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terça-feira, 30 de agosto de 2016

Parabéns, Dona Cleo!

Cleonice Berardinelli – cem anos!

Esta senhora, figura grande do estudo e do ensino da literatura portuguesa no Brasil, professora universitária e membro brilhante da Academia Brasileira de Letras, completou cem anos no passado dia 28.

Especialista em Camões e Fernando Pessoa, não desmerecendo autores desde Eça até Saramago, considera a Literatura Portuguesa – que conhece profundamente – a base de tudo. E diz: «Nós chegamos até aqui porque existiu lá atrás um sujeito chamado Camões. Ninguém mais conhece Dom Diniz, que escreveu as cantigas de amor mais lindas. Então, tudo isso é o lastro de conquistas seguidas até se chegar ao século XVI, com os artistas já considerados clássicos. Até chegar o Gil Vicente, foi preciso passar antes pelos esboços de teatro de Henrique da Mota, por exemplo

Dona Cleo formou gerações e mais gerações de professores e intelectuais. Alguém lhe pergunta o que significa leccionar, ao que responde com toda a simplicidade: «Tudo. A aula é o começo de tudo. O que eu escrevi foi a partir do que eu estudei para ensinar. Os ensaios que eu escrevi nasceram na sala de aula. A minha atividade como professora, como didata, é a raiz de tudo que eu fiz, de tudo que eu escrevi. Uma pessoa que me entrevistava me perguntou: "Como pode a senhora chegar a esta idade com este entusiasmo, esta paixão pelo que faz?". Eu disse: "Porque nunca parei de dar aulas e nunca parei de fazer exatamente aquilo de que eu gosto". Então, trabalhar naquilo que se gosta é realizar-se. É a impressão que eu tenho. Se me obrigassem a pentear cabelos, eu seria uma desgraçada total. No terceiro cabelo, eu já estaria louca. Eu penso nisso porque sempre detestei me pentear.

Em magnífica forma, dizem os seus amigos, mantém a sua capacidade de comunicação e de ler bem os versos dos poetas que estudou e admira.


E em dias de festa para a língua portuguesa, a escritora e amiga Nélida Piñon também celebra: “são 100 anos augustos, benditos. E teve uma vida muito bonita. Ela serviu ao rei que ela queria: a língua portuguesa”.


Oiçamo-la!




(Para saber mais:)



terça-feira, 5 de julho de 2016

Da nossa pequenez



As rosas amo dos jardins de Adónis,
Essas volucres amo, Lídia, rosas,
        Que em o dia em que nascem,
        Em esse dia morrem.
A luz para elas é eterna, porque
Nascem nascido já o Sol, e acabam
        Antes que Apolo deixe
        O seu curso visível.
Assim façamos nossa vida um dia ,
Inscientes, Lídia, voluntariamente
        Que há noite antes e após
        O pouco que duramos.


(ODES de Ricardo Reis, Edições Ática, 1970, pág. 34)




(rosinhas do meu nano-mini-micro-jardim)

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Pizarro em Leiria

O estudioso colombiano de Pessoa Jerónimo Pizarro deslocou-se ontem a Leiria, a convite da Livraria Arquivo, (a livraria de fundação puramente leiriense de que já aqui falei por mais de uma vez e que não me canso de elogiar por ser a «loja de livros» que mais faz pela divulgação cultural aqui na terra) a fim de apresentar o último livro que organizou e editou e que tem o título «A Obra Completa de Alberto Caeiro».


Apaixonada que sou pelo poeta modernista, assim que soube da vinda deste pessoano à Arquivo, decidi que tinha de ir assistir.

Uma presença discreta, agradável, deveras apaixonado pela literatura e pela língua portuguesas, por Pessoa e não só, que lamenta não ter traduções suficientes em língua espanhola, no continente sul-americano de onde provém.

A conversa com o estudioso não foi bem dirigida, foi mole, ficou aquém, circunscreveu-se quase à pessoa do investigador em si e pouco a Pessoa. Às tímidas perguntas da breve assistência, respondeu ele com algum desapego, alguma parcimónia, com ar algo provocatório como que a querer desconstruir ou desacreditar, alguma indiferença até. Sorridente, embora.

