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quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Estilo Polémica

Sabemos o quanto nos agrada uma boa polémica. Para tomarmos partido, para teimarmos defendendo o nosso ponto de vista, para nos irritarmos com o parceiro, etc. etc.

A polémica que hoje aqui trago é uma polemicazinha, até porque não deve ser conhecida do público em geral. Por isso lhe chamei «estilo polémica»; se fosse a malta nova diria «tipo polémica». Enfim.

Então houve um concurso de literatura que decorreu no Brasil que foi o «Prémio Oceanos» (antigo Prémio Telecom de Literatura de Língua Portuguesa) de que tive notícia em meados de outubro num tímido retangulozinho do jornal que informava que, da lista de 51 semifinalistas de autores, tinham sido escolhidos dez finalistas dos quais quatro eram portugueses, a saber: Ana Margarida de Carvalho, Ana Teresa Pereira, Hélder Moura Pereira e Maria Teresa Horta. Apesar do meu encantamento pela poeta Maria Teresa Horta e a sua obra de arte «As Luzes de Leonor», comecei imediatamente a “torcer” pela Ana Margarida de Carvalho de quem li os dois romances verdadeiramente alucinantes no passado verão. Confesso que dos seis finalistas brasileiros nada sei, “desculpe ignorância de macaco” – estou citando Jô Soares no seu extraordinário programa «Planeta dos Homens» dos incríveis anos 70/80.

Na semana passada li que a escritora Maria Teresa Horta repudiava o 4º lugar ex-aequo que lhe tinha sido atribuído juntamente com o escritor Bernardo Carvalho, bem como o respetivo prémio pecuniário (cerca de quatro mil euros). Numa carta endereçada ao júri, Maria Teresa Horta afirma: "Faço-o por respeito pela Literatura, por respeito pelas minhas leitoras e os meus leitores, e sobretudo pelo respeito que devo a mim própria e à minha já longa obra (…). Assim sendo, caros senhores, sois livres de dar a aplicação que vos aprouver aos 15 mil reais que me caberiam, não fosse esta inultrapassável questão que se me coloca e dá pelo nome de dignidade".

Entretanto, na sua página do facebook, a prestigiada crítica de literatura, a professora doutora Maria Alzira Seixo, no seu estilo frontal de sempre, escrevia que os dois portugueses que faziam parte do júri, o crítico literário António Guerreiro e a poetisa Ana Mafalda Leite, tinham sido alunos dela, fracos alunos, que estiveram quase para reprovar e que não entendia como pessoas dessas eram convidadas para integrarem júris de concursos literários.

Só depois li que a vencedora do prémio tinha sido Ana Teresa Pereira – de quem nunca ouvira falar – com o romance Karen. Fiquei também a saber que a autora premiada, nada e criada na Madeira, já não é uma jovem (nasceu em 1958) e publica desde 1989, sendo-lhe conhecidas cerca e duas dezenas de obras.

«Nos últimos dezoito anos, Ana Teresa Pereira construiu uma das obras mais coerentes e sólidas da ficção nacional. De facto, sem que quase déssemos por isso, os mais de vinte romances que publicou, oscilando entre os fairy tales, o fantástico, o policial e o western, não necessariamente por esta ordem, fizeram do seu nome uma referência incontornável.» Eduardo Pitta; Público.

Ignorância minha (outra vez…) Que diria de mim a Professora Maria Alzira Seixo? Não lhe passei pelas aulas lá em Letras porque ela estava mais dedicada às Românicas… 

De qualquer modo, sei que tenho de ler o tal romance Karen.


(Ana Teresa Pereira)


sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

A Restauração


«Sábado, primeiro de Dezembro de 1640 (dia memorável para as idades futuras), a nobreza da Cidade de Lisboa, para remédio da ruína em que se via, e ao Reino todo, aclamou por Rei o Duque de Bragança Dom João, príncipe begniníssimo, magnânimo, fortíssimo, piedoso, prudente, nos trabalhos incansável, no governo atento, no amor da república cuidadoso, de seu acrescentamento ardentíssimo, e vigilante, legítimo sucessor do Império Lusitano.»

(A Elrey N. S. D. João IIII, Coimbra, 1641, p. 3)


Assim se descrevia numa edição da Universidade de Coimbra, menos de um ano depois dos acontecimentos, os primórdios da aclamação do 1 de Dezembro, posteriormente consagrada como uma das datas emblemáticas da História nacional. Fica claro que o ponto de partida foi, pois, uma conspiração urdida por um número razoavelmente definido e bem delimitado de fidalgos (…).

Nos seus primórdios, o 1 de Dezembro foi, pois, um típico golpe palaciano, perpetrado por um grupo de algumas dezenas de fidalgos, depois identificados como os referidos «quarenta restauradores». O golpe, rigorosamente executado para tomar conta de uma cidade onde estanciavam apenas algumas centenas de soldados castelhanos, foi acompanhado de uns poucos assassínios políticos, incluindo a célebre defenestração ritual – com antecedentes na Europa barroca – que atingiu Miguel de Vasconcelos, secretário de Estado em Lisboa e símbolo local da administração espanhola do conde-duque de Olivares.

(in «História de Portugal», Rui Ramos (coord), A Esfera dos Livros, Lisboa, 2009, pp 295-296)





(Ai se no 25 de Abril tivessem, de igual modo, defenestrado uns tantos traidores e assassinos...)

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Black Friday ou de como somos parolos...

Tenho por hábito ir ao shopping todas as sextas-feiras de manhã dar uma volta pelas lojas e pelas livrarias e, no fim, Continente com ela para fazer as habituais compras da semana. Costumo dizer, por piada, que é a minha manhã livre, a parodiar o tempo de professora com a tarde ou a manhã livre (que raramente gozava… mas isso é outra conversa!)

