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sexta-feira, 28 de julho de 2017

Os abençoados anos 60!

Mais uma canção de Verão para recordar aos meus amigos que por aqui inadvertidamente passam... Dos abençoados sixties, pois que outros poderiam ser?

Que frenesim aquele das festas/bailes na Nazaré em casa do nosso amigo  rico, o Gogó... ou mesmo na rua estreitinha da casa da peixeira alugada para duas semanas de férias e em cuja soleira púnhamos o gira-discos para dançarmos o twist na rua...

Ou na pista de dança do Parque de Santa Marta na Ericeira entre os pinheiros e sobranceiro ao mar onde se espelhava o brilho laranja daquela Lua cheia de Agosto - como não voltou a haver outra!

Abençoados anos 60! 

Fiquem-se com os Beach Boys e o seu Surfin USA.





quarta-feira, 21 de junho de 2017

Loucuras de Verão

Primeiro dia de Verão. Curiosamente bem mais fresco que os últimos desta Primavera.

Depois de tudo, a lembrança desta musiquinha louca que conta as loucuras dos dias de Verão dos loucos tempos de 60/70.

Esta, do estilo skiffle*, foi mesmo editada em 1970 e foi um sucesso em Inglaterra e nos Estados Unidos. E por cá também, que eu bem me lembro... e até tenho o single...

Alguém se lembra?



* skiffle - música folk com influência de jazz e blues.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Marchas de Lisboa

E que tal darmos uma vista de olhos pelas marchas de Lisboa do antigamente?
Que diferença!!

Não resisti à ternura da marchinha de Vasco Santana e Beatriz Costa na Canção de Lisboa, 1924. Uma delícia!

E depois um mix das marchas de 1940 - o ano auge da propaganda do auto-proclamado Estado Novo. 

Muitos recordarão ainda algumas das músicas.








segunda-feira, 5 de junho de 2017

As piscinas de S. Pedro de Moel

Posso dizer que é a minha praia do coração. Visitei-a pela primeira vez em finais de 60 pela mão do meu namorado da época (e atual marido) que passava lá os verões desde criança e logo me apaixonei por aquele cantinho implantado entre o pinhal do rei e o mar.

Praia de grande prestígio à época (lembro-me de como algumas pessoas ficavam admiradas quando, ainda a viver em Lisboa, eu dizia que vinha passar férias a S. Pedro de Muel – escrevia-se assim e eu gosto!) tinha já um moderno complexo de piscinas que até teve direito a ser inaugurado pelo Presidente Tomaz. Fez 50 anos no passado dia 1, leio no Jornal de Leiria.

De referir que era local de veraneio de gente rica, grandes e lindas moradias de férias dos industriais de Leiria e da Marinha Grande incrustadas no pinhal, tudo muito bonito, muito arranjado.

«Natural da Marinha Grande, José Nobre Marques era sócio de José Lúcio da Silva em fábricas de plásticos e borrachas. "O José Lúcio da Silva oferece o teatro a Leiria e o José Nobre Marques ficou assim um bocado pendurado na opinião pública, porque também era um homem muito rico. E então ofereceu as piscinas", conta Gabriel Roldão Pereira, morador em São Pedro de Moel e investigador da história local.»  (in JL)

O complexo das piscinas incluía piscina olímpica, restaurante, esplanada, salão de festas, cinema, bar - todos os equipamentos de lazer e bem-estar para a classe alta e média-alta daquele tempo. Era chique. E caro! Lembro-me de ter isso lá almoçar uma vez com o meu (já) noivo e pagámos cento e vinte escudos! Nessa altura eu almoçava na Tarantela, na D. Estefânia, por uns doze a quinze escudos no máximo…


(postal dos anos 70)

Muito mudou e se alterou neste cinquenta anos, mas as piscinas lá se foram aguentando com adaptações, com altos e baixos de lucros e de gestão até que fecharam em Setembro de 2013 e, desde então, encontram-se abandonadas e praticamente em ruínas. Uma tristeza!

Vejam só...









domingo, 14 de maio de 2017

Finalmente deu-se!

No tempo em que por cá pouco ou nada havia, o Festival da Canção era um acontecimento. Havia que, depois do jantar, tratar da cozinha o mais rapidamente que se podia, porque tínhamos de nos postar em frente do aparelho de televisão para não se perder pitada. Isto desde 1964, que foi a primeira vez que Portugal se apresentou na competição musical europeia. Toda a gente via atentamente e discutia-se o assunto dias a fio.