Caeiro, o Mestre, ficou diminuído, desconcertado, desagregado. Campos fez uma brevíssima aparição forçada. Reis, o latinista estóico, não apareceu. De Bernardo Soares ficou o desassossego do seu livro. Pessoa, que o estudioso considera um dos grandes da literatura europeia, veio com as suas «Cartas Astrológicas», a reboque de Paulo Cardoso – Paulo Cardoso?!!! – não obstante o investigador ter afirmado que os inéditos do poeta futurista podem chegar ainda aos dez mil!

Desilusão para mim – que não sou ninguém no mundo destas estrelas que gravitam ao redor de Pessoa. E exatamente porque não sou ninguém, quando saí – a conversa durou apenas uma hora – dois pensamentos me assaltaram o espírito: ou que realmente “é uma pepineira conversar com estes provincianos” ou então houve uma vontade de desconstruir, de desmitificar o que se construiu e ele próprio, o poeta, construiu acerca de si. Fingimento poético? Marketing? MerchandisingTalvez. Mas quem disse que eu quero ser desmitificada acerca de Pessoa?

«A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.


Basta existir para se ser completo

(Alberto Caeiro)

quarta-feira, 9 de março de 2016

Poema erótico

Quem disse que Fernando Pessoa era só Desassossego, que era só esoterismo, que era só heterónimos?!


 Não! Também escreveu (pelo menos) um poema erótico!

"Dá a surpresa de ser.                                
É alta, de um louro escuro.
Faz bem só pensar em ver
Seu corpo meio maduro.

Seus seios altos parecem
(Se ela estivesse deitada)
Dois montinhos que amanhecem 
Sem ter que haver madrugada.

E a mão de seu braço branco
Assenta em palmo espalhado
Sobre a saliência do flanco
Do seu relevo tapado.

Apetece como um barco,
Tem qualquer coisa de gomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como?"


terça-feira, 1 de março de 2016

O nascimento de um mito

(Campa de Ophelia nos Prazeres)


 “O mito é o nada que é tudo.”

O título saiu assim há dias no jornal: «Ofélia está agora mais perto do seu “Nininho” Pessoa». Naturalmente apressei-me a ler a notícia e garanto que nem queria acreditar: os restos mortais de Ophelia Queiroz, a única e eterna namorada de Fernando Pessoa, foram trasladados, no passado dia de São Valentim, do cemitério do Alto de São João para o cemitério dos Prazeres. Mas  porquê? Porque houve a intenção de juntar os restos mortais dos dois namorados. Só que Pessoa jaz nos Jerónimos e seria impossível levar Ophelia para aquele espaçonacional. Assim resolveram mudá-la para junto dos familiares do poeta.

Imagine-se que até foi celebrada missa pelo padre-poeta José Tolentino Mendonça, estiveram presentes estudiosos de Pessoa, os descendentes de ambos – os sobrinhos-netos de Fernando Pessoa e Ophelia Queiroz – e algumas cartas trocadas entre eles foram lidas por artistas conhecidos.

Sabemos que o “namoro” foi grandemente de natureza epistolar – as cartas de ambos estão já publicadas – e que aconteceu em dois momentos: um primeiro momento pelo ano de 1920, tendo-se reatado uns dez anos mais tarde sem, no entanto, ter alguma vez chegado a bom porto.

Três anos depois da morte de Fernando Pessoa, Ophelia casou mas, de acordo com a sua sobrinha-neta, Graça Queiroz, "ela estava sempre a falar nele, estava sempre a contar a sua história.” E até Augusto Soares, com quem casou, "um homem fantástico que a adorava", "encarregava-se de a informar de tudo o que saia no jornal do Fernando Pessoa". Por isso, "faz imenso sentido que fique aqui [nos Prazeres], acho que ela ia adorar.”

Estamos mesmo a assistir ao nascimento de (mais) um mito?

«Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.»

(Fernando Pessoa, Ulisses, Mensagem)

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Alguma decência, alguma humildade

«Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.» (…)

«Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?»







Se me sinto acabrunhada porque alguma coisa me correu francamente mal, porque me desentendi com determinada situação, ou porque conflituei com determinada pessoa, e me permito um desabafo, a última coisa que eu quero é que me mostrem como isso nunca se passa com quem desabafo.