Ora hoje, ao aproximar-me da rotunda que leva ao shopping, começo de ver filas de carros quase parados, em bicha, à espera de acederem aos parques do edifício.

Que se passa? Qual será o impedimento? Terá havido acidente? Aí, fez-se-me luz!! Black Friday!! E eram ainda dez da manhã. Mas é feriado? Ninguém trabalha hoje? O que é isto?

Difícil, senão mesmo impossível arranjar lugar nos estacionamentos. Mas, como é habitual, o marido lá me deixa a gozar a minha “manhã livre” e segue para levar o neto para a escola.

Garanto que, sem ser nos dias imediatamente anteriores ao Natal, nunca tinha visto tanta gente no shopping àquela hora da manhã de um dia de semana! Os corredores cheios de gente, pareciam o calçadão da Nazaré em domingo de verão e, nas lojas, as empregadas corriam esbaforidas a atender, a procurar números maiores, a arrumar peças que clientes deseducadas deixavam espalhadas por qualquer lado, caídas e viradas do avesso por as terem experimentado por experimentar.

Em algumas das lojas mais populares, as bichas nas caixas de pagamento chegavam à porta – dava vontade de nem lá entrar. Noutras, puseram a música tão alto que fazia a confusão maior. Noutras ainda devem ter contratado novas “colaboradoras” (como se diz agora e é fino) a quem devem ter dado ordens para “atacar” as clientes com grandes sorrisos que, não sei por que razão, lhes elevada o tom de voz e as tornavam enervantes… Dava vontade de fugir!

E tudo isto para se obter 20% de desconto sobre os artigos.

Sei, por experiência, que daqui a uns dias, a maior parte desses artigos, senão todos, estarão com descontos muito mais apetecíveis e com a vantagem de não entrarmos nos atropelos de uma sexta-feira negra…

Esta tonteria é recente, pelo menos aqui em Leiria. Nada tenho contra a apropriação de costumes – as chamadas tradições – de outros países, o que está a acontecer com uma rapidez vertiginosa. Mas que diabo!! Qualquer dia estamos a fazer as tristes figuras das americanas que esperam horas para a abertura das lojas e depois entram numa corrida louca a ver quem consegue abarbatar mais artigos que poderão depois não servir para nada…

Que facilmente aderimos às modas mais tolas e mais vazias de essência… É que isto não é mostrar-se moderno – é mesmo mostrar-se parolo.




domingo, 19 de novembro de 2017

Porque será que os maiores países de regime comunista não celebram a Revolução Russa?

Pode ser que vá chocar alguns dos meus queridos leitores com este meu texto, mas ando aqui às voltas há tempo com esta ideia na cabeça, que se há de fazer? O facto é que quis saber mais sobre a Revolução Russa de há cem anos e, por isso, tenho lido isto e mais aquilo sobre esse enorme tsunami que se abateu sobre a «Mãe Rússia».  

Ontem mesmo assisti a uma palestra subordinada ao tema “A Revolução Russa cem anos depois” muito bem presentada pelo Doutor Ricardo Noronha, investigador da Universidade Nova de Lisboa, que nos fez uma breve evolução histórica desde meados do século XIX na Europa até a sublevação de 1905 na Rússia, à queda do Czar e às revoluções de fevereiro e de outubro, com causas e consequências. Falou de mencheviques e de bolcheviques, do surgimento, ascensão e esvaziamento dos sovietes, da força revolucionária de Lenine e de Trotsky, da Guerra Civil que adveio à Revolução e que apenas terminou em 1922, do apagamento do Testamento Político que Lenine redigiu à beira da morte e do vergonhoso afastamento e posterior assassinato de Trotsky. Depois falou do aparecimento estudado de Estaline e da implantação de uma ditadura imposta pela repressão, pelo medo e pela morte aos milhões. (Como fizeram Hitler e seus sequazes pela Europa, Salazar incluído.)

E lá veio também o jovem e conhecedor palestrante com a questão de, quer a Rússia, quer a China, os maiores países com sistemas políticos de inspiração comunista e de partido único, não celebrarem o centenário da Revolução Russa.

A minha tal ideia é que fazê-lo seria tão indecoroso, tão indecente, tão obsceno, como seria se os alemães celebrarem a ascensão de Hitler – que também constituiu uma “revolução” no seio da Europa e, por muito que nos custe, muito bem aceite por quase todos os países ocidentais.


De forma bem mais suave e mais conseguida, disse-o Viriato Soromenho-Marques no DN do passado dia 7: «Os bolcheviques, depois de dissolverem a Assembleia Constituinte, começaram por eliminar os seus aliados táticos, transformaram os sovietes num cadáver útil e, por fim, depois de vencida a Rússia Branca, começaram a devorar-se a si próprios na monstruosa fábrica de Terror gerida por Estaline. Um número obsceno de vítimas sacrificou-se na pira da Revolução Russa, que chegou a ter dimensão universal, antes de cair na órbita do nacionalismo grão-russo, disfarçado em “socialismo num só país”. Um século depois, esse colossal sofrimento continua sem encontrar um sentido que o possa redimir.»



quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Os Olhos de Blimunda ou da ingratidão dos homens

José Saramago faria hoje 95 anos se fosse vivo. 

Ficar-me-ia bem lembrar o nosso único Nobel da Literatura não fora tê-lo como um dos meus autores preferidos.

Não há como esquecer o seu majestoso Memorial do Convento, ou o extraordinariamente  criativo Ano da Morte de Ricardo Reis, ou a divertida História do Cerco de Lisboa, ou insidioso Evangelho Segundo Jesus Cristo, ou a mordaz Jangada de Pedra, ou o incisivo Ensaio sobre a Cegueira, ou todos os outros que com tanta maestria escreveu.