Nesses anos de 60 e 70, concorremos com boas canções, bons poemas, boas orquestrações, boas vozes, mas limitávamo-nos a receber os pontos que a Espanha, simpática e quase obrigatoriamente, nos dava. Isto porque estávamos ainda – e estivemos – mergulhados naquele cinzentismo fascista que a Europa derrotara anos e anos atrás.

Começámos por apresentar a música própria da nossa “austera, apagada e vil tristeza”. Depois tentámos seguir uns ritmos mais ao gosto festivaleiro e, na chamada “primavera marcelista” [a triste ironia com que se chama “primavera” aos ventos de pretensa mudança! A desconsolada lembrança da das “primaveras árabes”!] lá avançámos com a frescura das canções do Tordo, do Carlos Mendes, do Ary.

Lembro com especial carinho as prestações de Carlos Mendes – “Verão” e “A Festa da Vida” – do Fernando Tordo, com a Tourada, das Doce, do simpático mas infeliz Carlos Paião, da Dora, da Maria Guinot…

Nesse tempo, eu gostava de dizer que mesmo que concorrêssemos com uma canção dos Beatles, nem assim conseguiríamos ganhar!

Depois da Revolução, continuámos a levar algumas boas canções, mas continuávamos a ser tão pequeninos!

Os festivais foram alterando as regras de participação e de votação, tornando-se, na minha modesta opinião, mais circenses e de qualidade musical cada vez mais fraca. Por lá e por cá.

Há anos que me desinteressei completamente de os ver pelo aborrecimento das suas longuíssimas apresentações.

Este ano não foi para mim diferente. Francamente depositei tantas esperanças no nosso representante como nos anos anteriores. De modo que foi com enorme espanto mas com muita alegria, diga-se, que soube, esta manhã, que a canção portuguesa, cantada em português, fora a vencedora por larga margem!

Finalmente, deu-se! Ainda custa a crer!

O poema é muito bonito. O rapaz tem à vontade no palco. É simpático, de uma simplicidade algo afetada e exprime-se muito bem num inglês corrido e lindo!


A canção não faz o meu género, não senhores. Mas gostei que a Europa tivesse gostado tanto dela!



sábado, 29 de abril de 2017

A gata Tama

Hoje o Google assinala o 18º aniversário do nascimento da gata Tama, que era a chefe da estação de comboios Kishi em Kinokawa, no Japão. Isso mesmo: a gata era mesmo chefe da estação!

Durante muitos anos, a estação de Kinokawa teve muito pouco movimento o que ia provocando o seu encerramento em 2004. Em 2007, os japoneses tiveram a ideia de nomear a gato de Chita, chefe da estação na altura, para suceder no cargo ao seu dono.

A gatinha atraiu multidões de viajantes só para vê-la no seu escritório com o gorro oficial de tamanho de gato. Essa decisão acabou por salvar a estação do encerramento e ainda contribuiu muitíssimo para desenvolver a economia local.


(daqui)

A gatinha nasceu no dia 29 de abril de 1999 – faz hoje 18 anos – e morreu em 25 de junho de 2015. Entretanto já arranjaram um outro gatinho para fazer as suas funções. É o Nitama, ou o Tama II.

Fez-me lembrar quando, há uns anos, fui a Londres e fiquei num hotel em que um gatarrão andava por cima do balcão da receção como se fosse o dono daquilo tudo… O rececionista acabou por informar que o dono do hotel era mesmo o gato!




Uma foto do gato

Claro que tive de lhe pegar ao colo...


A biblioteca de uma escola aqui de Leiria tem um gato que anda livre por lá, o que também é uma atração para os alunos. Uma delícia, não vos parece?

Também na Biblioteca Municipal havia um gato leitor. Infelizmente e como nem todos temos a mesma sensibilidade, quando a nova responsável camarária pela Biblioteca tomou posse, mandou de imediato que retirassem de lá o gato e pronto!

Feitios...

quinta-feira, 27 de abril de 2017

A canonização

Foi dos meus tempos de férias na Nazaré, nos idos da primeira metade de 60. Teria eu os meus quinze ou dezasseis anos e não me lembro de me ter rido tanto antes, nem talvez depois.

A anedota era assim:

«Um tolo de um publicitário americano teve a ideia peregrina de que todos os padres dissessem no fim da missa: «Bebam Coca-Cola!»

