Mostrar mensagens com a etiqueta Música Portuguesa de Intervenção. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Música Portuguesa de Intervenção. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

No Dia da Música



Definir música? O melhor é deixar isso nas mãos de ... um músico que pôs a Mão na Música. Vale a pena ouvir.






(1)
A música é tamanha
cabe em qualquer medida

Da sua mão sobe ao ar
Ao infinito de lá treme.

A música por um lado vê-se
por outro não se vê.

Nada da música
se improvisa por acaso.

A música corre nas gargantas
e pode ser tocada
com um dedo só.

A música mostra-se feia
para os seus pares
e bela para os seus ímpares.

A música emudece
por vezes os cantores
e deixa-os a sós nos camarins
à espera do amigo do carrasco.

A não música não é a mesma
quando ouvida de longe
ou quando ouvida de perto.

A música não tem explicação
a dar a si mesma.
Isso explica tudo.

A música dá asas a quem voa
Quem tem asas para voar.

A música faz aos poemas
aquilo que os poemas
quiserem fazer dela:
render-se.
E aos outros propõe:
rendam-se.
Tréguas e batalhas
Sem ordem de aviso.

A música é tamanha
cabe em qualquer medida


(2)
A música
referenda a liberdade: sim ou não?
A música depende
de um botão da liberdade
e desunha-se a mostrar
os efeitos de u dedo
a voz humana.

A música faz orelhas moucas:
A música? Não se esquece do silêncio
por isso nos lembramos dela:
permanece em mais que um som.

A música vai por vezes
mais alto e duma torre
afunda o eco
no centro da terra.

A música aguenta-se de pé
dorme sentada
dança e escorrega na cama.

A música pausa e pausa
faz  das malas a viagem
- mas se acena,
Já de longe.

A música atira
os seus poemas ao mar
e recebe-os
nas ondas do dia seguinte,
nas garrafas outro povo.

A música
perdeu muitos bons poemas
no vento contrário
(quem sabe eram bons).

A música é uma cópia
cara aberta vai ao fundo
e vem à tona por respiração.

A música é uma revolução
de estilos
é do passarinho
herdeira órfã
a música é órfã.
Quando nasceu, os seus pais
tinham morrido há pouco, é órfã.



(3)
A música nunca teve
em si mesma uma moral,
pensa que não pensa
e que não perdura
(diz-se que faz muito bem ouvi-la
alguém que pense e que perdure
por ela)

A música não tem barreiras
mas o amor por ela sim.

A música prepara-se
destroçada mas vaidosa
para confessar tudo ao cair do sol.

A música chora
e ri ao mesmo tempo,
uma criança
por razões não exactamente

compreensíveis.

A música quer ser perfeita
sempre que por escolha
é imperfeita.
Por talento dá-se a todas
a bondade, a presunção,
ressentimento
e mais que fosse
a quatro tempos.

A música de repente
é a mesma nota
repetida e outras vezes.

A música mede-se
com caneta e gravador
é maior e é menor.

A música quando se encontra
já lá está lá.
A música nasceu antes de
nós termos nascido com ela.
A música segue a sua sombra
e pela sombra é fácil num espelho.
Ou é ritmo ou é pausa
ambos dúbios mas reconhecíveis.


(4)
A música é tamanha
cabe em qualquer medida

A música enfeita a janela
e aberta
vê-se a rua.

A música eriça-se ao menor vento
arranha-se a si mesmo
ladra ao ar rissca a terra.
Gosta mesmo.

A música quando a chuva cai
com barulho de entre as nuvens
vê-se o mar em dia de acalmia
o que
não é explicável nem por norma nem
por excepção dos deuses.
Digamos que são os sons em dia de
Ofertório.

A música tem duas mãos.
É tocada com um só peito
e um só dedo.

Da música sobe o ar ao infinito.
A música tem um só dedo e um só dedo.
Nada da música se improvisa por acaso.

A música é tamanha
cabe em qualquer medida


Sérgio Godinho
in Mútuo Consentimento
2011





domingo, 30 de setembro de 2012

O empertigadinho

Eu não queria vir aqui “bater mais no ceguinho”, mas não me contenho! Especialmente porque já tudo foi dito e escrito nas redes sociais, nos telejornais, pelos comentadores das várias televisões sobre o caso.


Aquele empertigado, arrogante, impertinente (e todos os restantes adjetivos com que o apodaram, até bêbado) do senhor António Borges, o vendilhão do templo, o coveiro do país, que no tempo em que a senhora Ferreira Leite foi dirigente do PSD muitos apontavam como um excelente candidato para se lhe seguir – credo! como somos facilmente influenciados e enganados! – mandou mais uma das suas intrépidas bacoradas

Depois de ter dito que os portugueses ganhavam muito e que os salários tinham de ser reduzidos, depois de ter mandado o palpite de que a RTP1 deveria  ser vendida e a 2 deveria fechar, vem agora no seu tom gelado de robot e com o seu ar de morto-vivo dizer aos empresários portugueses que eles são uns verdadeiros “ignorantes” e “que não passavam no 1º ano da sua faculdade”. O presidente da associação dos empresários respondeu-lhe à letra afirmando e muito bem que o senhor também não reunia as competências necessárias para ser contratado por muitos dos empresários. 

Claro que descabido patrão do supermercado doce – e de certo modo também o papagaio falante do comentador dos domingos ao serão na TVI – já veio defender o senhor Borges e pôr-se do seu lado dizendo que ele foi apenas “infeliz” na sua forma de se exprimir porque quando pensamos nem sempre as palavras nos saem da melhor forma – decerto não passaria no 1º ano na minha faculdade por falta de facilidade de expressão! (digo eu) – e que o presidente da CIP não devia ter falado como falou porque se trata de um homem com um currículo daqueles que até já foi reitor da faculdade! (Que parolos somos!)

Mas a propósito desta nova polémica duas observações me vieram à mente: primeiro, alguém deveria perguntar ao senhor Borges se Passos Coelho teria hipótese de passar no 1º ano lá da faculdade dele, já para não falar no doutor ministro Relvas! Segundo, não sei porquê, mas ao ver a sua imagem cadavérica, branca e inexpressiva e a sua forma atónica de se movimentar, veio-me à ideia a canção “A Morte saiu à rua” de José Afonso.