Devo ser das poucas pessoas neste país que nunca gostou nada do Carlos Cruz! (É como dos Madredeus, mas isso não é para hoje). Andei em “Germânicas”, na segunda metade dos anos 60, na Faculdade de Letras de Lisboa e nunca esqueci o que lá se sabia sobre ele.
Sempre o achei um pedante, armado em moderno e até mesmo no Zip Zip, programa inovador de referência daquele tempo na RTP que viveu à custa do Raul Solnado (e, segundo dizem, do Fialho Gouveia), o achei algo fingido com aquelas gargalhadas forçadas que dava perante as “unhadas” que o Solnado cravava na “situação”.
De fugir quando, nos anos oitenta, passou a apresentador de concursos – o Um, Dois, Três e outros – em que gozava indecentemente com os concorrentes, usando-os como bonecos animados que manipulava conforme lhe apetecia até lhes conceder ou não a dádiva de ganharem um carro pelo ColaCau. Humilhante!
E depois, muito mais tarde, já nas televisões privadas, aquele programa incrível, de que não consegui ver mais do que uns breves episódios em que conversava com umas criancinhas pseudo-génios a quem fazia perguntas de “cultura geral” - que é outro conceito absolutamente parolo deste nosso país à beira mar plantado.
De modo que, quando explodiu a “bomba” do caso de pedofilia em que se viu enredado e que o levou à prisão, não fiquei, como o resto do país, boquiaberta e em estado de choque. Caiu então um enorme silêncio decorrente do choque sobre esta figura tão mediática que aconselhava os portugueses a comprar semanas no hotel tal ou a guardar as suas poupanças no banco tal, aguardando-se os resultados.
Infelizmente os resultados apareceram apenas oito – oito! – anos depois. Este acusado, entre outros seis ou sete, foi condenado e este é que foi o grande “pecado” da juíza Ana Peres! Para além do próprio, que até tinha tido o topete de convocar uma conferência de imprensa para delatar os nomes de outros possíveis implicados que não foram molestados pela justiça, e do seu também mediático advogado, mais de metade do país esperava que o considerassem inocente!
E agora, para vergonha deste país, aí estão todas as televisões, cheiinhas de pena, a quererem branquear-lhe a imagem! E aí aparece um Carlos Cruz, cheio de razão (como sempre!), a bramar não contra as suas eventuais culpas, mas contra uma justiça que terá cometido uma série de ilegalidades. E, mais triste para todos nós, fica o olhar de compreensão, de comiseração, de dó de uma Judite de Sousa, olhar que fez também com o ex-deputado Duarte Lima (também ele bem embaraçado no caso da fortuna de Lúcio Tomé Feterira) e com todos os representantes do seu partido que, em nome da justa informação, leva ao seu programa das quintas-feiras!