Para mim, porém, também não há como esquecer um texto que recolhi há algum tempo que versa a relação e vida em comum entre o nosso laureado e a escritora Isabel da Nóbrega (n. 26 de junho de 1925) do qual passo a transcrever alguns excertos.




«Os Olhos de Blimunda

À Isabel, porque nada perde ou repete, porque tudo cria e renova”, escreveu José Saramago na primeira edição do romance Memorial do Convento, publicado em 1982. Percebe-se pela densidade que não seriam apenas palavras de circunstância, e isso torna ainda mais angustiante o acto posterior do seu apagamento e substituição por uma dedicatória a outra mulher.

Neste acto, que muitos classificam como “estalinista”, devido ao facto de durante o regime comunista soviético ser habitual eliminar das fotografias pessoas que se passaram para a oposição ou foram assassinadas, há qualquer coisa de mais inquietante: o inevitável fim do amor. E se João Gaspar Simões,[com quem Isabel vivera e deixara para se ligar a Saramago] ainda que de forma perversa, imortalizou Isabel na figura de Albertina (Tininha) em As Mãos e as Luvas, Saramago tentou obliterá-la para todo o sempre, o que terá sido mais terrível.

Contudo, nas edições mais antigas dos livros do Nobel, podemos encontrar vestígios dessa ligação que, para muitos, terá sido fulcral para o posterior desenvolvimento da obra literária de Saramago. E não é apenas nas dedicatórias que encontramos traços do seu encontro fundamental com Isabel da Nóbrega, mas na própria construção das personagens. É que se Gaspar Simões compara os olhos de Isabel aos de uma Medusa (a górgona mitológica que petrificava quem a olhasse), Saramago acaba por dar à sua mais importante personagem, Blimunda, uns olhos igualmente mágicos, capazes de perscrutar as almas por dentro dos corpos

O próprio nome “Blimunda” foi Isabel quem o escolheu de uma lista que Saramago tinha feito, e da qual tinha escolhido Mariana Amália. Como ela conta, numa entrevista dada à revista Tabu do jornal Sol em 2009, ficou chocada com o nome escolhido para a personagem feminina do Memorial do Convento:

“Mariana Amália? Mas ele endoideceu. Não há direito de pôr Mariana Amália na figura desta mulher. Chamei-o. ‘Está lindo, está tudo certo, menos uma coisa que tens de emendar – Mariana Amália. Tem paciência, quando foste à biblioteca e recolheste nomes da época hás-de ter encontrado um que se possa ver’. Ele voltou à secretária e daí a um bocado apareceu e começou a dizer nomes. Ouvi ‘Blimunda’, pedi-lhe que voltasse atrás e, quando repetiu o nome: ‘Ó Zé, parece impossível! Como é que tinhas este nome na tua lista e não viste que esta mulher é exactamente Blimunda?’. Pegou no manuscrito, que era enorme, e foi emendar tudo, tirar Mariana Amália e pôr Blimunda. É engraçado porque ele chamava-me sempre bruxinha (…) como ele achava que eu via muito bem as pessoas por dentro, lá está, esse jogo…”

(...)


Nesta década [de 50], quando Nóbrega já exibe uma enorme maturidade literária, José Saramago trabalha na editora Estúdios Cor (ali ao lado da redacção do jornal A Capital, da qual Nóbrega foi uma das fundadoras) e tinha uma travessia incipiente pelo romance e pela poesia. É ela quem, em 1968, lhe oferece trabalho n’A Capital para redigir um suplemento de Verão. Mais tarde, convence o director a aceitá-lo como cronista.

Tendo em conta a realidade da sociedade portuguesa nos anos 60, o encontro entre Isabel da Nóbrega e José Saramago era altamente improvável. Ela, filha de um reputado médico, educada no protestantismo, membro da alta-burguesia intelectual, há anos a viver com o mais feroz dos críticos literários, João Gaspar Simões, a quem se devem os primeiros estudos e divulgação da obra de Fernando Pessoa e heterónimos. Ele, um neto de porqueiros do Ribatejo, ex-torneiro-mecânico com aspirações a escritor, que trabalhava como tradutor e fazia os textos para as badanas dos livros da Estúdios Cor. 

“Naquela altura em que estávamos n’A Capital, ele tinha sempre um olhar de quem estava a sofrer. Era um olhar que seduzia (os homens sabem muita coisa e as mulheres ficam fraquinhas diante daquele olhar triste)”, conta Isabel da Nóbrega ainda à revista Tabu.

(...)

“Isabel era uma mulher linda, com bom gosto”, recorda o olisipógrafo, ensaísta e jornalista António Valdemar. “Tinha um estilo muito próprio de se vestir, muito sofisticada… já o Gaspar Simões era gordo… Mas com o Saramago foi diferente. Aquilo foi uma grande paixão. Ele ainda estava casado com a Ilda Reis e só devia ler romances neo-realistas. Estou convencido que foi a Isabel da Nóbrega que o tirou do esgoto neo-realista e o influenciou para descobrir outras literaturas, nomeadamente o Pessoa. Acredito nisto: sem a Isabel, Saramago nunca teria escrito O Ano da Morte de Ricardo Reis”, afirma Valdemar.

À Isabel, outro livro, o mesmo sinal” — é com esta dedicatória que o Nobel inicia o seu romance O Ano da Morte de Ricardo Reis, publicado em 1984.

(...)

