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sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Nunca é de mais recordar


Estas memórias fui buscá-las ao Expresso. 25 de Novembro de 1975. Nunca é de mais recordar. E repisar...


«O 25 de Novembro de 1975 foi reduzido por quase todos os comentadores ao confronto entre democracia ocidental e totalitarismo soviético. Duas semanas antes, Mário Soares e Álvaro Cunhal tinham protagonizado o famoso debate na RTP do «Olhe que não, doutor...». Henry Kissinger, secretário de Estado de Nixon, tinha visto em Soares e em Cunhal émulos de Kerenski e de Lenine e previsto para Portugal o mesmo desfecho de 1917, na Rússia. Mas era, de facto, isso que estava em causa?


Entre 1974 e 1975 viveu-se um dos períodos mais ricos e agitados da História portuguesa recente. Um regime que parecia eterno caiu num só dia. Sem censura, sem polícia política e sem guerra colonial, o mundo parecia ao alcance da mão. (...)


 Cercado no Quartel do Carmo, a 25 de Abril de 1974, Marcello Caetano chamara Spínola «para o poder não cair na rua». 

 Um ano depois, os partidos não se entendiam. O Presidente da República, não eleito, era um polo de conspiração. Estava assinado um pacto entre o Movimento das Forças Armadas e os partidos. O Conselho da Revolução tutelava a produção legislativa. Nos círculos militares vivia-se um delicado equilíbrio. A Igreja virava à direita e amotinava o campo contra o comunismo. Até porque a hiperpolitizada vida de Lisboa aparecia como um universo estranho às populações rurais, cujo quotidiano pouco mudara com o 25 de Abril. (...)

No final do Verão Quente de 1975, os sectores básicos da economia estavam nacionalizados. Lisboa tinha, semana sim, semana não, grandes manifestações de moradores, trabalhadores, estudantes e soldados, às quais delegações da extrema-esquerda europeia davam um toque cosmopolita. No Norte havia bombas e arruaças contra as sedes do PCP e partidos mais à esquerda. Lá se dizia que Portugal só começava de Rio Maior para norte e que para baixo «era Moscovo». (...) 

Já Mário Soares tinha a apoiá-lo na famosa manifestação da Fonte Luminosa radicais da extrema-direita com quem não se sentaria à mesa. Os diversos poderes político-militares viviam um equilíbrio instável que não iria durar sempre. E a tentação totalitária não estava só do lado da esquerda. O revanchismo dos derrotados do 25 de Abril sonhava com um Pinochet português e o Estádio da Luz cheio de «comunas» para fuzilar...

Ao fim do dia 25 de Novembro de 1975, quando as forças afectas ao VI Governo Provisório neutralizaram as unidades militares contestatárias, houve choro e ranger de dentes dos dois lados. Mais à esquerda acusava-se o PCP de traição por não ter apoiado a resistência nas ruas. No extremo oposto do espectro amaldiçoava-se o major Melo Antunes quando este apareceu na TV a vincar que o PCP era indispensável à construção da democracia.

A 30 de Novembro, escrevia-se em «Le Monde»: «A revolução romântica, à 'Couraçado Potemkine', que há um ano incomodava a Europa e inquietava Washington, dissipou-se em 48 horas como uma nuvem de fumo. Alguma vez teria sido outra coisa?»




terça-feira, 1 de novembro de 2016

1 de Novembro de 1755

«Sabe-se que naquele dia, um sábado, algures entre as 9 e meia e as 10 da manhã, “começou o território de Lisboa a tremer de sorte que dentro de pouco tempo se sentiu abalar a terra de vários modos. […] No princípio foi mais brando o abalo. Mas pouco depois crescendo cada vez mais o tremor, começaram primeiramente a estalar os forros e sobrados, logo a despegarem-se os rebocos, depois a abaterem-se com grande estampido as abóbodas, caindo ou abrindo-se por último as mesmas paredes e torres.” Assim principia o padre Pereira de Figueiredo a sua descrição da catástrofe, para depois continuar: “alguns sete minutos durou o tremor de terra, o mais formidável que jamais viram os Portugueses. A este se seguiram outros quatro, mais pequenos na duração, mas iguais na força […] ao primeiro tremor de terra se seguiu imediatamente no mar uma extraordinária alteração e crescimento das águas […] e em Lisboa saindo dos seus limites, e entrando pela terra dentro mais de cinquenta estádios, romperam as ondas algumas pontes, desfizeram muros, e arrojaram à praia madeiras de demarcada grandeza.” A destruição não ficou por aí: “mas ainda se não dava por satisfeita com estes castigos a ira de Deus que no mesmo dia afligiu com outro novo, e muito sensível golpe a infeliz Lisboa. Foi esse grandíssimo incêndio, que de repente se ateou em vários sítios da Cidade […] e como o susto tinha afugentado de tal sorte a gente, que atónitos e espavoridos andavam quase todos dispersos pelos campos, puderam as chamas discorrer livremente por várias partes, e consumir em quatro dias as riquezas de uma cidade, que era o Empório de toda a Europa.” Eis, de forma concisa, o que se passou naquele dia. […]