Toda a gente se ria da ideia dele, mas a ele parecia-lhe bem e o plano a não lhe saía da cabeça. Assim, resolveu viajar até ao Vaticano para expor o plano ao próprio Papa.

Quem o recebeu foi um dos secretários de Sua Eminência a quem o publicitário propôs que todos os padres católicos, no fim de cada missa, dissessem: «Bebam Coca-Cola!»

Claro que o vigário secretário pôs o homem a correr do gabinete para fora. E este, esbaforido, baralhado e contrariado, sentou-se num banco dos corredores do palácio papal, perguntando-se pensativo: «Só gostava de saber quanto é que o tipo da Fiat terá pago para os padres dizerem nas missas “fiat voluntas tua”…»

Escusado será dizer que, nessa época, as missas ainda eram ditas em latim…

Vem isto ao caso mercê das atuais canonizações. Pergunto-me, tal como o publicitário tonto, quanto é que os tipos da Canon terão pago…




sábado, 25 de março de 2017

A noite está tão fria, chove lá fora...

A noite está mesmo muito fria e chove lá fora.

Como diz este samba canção de 1957 de que me lembro desde os meus 12 ou 13 anos. Muito bonito!

Alguém se lembra?




segunda-feira, 13 de março de 2017

No satisfaction

Ui quantas vezes dancei e pulei ao som desta música!! Os "meus" Diamantes bem nos brindavam com esta musiquinha bem louca nos bailes e nas festas e nós pulávamos e gritávamos até o suor e o cansaço tomar conta de nós... Loucuras dos tempos de 60 ...

Mas hoje - como noutros tantos dias - I can't get no satisfaction.... e não sei porquê.

Fica a canção - que é um espanto de vida e de excitação.


sexta-feira, 10 de março de 2017

Filha única

Um dia destes, ao olhar-me no espelho para me pentear, vi o caracol que o meu irmão tinha sobre a testa e lembrei-me dele. Lembrei-me especialmente daquele retrato de quando ele era pequenino e eu ainda nem tinha nascido.

Para que conste, eu tive um irmão. Estive sempre inscrita no livro dos filhos únicos, com aqueles adjetivos todos com que gostam de apodar os filhos únicos, mas tive um irmão. Sempre gostei de espantar os meus conhecidos e amigos mais próximos dizendo «sou filha única, mas tenho um irmão!» Nascido do primeiro casamento do meu pai que, infelizmente, pouco durou, ficou órfão de mãe muito pequenino tendo sido enviado para Barcelos para a casa da avó e das tias que o criaram com o maior carinho, com o maior desvelo.

As tortuosidades da vida não permitiram que vivêssemos juntos e foram parcas as vezes que nos juntámos em crianças. Só mesmo quando fui para a Faculdade, já ele voltara a Lisboa, tivemos algum contacto e acabámos por apadrinharmos o casamento um do outro. Seguimos caminhos profissionais muito idênticos e mantivemos uma estreita relação de amizade. A doença atacou-o novo e levou-o antes de completar os 60 anos.

Não teve uma vida feliz, mas nunca se lhe ouviu um lamento sobre nada. Não foi o meu amado irmão – esse lugar guardo-o para o meu primo-irmão – mas lembro-me muito dele sempre com uma ponta de nostalgia, de tristeza. Lembro-me dele quando, em tempo de chuva, o meu cabelo fica rebelde (chamavam-me «pelo de arame» no colégio) e, ao olhar-me no espelho, vejo o caracol que ele tinha sobre a testa.





terça-feira, 7 de março de 2017

Foi há 60 anos.

Quem se lembra?



As primeiras vezes que vi televisão foi na esplanada em Algés. Via-se tão mal! Um aparelho enorme lá ao longe e toda a gente nas mesas a tentar ver e ouvir com a maior atenção. A imagem cheia de "grão" e com tantas interrupções... «o programa segue dentro de momentos».... 

Depois, já em Sintra, íamos ver televisão à Periquita (sim, a das queijadas e dos travesseiros deliciosos...)

Só em 59 ou 60 é que tivemos televisão em casa. Que luta para termos imagem! Que luta para orientarmos a antena... Mas, às nove horas em ponto, lá estávamos todos em frente ao aparelho - caixote enorme! - para ouvir o sinal de abertura e ouvir o telejornal.




quinta-feira, 2 de março de 2017

O meu Pai

Passaram já 48 anos. E foi a enterrar meses antes de completar os 50. 