“Lembro-me da primeira vez que vi Saramago e Isabel juntos. Foi na praia de Sesimbra, eu estava em Portugal de férias, e vi aquele estranho par, ele muito alto e peludo e ela muito pequena e branca, a caminharem de mão dada em direcção à água”, recorda Helder Macedo. Perguntei quem era e alguém me disse: é o novo rapaz da Isabel. Eu conhecia Saramago da luta política, tinha até uma certa reverência para com ele, que era bastante mais velho, e nunca gostei da forma como ele era tratado por aquele meio da alta-burguesia. Acho que para manter aquela relação ele teve que sofrer muitas humilhações. Que raio, chamavam-lhe ‘o sarabago’”, conta, indignado, o escritor, poeta e grande admirador de Saramago.

(...)

Pela forma ligeira com que Simões apresenta o editor que alegadamente representa Saramago, dir-se-ia que ele não acreditava no futuro daquele relacionamento, que na vida real acabou por durar quase duas décadas. Se há quem ache que Saramago foi o vilão da história, também há quem ache que foi a vítima. Ele próprio justificou a retirada das dedicatórias com a mudança que os livros vão tendo nas suas várias edições, uma mudança que se vai adequando às circunstâncias da vida de um autor. (...)»

http://observador.pt/especiais/isabel-da-nobrega-do-musa-saramago-apagou-da-historia/    


Pronto... E depois disto, tudo é Pilar del Rio, Pilar del Rio, Pilar del Rio...  Não me parece justo...


domingo, 5 de novembro de 2017

A Revolução Russa - uma opinião e uma história

Gosto de ler os textos que o José Jorge Letria vai escrevendo no jornal. Hoje escreveu sobre a Revolução Russa que faz cem anos que se deu. Achei interessante mais pela história do pobre embaixador português que a viveu. Como sempre, os nossos governantes sempre esquecem os seus representantes que se encontram em dificuldades.

Escreve Letria: «No princípio de abril estive em Moscovo por motivos profissionais e institucionais, na minha quarta deslocação à capital russa depois do 25 de Abril, e confesso que nada vi nas ruas, no hotel, no metro e até em espaços museológicos que me fizesse lembrar a comemoração do centenário da Revolução Russa. O sentido do marketing político e a relação pragmática com a sociedade de consumo recomendaria uma presença visual mais forte desse imaginário que reflete mudanças profundas na história da Rússia e do mundo. Mas fiquei com a sensação, talvez próxima de uma complexa realidade política e psicológica, de que o país de Putin não se revê na Rússia revolucionária de Lenine e bolcheviques, embora o presidente seja resultado desse contexto e do quadro político que ele implantou. (…)

A Revolução Russa ocorreu há um século e contribuiu para mudar o mundo. Houve um português, o diplomata Jaime Batalha Reis (1847-1935), que a viu de perto, por ser embaixador em Petrogrado. Estava ali acompanhado por duas filhas adultas e, sendo republicano, não nutria particular simpatia pela transformação política operada no país. Não gostou do que viu e viveu. Viu lojas e casas assaltadas, teve fome e frio e viu assassinatos. Teve medo e disse-o em português nos relatórios enviados a Lisboa. "Vivo com a família há pelo menos seis meses em perigo de vida permanente agravada por falta de dinheiro. Tenho tido fome e frio. Terei de partir inopinadamente com dificuldade. Suplico a V. Exa. que leia meu último telegrama sobre assunto não respondido e mande pôr urgentemente à minha ordem no Provincial National Bank Londres pelo menos mil libras esterlinas extraordinárias."

O seu senhorio octogenário, que fizera parte da corte do imperador, foi enforcado ao fim da tarde na sala de jantar. Batalha Reis estava exausto e aterrorizado. Queria fugir e chegar a Lisboa. Tinha 66 anos, em fim de carreira e chegou a conhecer Lenine, na presença de outros embaixadores, em clima de grande tensão. Só o jornalista comunista norte-americano John Reed se movimentava em Moscovo com liberdade e conhecimento profundo, o que lhe permitiu escrever a obra-prima Dez Dias Que Abalaram o Mundo, que ainda se lê com emoção e prazer. De Lisboa chega ao diplomata Batalha Reis pouco amparo e consolo. (…)

Lenine e os bolcheviques triunfaram e o resto é o que a história registou e que mudou em aspetos tão profundos a relação dos povos em vários continentes. Estava lá um português, mas de partida, no meio de grande sofrimento.»

Para ler o artigo completo:


Jaime Batalha Reis





segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Para quem não gosta do Hallowe'en

Tenho lido por aí que há educadoras de infância que se recusam a comemorar o Dia das Bruxas porque não é uma tradição portuguesa. É uma opinião.

Mas eu aproveitava para dizer a essas senhoras educadoras - e a outras pessoas que também assim pensam - que o Pai Natal e a árvore de Natal também não se enquadram nas tradições  portuguesas - seja isso o que for...

Também há quem defenda que toda a tradição é inventada - ler "The Invention of Tradition" do autor Eric Hobsbawm, 1992, se tiver interesse e ... paciência.

Mas a pensar nos que teimam em dizer que a "nossa" tradição é ir pedir «Pão por Deus» ou ir pedir o «Bolinho», como se diz aqui na zona de Leiria, a pastelaria/padaria onde diariamente compro o pão, expôs alguns sacos.














Ficam a faltar aqui os sacos para o pão que trouxe no meu enxoval - coisas do século passado... - algumas bordadas por mim... Nem dá para acreditar, pois não? Mas é verdade... Hei de mostrá-las :))

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Do Jornal de Letras

Gosto muito de ler o Jornal de Letras, embora não compre todos os seus números. Compro os que tratam temas que me interessam, normalmente  literatura, educação, boas entrevistas a escritores, textos de Guilherme de Oliveira Martins, de Manuel Halpern, recensões críticas de livros recentes.