Os efeitos sobre o património edificado foram devastadores, afirmando-se pouco depois da ocorrência que mais de dois terços da cidade se encontravam inabitáveis. A esmagadora maioria das cerca de quatro dezenas de igrejas paroquiais ficou destruída ou em risco de ruína. Todos os hospitais soçobraram. Destruídos ficaram a maioria dos edifícios da administração central e das alfândegas, tal como o Paço Real da Ribeira e, com ele, as edificações mais emblemáticas de D. João V e de D. José na cidade: a Igreja Patriarcal e a Ópera do Tejo, respetivamente. […] Por fim, terão sido destruídos a maioria dos stocks de mercadores existentes nas alfândegas, nos armazéns e nos próprios navios, com notórios efeitos em todo o comércio internacional da época.»


(in «D. José Na Sombra de Pombal», de Nuno Gonçalo Monteiro, Círculo de Leitores, 2006, pp. 81-82)




segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Quinta das Lágrimas




Situada a cerca de quinhentos metros do Convento de Santa-Clara-a-Velha, a quinta terá sido, no século XIV, coutada de caça da família real que então residia em Coimbra. 

O documento mais antigo em que a quinta é referida data de 1326, ano em que a Rainha Santa Isabel mandou fazer um canal para levar a água de duas nascentes para o Convento.



A fonte de onde saía a água para o Convento foi chamada «Fonte doa Amores» por ter presenciado os amores de Pedro e Inês. A outra foi apelidada por Camões de «Fonte das Lágrimas» por ter nascido das lágrimas que D. Inês terá chorado quando foi assassinada pelos três validos do rei D. Afonso IV, pai de D. Pedro.










Mais tarde passou para as mãos da Universidade. Em 1650, a quinta foi murada tendo a água das fontes sido aproveitada para alimentar as mós do grande lagar de azeite da cidade.

No século XVIII foi adquirida pela família Osório Cabral de Castro, antepassado dos atuais proprietários, e foi então que o palácio foi construído passando a chamar-se Quinta das Lágrimas.




A mata é deslumbrante com árvores seculares de grande porte e de grande beleza.











Foi apenas em 1995 que o palácio passou a ser uma unidade hoteleira com o nome de Hotel Quinta das Lágrimas.







E foi lá que aqui o "jovem casal" foi celebrar os seus 45 anos de casamento...




quarta-feira, 5 de outubro de 2016

5 de Outubro - Viva a República!

Museu Republicano e Maçónico de Pedrogão Grande

Para homenagear a Implantação da República, lanço mão de parte do discurso proferido hoje pelo nosso amigo Acácio de Sousa, ilustre leiriense estudioso da História do país, licenciado em História pela U. de Coimbra e doutorado em Ciência Política pela U. Nova de Lisboa.

E disse ele: «… Em Portugal, entre os séc. XIX e XX o confronto entre quem mantinha privilégios de linhagem e quem labutava para fazer riqueza e aspirar a outras oportunidades levou à proliferação das ideias republicanas, sobretudo, nos profissionais liberais, comerciantes e militares.

Esta gente com interesses muito diferentes mas com o objetivo comum de acabarem com os privilégios de alguns num país arruinado e permitirem a igualdade de acesso às mesmas oportunidades clamava pelo ensino e pela cultura para todos e pretendia denunciar o caciquismo eleitoral. Assim nasceu o Partido Republicano, uma amálgama de gente diferente que tinha um objetivo comum: o fim da monarquia.

Por isso nem tudo correu bem depois do 5 de Outubro de 1910. (…) Os interesses mais específicos de vários grupos levariam ao fracionamento do Partido Republicano e ao aparecimento de novos pequenos partidos, o que seria natural num processo democrático. Mas os Republicanos tornaram-se autofágicos entre si, na luta pelo poder central e na luta pelos pequenos poderes e cometeram erros:
  •    Afrontaram, sem o cativar, o povo rural;
  •    Ficaram-se pelo eleitorado citadino;
  •   Impediram as mulheres de votar;
  •  Preferiram o voto capacitário e não arriscaram o voto universal.

