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domingo, 29 de outubro de 2017

A Revolução Russa e os seus Escritores

«A Revolução Russa de outubro 1917, cujo centenário se comemora em novembro no nosso calendário, foi iniciada por um pequeno grupo de revolucionários profissionais que queriam transformar o mundo e criar a primeira sociedade comunista. A tomada do poder em Sampetersburgo, no entanto, desencadeou uma violenta guerra civil na Rússia e deu origem a um regime totalitário que para os artistas da época implicou um retrocesso criativo, levando ao triunfo de ideias conservadoras capazes de envergonhar a pior censura do tempo dos czares.

Quando estalou a revolução, a Rússia era ainda um país essencialmente rural, cujas riquezas estavam nas mãos de uma classe aristocrática separada do povo e habituada aos tempos da servidão dos camponeses. (…)

O descontentamento popular crescera na Rússia nos anos anteriores à revolução, pelo menos desde 1905, quando o regime czarista preferiu estupidamente reprimir uma manifestação contra o deficiente abastecimento alimentar. A queda do czar Nicolau II, em fevereiro de 1917, foi a consequência de uma contestação popular espontânea semelhante à de 1905, mas desta vez o protesto foi acompanhado do colapso do exército e, sobretudo, do desprestígio do monarca, uma personalidade fraca, incapaz de impedir a acumulação de rancores exacerbados pela guerra [de 1914], que já levava três anos.

O czar abdicou devido à pressão popular, ao elevado número de baixas militares, mas também por causa da fome, da incompetência e estupidez das elites, da repressão e da doença, da raiva acumulada pelo atraso crónico do país. Ao contrário do que acontecera no resto da Europa às revoluções liberais de meados do século XIX, a república burguesa foi uma mera transição que durou escassos meses, suplantada pela radicalização bolchevique de outubro (novembro no nosso calendário) cujo poder se baseou em assembleias populares, os sovietes, que rapidamente eliminaram o embrião de democracia parlamentar russa.

Sem massivo apoio popular, pelo menos do povo urbano, a revolução soviética jamais teria triunfado, sobretudo na guerra civil, que foi um extenso e cruel episódio de combates sem quartel e de intervenções militares externas. E esse apoio das massas foi acompanhado pelo idealismo de muitos artistas, nomeadamente escritores e poetas que aderiram depressa às promessas revolucionárias de uma literatura inovadora capaz de elevar os leitores e de transmitir ao mundo as novas ideias. Essa esperança de liberdade duraria pouco. Na realidade, os intelectuais e escritores da revolução foram rapidamente devorados pela violência e pelo instinto totalitário do novo regime. Pode até argumentar-se que uma das literaturas mais vibrantes do mundo foi assassinada, nos anos 30, pela obsessão estalinista de controlar todos os aspetos da vida dos cidadãos, usando os métodos do medo e da violência para silenciar qualquer atrevimento de individualismo.

Para sobreviver na literatura soviética, não era suficiente ser bom revolucionário, era preciso evitar erros políticos. Muitos escritores foram vítimas da sua inabilidade, por terem escolhido mal os protetores ou por terem escrito coisas comprometedoras em períodos em que se julgavam seguros. (…) após a abertura dos arquivos da polícia política (NKVD), os historiadores russos apuraram que dois mil intelectuais, académicos e artistas soviéticos foram presos durante as purgas do final dos anos 30 e que terão morrido nas prisões e nos campos de concentração mais de 1500, entre eles muitos escritores.»

(Parte do artigo “A Revolução que também devorou os seus escritores”, Luís Naves, in Ler, Verão 2017)

(Ilustração de Pedro Vieira)

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

O Coelhinho de Jorge Listopad

Foram poucos os textos de Jorge Listopad que li. Limitei-me a alguns textos dos muitos que escreveu para o Jornal de Letras.

Crítica mordaz, ironia fina, grande poder de observação das situações. Linguagem por de mais metafórica e irónica.

Mas o que eu nunca falhava era a leitura do Coelhinho que, infelizmente, há muito deixou de aparecer. 

Tinha este formato.





Leiam outros:

«O coelhinho, com expressão vitoriosa e sem saber bater à porta, invadiu a minha privacidade. Quis censurar a sua entrada de rompante, mas não me deu tempo e gritou: – Hip! Hip! Hurra! O Mundial acabou! Consegui preencher a caderneta toda! Colei 638 cromos de jogadores. Até troquei 3 Ronaldos sem caspa por 1 Cho Young-Hyung da Coreia do Sul e 2 Yacine Bezzac pelo raro Branko Ilic. Acabou! Vitória! E deixou-se cair sobre o sofá. Digo-lhe: Mas o Mundial só agora começou… 
De olhos semi-cerrados, respondeu:

 – Não sou nenhum palerma, não é o futebol que interessa, mas sim os cromos.»