Há mais de um mês que não comprava nenhum (de referir que se trata de uma publicação bimensal) Por isso decidi-me a comprar o desta quinzena apesar de falar mais dos filmes portugueses que pretendem retratar a crise económica dos últimos anos - temas que me são pouco interessantes.



Mas devo afirmar que se mais não aparecer da sua leitura, valeu apenas por duas razões:

  • a entrevista à escritora Filomena Marona Beja que anuncia o seu novo romance «Avenida do Príncipe Perfeito» (se nunca leram nada dela, é bom que comecem a fazê-lo)
  • uma frase inédita de Fernando Pessoa, retirada do livro O Teatro Estático que reproduz a obra do poeta relacionada com o teatro, e que diz só isto:

        "Não sei se isto é tristeza ou alegria, tão vaga e misteriosa é a suavidade doentia que sinto." 

O meu encantamento pela frase vem do facto de me ter remetido para aquele último terceto do soneto de Camões «Busque amor novas artes, novo engenho» que li no meu 5º ano do liceu (atual 9º) e que nunca mais esqueci e que diz: 



Que dias há que n'alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei porquê.


terça-feira, 12 de setembro de 2017

Amanhã começa a escola



Dois dos meus netos mudam de ciclo este ano: a mais velha vai para o 2º ciclo, para uma escola nova para ela, no centro da cidade, ela que fez sete anos numa bela escola da periferia. O mais novo vai entrar no 1º ciclo na dita excelente escola da periferia. Estão expectantes, ansiosos, nervosos, naturalmente. Mas a mãe está bem mais nervosa do que eles… E não adianta que seja, ela própria, professora de carreira com alguns 20 anos de serviço por esse país fora. Quando nos toca nos nossos filhinhos é sempre de outra maneira…

É neste âmbito que trago aqui algumas das considerações apresentadas num artigo que uma jornalista escreveu na revista do DN a propósito da entrada da filhita para o 5º ano. Da escola pública, claro. (Como os meus netos – absolutamente fora de hipótese o ensino privado.)

Diz ela: «A minha escola era parecida com a da Rita. Pública. Aprendi (mais ou menos) as mesmas coisas, da mesma maneira. Na verdade, e isso é um pouco desconcertante, o ensino em Portugal não evoluiu muito em trinta e tal anos. E, no entanto, aqui estou eu, filha da escola pública, a escrever esta crónica, com o suficiente pensamento crítico para dizer que preferia uma escola diferente. Não me entendam mal. Não sou ingrata. Defendo-a com unhas e dentes. E é por isso que queria que também ela, a escola, crescesse, não olhasse para trás e fosse mais feliz.»

Muito bem. Tem alguma razão. Alguma apenas porque a dita jornalista é jovem por de mais para fazer uma pequena ideia do(s) salto(s) imenso(s) que a escola pública conseguiu dar entre os anos 70 e os anos 90. Mas, pronto! essa é outra discussão.

E como pretende ela que a escola cresça? Muito simplesmente – e aí é que eu, que acompanhei de perto e bem por dentro a escola desde antes da Revolução até há bem pouco tempo, concordo a 100% com a jovem jornalista. Diz ela: «Que se deixasse de rankings e de quadros de honra com cheiro a bafio e de turmas em que se juntam os melhores alunos e os melhores professores a trabalhar para os resultados, enquanto outras acumulam quase trinta miúdos.»

Isso mesmo! Acabe-se com a competição entre escolas, entre turmas, entre alunos! Americanices que, infelizmente, se importaram da gestão de empresas. Só que A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA! Para quê os rankings? Para quê os quadro de honra – como nos cinzentos tempos salazaristas? Para quê a competição entre turmas? Para quê formar as abomináveis turmas de nível em que se separam os bons para um lado, os médios para outro e os ditos maus para outro? Para quê as execráveis e pouco fiáveis avaliações externas que a Inspeção-Geral de Educação lançou há uns dez anos? Competição, mais competição, mais competição!

Em três dias, chegam três inspetores aos agrupamentos e, se não lhes forem apresentadas resmas de documentos – e quando digo resmas, podem crer que são mesmo resmas – mesmo que cheios de mentiras e de abstrações, mas muito bonitos, com muitos gráficos e estudos comparativos e outras belezas que a informática inventou, podem ter a certeza que a escola fica imediatamente avaliada por baixo. Mesmo que os resultados dos alunos sejam excelentes e que os pais prefiram aquela a outras escolas.

Para isso, os professores gastam horas e horas e todas as suas energias em reuniões intermináveis e a preencher papéis e mais papéis. Em vez de terem tempo para estudar, para aprenderem mais sobre pedagogia, para criarem formas renovadas para as suas aulas.

Assessment, mais assessment, e mais assessment à americana!

Outra vez e outra vez mais nos concentramos no acessório e deixamos escapar o essencial.

domingo, 10 de setembro de 2017

Que terá A Amiga Genial de tão genial?

A ler freneticamente «A Amiga Genial» da misteriosa autora italiana Elena Ferrante. Provavelmente muitos de vós passaram já por isso, já que a primeiro volume da tetralogia saiu em 2015 e teve muita publicidade. Também sei que tem sido um verdadeiro sucesso de vendas. Mas eu comecei a lê-lo há um mês e já vou a meio do 4º e último volume – eu que não sou uma leitora voraz.



Trata-se de um romance, romance e mais nada! Na verdadeira aceção da palavra, ou seja: «uma obra literária que apresenta narrativa em prosa, normalmente longa, com factos criados ou relacionados com personagens que vivem diferentes conflitos ou situações dramáticas, numa sequência de tempo relativamente ampla.»