Além disso, apanharam o choque da Grande Guerra; apanharam a nova república sidonista e a reorganização dos monárquicos/católicos; apanharam a revolução bolchevique; apanharam Fátima e o novo centro de irradiação da mensagem mariana, mas também de “cruzada contra os que haviam desprezado” os valores cristãos.

A República entrou em agonia: as tentativas de golpe começaram a ser permanentes e tivemos governos que duraram dias. Republicanos da velha guarda como Mendes Cabeçadas, para não falar em Machado dos Santos, barbaramente assassinado em 1921, ansiavam pela reposição da ordem! O golpe de 28 de Maio de 1926 foi recebido com alívio por muitos republicanos. (…)

Quer isto dizer que o 5 de Outubro de 1910 e a 1ª República de nada valeram? Não!

  • O ensino teve um incremento fantástico desde as camadas infantis até às mais idosas, coisa que o estado autoritário fez regredir;
  • O poder dinástico ou os poderes de linhagem findaram em definitivo;
  • O ensaio democrático permitiu a apresentação de uma Constituição das mais humanizadas do mundo de então, onde estava consagrado o ideário da «liberdade, igualdade e fraternidade.                                                                                                                        
            Não foi integralmente cumprida? As fraquezas são humanas e os tempos não o permitiram, mas ficou o gérmen para o regresso à democracia e perpassou até hoje o gérmen da regeneração permanente da ideia republicana, laica e democrática.»

              Viva a República!!

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Nunca tal tinha ouvido!

Tomei conhecimento hoje no facebook   (admirável mundo novo!) por uma notícia antiga (de 2015): a cidade romana de Balsa de que nunca tinha ouvido. Santa ignorância! Tantas idas ao Algarve e nunca tinha ouvido falar!



Balsa, nome de origem fenícia (a forma inicial seria Baal Safon ou Baal Shaman, epítetos do deus fenício protector dos navegantes, e corresponderia à designação do povoado fenício de Tavira (sécs. VIII-VI a.C) foi a capital do Algarve Oriental na Época Romana, 1100 anos antes de Tavira.

Ao Porto de Balsa chegavam barcos e mercadorias dos mundos distantes de Roma, Cádiz, de Leptis Magna, de Thamusida, de Lixus e de Cartenna. As suas ruínas, soterradas há mais de mil e quinhentos anos, esperam para revelar uma das cidades mais vivas do Mediterrâneo ocidental.

Em 1866, os arqueólogos Estácio da Veiga e Teixeira de Aragão realizaram as primeiras escavações em Luz de Tavira. Mas só em finais dos anos 70 do séc. XX se realizou o único relatório técnico arqueológico. Desde então, a cidade romana de Balsa, um dos mais brilhantes centros urbanos do Portugal romano, caiu no esquecimento.

Manuel Maia, autor do relatóriotécnico, foi um dos arqueólogos que, em 1977, fez parte da equipa que ficou deslumbrada com a descoberta desta cidade romana à beira-mar, na Quinta da Torre D´Aires.

“Começámos a escavar às cegas porque à superfície não se via nada. Eu escavei na parte mais baixa e apanhei o esgoto das termas. O Quartim Ribeiro escavou no vale e apanhou-se uma lixeira dentro de uma casa arruinada, com coisas absolutamente espectaculares. A minha mulher (Maria Garcia Pereira Maia) escavou mais abaixo, num complexo de salga de peixe. Cetárias, umas a seguir às outras. Estávamos absolutamente deslumbrados”, descreve.

Na Quinta Torre de Aires há ainda necrópoles, uma parte habitacional, edifícios com mosaicos, balneários, tanques de salga de peixe, cerâmica e moedas.

Fora da zona classificada como património arqueológico e Zona Especial de Protecção haverá ainda aquedutos, necrópoles, fornos industriais, um hipódromo e algumas vilas suburbanas. A dimensão dos vestígios é imensa e não há nada comparável em território nacional.

“Conímbriga ao pé daquilo é uma pequena cidade de província... Mesmo Lisboa era mais pequena. Balsa era uma super cidade portuária”, sublinha Manuel Maia.

Ao longo dos anos, a área com valor arqueológico - muito maior do que o sítio classificado - foi sendo destruída.

Há proprietários de moradias, fora do sítio classificado, que durante a construção, descobriram termas romanas. Estas ou foram destruídas ou que ainda estão nas caves dessas moradias. Outros dão-se ao luxo de ter paredes de casas de banho forradas a pequenos mosaicos romanos.

A estação romana da Luz está numa área sob forte pressão imobiliária - mas não há uma estratégia de salvaguarda.

Os terrenos classificados, propriedade de privados, foram utilizados em agricultura ao longo dos anos. Mas agora, foram destruídos, em parte, com obras de construção de estufas de frutos vermelhos que obrigam a terraplanagens e à instalação de sistemas de rega escondidos em valas de alguma dimensão.

