da forma como se comporta e como é, não me faz diferença nenhuma e, embora não preconize, até pratico…

Não vou registar aqui, hoje e uma vez mais, a vergonha que sinto de termos a espécie de governo e a espécie de presidente que nos calhou (pelo voto, eu sei!) que isso tenho-o eu feito dia após dia.

Hoje sinto uma imensa vergonha de me ver representada por um punhado de deputados que “chumbaram” o diploma de co-adoção de crianças por casais do mesmo sexo, continuando o nosso país a ser o único da Europa ocidental que exclui essa possibilidade, ficando nesta matéria acompanhado apenas por países como a Rússia, a Roménia e a Ucrânia.

Vergonha por ter uma comunicação social de tal modo vergada ao “politicamente (e religiosamente) correto” que, à hora em que milhares de pessoas, funcionários públicos, se manifestavam junto à Assembleia da República contra as políticas de cortes e de empobrecimento dos trabalhadores, todos os canais de televisão, generalistas e por cabo, estavam a transmitir, paulatinamente e passo a passo, o funeral do D. José Policarpo!

E vergonha talvez ainda maior, por mais próxima e porventura mais ampla, foi encontrar hoje uma ex-colega que, depois de uma conversinha rápida a criticar os governantes, afirmou que não ia votar mais e que eu devia fazer a mesma coisa porque por cada voto, mesmo em branco, os partidos recebem três euros e tal e com o voto dela nenhum partido há de ganhar dinheiro.

Tanta ignorância, tanta incultura, tanta estupidez!

quinta-feira, 13 de março de 2014

quarta-feira, 12 de março de 2014

Eu não quero pagar por aquilo que não fiz!

Eu não quero pagar por aquilo que não fiz
Não me fazem ver que a luta é pelo meu país.
Eu não quero pagar depois de tudo o que dei
Não me fazem ver que fui eu que errei.

Não fui eu que gastei mais do que era para mim
Não fui eu que tirei, não fui eu que comi
Não fui eu que comprei, não fui eu que escondi
Quando estava a olhar não fui eu que fugi.

Não é essa a razão para me quererem moldar
Porque eu não me escolhi para a fila do pão
Este barco afundou houve alguém que o cegou
Não fui eu que o não vi.

Eu não quero pagar por aquilo que não fiz
Não me fazem ver que a luta é pelo meu país.
Eu não quero pagar depois de tudo o que dei
Não me fazem ver que fui eu que errei.

Talvez do que não sei talvez do que não vi
Foi de mão para mão, mas não passou para mim
E perdeu-se a razão tudo bom se feriu
Foi mesquinha a canção desse amor a fingir.
  
Não me falem do fim se o caminho é mentir
Se quiseram entrar não souberam sair
Não fui eu quem falhou, não fui eu quem cegou
Já não sabem sair.

Eu não quero pagar por aquilo que não fiz
Não me fazem ver que a luta é pelo meu país.
Eu não quero pagar depois de tudo o que dei
Não me fazem ver que fui eu que errei.

Meu sonho é de armas e mar
Minha força é navegar
Meu Norte em contraluz

Meu fado é vento que leva e conduz.


)


Estão a voltar as canções de intervenção. Porque será?!

terça-feira, 11 de março de 2014

Primeira lição de sexo

Há dias os meus netos rapazes – cinco e três anos – tomaram banho juntos em casa de um deles. Despidos, o mais novo ficou um bocado para o pasmado a olhar para o primo e terá dito qualquer coisa como «Tens uma pilinha!»

Aí o mais velho, todo expedito, deu a primeira lição de anatomia ao pequenito apontado enquanto falava: «Tu também tens uma pilinha. Isto aqui é a pilinha, aqui atrás é o rabinho e as meninas não têm porque têm pipi.»


Acabou-se a lição e seguiu-se com o banho para a frente!




segunda-feira, 10 de março de 2014

O Dia Triunfal de Fernando Pessoa

Eu sou uma mulher de sorte! Mesmo! Há meses que ando para ir visitar a Casa de Fernando Pessoa, mas por isto ou por aquilo, não se foi proporcionando.

Apareceu uma oportunidade de irmos a Lisboa no sábado passado e aí decidi fazer finalmente a visita adiada.




Ao chegar à entrada da casa, fui abordada por simpático jovem que me perguntou se eu vinha visitar a casa e, só por isso, me leu um poema de Alberto Caeiro e me explicou que aquele era um dia especial porque estavam a celebrar os cem anos do Dia Triunfal de Fernando Pessoa, no qual, segundo o próprio poeta, em carta a Adolfo Casais Monteiro, admitiu ter vislumbrado os seus três heterónimos principais: Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.

«… lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro — de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira — foi em 8 de Março de 1914 — acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio, também, os seis poemas que constituem a Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa. Imediatamente e totalmente... Foi o regresso de Fernando Pessoa Alberto Caeiro a Fernando Pessoa ele só. Ou, melhor, foi a reacção de Fernando Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro.
Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir — instintiva e subconscientemente — uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-o a si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jacto, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a Ode Triunfal de Álvaro de Campos — a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem. (…)»

(excerto da carta a A. C. Monteiro, escrita em 13 de Janeiro de 1935)

Foi assim que tive direito à leitura de um poema de cada um dos heterónimos, à visita à Biblioteca (que está fechada ao público aos sábados), observação de alguns livros da biblioteca pessoal do poeta profusamente anotados por ele e vista ao quarto onde ele terá escrito, de rajada, aqueles poemas todos que ele refere na carta. Uma emoção!














(um aspeto da Biblioteca)
(Bilhete de Identidade de Pessoa)



Fosse certo ou não que Pessoa tivesse escrito aqueles poemas todos naquele dia dito triunfal de 8 de Março de 1914 (conforme estudos a decorrer), esta foi uma visita triunfal para mim...


domingo, 9 de março de 2014

Talvez F...

De mais! Indescritível a minha estupefação ao ouvir há pouco, no telejornal, o senhor presidente com o seu ar mais cândido e a sua voz mais doce – como quando viu as vaquinhas dos Açores a sorrirem de felicidade – a perguntar-se (não dei conta do contexto em que o fez) naquele seu martelar das palavras com medo que alguma lhe falte: «Eu não sei o que se há de fazer para passarem a nascer mais crianças!...»

Por elegância, não vou aqui repetir os apodos com que mimoseei o senhor presidente e a sua dúvida transcendente. Questionei-me apenas sobre quantos filhos o senhor presidente e a sua augusta esposa teriam tido se auferissem cada um deles os míseros 485 euros brutos, ou se estivessem desempregados com ou sem direito a subsídio de desemprego, sem casa própria, sem empregadas em casa, sem subsídios de/nem férias, sem carros nem motoristas, etc. etc. etc.


Mas, perante a expressão abstrusa que se espelhou na cara do senhor presidente de pura estupidez e pretensa ignorância, veio-me à mente o refrão daquela canção dos primeiros anos do Pedro Abrunhosa, sabem? Talvez F… 




sábado, 8 de março de 2014

Ode to a woman´s body

Sabem já que não sou muito dada a estas coisas do dia da mulher, mas Pessoa é sempre Pessoa e foi da casa dele que trouxe este elogio alado.




Bem hajam, mulheres! (sempre ao lado dos homens, naturalmente)