Então o que é que «A Amiga Genial» tem de genial?

Será talvez pelo simples facto de se tratar de uma história extremamente bem contada em que o leitor está constantemente a ser convocado para novos acontecimentos, novas intrigas, novos conflitos que ora dão sentido à ação que está a ser descrita explicando-a, desenrodilhando-a, ora criam teias que nos atiram para outras situações aparentemente díspares daquela em que estamos enfronhados. Toda a ação parece desenrolar-se sobre rodas, sem sobressaltos aparentes, numa naturalidade da água a correr ou de movimento diário do planeta. Só que o leitor sente-se tão preso ao fluir da narrativa que não tem como se despegar desse enleio. E a coisa está tão bem urdida que, quando se chega à última palavra de cada volume, há não sei o quê que nos empurra insanamente para o volume seguinte, como se alguma frase tivesse ficado a meio.

A história é de uma simplicidade extrema: conta-nos a vida de duas raparigas nascidas num bairro muito pobre de Nápoles nos meados do século passado, que se conhecem desde sempre, vão para a mesma escola, tornam-se amigas e nunca mais conseguem separar-se, nem que seja mentalmente, até à velhice. A narradora é uma delas e pretende-se que a amiga genial seja a outra de quem ela fala. Mas, pelo menos aos meus olhos, essa genialidade parece passar constantemente de uma para a outra, até nos fazer crer que vivem ambas na mente uma da outra e que, por isso, são inseparáveis.

A genialidade da obra constata-se na cerrada urdidura da história; no perfil firmemente traçado de cada personagem (e são muitas); na descrição intensa e apaixonada embora com o desassombradamente que evita as lamechices da realidade brutal vivida no bairro, em Nápoles e no país em geral; nos comentários históricos, políticos, sociais, culturais de uma Itália que passava, em clima de grande violência e agitação, os tempos mais difíceis da sua história recente, os chamados Anos de Chumbo, que vão sendo entrelaçados com o decorrer da ação, ela sim, cheia de sobressaltos. Um desassossego, um imenso desassossego que nos prende, nos enleia, nos apanha os pensamentos e as emoções de forma indelével.


Muito bom. Recomenda-se vivamente.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Os Manuais Escolares




É um assunto recorrente na nossa comunicação social. E não apenas no início de cada ano letivo. Sabemos bem que, quando lhes dá jeito, lá vem a questão dos manuais escolares, até porque é um tema sobre o qual toda a gente pensa que tem certezas absolutas. Ou é pelo peso que os alunos têm de carregar às costas, ou é porque deviam poder ser utilizados pelos irmãos e pelos primos e sei lá por quem mais.

Ora bem: a mim parece-me que estes problemas não se resolvem com medidas avulsas. Teria de haver um qualquer governo muito forte que não se importasse de perder uma quantidade de simpatizantes (?!) e que decidisse cortar o mal pela raiz.

Para que os manuais escolares não pesassem quilos e quilos nas mochilas dos alunos e para que pudessem ser reutilizados por quem precise, bastava apenas que nos deixássemos de “mariquices” de forma a retirar mais de metade das imagens – algumas das quais bem tolas e bem feias – que são absolutamente desnecessárias para a aprendizagem do conteúdos e que, na minha opinião, funcionam até como motivo de dispersão da atenção. Qual é a necessidade de os manuais de Português do 9º ano, por exemplo, gastarem páginas e páginas com imagens (horrendas, muitas delas!) das personagens da Auto da Barca do Inferno ou de Os Lusíadas? Os meninos do 9º ano já têm 14/15 anos pelo que não precisam de bonecos ilustrativos…

Em segundo lugar, porque não habituar os alunos – já não digo a partir do 3º ano, vá lá! se bem que não visse nada de mal nisso, mas a partir do 5º ano – a responder às questões propostas nos manuais no seu próprio caderno diário? Assim os manuais poderiam facilmente ser reutilizados sem dramas.
E depois, para quê obrigar os pais a gastarem mais dinheiro em cadernos de atividades (para todas as disciplinas!) que depois raramente são utilizados nas aulas?

Com medidas tão simples como estas que aqui apresento, as mochilas deixavam de fazer escolioses nas criancinhas e os irmãos, os primos, os vizinhos – se não forem de uma exigência petulante – poderiam poupar um bom dinheirinho aos pais.

O pior são as editoras! Ah as queridas editoras que deixariam de ganhar rios de dinheiro à conta… Ah e depois vêm os professores defender que perdem muito tempo a levar os alunos a responderem às perguntas nos cadernos…

Sabe bem quem está habituado a passar por aqui que não sou pessoa de cantar loas ao “antigamente” e que detesto evocar aquele tempo “encantador” do “no meu tempo é que era bom”. Bem sei que eu estudei num tempo bem cinzento da nossa História que foram os finais de 50 e os 60, mas não posso deixar de me lembrar aqui que os manuais por que estudei eram em não sei que mão – arranjava-mos a minha tia que trabalhava num Liceu de Lisboa – e nunca andei carregada de livros.

Claro! Os manuais eram densos e feios e não estou a prescrever isso para a atualidade, mas, meus amigos, nem oito, nem oitenta!

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Do telejornal das 8

A notícia tinha a ver com os incendiários que foram apanhados este Verão – alguns deles “repetentes”. Contavam-se pelos sessenta e tal homens e treze mulheres. E aí o apresentador/jornalista tratou de falar no psicólogo da PJ. Não consegui ouvir o que o psicólogo terá feito ou irá fazer porque me pus, ato contínuo, a vociferar!