“Abandonaram aquilo”, diz Manuel Maia. “Não sei os interesses económicos que estão por detrás e que estiveram sempre por detrás. Foram autorizadas construções por todo o lado. O que é que está por detrás disso não sei.”

Balsa foi completamente abandonada.

Em 2007, Luís Fraga da Silva apresenta o livro «BALSA, Cidade Perdida», profusamente ilustrado, a primeira obra de divulgação sobre essa importante cidade romana. Nele se revelam alguns dos achados arqueológicos aí descobertos, assim como importantes aspetos da sua história, urbanismo, economia e população.


Deixo aqui a parte inicial de um filme realizado para a RTP2 sobre a acrópole romana de Balsa para quem tiver curiosidade.




quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Desolação

Poema de um “retornado” muito anterior à saga dos “retornados” de África.


LISA

«Amor, que resta dos nossos sonhos?
Das lindas ilusões que criámos, que nos ficou?
Roubaram a nossa casa, estamos na rua, sem lar.
Quem cuida das tuas flores, quem dá esmola aos teus pobres?
Que vai ser dos nossos filhos?
… … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … …
«Não sei, amor, não sei nada… mas não chorem
teus olhos por nós… juntos, choraremos por GOA».

                                                                              Teu
                                                                              Arnaldo

n/m Searaven, 18-12-1961

(epígrafe do livro “Tempo de falar – Diário da Invasão de Goa”, Bastos Martins)






(Vassalo e Silva, o último Governador de Goa, despede-se das gentes daquela colónia)

domingo, 24 de julho de 2016

Um pouco de História faz sempre bem

(Av.ª 24 de Julho, em Lisboa)

Hoje é dia 24 de Julho. Sabemos que uma das avenidas mais importantes da cidade de Lisboa tem esse nome: Avenida 24 de Julho. Corre paralela ao Rio Tejo e à linha de Cascais desde o Cais do Sodré até Alcântara.

A data que essa larga e longa artéria da capital celebra tem a ver com a Guerra Civil que se viveu o nosso país entre os anos de 1828 e 1834 que opôs os irmãos D. Pedro IV, liberal, e D. Miguel, absolutista, filhos de D. João VI e de D. Carlota Joaquina que, mercê das invasões francesas, mudaram temporariamente a capital do reino para o Brasil.

Foi exatamente no dia 24 de Julho de 1833 que as tropas liberais leais a D. Pedro,comandadas pelo Duque da Terceira, entraram em Lisboa. Vindos do Algarve onde desembarcaram oriundos do Porto, atravessaram o Alentejo e, no dia anterior, dia 23 de Julho, derrotaram ainda em Almada as tropas miguelistas.

Quando chegaram a Lisboa não tiveram de recorrer à violência porque as forças apoiantes do rei D. Miguel tinham-se posto em fuga de madrugada. Assim libertaram a cidade do jugo dos absolutistas.


No ano seguinte, 1834, deu-se a completa libertação do país, tendo D. Miguel renunciado ao trono e sido enviado para o exílio em Viena de Áustria, condições que lhe foram impostas pela Convenção de Évora-Monte.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

O Cromeleque dos Almendres



Alguém conhece o Cromeleque dos Almendres? Eu, por acaso, não e já fui tantas vezes a Évora!

E o Stonehenge, conhecem? Claro. Nem que seja de ouvir falar, de ler, de ver as belas imagens pelos solstícios de Verão e de Inverno. Eu, pelo menos, sou daquelas que dava tudo para o ver ao vivo e a cores! Nem queiram saber o desgosto que senti quando, em finais de 70, ganhei uma bolsa de estudo de um mês na Universidade de Chichester, no Sul de Inglaterra, ali a uns míseros cem quilómetros do Stonehenge e não pude lá ir!

Agora do Cromeleque dos Almendres – desculpem «ignorância de macaco»! – só ontem ouvi falar por via de uma notícia que li na Tribuna do Alentejo cujo título «Stonehenge alentejano está a fascinar britânicos» me chamou a atenção.







Então o dito monumento megalítico é um dos maiores e dos mais antigos da Europa e situa-se a cerca de 15 quilómetros da vetusta cidade de Évora, num local perfeito, dizem, para as celebrações dos solstícios. É mais antigo do que o Stonehenge, só que não tem, nem nunca teve a projeção cultural ou turística daquele. Talvez agora, com a publicação da notícia no jornal britânico The Independent, os turistas ingleses e outros passem a visitá-lo e a considera-lo e depois, talvez, nós próprios, consigamos afastar um pouco o nosso nacional-parolismo que nos leva a preterir o que é nosso sempre em favor do que vem de fora, e passemos também a admirá-lo e, sei lá até a utilizá-lo como local de culto pagão…




Leia o artigo do The Independent aqui.