Acontece – ou, pelo menos, acontecia – nas salas de professores e nos conselhos de turma lá na escola. Uma pessoa queixava-se de determinado aluno ou de certa turma e havia sempre quem, ato contínuo, despejasse para cima de nós que não, nunca tivera o mínimo problema com esse aluno, com essa turma.

Tivemos lá aquela responsável pelos serviços administrativos, pessoa de feitio execrável de que já aqui falei, que fazia questão de (des)tratar, de nariz empinado e olhando-nos de cima para baixo,  tudo quanto fosse professor que se lá dirigisse para pôr a mínima questão. De uma das vezes que estive à frente dos destinos da escola, ingenuamente tive um desabafo, entre pares, a propósito da dita pessoa, e logo recebi a voz sobranceira da minha antecessora – derrotada nas eleições – dizendo cheia de certeza e de autoconfiança: «Olha, eu nunca tive problemas com ela!»

Educadamente sorrimos, nem que seja com ironia, mas ficamos – eu, pelo menos, fico – bastante contrafeitos!

Sofremos, cá no país, de um enorme deficit em formação pessoal e em formação social. Não sabemos como tratar com as pessoas, ao nível das maneiras e, pior, ao nível da interação. Mostrarmo-nos de igual para igual e com uma boa dose de humildade é, para nós, portugueses, “colocarmo-nos por baixo”. A preocupação é mostrarmos como somos tão melhores do que os outros, como somos gémeos da perfeição. Se amachucarmos os outros no seu íntimo, paciência! Se impusermos toda a nossa “sapiciência” para cima dos outros, tanto melhor! Ah! E se pudermos dar uma série de ensinamentos e conselhos, bom! isso é a “transcendência”….

Se me sinto acabrunhada, a última coisa que eu quero é uma pessoa que despeje todo o seu “saber sei lá de que experiência feito” para cima de mim. Mas também não quero condescendentes palmadinhas nas costas.


Apenas alguma decência e alguma humildade chegarão…


segunda-feira, 30 de novembro de 2015

I Know not what tomorrow will bring...

(daqui)


Fernando Pessoa - Lisboa, 13 de Junho de 1888 - 30 de Novembro de 1935

80 anos depois da sua morte, Fernando Pessoa tão atual!

«Na vida de hoje, o mundo só pertence aos estúpidos, aos insensíveis e aos agitados. O direito a viver e a triunfar conquista-se hoje quase pelos mesmos processos por que se conquista o internamento num manicómio: a incapacidade de pensar, a amoralidade e a hiperexcitação.»

Livro do Desassossego

domingo, 25 de outubro de 2015

O Tejo [...] é o rio da minha aldeia

"O dia deu em chuvoso", muito chuvoso mesmo. Um azar para quem resolveu ir dar um passeio. 

E embora "um dia de sol [seja] tão belo como um dia de chuva", a verdade é que as fotografias ficam bem mais luminosas quando são tiradas num dia de sol.

Mesmo assim, deu para admirar a suavidade espelhada do Tejo (que é o rio da minha aldeia) na sua entrada triunfal no nosso país
.















«O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso. (...)»

(Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XX")

sábado, 13 de junho de 2015

Quadras ao gosto popular

No dia do aniversário de Fernando Pessoa – que é dia de Santo António – algumas quadras ao gosto popular do grande poeta do Desassossego.



O vaso de manjerico
Caiu da janela abaixo.
Vai buscá-lo, que aqui fico
A ver se sem ti te acho.

O cravo que tu me deste
Era de papel rosado.
Mas mais bonito era inda
O amor que me foi negado.

O manjerico e a bandeira
Que há no cravo de papel –
Tudo isso enche a noite inteira
Ó boca de sangue e mel.

Manjerico que te deram,
Amor que te querem dar…
Recebeste o manjerico
O amor fica a esperar.

Manjerico, manjerico,
Manjerico que te dei,
A tristeza com que fico
Inda amanhã a terei.

No dia de Santo António
Todos riem sem razão.
Em São João e São Pedro
Como é que todos rirão?