Em meia hora ficou-se-nos nos braços, sem avisar. Um coração frágil de nascença que o atraiçoou algumas horas depois do tremendo abalo de terra que agitou Lisboa em 69. Dissera sempre que, se alguma vez desse conta de um tremor de terra, não lhe sobreviveria e assim aconteceu. O inigualável bramido que se ouviu vindo do mais profundo da serra (de Sintra) e o tremor que parecia não ter fim naquele casarão sobre o qual parecia que pendiam dois enormes penedos apanharam-no (e a todos nós) de surpresa. Aterrador.

Essa enorme comoção e a imediata saída para Lisboa aonde foi apanhar ao aeroporto o filho que chegava de Cabinda depois de a sua companhia ter sofrido um ataque emboscado do qual só por milagre se salvou foram de mais para o dito coração frágil que soçobrou horas passadas.


Foi a enterrar meses antes de completar os 50. Passam hoje 48 anos. Uma vida. Parece que foi ontem.




quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Só à noitinha

Contava-me a minha mãe que, era eu bebezinha, lá em Algés, teve uma criada (desculpe-se-me a palavra. Nesse tempo "não havia" empregadas domésticas e, muito menos, colaboradoras como agora. Além de que eu não tenho qualquer medo das palavras ...) que tinha tido um grande desgosto de amor. (Tal como a fadista que aqui trago hoje, aliás.)

Nesse tempo - e estou a falar nos finais de 40/iniciozinhos de 50 - ouvia-se rádio a todas as horas porque não havia mais nada e a música que passava era essencialmente (para não dizer «apenas») música portuguesa e a música portuguesa era fado - a canção do regime. 

Ora a dita criada, que ao que a minha mãe dizia tratava muito bem de mim, de cada vez que na rádio passava este fado «Só à noitinha», largava-se num pranto sem fim, além de que, no final da tarde, àquela hora crepuscular que mais nostalgia nos traz, retirava-se para o seu quarto para chorar.

(Assim quase estou eu, mesmo sem o tal desgosto de amor... (muito dada a episódios depressivos, enfim!!)


Vale a pena ouvir este fado de 1945 quanto mais não seja para apreciar a voz ainda tão límpida de Amália Rodrigues.





quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

A Vieira de outros tempos

«Tenho dito aqui por mais de uma vez que, menina lisboeta, vivi cerca de ano e meio na vila da Vieira de Leiria onde fiz parte da 1ª classe, a 2ª e o início da 3ª. Foi das experiências mais ricas da minha infância por ser um ambiente tão diferente e distante daquele que conhecia. De recordar que isto se passou em 1957/58. Foi lá que, pela primeira vez, vi uma picota (que encanto!) uma lagartixa, um ancinho para ir à caruma (bem como a própria caruma), cântaros de barro com que as mulheres iam buscar água à fonte e as respetivas cantareiras, mulheres descalças com os canos de lã nas pernas, as camarinhas, aquele mar violento a levantar-se em ondas altas e furiosas, aqueles barcos lindos de proa altíssima a lembrar os Vikings, os bois e as mulheres – tão fortes quanto eles – a puxarem as redes cheiinhas de peixe a saltar, etc. etc.»

...........................

De novo trago aqui a introdução do meu texto Génio Lusitano por se tratar de um momento da minha infância que me foi/é grato de mais e que ficou absolutamente na sombra do texto principal. Hoje deixo este pedaço de memória ilustrado por um diaporama que encontrei na net e que até parece que foi feito com tantas imagens que guardo daqueles idos de 50 de tanta beleza para mim, mas de imensa miséria para aquela gente, aquelas mulheres, que trabalhava no campo, no pinhal, na fábrica das limas, no mar. 




quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Dia da Mãe

Naqueles tristes e pobres tempos de 50/60, praticamente não havia «Dias de». O Dia do Pai era apenas uma pálida referência; o Dia da Árvore passou a existir muito depois da nossa abertura ao mundo em 74; havia o Dia da Restauração eivado de um nacionalismo que nos era inculcado pela Mocidade Portuguesa e pouco mais.