Leia mais sobre o Cromeleque dos Almendres aqui.

sábado, 11 de junho de 2016

Somos uns tristes!!

A notícia diz isto:

Renúncia definitiva de Portugal à nau “Bom Jesus” (1533) direitos foi negociada por Paulo Portas quando era responsável pelos Negócios Estrangeiros.

O Estado português renunciou em 2013, ao direito de ficar com o “Bom Jesus”, uma nau portuguesa do século XVI, da Carreira da Índia, cujo tesouro chegou a ser avaliado por arqueólogos entre os 70 e os 100 milhões de euros.

A história sobre o navio histórico, encontrado nos mares da Namíbia e foi notícia da cadeia de televisão americana “Fox News” esta quinta-feira.

A renúncia definitiva de Portugal aos seus direitos foi negociada por Paulo Portas, quando era responsável pelos Negócios Estrangeiros e o memorando de entendimento com a Namíbia foi assinado pelo então secretário de Estado da Cultura Jorge Barreto Xavier.

Ouvido pelo CM, Barreto Xavier diz que “não se recorda dos termos” mas o que quer que tenha assinado, “nunca colocaria o Estado Português em desvantagem”.



Um pouco de História:

«Há cinco séculos, um navio carregado de ouro naufragou ao lado de uma praia cheia de diamantes.

Um navio mercante português do século XVI, carregando uma fortuna em ouro e marfim a caminho de um famoso porto de especiarias na costa da índia, é desviado para longe da sua rota por uma terrível tempestade ao tentar contornar a extremidade austral de África.

Dias mais tarde, castigado e quebrado, o navio afunda-se numa misteriosa costa envolta em nevoeiro, salpicada com mais de cem milhões de quilates em diamantes, uma ironia cruel para os sonhos de riqueza dos marinheiros, que nunca voltaram a casa.

Este conto improvável ter-se-ia perdido para sempre sem a descoberta dos destroços de um navio numa praia a Sul de Sperrgebiet em Abril de 2008.

Trata-se da rica mina de diamantes, famosa pela sua inacessibilidade junto à foz do rio Orange, na costa meridional da Namíbia.

Um geólogo trabalhava na área de mineração U-60 quando encontrou aquilo que, à primeira vista, pensou ser metade de uma esfera de rocha perfeitamente redonda. Curioso, pegou-lhe e percebeu de imediato tratar-se de um lingote de cobre.

O lingote era do tipo utilizado para comprar especiarias na Índia durante a primeira metade do século XVI. Mais tarde, os arqueólogos descobririam 22 toneladas destes lingotes sob a areia, bem como canhões e espadas, marfim e astrolábios, mosquetes e cotas de malha.

E ouro, evidentemente. Mãos-cheias de ouro: nas escavações, encontraram-se mais de duas mil belas e pesadas moedas, sobretudo excelentes espanhóis, com as efígies de Fernando e Isabel, mas também requintados portugueses com as armas de Dom João III, algumas moedas venezianas, islâmicas, florentinas e de outras nacionalidades. São de longe os mais antigos e os mais ricos destroços de um navio naufragado descoberto na costa da África subsariana.



Nenhum dos tesouros inflamou tanto a imaginação dos arqueólogos como o próprio naufrágio: um navio português da armada das índias da década de 1530, o pico dos Descobrimentos, com a sua carga de tesouros e bens comerciais intactos, jazendo, insuspeito, nestas areias durante quase 500 anos.»

(leia mais em  
http://afmata-tropicalia.blogspot.pt/2012/03/naufragio-em-zona-proibida-moedas-e.html


E o irrevogável ministro dos Estrangeiros - que está a preparar-se para fazer o tirocínio para PR - renunciou a tudo isto liminarmente e sem qualquer explicação!

Porque será que me lembrei do Sousa Lara?! Somos unstristes!!

sábado, 28 de maio de 2016

O 28 de Maio de 1926

Nos 90 anos de golpe do 28 de Maio, trago aqui as memórias de Humberto Delgado sobre o assunto:

«Já referi o estado de desorganização e o colapso moral que afectava o Exército. Não admira, portanto, que os oficiais subalternos – alma e coração do movimento – tivessem tido grande dificuldade em encontrar um general disposto a chefiá-lo na tentativa de derrube do governo [de António Maria da Silva]. Acabaram por encontrar esse chefe no general Gomes da Costa.