..............................................

«O coelhinho muitas vezes fala consigo em voz alta. Foi anteontem que dizia:

 - É pena que não sejamos todos árabes. Vendo bem, não é tanta pena, porque já estamos batizados e prometidos ao nosso céu. Mas é pena porque se fôssemos todos árabes, podíamo-nos encontrar numa grande manifestação, que não se sabe como acaba, não num espaço diminuto como o Largo do Carmo, porém no Rossio ou na Praça da Figueira. Que primeiras páginas em todos os jornais! Caramba!

E assim dizendo, foi direito ao quiosque comprar o Financial Times.»


Jorge Listopad, homem de cultura, escritor, encenador, professor, checo, fixado em Portugal desde 1950, morreu ontem, aos 95 anos "sem dar por isso" - dizem.




segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Do Jornal de Letras

Gosto muito de ler o Jornal de Letras, embora não compre todos os seus números. Compro os que tratam temas que me interessam, normalmente  literatura, educação, boas entrevistas a escritores, textos de Guilherme de Oliveira Martins, de Manuel Halpern, recensões críticas de livros recentes.

Há mais de um mês que não comprava nenhum (de referir que se trata de uma publicação bimensal) Por isso decidi-me a comprar o desta quinzena apesar de falar mais dos filmes portugueses que pretendem retratar a crise económica dos últimos anos - temas que me são pouco interessantes.



Mas devo afirmar que se mais não aparecer da sua leitura, valeu apenas por duas razões:

  • a entrevista à escritora Filomena Marona Beja que anuncia o seu novo romance «Avenida do Príncipe Perfeito» (se nunca leram nada dela, é bom que comecem a fazê-lo)
  • uma frase inédita de Fernando Pessoa, retirada do livro O Teatro Estático que reproduz a obra do poeta relacionada com o teatro, e que diz só isto:

        "Não sei se isto é tristeza ou alegria, tão vaga e misteriosa é a suavidade doentia que sinto." 

O meu encantamento pela frase vem do facto de me ter remetido para aquele último terceto do soneto de Camões «Busque amor novas artes, novo engenho» que li no meu 5º ano do liceu (atual 9º) e que nunca mais esqueci e que diz: 



Que dias há que n'alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei porquê.


domingo, 10 de setembro de 2017

Que terá A Amiga Genial de tão genial?

A ler freneticamente «A Amiga Genial» da misteriosa autora italiana Elena Ferrante. Provavelmente muitos de vós passaram já por isso, já que a primeiro volume da tetralogia saiu em 2015 e teve muita publicidade. Também sei que tem sido um verdadeiro sucesso de vendas. Mas eu comecei a lê-lo há um mês e já vou a meio do 4º e último volume – eu que não sou uma leitora voraz.



Trata-se de um romance, romance e mais nada! Na verdadeira aceção da palavra, ou seja: «uma obra literária que apresenta narrativa em prosa, normalmente longa, com factos criados ou relacionados com personagens que vivem diferentes conflitos ou situações dramáticas, numa sequência de tempo relativamente ampla.»

Então o que é que «A Amiga Genial» tem de genial?

Será talvez pelo simples facto de se tratar de uma história extremamente bem contada em que o leitor está constantemente a ser convocado para novos acontecimentos, novas intrigas, novos conflitos que ora dão sentido à ação que está a ser descrita explicando-a, desenrodilhando-a, ora criam teias que nos atiram para outras situações aparentemente díspares daquela em que estamos enfronhados. Toda a ação parece desenrolar-se sobre rodas, sem sobressaltos aparentes, numa naturalidade da água a correr ou de movimento diário do planeta. Só que o leitor sente-se tão preso ao fluir da narrativa que não tem como se despegar desse enleio. E a coisa está tão bem urdida que, quando se chega à última palavra de cada volume, há não sei o quê que nos empurra insanamente para o volume seguinte, como se alguma frase tivesse ficado a meio.

A história é de uma simplicidade extrema: conta-nos a vida de duas raparigas nascidas num bairro muito pobre de Nápoles nos meados do século passado, que se conhecem desde sempre, vão para a mesma escola, tornam-se amigas e nunca mais conseguem separar-se, nem que seja mentalmente, até à velhice. A narradora é uma delas e pretende-se que a amiga genial seja a outra de quem ela fala. Mas, pelo menos aos meus olhos, essa genialidade parece passar constantemente de uma para a outra, até nos fazer crer que vivem ambas na mente uma da outra e que, por isso, são inseparáveis.