 O Dia da Mãe era o mais importante de todos e era celebrado a 8 de Dezembro (com maiúscula apesar de nada ter a opor ao Novo Acordo Ortográfico…) porque era o dia de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Portugal. Nesse tempo nada do que pudesse servir para submeter o povo à Igreja era deixado ao acaso. Por isso 8 de Dezembro, data de grande significado para a Igreja porque se celebra «a vida e a virtude de Virgem Maria, mãe de Jesus, concebida sem marca do pecado original», correspondia ao Dia da Mãe já que as mães deviam ser “castas e virtuosas” (e servis…) 




Fosse como fosse, e apesar da nossa fraca ligação às coisas da Igreja lá em casa, eu prezava esse Dia da Mãe e, até ao fim da curta vida de minha mãe, celebrei-o nela e com ela. Mesmo depois de a dita Igreja mudar a data para inícios de Maio não sei bem por que razão,

Hoje, lembrei-me de tudo isso e, naturalmente lembrei-me de minha mãe (como todos os dias acontece, claro!) Num agitado sentimento de “clausura” que tanto me assalta e tantos conflitos causa dentro da minha pobre mente, veio-me uma imagem longínqua do início da minha infância.

Todas as mães fazem tudo pelos filhos e minha mãe nisso não foi em nada exceção. Tendo eu vingado após alguns dolorosos abortos espontâneos e no final de um parto em que meu pai foi posto perante a possibilidade de ter de escolher entre mim e ela (naturalmente que ele decidiria por ela!) fui criada com todos os cuidados que estavam ao alcance de uma família média (?) média-baixa dos finais de 40. E foi assim que, teria eu os meus três anos talvez, e metendo-se na cabeça de minha mãe que “a menina” precisava de tomar ares do campo, transportou-nos para passarmos uma temporada numa casa que alugou em Santa Iria da Azoia. Só que a temporada cedo terminou porque aqui a menina andava muito bem enquanto a passeavam pelos campos e pelo meio dos moinhos de vento, mas assim que se via fechada em casa, berrava que nem uma desesperada e logo, logo tiveram de me trazer de regresso a Algés… 

Outros episódios de «clausura» aconteceram – e vão acontecendo – comigo ao longo dos tempos e, tenho para mim, que nada tem a ver com o facto de sair ou não sair de casa. Trata-se de um «pânico» de me sentir longe das minhas companhias mais próximas, sozinha comigo própria, numa «clausura» dentro de mim própria difícil de explicar e de resolver.

sábado, 12 de novembro de 2016

Como a formiga «vou em sentido contrário»...

Não sei o que pensar de mim nestas alturas. Sinto-me ao contrário de toda a gente e o pior é que nem me importo nada. Assim mais ou menos como «a formiga no carreiro» [quando] «ia em sentido contrário»…

Isto a propósito da morte do cantor Leonard Cohen. Xi!!! O que aí vai de tristeza e de lamentos pelo passamento do senhor. Atenção: não estou a criticar! Era só o que mais faltava, não tenho – nem eu nem ninguém – esse direito. De «morreu o pai», ou «até hoje nunca entendi o que era chorar por um cantor», li de tudo no facebook  A questão é que – tal como como com o Dylan – nunca me atraiu, nunca me «disse nada». Não gosto de baladas – é só! (Quando falo em baladas, lembro-me sempre de uma das edições do extraordinário Zip-Zip, nos anos de 69 do século passado, em que o inimitável Raul Solnado “cantava” uma balada “cheia de significado” que dizia: «a minha linha, a tua linha, a nossa linha não alinha…» E é isto que eu sinto em relação à baladas.




Também desse tempo relembro muitas vezes, as declarações do então (e sempre) irreverente Miguel Graça Moura, cultíssimo maestro português, quando lhe perguntaram o que achava ele da renovação da música (ligeira, popular) portuguesa, ele respondeu apenas: «Olhe, eu estou-me nas tintas para a renovação da música portuguesa!» Ó como rejubilei (eu, púbere menina) com essa declaração!

Da mesma forma, quando foi a moda dos Madredeus nos anos 80/90, eu dizia muitas vezes que devia ser a única pessoa em Portugal que não gostava de os ouvir. Uma vez, vieram atuar aqui ao Mosteiro da Batalha e, naturalmente, despovoou-se Leiria para os ir ver atuar. Nós também fomos. Foi numa noite de Inverno em que chovia copiosamente: fizemos o caminho debaixo de uma verdadeira tromba de água e, do estacionamento até ao Mosteiro, apanhámos uma valente molha. À época, andava eu “carregada” de antidepressivos… Começou os espetáculo e aquela lindíssima, finíssima, cristalina voz da Teresa Salgueiro a ecoar pelos claustros naquela toada que se situava ali entre o fado e a balada… bom, nem queiram saber: adormeci que nem um anjo encostada ao sobretudo (húmido, mas quentinho) do meu amigo ZF e foi um regalo!