(daqui)
Da muito católica cidade de Braga, o general Gomes da Costa fez a sua proclamação ao País. Redigida em termos sóbrios, dizia o seguinte:

“A Nação quer um governo nacional militar rodeado das melhores competências, para restituir à administração do Estado a disciplina e a honradez que há muito perdeu. Empenho a minha honra de soldado na realização de tão nobre e justo propósito.

Não quer a Nação uma ditadura de políticos irresponsáveis como a que tem havido até agora; que um governo forte que, tendo por missão salvar a Pátria. Concentre em si todos os poderes para, na hora própria, os restituir a uma verdadeira representação nacional, ciosa de todas as liberdades, representação que não será de quadrilhas políticas mas dos interesses reais, vivos e permanentes de Portugal.

Entre todos os corpos da Nação em ruínas é o Exército o único com autoridade moral e força material para consubstanciar em si a unidade de uma pátria que não quer morrer.

À frente do Exército português, pois, unido na mesma aspiração de redenção patriótica, proclamo o interesse nacional contra a acção nefasta dos políticos e dos partidos, e ofereço à Pátria enferma um governo forte, capaz de opor aos inimigos internos o mesmo heróico combate que o Exército deve aos inimigos externos.

Viva a Pátria!

Viva a República!

                                                                                General Gomes da Costa”


Entretanto, o governo do Partido Democrático demitiu-se. (…) A 30 de Maio, Bernardino Machado, presidente da República, convidou o comandante Mendes Cabeçadas a formar governo. (…) A guerra fria entre Gomes da Costa e Mendes Cabeçadas começava. (…) No dia 31 de Maio o presidente da República demitia-se. (…) A 12 de Junho de 1926, Gomes da Costa anunciava novo movimento militar, desta vez para afastar Mendes Cabeçadas, que tentou resistir, mas como lhe faltassem apoios, foi corrido a 17 de Junho. Este foi o primeiro golpe de Estado. O segundo foi a 9 de Julho. Gomes da Costa não possuía a cultura e o equilíbrio necessários para tais funções, tendo sido escolhido apenas pela sua capacidade militar. Assim, acabou por ser exilado para os Açores a 11 de Julho e dez dias mais tarde foi promovido a marechal. (…)

A 30 de Setembro de 1927 foi criada a União Nacional, começando assim o domínio do partido único. (…) Quanto ao Dr. Salazar (…) voltará de novo à cena ao assumir o verdadeiro poder, a 28 de Abril de 1928, quando aceita a pasta das Finanças com a condição de serem previamente submetidas à sua autorização todas as despesas do Estado.»

(Memórias de Humberto Delgado, D. Quixote, 1991, pp 60-69)


O resto sabemos bem como foi …

domingo, 31 de janeiro de 2016

Há 125 anos gritou-se Viva a República...31 de Janeiro de 1891...


"O mais luminoso e viril movimento de emancipação que ainda sacudiu Portugal no último século" , assim definiu João Chagas o levantamento revolucionário de 31 de Janeiro de 1891, no Porto, a primeira grande tentativa republicana de derrube da monarquia.



O ambiente de exaltação revolucionária e patriótica no Porto foi exemplarmente traduzido pela Liga Patriótica do Norte (LPN), fundada a 26 de Janeiro de 1890, logo a seguir ao ultimato. Presidida - a convite do monárquico Luís de Magalhães - pelo prestigiado poeta e socialista Antero de Quental, então radicado em Vila do Conde, a LPN reunia monárquicos e republicanos, irmanados no repúdio ao ultraje inglês e na ambição de recuperação de um país mergulhado em grave crise política, económica e social.

"Portugal - proclama Antero - expia com a amargura deste momento de humilhação e ansiedade de quarenta anos de egoísmo, de imprevidência e de relaxamento dos costumes políticos, quarenta anos de paz profunda que uma sorte raríssima nos concedeu e que só soubemos malbaratar na intriga, na vaidade, no gozo material, em vez de os aproveitar no trabalho, na reforma das instituições e no progresso das ideias".

Para o grande poeta - que após o fracasso do 31 de Janeiro regressa aos Açores, suicidando-se em Setembro de 1891 - o maior inimigo não era o inglês: " Somos nós mesmo, e só um falso patriotismo, falso e criminosamente vaidoso, pode afirmar o contrário. Declamar contra a Inglaterra é fácil: emendar os defeitos da nossa vida nacional será mais difícil (...) Portugal, ou se reformará, política, intelectual e moralmente, ou deixará de existir. Mas a reforma, para ser efectiva e fecunda, deve partir de dentro, do mais fundo do nosso ser colectivo: deve ser antes de tudo uma reforma dos sentimentos e dos costumes. Enganam-se os que julgam garantir o futuro e assegurar a nacionalidade com meios exteriores e materiais, com armamentos e alarde de força militar ".





quarta-feira, 25 de novembro de 2015

25 de Novembro de 1975

Passam hoje 40 anos sobre esse dia.