A genialidade da obra constata-se na cerrada urdidura da história; no perfil firmemente traçado de cada personagem (e são muitas); na descrição intensa e apaixonada embora com o desassombradamente que evita as lamechices da realidade brutal vivida no bairro, em Nápoles e no país em geral; nos comentários históricos, políticos, sociais, culturais de uma Itália que passava, em clima de grande violência e agitação, os tempos mais difíceis da sua história recente, os chamados Anos de Chumbo, que vão sendo entrelaçados com o decorrer da ação, ela sim, cheia de sobressaltos. Um desassossego, um imenso desassossego que nos prende, nos enleia, nos apanha os pensamentos e as emoções de forma indelével.


Muito bom. Recomenda-se vivamente.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

O Avejão

O saudoso Baptista-Bastos é que o definiu bem! E eu lembrei-me hoje deste texto vá-se lá saber porquê...

"O avejão ensombra, há tempo de mais, a sociedade portuguesa. 

O avejão, sobre ser (diz o dicionário) uma ave agoirenta, é homem alto e feio.

O avejão tem gosto particular pela necrofilia.

O avejão é um pouco tonto, burro e desajeitado.

O avejão odeia os outros, pessoas ou aves.

O avejão é esquisito, todos o desprezam e detestam.

O avejão só sabe adejar numa atmosfera sombria e lúgubre.

O avejão paira sobre as coisas, nunca se aproxima muito, por receio de represálias.

O avejão é produto típico do monturo.

O avejão voa só, nenhum pássaro tem por ele afecto.

O avejão é assolado por doenças perdidas e morre de barriga para baixo.

O avejão é nojento, sobretudo a rir ou a debicar bolo-rei.

O avejão tem inveja deste mundo e do outro.

O avejão, ao abrir a boca, exala cheiro fétido.

O avejão nunca leu um livro até ao fim.

O avejão permitiu que, em seu nome, fosse publicado, num inquérito, títulos de livros que não frequentou.

O avejão gosta muito do programa cultural ‘A Quinta’.

O avejão, como o carcará, pega, mata e come.

O avejão, convém repetir, é um ser fedorento.

O avejão, sobre ressonar a dormir, e dorme muito, no palácio, tem flatulência.

O avejão tem dificuldades com a tabuada.

O avejão tem dificuldades com a língua portuguesa.

O avejão não sabe fazer o nó da gravata.

O avejão baba-se a comer.

O avejão baba-se se contrariado.

O avejão baba-se sem motivo aparente; baba-se.

O avejão, que tem dificuldades com o português, o idioma e o propriamente dito, não sabe onde pôr as mãos quando fala, ou diz que fala.

O avejão não parece um espeque: é um espeque.

O avejão é amaldiçoado pelos deuses que assim o configuraram, coitado!

O avejão está no estertor, e no estrebuchar ainda se julga alguém e comete pequenas perfídias.

O avejão desconhece que circunstâncias fortuitas lhe têm permitido que voe alto.

O avejão é a vergonha de todos os pássaros: todos são belos, menos ele, repelente.

O avejão não é apenas aquilo de que se sabe, nem, somente, as definições que vêm no dicionário.

O avejão há muito que morreu e não sabe que está morto.

O avejão foi abatido pelo Raul Brandão, que, diz-se, se inspirou numa noite de pesadelo. *

O avejão tem sido o pesadelo de nós todos, mesmo daqueles que o lisonjeiam.

O avejão está prestes a ser escorraçado, sem ter edificado um trémulo instante de grandeza.

Abaixo o avejão, abaixo!"


25 de novembro de 2015


                                                    * 

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Eu temo muito o mar

Eu temo muito o mar, o mar enorme,
Solene, enraivecido, turbulento,
Erguido em vagalhões, rugindo ao vento;
O mar sublime, o mar que nunca dorme.

Eu temo o largo mar, rebelde, informe,
De vítimas famélico, sedento,
E creio ouvir em cada seu lamento
Os ruídos dum túmulo disforme.

Contudo, num barquinho transparente,
No seu dorso feroz vou blasonar,
Tufada a vela e n'água quase assente,

E ouvindo muito ao perto o seu bramar,
Eu rindo, sem cuidados, simplesmente,
Escarro, com desdém, no grande mar!

Cesário Verde

Este soneto - "Heroísmos" - de Cesário Verde foi-me dado a conhecer pela leitura do livro «Que Importa a Fúria do Mar» de Ana Margarida de Carvalho (os romances desta mulher estão a pôr-me doida este Verão!)

As quadras do soneto fazem parte da epígrafe de um dos capítulos do livro referido e logo me encantaram, embora os tercetos inflitam para o heroísmo dos Descobrimentos portugueses. Talvez por isso a escritora tenha optado por transcrever apenas as quadras para a dita epígrafe.

Ela própria descreve o mar desta forma simbólica, quimérica:

«Porque isso é o que recorda com mais força, e dor, e sufoco. Aquela opressão do mar. Era o seu pesadelo recorrente, aliás. De repente, via-se na praia, pés ma areia molhada, e um mar de cordeirinhos mansos, espuma benigna, vinha roçar-lhe as pernas, só docilidade com sal, mas o caudal engrossava, engrossava, quando a onda regredia ela era arrastada até cair, mãos cravejadas na areia, a ser puxada e engolida no turbilhão doido. (...)