Já para não falar do fado – que desde há uns anitos para cá subiu de categoria e, mesmo assim (ou até também por isso, sei lá!) não consegue entrar nos meus gostos.


(Sempre –  Ai de mim! – como a formiga no carreiro mas em sentido contrário.)


(daqui)

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

A Conspiração Cellamare

Não posso dizer que sou uma leitora assídua de Nuno Júdice. Leio com agrado muitos dos seus poemas e até comprei, por achar interessante e mais próximo do autor, um dos seus livros de poesia que tem impressos os poemas datilografados e, ao lado, manuscritos.

Confesso, porém, que vou seguindo o seu trajeto de escritor porque fui colega dele na Faculdade quando, nos idos de 66, entrámos para Letras: ele em Românicas e eu em Germânicas. Tivemos algumas cadeiras em comum, nomeadamente no 1º ano. Era muito discreto, tímido até – quem o não era nesses tempos? – e quando o saudoso Professor Lindley Cintra fazia uma pergunta nas teóricas de Linguística ou de Literatura Portuguesa e nenhum dos mais de duzentos alunos que enchiam o Anfiteatro I respondia, ele chamava: «E o Júdice, não tem nada a dizer?» E o Nuno, lá se destacava de entre as filas de neófitos e respondia. Sempre acertadamente.

Então resolvi comprar o seu último livro – “A Conspiração Cellamare”, uma novela. Gostei do que vinha escrito na contracapa do livro. Gosto de conspirações – embora não goste de conspirar nem de conspirações contra mim… – gosto de assuntos históricos e gosto de novelas. Ficam ali a meio caminho entre o conto e o romance, são vívidas e lêem-se depressa.

Logo na primeira página, escrevia o narrador/autor/personagem: «Sabia que tivera um parente remoto que andara metido em conspirações, e que talvez tivesse perdido um nom futuro nos braços de amantes parisienses…» (…) «O meu problema inicial era que eu não queria escrever um romance histórico; eu nem sequer queria escrever um romance. Seria mais uma mistura de géneros, entre o diário, as memórias e a ficção…» 

Muito bem! Isto agrada-me – pensei eu. O pior é que depois o narrador/autor/personagem (que passa o tempo todo a dizer que não sabe muito bem o que é) envereda, enovela-se (sim, que o texto é uma novela…) entra numa teia de tramas passadas (ora remotas, ora recentes) e presentes que não deixa andar a ação, a história, o fio condutor da narrativa, nem para a frente, nem para trás. Faz lembrar aquelas meadas de lã que temos de dobar para tricotar o cachecol que está tão emaranhada, tão cheia de nós, que só acabamos de dobar quando os braços já não aguentam mais estarem hirtos …

Está por de mais bem escrito – quanto a isso não há dúvida! Ou não fosse o autor professor universitário daqueles que acompanham teses de doutoramento e tudo. O problema, todavia,  é mesmo esse: a narrativa-diário-livrinho de reflexões-livrinho de viagens à literatura europeia acaba por ser um exercício diletante em que o autor pode discorrer sobre os seus amplos conhecimentos de literatura e de teoria da mesma de forma divertida e não no modo sério e algo austero em que tem de o fazer nas suas aulas e palestras.


Tudo bem. Mas, parece-me, apesar da ironia que perpassa todo o texto, não é bem isto que diverte quem o lê, não obstante as constantes chamadas ao leitor num esforço fático que, quanto a mim, nem sempre resulta. É, seguramente, uma excelente leitura para alunos e os doutorandos do Professor que os guiará pelos meandros de pensamento e de sentimento da mente de quem os vai avaliar…

(Para saber algo sobre a conspiração Cellamare:

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Noite Europeia dos Investigadores


Então hoje tem lugar a NoiteEuropeia dos Investigadores que pretende celebrar a Ciência divulgando-a junto dos cidadãos. Acontece esta noite no Pavilhão do Conhecimento em Lisboa e no Museu de História Natural e da Ciência no Porto.

Muito bem! Vi há pouco no Telejornal e de imediato me lembrei da divulgação da Ciência lá na “minha” escola. (Parece que não tiro a dita “minha” escola da ideia, desculpem-me mas foram 36 anos da minha vida que dei àquela escola e a vida que ela me deu a mim!)