O General Ramalho Eanes, que foi o discreto herói do 25 de Novembro, afirmou hoje que "O 25 de Novembro foi um momento fraturante e eu entendo que não devemos comemorar, os momentos fraturantes não se comemoram, recordam-se e recordam-se apenas para refletir sobre eles.»

Nesse tempo andava eu ocupada por de mais com a nossa primogénita bebezinha e com uma carreira profissional também a começar numa cidade que não era a minha, pelo que pouco sei para refletir sobre essa data marcante da História da nossa recém-nascida Democracia. Assim, resolvi lançar mão de quem escreveu sobre esse(s) dia(s) nos próprios dias.

Vergílio Ferreira, na entrada de 26 de Novembro de 75 do seu diário «Conta-Corrente 1», escrevia no seu estilo seco:

«Na madrugada de ontem, sublevaram-se os pára-quedistas, que ocuparam várias bases. Reacção dos militares «fiéis». Declarado o estado de sítio. Confrontos. Tiros. Alguns mortos, para começar a haver revolução. Mas tudo isto é quase abstracto, porque nada vimos. Só a rádio não há jornais. Consta que o Otelo está preso. Presos outros, menores. Um momento de esperança de que a democracia triunfe. Entretanto a vida continua. (…)

27-Novembro (quinta). Ontem foi declarado o estado de sítio em Lisboa. Houve mortos num confronto de militares, hoje, aviões em esquadrilha sobre a cidade.

29-Novembro (sábado). Notícias da rádio dizem que terminou a resistência dos pára-quedistas de Tancos. Presos três oficiais e seis sargentos. A rádio transmite «folclore» português, dizendo com alegria que há muito não era transmitido. Limpeza geral nas redacções e administrações de jornais estatizados. Iremos enfim respirar? (…)

2-Dezembro (terça). Terminou o estado de sítio, no fundo, não se acreditou sequer que tivéssemos estado ameaçados. A nossa «brandura de costumes» é a nossa superficialidade de ser. A nossa infância prolonga-se até muito tarde e tudo assim nos é um jogo infantil. Simplesmente, com oitocentos anos de História, a nossa infância é a infância da velhice. O mais difícil sempre para nós é assumirmos gravemente o que somos. Assim o que nos perde (ou nos salva) é a nossa inconsciência.»

(in conta-corrente 1; Livraria Bertrand, Lisboa, 1982, pp 294-5)





Entretanto Natália Correia, no seu estilo emotivo, romântico, quase épico, escrevia em 25 de Novembro de 1975:

«Finalmente! Cessa o rodar de suspeita em suspeita, de ansiedade em ansiedade.  (…) Estávamos fartos de granadas fantasmas a rebentar-nos dentro do crânio.

É, por enquanto, inapreensível a dimensão do rebentar do fogo. Mas o que já se sabe torna inequívoco que o país está à beira de servir o sangue a uma guerra civil.

Os «páras» insurrectos que em Tancos levaram os oficiais moderados a abandonar a unidade num acto de protesto contra a subversão da hierarquia destituíram o chefe do seu Estado-Maior. Tancos, Monte Real, Ota e Montijo, assaltadas durante a noite, estão dominadas pelo braço armado do poder popular. (…) Vasco Lourenço acaba de ser nomeado comandante da Região Militar da Lisboa, apeando com o coração desfeito o parasita da sua afeição. (…) O Ralis (…) põe à porta do quartel o seu aparato bélico. Elementos dos Copcon ocupam a Emissora Nacional e o Rádio Clube Português. A EPAM apossa-se dos estúdios da RTP. No ecrã surge o emblema do poder popular enfeitando as bravatas de um vaqueiro western populista – o capitão Durand Clemente.  (…) A Frente Militar Unida, na qual o «grupo dos nove» é uma peça destacada de entre centenas de oficiais, acelera as suas reuniões clandestinas. (…) Otelo esbraveja contra o VI Governo, vetando publicamente a nomeação de Vasco Lourenço. Por largas horas o país dividido ao meio. Corta-o o levantamento de pequenos e médios agricultores concentrados em Rio Maior. (…) De facto esse esquiço da divisão do país em dois corresponde a um esquema de que tomei conhecimento na reunião de Cascais: no caso de se perder Lisboa e de resultar infrutífera a «selagem» da cintura da cidade por Cascais e Sintra, recuar para o paralelo entre Mafra e Santarém, para onde avançarão tropas vindas do Norte. Este projecto implica naturalmente a transferência do Governo e da Presidência da República para o Porto.