O mar é como tu, mãe. Sem remorsos.» (p. 136)





sexta-feira, 21 de julho de 2017

Não se pode morar nos olhos de um gato


Leitura de início de férias. Que, diga-se de passagem, nunca fiz distinção nenhuma entre os livros de leitura de férias dos outros lidos em período de não férias.

Segundo romance da jovem autora Ana Margarida de Carvalho, publicado em 2016, depois de ter recebido o Grande Prémio de Romance e Novela da APE pelo seu primeiro romance «Que Importa a Fúria do Mar» em 2013.

Eduardo Pitta deixa no ar a questão sobre será este seu segundo romance a marcar o início da distropia na literatura portuguesa. Eu, simples leitora, não vou saber dizer.

Só sei que tão embrenhada andei na leitura deste livro que passou quase uma semana sobre a vinda para estes “mares do sul” e nem tenho ligado o computador… Tem mesmo sido espreguiçalhar na cadeira da piscina, ir ao banho para esticar bem as pernas e os braços e depois naufragar naquela imaginária praia intermitente nas costas do Brasil juntamente com aquele grupo de sobreviventes do barco tumbeiro clandestino: o capataz negreiro e o seu mísero criado, a fidalga brasileira e a sua frágil filha, o padre que teve as suas origens nas fragas na companhia das alcateias transmontanas, o jovem passageiro estudante, o escravo que deu à costa montado num cavalo mutilado e o bebé pretinho salvo do porão do barco negreiro.

Não vou contar mais nada. Se tiver conseguido despertar alguma curiosidade em algum de vós, deixo abaixo alguns links que poderão contar algo mais.

Só vou dizer que se trata de verdadeira literatura. Desde Saramago, Lobo Antunes, Vergílio Ferreira não lia nada tão surpreendente, tão profundamente inquietante, e tão filosoficamente vivido – por esta ordem respetivamente.




E porque o título do romance retoma um verso de O´Neill, aqui fica o respetivo poema.

Poema do Desamor

Desmama-te desanca-te desbunda-te
Não se pode morar nos olhos de um gato

Beija embainha grunhe geme
Não se pode morar nos olhos de um gato

Serve-te serve sorve lambe trinca
Não se pode morar nos olhos de um gato

Queixa-te coxa-te desnalga-te desalma-te
Não se pode morar nos olhos de um gato

Arfa arqueja moleja aleija
Não se pode morar nos olhos de um gato

Ferra marca dispara enodoa
Não se pode morar nos olhos de um gato

Faz festa protesta desembesta
Não se pode morar nos olhos de um gato

Arranha arrepanha apanha espanca
Não se pode morar nos olhos de um gato

sábado, 20 de maio de 2017

Claridade segundo Almada

«Imaginava eu que havia tratados da vida das pessoas, como ha tratados da vida das plantas, com tudo tão bem explicado, assim parecidos com o tratamento que há para os animaes domesticos, não é? Como os cavalos tão bem feitos que ha!

Imaginava eu que havia um livro para as pessoas, como ha hostias para cuidar da febre. Um livro com tanta certeza como uma hostia. Um livro pequenino, com duas paginas, como uma hostia. Um livro que dissesse tudo, claro e depressa, como um cartaz, com a morada e o dia.»

(Almada Negreiros, in “Invenção do Dia Claro”, 1921)



Bom que assim fora!!

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Morreu o BB

Foi com grande espanto e alguma consternação que ontem recebi a notícia do desaparecimento do grande jornalista, cronista e também escritor Baptista-Bastos.

Sabe, quem generosamente frequenta este meu espaço, que para aqui transcrevi muitas das suas crónicas que ele escreveu enquanto não foi ignominiosamente despedido do Diário de Notícias.

Como gostava da sua forma elegantemente escancarada com que ele desferia as suas setas certeiras contra quem, durante os últimos anos, comprimiu e quase quis açaimar este nosso país, este nosso povo ainda e sempre tão necessitado de quem lhe mostre o caminho.

Fazia-o de forma desassombrada mas algo pedagógica, usando o seu estilo fluente mas preciso, chamando as referências históricas, literárias e políticas mais penetrantes e mais esclarecidas, num vocabulário rico, elaborado mas bem truculento, e com a sintaxe de quem estudou (ou não) latim.

Que era assaz duro e que tinha mau feitio. Se calhar assim era. Mas defeitos todos temos, desenganem-se aqueles que assim não se julgam.