Foi nos idos de 96 que foi lançado o Programa Ciência Viva que tinha por objetivo promover a ciência nas escolas secundárias e dos 2º/3º ciclos convidando-as a apresentar projetos do âmbito científico que envolvessem os alunos. Como era nosso hábito no meu Conselho Executivo começámos logo a incentivar os nossos colegas para entrarem no Ciência Viva e conseguimos que o nosso jovem colega coordenador do Clube de Astronomia (a quem eu carinhosamente apelidava de “cientista maluco” dado o entusiasmo que punha em tudo o que se envolvia no âmbito das ciências) apresentasse um projeto de tal maneira bem feito que ganhámos dois mil contos e uma série de telescópios para equipar o Clube de Astronomia. Escusado será dizer que esse equipamento serviu para o nosso “cientista maluco” desenvolvesse toda a espécie de palestras e ateliers para alunos de outras escolas do concelho.

Um dos eventos que o nosso colega montou foi uma Noite das Estrelas em que alunos, pais e professores iriam observar uma chuva de estrelas usando os telescópios. A coisa foi divulgada pela comunidade escolar e pelas outras escolas. A concentração foi prevista para a Senhora do Monte, o monte mais elevado da serrania das Cortes, ali onde, tímido e pequenino, nasce o Rio Lis.

Tudo a postos. O nosso colega e os alunos do Clube lá transportaram os telescópios para a Senhora do Monte e, depois do jantar, lá fomos nós, todos os elementos co Conselho Executivo, para o mais belo subúrbio da cidade de Leiria. Grande entusiasmo para ir ver as estrelas!

Quando lá chegámos… onde estavam os alunos e os pais e os telescópios? Não se via nada! Sobre o monte tinha caído um cerrado nevoeiro que não dava nem para nos vermos uns aos outros…


Foram dias e dias de risota sobre a observação das estrelas…

A Senhora do Monte


Capela da Senhora do Monte

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Constrangimento

Assim que deu com os olhos nos meus, baixou a cabeça, desviou o olhar, rodou os ombros. Reconheci-o imediatamente, mas correspondi ao afastamento. Há anos, bastos anos, entrou insofrido pelo portão lá da escola, sem atender ao porteiro, cego que ia, e pregou uma (nem sei dizer se foi só uma) bofetada num miúdo. O sururu foi enorme. O porteiro ligou ato contínuo para o gabinete do Conselho, enquanto o agredido, nosso aluno, rapidamente se apresentou à nossa porta para fazer queixa. Eu não podia permitir que um encarregado de educação entrasse pela escola dentro e batesse num aluno que nem sequer era seu filho.

Identificados agressor e agredido, polícia metida ao barulho, grande barafunda. Os miúdos envolvidos já eram grandinhos, catorze ou quinze anos; a mãe do agredido, muito zangada e cheia de razão: apresenta queixa, não apresenta queixa…

Convoquei o pai violento que não se mostrou muito disponível para falar comigo. Instei e lá se convenceu. Veio acompanhado da mulher (minha conhecida, muito conhecida…).

Porquê? O filho sofria de um pequeno atraso de desenvolvimento (que ainda assim não o impedia de fazer a sua escolaridade normal com as adaptações que lhe convinham e a que tinha direito) e, por um qualquer motivo que já esqueci, fora humilhado, agredido mesmo por um colega. Quando ficou a saber, reagiu a quente, muito a quente e os travões da convenção não obedeceram ou nem sequer foram acionados… «Pois, mas aqui na escola há responsáveis para mediar os conflitos e aplicar sanções. Não há espaço para justiceiros à americana…» disse-lhe.

Silêncio. Espaço. Mais silêncio. E então lágrimas a rolarem pela cara de um homem «forte e de barba rija»… E, depois de mais silêncio (em que o meu coração se sentiu apertadinho, apertadinho mesmo) fiquei a saber: ex comando de guerra (da inexplicável guerra colonial) a sofrer há muito de stress pós traumático crónico…

Não interessa contar aqui nem agora como a situação se resolveu. Resolveu-se. A vergonha, o constrangimento por parte daquele homem, porém, foi enorme…

… não admira que anos e anos depois, evitasse o meu olhar, a minha proximidade, apesar de eu ter cumprimentado e conversado afavelmente com a minha amiga, sua mulher. 





terça-feira, 23 de agosto de 2016

Hilariante, ou talvez não...

Quando, no ano da Revolução, mudei a minha vida toda aqui para Leiria, lisboeta bem habituada a Lisboa, senti falta de muitas, muitas coisas (acho que até falta de ar senti…) Porém, aquilo de que mais me senti foi mesmo a quase inexistência de transportes públicos.