O telefone retine insistentemente. São amigos do Porto e de Coimbra. Pedem-me que saia de Lisboa.

(…) Fico.

O Presidente da República acaba de decretar o estado de emergência na capital.

28 de Novembro de 1975

À meia-noite uma última badalada varre os ruídos da cidade. O estado de emergência não foi considerado suficiente para a gravidade da situação militar e o estado de sítio passa a vigorar na Região Militar de Lisboa.

O silêncio exaspera. Estamos sem jornais. Lacónicos comunicados informam espaçadamente a nossa ansiedade. O mais angustiante é que dessas escassas informações não conseguimos concluir se estamos ou não numa guerra civil.

(…) registo outro nome: Ramalho Eanes. Discretamente – pouco se fala dele – este Major é o coordenador do auge das operações contra golpistas que desde Agosto, pelo menos, têm, na clandestinidade, encontrando nele um firme atirador.

(…) Enfim: espremido o limão verde do 25 de Novembro resta-me a convicção de que o fogaréu revolucionário está a passar a cinzas. Estão criadas as condições para que a revolução recolha a penates e se institucionalize a democracia.»

(in «não percas e rosa», Editorial Notícias, Lisboa, 1978, pp 349-360)


quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Para que não nos esqueçamos

Faz hoje 70 anos que nasceu a Polícia Internacional e de Defesa do Estado. A 22 de Outubro de 1945 o Decreto-Lei n.º 35 046 dava "corpo" à PIDE, que foi braço direito do regime. 


Em 1969, passou a ter o nome de Direção-Geral de Segurança, continuando a ser conhecida por PIDE/DGS. Segurança não das pessoas, mas do regime e, para isso, escutava, prendia sem julgamento, torturava, exilava e matava - não esquecer o assassínio do General Humberto Delgado em 13 de Fevereiro de 1965.





(daqui)

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Eu não tenho a culpa...

Nos já distantes idos de 70/80, tive uma colega na minha «velha» D. Dinis que era tão PPD, mas tão PPD, que andava sempre com o emblema do partido na lapela – como os “nossos” atuais governantes andam com a bandeirinha de Portugal na lapela…  Era uma pessoa irritante até à voz e ao tom que usava e ninguém lá na escola a suportava. (Acabou por ficar muito minha amiga, mas isso foi por outros motivos.)

Quando a AD (a Aliança Democrática do Dr. Sá-Carneiro, do Dr. Freitas do Amaral e do Arq. Ribeiro Telles) liderada pelo Dr. Balsemão começou a dar raia não conseguindo governar o país, as pessoas queixavam-se das más condições de vida (como agora, aliás). Apareceu então um slogan que dizia isto: «Eu não tenho a culpa, não votei AD!»

Ora um belo dia, demos com aquela nossa colega do emblemazinho do partido na lapela na sala de professores a queixar-se amargamente já não me lembro de quê. Ora eu, com este feitiozinho que já me vão conhecendo, não estive com meias medidas e, irónica como sempre fui, atirei-lhe: «Eu não tenho a culpa, não votei AD!»

Depois habilitei-me a levar um bom de um “puxão de orelhas” de outra colega (por acaso simpatizante do MES - Movimento de Esquerda Socialista) até porque, à época, eu era um verdadeira «fedelha» enquanto elas já eram mulheres feitas com filhos adolescentes (alguns deles meus alunos).

Lembrei-me deste episódio quando ontem li uma carta dos leitores no meu jornal diário que dizia assim:

«A maioria dos cidadãos portugueses elegeu novamente a coligação governamental para exercer durante mais quatro anos. Não sei se foi pela promessa do reembolso da sobretaxa ou pelo episódio ternurento do uso de um crucifixo na campanha, mas quando algum pensionista se queixar do desaparecimento da sua reforma eu não os vou ouvir.
Quando algum pai acompanhar ao aeroporto o seu filho que foi obrigado a emigrar chorar diante das câmaras de televisão, eu apago o receptor. Eu já não me emociono quando ouvir alguém lamentar-se da sua interioridade, que fez quilómetros para ir a um hospital público sobrelotado ou a um tribunal sem condições. Jamais os quero ouvir dizer que os seus filhos estão a ser mal acompanhados nas escolas pois não existem funcionários nem professores suficientes. Quando se indignarem perante o aumento do IMI, do agravamento do IVA e do IRS, quando se afligirem pela diminuição dos seus apoios sociais, eu simplesmente não vou fazer caso porque foi a vossa escolha.»

Emanuel Caetano, Ermesinde


Por mim, ironicamente direi sempre: «Eu não tenho a culpa, não votei AD!»