Sobre si próprio (e de mais um punhado de outros jornalistas dessa era que fundaram o semanário O Ponto) escreve BB que se tratava de «um singelo sonho de liberdade acalentado por um grupo de jornalistas que de seu só possuía a honra jamais hipotecada e a ingénua convicção de que as palavras (sempre de recusa, sempre de protesto, sempre exaltantes) poderiam ser integradas na grande voz colectiva e aceites pelas minorias sem voz.» E acrescenta que a escrita, a sua e a de outros jornalistas como ele, «é um tributo ao sonho e à esperança. Sonho e esperança de que o homem está sempre em questão, é sempre questionável, deve ser questionado, e que legitima, devido às suas constantes dúvidas, todas as questões. E também porque o homem em questão coloca como ponto prévio, antes de tudo e se necessário contra todos, a questão da liberdade.» (in “Um Homem em Ponto – Entrevistas por Baptista-Bastos, 1984)

É assim que eu penso. E (também) por isso, lamento tanto a perda.





sábado, 22 de abril de 2017

No Dia da Terra

Então fiquei a saber que a Tapada de Mafra organizou para hoje de manhã uma caça às hastes. Uma caça às hastes? perguntei-me eu. Sim! Todas as Primaveras os veados e os gamos da Tapada perdem a sua armação, as hastes, num processo que tem o nome de desmoque. E serão essas hastes perdidas que os participantes terão de procurar. Parece-me bem para celebrar de forma diferente o Dia da Terra, bem no meio de um tão belo cenário natural.

Ora a propósito de Tapada de Mafra, lembrei-me de ir reler um ou outro fragmento do livro «As fabulosas histórias da Tapada de Mafra» de Cristina Carvalho, filha de Rómulo de Carvalho/António Gedeão.

E, já que estamos a falar de veados, deixo aqui esta engraçada história que retirei do referido livro.
«Existiu na Tapada um veado especial. Nunca teve um nome pelo qual fosse mais fácil e imediato dar com ele. É que nem sempre os responsáveis pelas vidas dos animais aqui na floresta lhes dão nomes. Veem-nos nascer, às vezes alimentam-nos a biberão, os animais crescem rapidamente e criam-se laços indestrutíveis de amor e amizade entre humanos e bichos. Numa tentativa de não os personalizar demasiadamente, muitas vezes ficam sem nome. É sempre muito doloroso quando morrem. Um nome é uma marca, um sinal para determinado animal, talvez um que se tenha afeiçoado mais, talvez um mais belo, mais próximo, mais manso. Com nome dado, a sua morte é mais difícil de suportar.

Por isso mesmo, o veado da Tapada, que nunca teve um nome mas toda a agente o distinguia dos outros todos, era uma animal enorme! O seu corpo grande e pesado não passava despercebido. Às vezes, um restolhar intenso ali nas moitas próximas e já se veem as poderosas pernas e a cabeça com grandes hastes a afastar as ervas, abrindo caminho. Todos os anos, na primavera, o veado perdia as suas hastes ramificadas e tornava-se agressivo, investindo contra tudo e contra todos e, como era ciumento e desconfiado, era difícil amansá-lo. Só na presença de uma mulher, qualquer uma, é que ele acalmava, e isto ninguém nunca conseguiu explicar!

Um dia, um dos guardas viu-se tão aflito e aterrorizado com as investidas do grande veado que teve de trepar pelo tronco da árvore próxima, até onde conseguiu. Ali ficou, num ramo, horas e horas a fio. O veado cá em baixo a rondar, a rondar soprando pelas narinas, e o homem, lá no alto da árvore à espera que por ali passasse alguém, de preferência uma mulher. Por um acaso e sorte desse dia inquieto, a ronda da mata, aqui já perto da entrada e pelas sete da tarde, foi feita por duas guardas florestais. Avistaram o furioso animal rodando à volta do tronco da árvore e foi então que ouviram um chamamento vindo do alto!


Como teria sido se elas não passassem por ali naquela hora, naquele dia?» 

(Sextante Editora, Porto, 2016, pp 70-71)






terça-feira, 11 de abril de 2017

Ai esta juventude!!

“A nossa juventude adora o luxo, é mal-educada, despreza a autoridade e não tem o menor respeito pelos mais velhos. Os nossos filhos hoje são verdadeiros tiranos. Eles não se levantam quando uma pessoa idosa entra, respondem aos pais, são simplesmente maus”.

Sócrates (470-399 a.C.),

“Não tenho mais nenhuma esperança no futuro do nosso país se a juventude de hoje tomar o poder amanhã, porque esta juventude é insuportável, desenfreada, simplesmente horrível”.

Hesíodo (720 a.C.)

“O nosso mundo atingiu o seu ponto crítico. Os filhos não ouvem os pais. O fim do mundo não pode estar muito longe”.

Frase atribuída a um sacerdote do ano 2000 a.C.,

“Esta juventude está estragada até ao fundo do coração. Os jovens são maus e preguiçosos. Eles nunca serão como a juventude de antigamente…A juventude de hoje não será capaz de manter a nossa cultura”.