(Quadras ao Gosto Popular, Fernando Pessoa,
Edições Ática, 1969)

sábado, 23 de maio de 2015

Orpheu

(No dia em que se celebram os Autores Portugueses e no ano dos cem anos de Orpheu, não podia deixar de aqui chamar os grandes autores da Revista que, em 1915, foi uma verdadeira pedrada no charco…)

No início de 1915, após ter passado dois anos no Brasil, Luís Montalvor regressou a Lisboa com a ideia de criar uma revista luso-brasileira com o título Orpheu. Coincidentemente, Pessoa e Mário de Sá-Carneiro – ao longo do ano de 1914 e com a colaboração de Alfredo Guisado e Armando Côrtes-Rodrigues – esboçaram sumários para uma revista literária que se deveria chamar Lusitânia, ou então Europa. Lusitânia era, aliás, o nome de uma revista que Pessoa planeava publicar ainda antes de travar conhecimento, em 1912, com Mário de Sá-Carneiro. Juntaram-se as duas iniciativas e, como Sá-Carneiro pôde financiar o empreendimento (graças ao pai), nasceu Orpheu, que teve dois números, publicados no final de março de 1915 e no final de junho do mesmo ano. Vários planos e tentativas, antes e depois do suicídio de Mário de Sá-Carneiro (abril de 1916), conduziram finalmente à impressão, em julho de 1917, de provas parciais para um Orpheu 3 que nunca chegaria a ser completado. Faltava, nomeadamente, a colaboração de Álvaro de Campos.

Pessoa, José de Almada Negreiros e outros colaboradores de Orpheu sempre insistiram no mútuo respeito existente pela individualidade de cada um, e é certo que não se impunha qualquer linha doutrinária que todos devessem seguir, mas Pessoa e Sá-Carneiro eram os verdadeiros dirigentes da revista. (…)

Fernando Pessoa e Sá-Carneiro procuravam surpreender, agitar as mentalidades, questionar os valores estéticos consagrados, escandalizar o bom senso, e não há dúvida que Orpheu representou um momento de rutura e viragem na história da literatura e cultura portuguesas. A revista e o impulso que ela consubstanciava tinham, todavia, significados distintos para os vários participantes. No caso de Fernando Pessoa, Orpheu estava intimamente ligada ao Sensacionismo. (…)

A inclusão de obras em Orpheu – o desenho de José Pacheco na capa do primeiro número, os quatro hors-textes de Santa Rita Pintor publicados no segundo e os hors-textes de Amadeo de Souza Cardoso previstos para o terceiro – recorda-nos que o Sensacionismo tem a ver, antes de mais nada, com as sensações: o ver, o sentir, o ouvir … Alguns dos seus contemporâneos acusaram Pessoa de intelectualizar tudo, de ser irremediavelmente cerebral – o que é verdade, se considerarmos a imaginação como apanágio da inteligência. Com efeito, não foi com um raciocínio árido e incolor, mas sim com a sua capacidade de sentir de forma imaginativa e vívida, que o poeta-fingidor logrou escrever obras tão diversas e cheias de visão, emoção, assombro e silêncio como aquelas que publicou em Orpheu.


(in “Fernando Pessoa Sobre o Orpheu e o Sensacionismo”; Cabral Martins e Richard Zenith; 2015: pp 109-112)





terça-feira, 30 de dezembro de 2014

«Conselhos para a vida»

Não faço, nem nunca fiz planos de futuro, por isso nunca elaborei aquelas listas de intenções de cada vez que o ano muda. Não gosto da noção do projecto de vida nem de projectos em geral que tão em moda estão. Projectos são realizações técnicas próprias de arquitectos, engenheiros, economistas e pouco mais.

Professora que fui toda a vida, sofri “horrores” quando, aí por 90, foram criados os conceitos de projecto educativo, projectos curriculares e quejandos e me vi obrigada a elaborá-los porque nada mais poderiam ser senão meras cartas de intenções enquanto projectos e apenas valiam pela caracterização profunda da realidade com que se trabalhava: a escola, os seus atores e o meio em que se moviam. Nada do que implica pessoas e o devir do tempo pode ser projectado em termos mensuráveis porque o futuro, mesmo o mais próximo, é imprevisível o suficiente para ser tratado como um objecto concreto. Não digo que não se planifique, mas elaborar projectos mensuráveis com previsões rígidas não preenche a minha visão das coisas. Nunca dei uma aula sem uma planificação, mas tinha muita dificuldade em planificar a médio prazo e mais ainda a longo prazo porque dificilmente essas planificações eram cumpridas.

