Lembram-se os meus amigos mais
chegados à minha idade que Salazar, que era avesso à instrução do povo por medo
de deixar de poder manipulá-lo, de o manter submisso, supersticioso e temente a
um Deus mesquinho e vingativo que ele e a Igreja inventaram. Por isso as
escolas eram poucas e sem quaisquer condições físicas e materiais e quanto
menos dinheiro o orçamento gastasse com pessoal docente, melhor. De referir que
a instrução básica, não obrigatória,
era o exame do 1º grau (3ª classe) para as raparigas e do 2º grau (4ª classe)
para os rapazes.
Na sua fúria de “controlar as
finanças públicas” – que tão apreciada é hoje em dia por muitos, muitos saudosos
catões portugueses – e porque os Magistérios Primários, escolas onde se formavam
os professores primários, eram poucos e atarracados e também porque não
convinha formar muitos professores, ele criou a figura legal da “regente escolar”. As habilitações das regentes
limitavam-se à 4ª classe, deviam ser possuidoras da «necessária idoneidade moral e intelectual» (fosse isso o que quer
que fosse). Exigia‑se a estas pessoas «uma
irrepreensível conduta moral e uma adesão sem reticências aos princípios que
norteavam o novo regime» (dizia o decreto de 1930 que criou essa figura). O
ordenado que lhes era pago era de 300$00 mensais, um terço do que auferiam os
professores “formados” e “profissionalizados” nas Escolas do Magistério
Primário.
Ora vem todo este arrazoado a
propósito daqueles “cursos” turbo-rápidos que o ministro (C)rato resolveu fazer
sair da cartola! Uns cursecos que nem grau superior conferem mas que o senhor (C)rato,
que tanto insultou o “facilitismo” e
o “eduquês” – palavras suas
pós-maoistas – com que os governos pós-25 de Abril impuseram aos jovens
estudantes dando-lhes uma formação inferior – ideias suas pós-maoistas –uns
cursecos, dizia eu, que o senhor (C)rato inventou para embaratecer a
mão-de-obra profissional e baixar o nível intelectual, como convém!
Não me digam que não faz lembrar
a figura das regentes escolares que o mentor do senhor (C)rato criou nos anos
30 do século passado!
De relembrar ainda e a propósito
a existência de uns cursos nas Faculdades de Letras e de Ciências nos anos 50 a
70, com a duração de dois anos, quando o grau académico mais baixo era o de Bacharel
com a duração de três anos, e que tinham, como saída principal, poder dar aulas
– sem direito a entrar em estágio profissional – nas escolas técnicas,
preparatórias e até nos liceus, dada a
falta de pessoas devidamente graduadas. Mão-de-obra mais barata, como se vê!
E foi todo esse panorama (desculpem,
agora diz-se paradigma) que o senhor
(C)rato do “eduquês” foi agora desenterrar, naquela sanha insana que este
miserável “governo” tem de tudo embaratecer e tudo nivelar por baixo.