 Frase encontrada escrita num vaso de argila descoberto nas ruínas da Babilónia tendo mais de 4000 anos. 


E mais...

"De todos os animais selvagens, o homem jovem é o mais difícil de domar."

Platão

"A velhice é uma tirania que proíbe, sob pena de morte, todos os prazeres da juventude."

La Rochefoucauld

"A juventude é a embriaguez sem vinho."

Goethe

"Os velhos desconfiam da juventude porque foram jovens."

William Shakespeare

"Tudo o que os jovens podem fazer pelos velhos é escandalizá-los e mantê-los atualizados.”

George Bernard Shaw


“Ninguém é sério aos 17 anos.”


Rimbaud





terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O centenário da Revolução Russa

(in esquerda.net)

Não foi em Outubro. Em Fevereiro de 1917, um movimento revolucionário derrubava o czar Nicolau II e instituía um governo provisório, maioritariamente menchevique (movimento de oposição ao czar de orientação mais burguesa, ao contrário do movimento bolchevique liderado por Lenine, que considerava que o governo devia ser entregue às classes trabalhadoras).

Foi a primeira fase da revolução russa que, não conseguindo dar resposta aos graves problemas do país, provocou várias insurreições e culminou com a chegada dos bolcheviques ao poder em Outubro.

Um historiador contemporâneo – Orlando Figes – diz que a Revolução de Fevereiro de 1917 começou pelo pão, ou pela falta dele e pela consequente revolta. As derrotas nos campos de batalha da I Guerra Mundial engrossaram as queixas do povo. Faltava pão, faltava açúcar, faltava tudo e anunciavam-se mais catástrofes. Tudo isto no frio extremo do inverno russo. No dia 23 de Fevereiro, dezenas de milhares de operários e de mulheres vieram para as ruas para pedir pão e a gritar “abaixo o Czar”. A insurreição não foi dominada pelas forças dominadoras e as manifestações e as greves continuaram até que, no dia 26 a polícia e os militares abriram fogo sobre os manifestantes. Aos poucos os soldados começaram a juntar-se ao povo e atacaram o Arsenal apoderando-se das armas, assaltaram as prisões e libertaram os presos.

O Czar abdicou em Março e o Governo Provisório foi constituído por liberais e socialistas em volta da figura de Alexander Kerensky. Mantiveram-se na Guerra ao lado dos Aliados; não foram capazes de constituir um governo forte e coeso com uma linha governação determinada; as grandes desigualdades sociais mantinham-se; os sovietes, os conselhos operários, tornavam-se cada vez mais reivindicativos. Os democratas não conseguiram responder aos dois grandes problemas da Rússia: a guerra e a profundas desigualdades económico-sociais, acabando por dar o poder aos bolcheviques que tinham os seus chefes em Lenine, Trotsky e Estaline.

A Revolução de Fevereiro teve, porém, os seus aspetos positivos e determinantes: primeiro pôs fim ao czarismo e a um sistema de governação fortemente centralizada, autoritária e repressiva que dominara a Rússia durante séculos; foi uma revolução de caráter reformista; e criou as condições para uma segunda revolução mais profunda socialmente.


(texto baseado nos textos apresentados sobre o assunto pelo Jornal de Letras de 1 a 14 de Fevereiro)

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Génio lusitano

Tenho dito aqui por mais de uma vez que, menina lisboeta, vivi cerca de ano e meio na vila da Vieira de Leiria onde fiz parte da 1ª classe, a 2ª e o início da 3ª. Foi das experiências mais ricas da minha infância por ser um ambiente tão diferente e distante daquele que conhecia. De recordar que isto se passou em 1957/58. Foi lá que, pela primeira vez, vi uma picota (que encanto!) uma lagartixa, um ancinho para ir à caruma (bem como a própria caruma), cântaros de barro com que as mulheres iam buscar água à fonte e as respetivas cantareiras, mulheres descalças com os canos de lã nas pernas, as camarinhas, aquele mar violento a levantar-se em ondas altas e furiosas, aqueles barcos lindos de proa altíssima a lembrar os Vikings, os bois e as mulheres – tão fortes quanto eles – a puxarem as redes cheiinhas de peixe a saltar, etc. etc.

Foi lá que, pela primeira vez, fui a um baile numa sociedade recreativa, fui empalhar garrafões, fui à caruma, fui a um funeral enquanto menina da escola de batinha branca em fila atrás do féretro.
Foi lá que também pela primeira vez assisti a uma espetáculo estilo revista à portuguesa realizada e interpretada por pessoas da vila e talvez de Leiria, não sei bem. Lembro-me de alguns quadros muito engraçados e houve um que me marcou bastante: era um diálogo em que um dos artistas ia criticando várias circunstâncias e contingências do povo e do país enquanto o outro, vestido de jardineiro – lembro-me bem! – respondia sistematicamente: «Ah! Isso é lá com eles!»