Mas não é dia para falar aqui de pedagogia e didáctica… tudo veio a propósito de nunca elaborar listas de coisas para fazer nos novos anos.

Por outro lado, e mesmo não sendo moralista, dou algum valor a princípios e orientações de conduta –algumas, claro!

Encontrei estas “orientações” para vida escritas por Fernando Pessoa e, em final de ano, pareceu-me bem deixá-las aqui para quem ainda não as leu. Achei-as um primor.

«Conselhos de Vida

1 - Faça o menos possível de confidências. Melhor não as fazer, mas, se fizer alguma, faça com que sejam falsas ou vagas.

2 - Sonhe tão pouco quanto possível, excepto quando o objectivo directo do sonho seja um poema ou produto literário. Estude e trabalhe.

3 - Tente e seja tão sóbrio quanto possível, antecipando a sobriedade do corpo com a sobriedade do espírito.

4 - Seja agradável apenas para agradar, e não para abrir a sua mente ou discutir abertamente com aqueles que estão presos à vida interior do espírito.

5 - Cultive a concentração, tempere a vontade, torne-se uma força ao pensar de forma tão pessoal quanto possível, que na realidade você é uma força.

6 - Considere quão poucos são os amigos reais que tem, porque poucas pessoas estão aptas a serem amigas de alguém. Tente seduzir pelo conteúdo do seu silêncio.

7 - Aprenda a ser expedito nas pequenas coisas, nas coisas usuais da vida mundana, da vida em casa, de maneira que elas não o afastem de você.

8 - Organize a sua vida como um trabalho literário, tornando-a tão única quanto possível.» -


'Anotações de Fernando Pessoa, em inglês (sem data)’




sábado, 11 de outubro de 2014

Rain and tears

De facto hoje 

«O dia deu em chuvoso.
A manhã, contudo, esteve bastante azul.
O dia deu em chuvoso.
Desde manhã eu estava um pouco triste.

Antecipação! Tristeza? Coisa nenhuma?
Não sei: já ao acordar estava triste.

O dia deu em chuvoso.»

(Álvaro de Campos)

E aí veio-me à memória a canção Rain and Tears dos bons anos 60 da autoria da banda «Aphrodite's Child».

Lembram-se? Era assim:




Reconheceram o vocalista? 

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Há dias assim...


“O que tenho é sobretudo cansaço, e aquele desassossego que é gémeo do cansaço quando este não tem outra razão de ser senão o estar sendo. Tenho um receio íntimo dos gestos a esboçar, uma timidez intelectual das palavras a dizer. Tudo me parece antecipadamente fruste.

O insuportável tédio de todas estas caras, alvares de inteligência ou de falta dela, grotescas até à náusea de felizes ou infelizes, horrorosas porque existem, maré separada de coisas vivas que me são alheias...”

[Livro do Desassossego, trecho 337 (ed. lit. R. Zenith, 2009)]


 (René Magritte)

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Cansaço



Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
É um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...

Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Não. Cansaço por quê?
É uma sensação abstrata
Da vida concreta —
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como...
Sim, ou por sofrer como...
Isso mesmo, como...

Como quê?...

Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço. 
(...)

(Álvaro de Campos)


domingo, 6 de julho de 2014

Dia do Vinho

Fiquei a saber pelo telejornal da manhã da RTP 1 que se celebra hoje o Dia do Vinho. Não encontrei nada de muito certo mas parece-me que, aqui em Portugal, se celebra no primeiro domingo de Julho.

Nunca na minha vida bebi sequer uma gota de vinho (não de álcool) e é até, juntamente com azeitonas, uma das minhas repulsas compulsivas - dito assim mesmo com estas duas palavras fortes e que têm a ver com «pulsões».

