Já estava há muito nos meus intentos ler a obra-prima do meu muito querido professor
Vitorino Nemésio, mas por isto ou por mais aquilo, ou tão-somente porque
pensava que se tratava de uma narrativa muito apegada aos hábitos da pesca e de
outras fainas das gentes do Açores, ou ainda – o que é pior – por falta daquele
«marketing» (como se diz agora) que praticamente não existe no que toca aos
nossos clássicos (e aos outros…), foi ficando para trás.
Finalmente decidi-me, muito por influência de uma referência feita pelo crítico
Eduardo Pitta a um aspeto da vida humana abordado na obra, lá me resolvi a
procurar pelas estantes todas da casa, escada abaixo, escada acima, o exemplar
editado por uma daquelas coleções de livros de bolso que brotaram nas nossas
editoras depois da Revolução.
Parece-me que há buracos nesta casa porque me desaparecem livros! (Penso
que ganham asas até às casas da minhas filhas, mas isto fica só aqui entre nós…)
Livraria com ela, pré-auto-prenda de Natal e lá me lancei na leitura. Tenho
a dizer que só leio por prazer em duas situações: em férias na praia e quando
me vou deitar, daí que demore algum tempo a ler e a saborear as minhas escolhas.
Mas só vos digo: desde que li, já adulta, (que no liceu uma pessoa anda por de mais atarefada com os namoricos para se deixar absorver pela beleza de uma obra completa) a obra narrativo-lírica «Viagens na
Minha Terra» que não punha os olhos num pedaço de tão boa literatura! Que maravilha
de descrições, que forma absolutamente rendilhada de dar continuidade à
história, que mestria no uso da língua, das palavras, da sonoridade da escrita,
das metáforas, das imagens! As palavras parecem autênticos farrapinhos de
espuma daquele mar tão poético como tenebroso do Canal! Bem se vê que o autor, que
veste a pele de narrador, (ou será ao contrário?!) conhece aquele mar, aquelas
gentes, a cauda do cachalote a bater na água, cada uma das grutas de que
constantemente se desprende o cheiro de lava quente, o sentir e o linguajar das
pessoas (muitas vezes parece-me estar a
ouvi-lo, nas aulas, com aquele sotaque algo fanhoso, e aquele ar disperso que
punha em cada lição: «Eu sou da Terceira que se chama Terceira porque foi a
terceira a ser descoberta…» «Ó Machado Pires, (que era o assistente) como é que
se chamava aquele que matou o … » Tão delicioso nas aulas como no romance.
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| O Canal - pequeno, mas furioso, braço de mar entre o Faial e o Pico |
E quando me vêm com lutas de alecrim e manjerona do ataque ao acordo
ortográfico – este, porque os anteriores não os conheceram – porque é um
assassinato à língua de Camões , a qual, de facto, a grande maioria nem conhece) convido-os a todos a que leiam os nossos clássicos, os nossos romancistas, ensaístas
e poetas do século XX, esquecidos por força da infame e clerical ignorância do
povo e por força de um sistema político opressor e baço que quase só nos permitia
ler o catecismo; leiam-nos no registo atual ou noutro qualquer, e aí sim, verão
como se maneja com a maestria (com mais um ou menos c- ou p-) a dita língua de
Camões!