Vem isto a propósito de um artigo que li hoje no DN cujo título é exatamente Génio Lusitano. O autor, que é português mas que tem uma avó checa e outra catalã, um avô austríaco e um pai alemão, faz uma crítica muito bem feita e bem divertida (?) à nossa capacidade (ou será uma incapacidade?) de olhar para o lado…

Diz ele: (…) «Os problemas impossíveis de se resolver em terras lusas são regra geral minúsculos: a luz dum poste de iluminação pública que não funciona há anos, o funcionário sem meios ou vontade para atender pessoas, os fios de telecomunicações que alastram nas fachadas dos prédios como a peste negra, a sala de aulas sem aquecimento, o devedor que não paga, o senhorio que não faz obras, o tempo de espera pela consulta, o autocarro que não passa, o vizinho que estaciona o carro no passeio sem deixar espaço para passar um chico fininho.

Esta prodigiosa faceta do carácter nacional permite deixarmos de ver as pequenas monstruosidades que nos rodeiam e é única na Europa. Num país, que por semana fica à frente em dezenas de rankings, é estranho não ter ainda aparecido uma revista internacional a colocar-nos em primeiro lugar na modalidade "olhar para o lado". (…) Tentar fazer alguma coisa não serve de nada, é a desculpa que se ouve sempre, por isso não se tenta fazer nada. "Eles", seres distantes algures nos centros de decisão, "também não fazem a ponta de um corno", "aquilo é só tachos", "anda tudo na mama" ou "só mudam as moscas". Em vez de tomarmos a iniciativa e limparmos nós a porcaria à pazada, é uma enxurrada de desculpas para não mexer uma palha e tudo ficar igual.


Em Portugal a cidadania não é vivida como um direito. É um fardo que se carrega às costas. E por cima do fardo ainda estão "eles" empoleirados, os "lá em cima". Se, por sua vez, pergunto a um de "eles lá em cima", também olham para o lado e dizem-me que são "eles", os "ali ao lado", que lhes empatam o serviço. (…)»

Connosco é mesmo assim: «Isso é lá com eles» e assobiamos para o lado.




terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Ainda (e sempre) o acordo ortográfico

Assiste-se a uma nova movimentação (ou será sempre a mesma?) para a anulação do último acordo ortográfico. Que me desculpem talvez a brutalidade da expressão, mas as razões apresentadas para que tal aconteça até me dão volta ao estômago!

Ando a reler as «Lendas e Narrativas» de Herculano e convido os defensores do Não a lerem-nas na escrita do autor de meados de 1800…  Mas em vez de me pôr aqui a perorar sobre motivos e fundamentos sobre os acordos ortográficos que já se realizaram, deixo-vos um texto maravilhoso e até divertido de Francisco José Viegas que li na Ler deste Inverno.

«Por falar em língua – na Língua Portuguesa, permitam-me que lembre que o AO não é o nosso maior problema, nunca foi. Enquanto milhares de portugueses prometiam acorrentar-se às consoantes mudas em protesto, desculpavam-se erros de palmatória de português básico em documentos oficiais, em legendas e rodapés da televisão pública (onde, entre tantos provedores, nunca se encontrou ninguém para aplicar corretivos) ou na avaliação de testes nas escolas (houve inclusive, nos idos de 1990, uma nota distribuídas aos professores para não assinalarem erros ortográficos nas provas de avaliação porque isso seria traumatizante).

Comparando o léxico de Mau Tempo no Canal, de 1944, com o romance de um autor contemporâneo, percebe-se que desapareceu cerca de 20% do vocabulário. A língua portuguesa está confinada ao seu ersatz, um substituto ligeiro, uma língua de anúncios de aeroporto, de fala de supermercado.

A escola é muito responsável por este desastre, preferindo a pobreza do léxico, desculpabilizando os erros, desejando agradar à vulgaridade, parlapatando – esquecendo que quem fala e escreve mal, pensa mal. Para o sistema educativo fazer algo pela defesa da Língua Portuguesa? Duvido. Veja-se este pedaço de, por assim dizer, «competência linguística» do Ministério da Educação num texto sobre educação de adultos: «Este programa deverá assentar numa maior integração das respostas na perspetiva de quem se dirige ao sistema, tornando, na ótica do formando, coerente e unificada a rede e o portefólio dos percursos formativos, que no percurso individual devem ser passíveis de combinação personalizada.» Não há ortografia que lhe valha.