No tempo da minha infância e adolescência uma senhora, aqui neste país pequenino e cinzento, não bebia vinho, nem cerveja. Beberia um vinho branco, um licor, um Porto, um Madeira, um champanhe mas apenas em ocasiões especiais. Não me lembro de ver a minha mãe ou a minha avó a beberem vinho e, mesmo das minhas tias minhotas, apenas uma bebia à refeição. Havia alcoólicos de mais naquele tempo em que o Salazar dizia que «Beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses» por isso as mulheres da classe média não se podiam dar a esse desfrute. Beber era coisa de homens e de bêbados.

De há uns anos para cá, o "prestígio" do vinho foi-se regenerando, as marcas refinaram, passámos a ser produtores de bom vinho apreciado no estrangeiro e tudo e agora é "fino" beber vinho. Tinto se possível. 

E agora até há um Dia do Vinho!

Por isso resolvi deixar aqui umas brincadeiras para, de alguma maneira, ajudar a celebrar o vinho (que eu abomino...)

Primeiro Pessoa que até foi «apanhado em flagrante delitro»





Depois a Arte: O Fado e o Vinho da nossa amiga Clotilde.



Por fim, o humor.







E, já agora ....


segunda-feira, 23 de junho de 2014

Noite de São João




Noite de S. João para além do muro do meu quintal.
Do lado de cá, eu sem noite de S. João.
Porque há S. João onde o festejam.
Para mim há uma sombra de luz de fogueiras na noite,
Um ruído de gargalhadas, os baques dos saltos.
E um grito casual de quem não sabe que eu existo.

Alberto Caeiro

segunda-feira, 9 de junho de 2014

A minha pátria é a língua portuguesa

Deixei aqui dito há uns dias, a propósito do aforismo pessoano «o melhor do mundo são as crianças» que o bom do Pessoa não tem culpa nenhuma que lhe estafem as tiradas. E assim é! O mesmo acontece com o seu belo verso «tudo vale a pena se a alma não é pequena», com a sua tirada publicitária «primeiro estranha-se, depois entranha-se» e também com a extraordinária frase do Livro do Desassossego «a minha pátria é a língua portuguesa».



Lido mal com o chamado «lugar-comum» desde cedo e exultei quando aí por setenta e tal li um texto do poeta José Gomes Ferreira (não confundir com o papagaio de serviço da SIC) em que ele, no seu habitual tom irónico, faz o levantamento de todos os “bordões” de linguagem usados à época. É que nós, portugueses, por preguiça ou mesmo por falta de vocabulário, somos exímios em deixar que se nos colem ao ouvido palavras ou expressões que depois usamos até à metafísica (esta também é do Pessoa, mas muito pouco usada…)

Bom, mas para introdução, isto já vai longo. Trago aqui esta frase porque, de facto, eu gosto muito da nossa língua e, como já devem ter notado, não gosto de usar palavras emprestadas, nomeadamente do inglês (apesar de ser de Germânicas…) Gosto muito da minha língua ouvida falada, escrita, usada na poesia, no romance, no jornal, seja onde for, seja na sonoridade portuguesa, brasileira, africana...

Sou daquelas que não estou nada preocupada com o acordo ortográfico mais recente. Entendo-o e sei que acontece como já aconteceram uns tantos outros ao longo dos tempos. Já leram Saussure? Já leram Coseriu? Já leram Chomsky? Não? Então, leiam! E desenganem-se aqueles que muito pomposamente vêm com a falácia de que este acordo vem corromper a «bela língua de Camões» porque, garanto-vos que o Camões não escrevia a nossa bela língua de acordo com nenhum dos acordos ortográficos que conhecemos! Além de que as línguas corrompem-se é com o uso ao longo dos tempos e se não se corrompessem, a esta hora, ainda estaríamos a falar latim!

Lá estou eu a divagar!

Ora voltando ao tema: hoje li no jornal que as universidades portuguesas já têm mais de 170 cursos dados em inglês. E estavam todos muito contentes com o facto! Como se estivéssemos a vender cursos superiores para o estrangeiro ministrados em Portugal. Uma espécie de exportação, um empreendedorismo, como se diz agora! Assim como quem faz sapatos, ou camisas ou rolhas, ou garrafas de azeite ou secretos de porco preto para melhorar os níveis da economia.