Não tendo sido talhada para a condução automóvel (sim, a carta lá está numa qualquer gaveta no seu tom rosa forte e com a fotografia dos meus vinte anos) e morando na periferia da cidade(zinha) a três quilómetros da escola onde trabalhei sempre, tive enormes amargos de boca  para me fazer transportar dado que havia uns raros autocarros que faziam (e fazem) mal a ligação dos arredores a esta capital(zinha) de distrito. Além disso, o que não era melhor, é que nunca houve nesta terrinha (nem há) a noção do que era fazer uma bicha (desculpem a minha rudeza, mas recuso-me a dizer «fila») para apanhar um autocarro (carreira, como diziam…) de modo que era «tudo ao monte e fé em Deus», empurrões com cestas e as mãos das mulherzinhas nas nossas costas para nos empurrarem para dentro…

De facto, mesmo morando em Algés ou em Sintra, e naqueles tempos cinzentos de 50/60, sempre me movi para todo o lado utilizando transportes públicos. Aqui, penso que, somadas todas as horas e minutos que passei à espera do dito autocarro, daria uns belos meses senão mesmo anos… (Culpa minha, eu sei…) Uma coisa é certa, porém: nunca cheguei atrasada a nenhuma aula ou reunião de trabalho!

Ao longo destes anos todos, a situação dos transportes feitos pela mais que limitada Rodoviária do Tejo não se alterou em muito. Os autocarros passaram a ter uma frequência de 40 minutos, mas sem qualquer obrigação de cumprir horários, ou de fazer todas as carreiras. Aos sábados e domingos não havia autocarros e grande parte das redondezas continuaram sem ligação à cidade. Os alunos do meu local de habitação continuam ainda hoje sem autocarro para a EB2,3 que está situada a mais de dois quilómetros das suas casas…

Bom, mas aqui há uns quatro ou cinco anos, a nova autarquia resolveu criar uma carreia nova de ligação mais rápida e mais frequente dos locais da área urbana ao centro da cidade, a que chamou Mobilis. Muito bem, mas, hélas!! Apenas fazia a ligação da área “mais urbana”, que o resto da dita zona urbana ficou de fora. Gritos e barafustos das populações e dos autarcas das freguesias!! E, ao fim de muitos gritos e barafustos (e de alguns anos mais), finalmente a edilidade, cheia de boa vontade, lá alargou mesmo as voltas do Mobilis, chegando a locais mais «recônditos» do concelho e, pasme-se! até ao subúrbio onde moro que é, repito, a três quilómetros da «civilização»…

Ontem, resolvi-me a ir experimentar o Mobilis. Andei por Leiria (a ver as lojas e o castelo) e, depois de muito procurar, lá encontrei uma paragem da dita 8ª maravilha. Depois de muito esperar que o motorista convencesse (de forma irritantemente brincalhona) uma velha senhora que aquele carro era o que ela queria apanhar, lá consegui entrar e pagar o bilhete. Entraram mais pessoas e o motorista ia dizendo aos brados: «Vamos lá. Vamos lá, que quanto mais depressa entrarem, mais depressa partimos!». Só que alguém lhe ligou para o telemóvel e aí ele diz: «Desculpem lá, mas temos de esperar pelo Jorge! Se quiserem sair, estejam à vontade porque aqui dentro está muito calor!» 

Passado algum tempo, lá percebemos que o Jorge era o motorista do outro Mobilis que entretanto chegou com o carro e tivemos ordem de partida. E volta o motorista à carga: «Importam-se que leve a porta aberta porque está muito calor?». Vento a entrar, que bom, fresquinho, que ar condicionado não há! A senhora de idade, que ia sentada no lugar da frente, só não foi aspirada pela porta aberta porque era um bocado pesada… Uma senhora levanta-se e toca a campainha para sair; o motorista apercebe-se e pergunta no seu tom pseudo-brincalhão: «Quer sair? Tem de dizer, porque a campainha não toca! Mas quer sair onde? Aqui?» Que era ali atrás, na paragem, diz a senhora… Travagem a fundo e lá sai a senhora. «Até é bom a campainha não tocar! Assim há comunicação entre os passageiros e o motorista…» diz ele!

Aí lembrei-me que bom seria o vereador, vice-presidente, que conheço desde quando usava calções, viajar ali, disfarçado, claro, para ver funciona esta sua jóia da coroa…

E quer ele, e não só, que Leiria seja Capital Europeia da Cultura num destes anos… Ai, ai!