As novilínguas tecnocráticas que os analfabetos popularizam são também um elemento a ter em conta para a perda de identidade da língua. Mesmo desculpando «gentrificação» para significar «gentrification», do inglês (gentry), que vem do francês arcaico (genterise) – ocupação do centro das cidades por gente rica – é estranho ouvir uma pessoa altamente colocada a defender a necessidade de discutir a genderificação (do inglês gender, género) uma vez que há cargos muito genderificados. Semanas antes ouvi uma senhora exigir mais empoderamento (empowerment) para as mulheres e que ela própria tinha contribuído para empoderar mulheres num país latino-americano , e – entretanto – o presidente da Câmara de Valongo publicou um livro sobre política onde insistia na necessidade em «empoderar os cidadãos do concelho», coisa que os deve alegrar. Depois, há «os cidadãos e as cidadãs» que dizem aitem em vez de item (um pronome demonstrativo latino) – e o horror ameaça não ter fim, a avaliar pela forma como toda a gente encolhe os ombros.»

Francisco José Viegas, Revista Ler, Inverno 2016/2017




quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Ainda o Ulisses

E lá fui eu, sem falta, à Bertrand porque recebi uma mensagem que anunciava livros a cinco euros e com descontos até 50% para os dias 26 e 27. Cheguei lá, ontem de manhã, e o maior desconto que vi foram os habituais 10% de desconto em cartão em todos os livros. Eu li bem! Era nos dias a seguir ao dia de Natal e não era só online…

Zanguei-me. Detesto que me/nos enganem. Por isso nem perguntei a nenhuma das pouco simpáticas “colaboradoras” (agora diz-se “colaboradoras”, nada de empregadas e menos ainda funcionárias… politicamente incorrecto, discriminatório, vexante e assim… Tretas!) que por lá se movem.

Ora ainda bem! Até porque tenho montes de livros que ainda não li – e nem sei se chego a ler. Enfim.




Se já terminei o Ulisses? Claro que não! Mas não me preocupo nada. O autor demorou sete anos a escrevê-lo por isso eu tenho ainda muito tempo pela frente para o terminar…

Não há o problema de perder a sequência da ação porque se trata de um longuíssimo texto em forma fragmentária. Não é o tempo que marca a evolução da narrativa, mas o espaço: cada rua, cada beco, cada novo bar ou taverna visitados por Bloom e Dedalus têm a sua própria pequena narrativa com as suas próprias personagens, por isso não se perde o fio à meada, até porque não há meada. Os elementos estruturantes são as personagens principais: Leopold Bloom e Stephan Dedalus que fazem o seu périplo pela cidade de Dublin durante um dia apenas – dezoito horas para ser exata – o dia 16 de junho de 1904. Uma imagem irónica da Odisseia de Homero na qual Ulisses deixa a sua mulher Penélope (aqui redesenhada por Molly, a mulher de Bloom) durante dezoito anos para fazer o seu périplo pelo Mar Mediterrâneo.

Há, no Ulisses de Joyce, fragmentos verdadeiramente poéticos como é o caso por exemplo, da longuíssima e quase enciclopédica referência a Shakespeare - «ele era um lorde da língua…» - e à sua obra, em que o autor nos dá toda a sua visão do que é a arte, a sabedoria eterna, o conhecimento grego. E, embora alcandore Shakespeare ao expoente máximo da literatura, não deixa de fazer passar um ténue ciúme. «Os nossos jovens bardos irlandeses têm de criar ainda uma figura que o mundo coloque ao lado do Hamlet do saxão Shakespeare…»     

Esta rivalidade entre a Irlanda e a Inglaterra aliás está patente ao longo da obra «… referente aos recursos naturais da Irlanda (…) que ele descreveu na sua prolixa dissertação como o país mais rico sem qualquer excepção à face da terra de Deus, muitíssimo superior a Inglaterra, com carvão em vastas quantidades…»

Grandes reflexões sobre a mulher e a maternidade, as inúmeras maternidades que as mulheres têm de sofrer, bem como as grandes evoluções da medicina no campo da maternidade. Se pensarmos que estas reflexões foram escritas no início dos inícios do século XX, veja-se o avanço da mente do narrador (ou terei de dizer “autor”), um judeu e maçon e dos países do Norte da Europa.

Há outros fragmentos, porém, que são quase incompreensíveis de longos e chatos, com uma linguagem muito peculiar e referências culturais que, pelo a mim, me passam muito ao lado.

Tanto a dizer acerca do Ulisses de Joyce! Hei de voltar…

De enaltecer a qualidade do texto reescrito em português pelo excelente tradutor Jorge Vaz de Carvalho. Não lhe deve ter sido nada fácil, mas está muito bem conseguido.

(A propósito e na esteira do Ulisses de Joyce, não posso deixar de referir «Uma Viagem à Índia» de Gonçalo M. Tavares, uma narrativa igualmente estonteante e estilhaçante ancorada em Os Lusíadas, também em X Cantos.

Hei-de “trazê-la” aqui.)