Fiquei chocada! Se calhar é por estar velha, mas não dá para entender este novo-riquismo provincianês! E onde fica a nossa língua? Já não bastava assistir ao triste espetáculo dos “nossos” “governantes” a realizarem conselhos de ministros para inglês ouvir, senão agora também ver os nossos professores universitários a papaguear fórmulas químicas ou noções de literatura portuguesa em inglês…

Desculpem-me mas não serão estes sinais muito mais preocupantes do que tirar um c ou um p que nem é vocalizado de uma ou outra palavra?


domingo, 1 de junho de 2014

Criancices...

Não me apetece pôr-me aqui a falar das «adoráveis» criancinhas hoje, no dia delas!

Nem me apetece citar aquela super estafada frase 

«Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças, (...)»

... que me desculpe o Pessoa (que não tem culpa nenhuma que lhe estafem as tiradas...).


Mas como deixar passar o dia delas - das crianças - sem uma referência nem que seja em modo criancice?

E então, só para variar, lembrei-me de canções que falavam de uma Little Child




... de uma Girl



... de um Boy




... e eu própria quase voltei a sentir-me criança...

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Azul, azul, azul



Azul, azul, azul, o mar fraqueja
Em orlas brancas pela praia fora.
Só esse som, alegre e antigo, rumoreja
No lúcido silêncio desta hora.

O mais — quietude, e no horizonte ralo
Um nevoeiro ou bruma ou ilusão
Que é como que um inútil intervalo
Do amplo azul que céu e águas são.

Sossega em mim, de ver, de ver, de ver,
Essa intranquilidade, a mágoa antiga
Que vem de se sentir viver,
Que vem de não poder querer
E de não ter uma alma nossa amiga.

Ah, mas essa dor,
Cheia de consciência do mutável
Da pobreza da vida e do amor
É tão antiga como o mar
E tem marés,
Cessa para recomeçar
Mais uma vez.

(9 - 3 - 1935
Fernando Pessoa)

terça-feira, 15 de abril de 2014

Eu, o doutor

Entrei uma tarde numa camisaria de onde gastava, com o fim imaginado de comprar uma gravata. O caixeiro que estava livre de freguês, e que há muito me conhecia, cumprimentou-me alegremente: «Boa tarde, senhor doutor.»

«Não sou doutor», disse-lhe, e era a verdade. «Porque é que me julga doutor?»

«Ah, eu realmente julgava…», respondeu ele limpidamente.

Pedi gravatas, escolhi a que preferi, paguei. Nesta altura, o outro caixeiro, que também de há muito me conhecia, veio para ao pé do colega.

«Boa tarde», disse eu para ambos.

Os dois caixeiros inclinaram-se amáveis e sincrónicos, e, como um só, disseram:

«Boa tarde, senhor doutor, e muito obrigado.»

Moralidade:
Quando a opinião nos faz doutores, doutores temos de ser. Na vida social, somos o que os outros nos julgam, e não o que até fingidamente somos. A nossa personalidade social, para todos, ou histórica, para os célebres, é uma ideia de nós que nada tem de nós. O estadista que saiba saber isto tem a chave do domínio do mundo. Pode, é claro, faltar-lhe a porta; isso, porém, é já destino.

31/1/1932


(in «Contos Completos», Fernando Pessoa)
__________________________________________

Quando li este pequeno conto de Pessoa, lembrei-me de quando cheguei a Leiria em finais de 74. Muito lisboeta, jovial, muito independente, muito liberal, muito imbuída do espírito de Abril, mas já licenciada e profissionalizada, pronta a concorrer a professora efetiva, o que, à época, era ainda muito pouco comum.

Um dia entrei numa loja de modas e, conversa para cá, conversa para lá, até porque eu era uma cara nova na pequena cidade, acabei por dizer que dava aulas na D. Dinis. Automaticamente passei a ser tratada por «doutora» e eu, do alto da minha simplicidade, da minha pouca idade e da minha «mini-saia», tratei de dizer: «Ai, por amor de Deus! Não me trate por doutora! O meu nome é Graça Maria e eu gosto.» E logo a senhora que me estava a atender ripostou: «Mas porquê, é professora de Trabalhos Manuais?»

Grande Fernando Pessoa que tão bem entendia a nossa pequenez!