Psicólogo, psicólogo! Eu lhes dava o psicólogo! E desculpem-me a violência ou a ausência do “politicamente correto”, mas por causa de tanto psicólogo e de tanta lei a proteger os direitos de não sei quem…  e mais não sei o quê e mais os paninhos quentes com que nos habituaram (por medo, por ignorância ou por incúria até) a tratar os prevaricadores é que chegamos aos limites ou muitos para lá dos limites do humanamente e do socialmente aceitável. No caso dos incêndios e não só!

Disse!

Ah, mas depois o dito apresentador/jornalista/escrevinhador lá continuou com as notícias e, a propósito do enfermeiro alemão acusado de matar dezenas de pessoas com overdose de medicamentos, o dito apresentador, naquele seu ar teatral cheio de  trejeitos com os olhos e de entoações do discurso, saiu-se com a seguinte “bojarda”:  «O enfermeiro terá morto mais de trinta pessoas!!!»

Terá morto?! Terá morto? – senhor apresentador/jornalista/escrevinhador? Ou terá querido dizer: terá matado? É que se trata de um tempo composto pelo que deverá usar-se o particípio passado normal. Enfim… sem importância…

Depois o telejornal passou a mostrar os passeios da Senhora Cristas por Mação, bem como o discurso do presidente CDS da dita vila ribatejana a zurzir o governo por causa do incêndios, que eu já ouvira em todos os telejornais anteriores, ou seja, propaganda eleitoral do partido em questão, seguido de uma arrastada e desenxabida reportagem sobre a importantíssima universidade de Verão do PSD na qual iam ser apresentados quase todos os betinhos participantes, ou seja, propaganda eleitoral do PSD…  Nada de novo no canal público… e eu decidi passar para o Canal Panda ou para o futebol… esses, ao menos, não apresentam “propaganda institucional” dos partidos … do sistema!




domingo, 20 de agosto de 2017

Ciúmes? Não, obrigada.

«O ciúme é muitas vezes uma inquieta necessidade de tirania aplicada às coisas do amor.»

Marcel Proust


«O ciúme tem as suas raízes mais no egoísmo do que no amor.»

Henry Longfellow


Das coisas que mais podem atormentar uma mãe é sentir desentendimentos entre os filhos por causa de ciúmes infundados! (digo eu) É uma aperto no peito, um desconsolo, uma enorme contrariedade. (digo eu)


«A culpa é dos ciúmes, das brigas, das desconfianças, das mentiras e da falta. O amor não tem culpa.»

Pequena Sereia




sábado, 19 de agosto de 2017

É bem certo...




Pode ser muito zen , muito in, muito moderno, muito relaxante e tal, mas passar doze dias numa casa sem televisão nem internet a contemplar o Mediterrâneo é de mais para mim... 

E nem um jornalzinho português (desde que não fosse o Correio da Manha...)

Valeram as valentes banhocas naquele "mar do meio" com aquela água calma, quentinha e transparente (apesar das mordidelas das medusas...) e as passeatas por allá...

Bom, mas agora que estou de volta, vamos ver se ponho as visitinhas aos meus amigos bloggers em dia e se volto a ganhar o meu ritmo habitual...

(Já viram a maldadezinha da Afrodite? Já não se pode confiar nos deuses! E menos ainda nas deusas...)

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Não se pode morar nos olhos de um gato


Leitura de início de férias. Que, diga-se de passagem, nunca fiz distinção nenhuma entre os livros de leitura de férias dos outros lidos em período de não férias.

Segundo romance da jovem autora Ana Margarida de Carvalho, publicado em 2016, depois de ter recebido o Grande Prémio de Romance e Novela da APE pelo seu primeiro romance «Que Importa a Fúria do Mar» em 2013.

Eduardo Pitta deixa no ar a questão sobre será este seu segundo romance a marcar o início da distropia na literatura portuguesa. Eu, simples leitora, não vou saber dizer.

Só sei que tão embrenhada andei na leitura deste livro que passou quase uma semana sobre a vinda para estes “mares do sul” e nem tenho ligado o computador… Tem mesmo sido espreguiçalhar na cadeira da piscina, ir ao banho para esticar bem as pernas e os braços e depois naufragar naquela imaginária praia intermitente nas costas do Brasil juntamente com aquele grupo de sobreviventes do barco tumbeiro clandestino: o capataz negreiro e o seu mísero criado, a fidalga brasileira e a sua frágil filha, o padre que teve as suas origens nas fragas na companhia das alcateias transmontanas, o jovem passageiro estudante, o escravo que deu à costa montado num cavalo mutilado e o bebé pretinho salvo do porão do barco negreiro.

Não vou contar mais nada. Se tiver conseguido despertar alguma curiosidade em algum de vós, deixo abaixo alguns links que poderão contar algo mais.

Só vou dizer que se trata de verdadeira literatura. Desde Saramago, Lobo Antunes, Vergílio Ferreira não lia nada tão surpreendente, tão profundamente inquietante, e tão filosoficamente vivido – por esta ordem respetivamente.




E porque o título do romance retoma um verso de O´Neill, aqui fica o respetivo poema.

Poema do Desamor

Desmama-te desanca-te desbunda-te
Não se pode morar nos olhos de um gato

Beija embainha grunhe geme
Não se pode morar nos olhos de um gato

Serve-te serve sorve lambe trinca
Não se pode morar nos olhos de um gato

Queixa-te coxa-te desnalga-te desalma-te
Não se pode morar nos olhos de um gato

Arfa arqueja moleja aleija
Não se pode morar nos olhos de um gato

Ferra marca dispara enodoa
Não se pode morar nos olhos de um gato

Faz festa protesta desembesta
Não se pode morar nos olhos de um gato

Arranha arrepanha apanha espanca
Não se pode morar nos olhos de um gato

quinta-feira, 6 de julho de 2017

O que é preciso é desacreditar a escola

De vez em quando, especialmente em tempo de pré-férias, quando os reatores das notícias começam e entrar em ritmo lento, os nossos “jornaleiros” lá puxam de novo pelo demagógico e enganoso título “as escolas estão a passar alunos com quatro e cinco negativas”.

Aconteceu esta semana outra vez. Não venho aqui defender nenhuma teoria da conspiração, mas parece que, de há uns tempos para cá, os nossos serviços de notícias e de comentários têm funcionado como uma verdadeira oposição às forças governamentais. Veja-se o triste aproveitamento que foi e continua a ser feito acerca dos trágicos acontecimentos de há duas semanas no pinhal interior aqui do distrito e com o inexplicável assalto ao paiol de Tancos com os respetivos ataques aos elementos do governo, bem como as notícias inventadas de suicídios, aviões despenhados e desaparecidos, manifestações fantasma e assim.

Ora para continuar a desacreditar o governo e a pedir a demissão rápida e pura e dura de ministros, nada melhor do que incendiar a opinião pública sobre um tema por de mais sensível a toda a população e que é a escola. Ou melhor, a “bandalheira” que vai nas escolas!

Desacreditar a escola (pública) é o melhor que podem dar a estes “noticiadores” incendiários. Por isso, vai de desenterrar a velha, velhíssima questão das escolas que “passam alunos com quatro e cinco negativas” para deixar no ar a ideia que isso foi mais uma “orientação” que as escolas receberam do ministério da Educação.

Desculpem-me, mas “vou aos arames” com estas patranhas. Mais ainda se se trata da escola.

Esta questão é tão antiga quanto a publicação do modelo de avaliação dos alunos do ensino básico prescrito pelo ministério do ilustradíssimo Ministro da Educação Roberto Carneiro em 1992. Essa legislação inovadora à época remetia para um profundo conhecimento da realidade de cada aluno por parte dos seus professores e dizia claramente: «A decisão da retenção tem sempre carácter excepcional, depois de se ter esgotado o recurso a apoios e complementos educativos, devendo, portanto, revestir-se de especial cuidado para garantir a sua necessidade, utilidade e justiça

Repare-se nos conceitos que norteavam a retenção de um aluno: o seu caráter excecional e apenas quando se registasse a sua necessidade, utilidade e justiça.

Por essa época, numa das diversas vezes em que fui presidente dos conselhos diretivo e pedagógico, dei passagem a alunos (poucos, diga-se) de 6º e 9º anos que tinham já um grande número de retenções e idade de entrada no mercado de trabalho, garantindo-lhes assim o diploma que lhes permitia irem trabalhar e até tirarem a carta de condução. É que, de facto, não havia necessidade de os reter, nem era útil nem justo para eles nem para a escola retê-los.

Qual não foi o meu espanto, quando recebi um telefonema da minha colega (e amiga) presidente da escola secundária nossa vizinha, a perguntar-me, muito escandalizada, se eu tinha autorizado a passagem desses alunos para o 10º ano. «Não – disse-lhe eu – Apenas lhes dei o diploma da escolaridade básica.» E ela: «Ah, mas eles estão a matricular-se aqui na secundária!» - esperneava ela. «Vocês têm de aplicar o vosso modelo, nós aplicámos o nosso.» - disse-lhe eu. Duvido que ela tenha entendido.


Só que os objetivos do ensino secundário – nesse tempo – eram muito diferentes dos objetivos do ensino básico. Atualmente, com o alargamento da escolaridade obrigatória para o 12º ano (quer se concorde ou não com esse alargamento – e eu não concordo) os objetivos do secundário já não são assim tão diferentes dos do ensino básico como eram nos idos de 90…




terça-feira, 4 de julho de 2017

Morte à morte!




Volveram, no passado dia um, 150 anos sobre a assinatura da Carta de Lei que aboliu a pena da morte em Portugal. Foi no dia 1 de Julho de 1867.

Estava-se no reinado do ilustrado rei D. Luís, segundo filho da Rainha Educadora, a Senhora Dona Maria II e de Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha, o rei artista.

Portugal foi dos primeiros países do mundo a abolir a pena de morte, o que fez com que tenha sido muito felicitado por muitos governantes e, em especial, pelo escritor Victor Hugo que enviou uma carta ao parlamento português em que diz:

«(…)Felicito o vosso parlamento, os vossos pensadores, os vossos escriptores e os vossos philosophos! Felicito a vossa nação. Portugal dá o exemplo á Europa. Disfructae de antemão essa immensa gloria. A Europa imitará Portugal. Morte á morte! Guerra á guerra! Ódio ao ódio! Viva a vida! A liberdade é uma cidade immensa, da qual todos somos cidadãos. Aperto-vos a mão como a meu compatriota na humanidade. (…) Victor Hugo.»

Que orgulho! Ainda hoje pode e deve ser para todos nós um motivo de orgulho este passo dado, ainda em meados do século XIX, por um país tão pequeno, pobre e periférico em direção à cidadania universal e nos princípios da liberdade e da justeza. De facto, a última condenação à morte em Lisboa deu-se em 1842 e ocorreu, dizem, «sob o manto de uma enorme comoção social.» Dizem ainda que «a pena de morte estava já banida nas consciências.

Que temos uma alma (nacional) grande, íntegra e abrangente não é novidade para ninguém.

Que somos bons de mais com as palavras no que às leis avançadas concerne também parece não haver dúvidas.

Então como explicar que sejamos tão displicentes, tão relaxados, tão negligentes, relapsos, tortuosos e até, e especialmente, parciais e facciosos na aplicação das mesmas?!