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sábado, 25 de maio de 2013

É sexta-feira!






E, a propósito, deixo aqui uma fotografia de Boss AC que veio à "minha" escola cantar com os "nossos"  alunos surdos, cuja 1ª língua é a Língua Gestual.


Boss AC a "cantar"usando a Língua Gestual

É sexta-feira!  Bom fim de semana!


sexta-feira, 15 de março de 2013

A Cobra e o Pirilampo



Todos conhecemos o apólogo da Cobra e do Pirilampo: daquela Cobra que perseguia e amedrontava o Pirilampo não porque ele lhe tivesse feito algum mal, ou sequer porque pertencesse à sua cadeia alimentar mas tão-somente porque não suportava vê-lo brilhar.

Lá no meu antigo local de trabalho, entrou há anos – não muitos se comparada comigo que lá vivi uma vida – uma Cobra, bem feia por sinal e peçonhenta, que de imediato foi aceite no ninho das outras rastejantes que por lá se moviam e capitaneavam logo se tornando a mais diligente, ou melhor, o rosto visível de todas elas. 

Manietou e fez o seu percurso plantando maldades e espalhando o seu veneno surdo contra os que ingenuamente e por natureza elevavam a sua luz acima do nível térreo por onde se insinuava. 

Incansável, certa dos seus desígnios, perseguiu, conspirou, invetivou. Serpenteou pelos caminhos do “poder” lançando o seu silvo agudo para os (poucos) pirilampos que com o seu inofensivo mas genuíno jorro de luz lhe encandilavam os olhos insidiosos. 

Nunca perdoou ou esqueceu o dia em o Pirilampo lhe levou a dianteira e a varreu para o canto juntamente com as suas congéneres a quem, álacre, continuou a servir, perseguindo sempre, aleivosa, a branca claridade que lhe ofuscara o caminho.

Foram anos de perseguição e de saltos sub-reptícios para alcançar o Pirilampo até que finalmente conseguiu vencê-lo pela traição e pelo cansaço. 

Regressaram ao capitaneio os rastejantes logo voltando à proteção do seu bando e recompensando a Cobra que tanto por eles fizera. E quem quer saber dela, lá a encontrará, diligente e ágil a assessorar, a comandar como sempre quis. Na sombra, sem responsabilidade assumida…

Ficaram por lá outros pirilampos sobre quem o serpenteante espécime continua a perseguir. (Está-lhe na natureza, que se há de fazer?)

Esta é a autonomia que, “crateriosamente” se tem vindo a implementar nas nossas escolas.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Começaram as aulas


 Foi hoje que começaram as aulas. Com menos horas no currículo dos alunos; com disciplinas diferentes; com muito menos professores nas escolas e muitos mais a engordarem as filas para o pedido do subsídio de desemprego e a emagrecerem o número de funcionários públicos que é o que convém para ajudar o governo a manter junto de Frau Merkel a sua imagem de "bom aluno"; com 3,9% do PIB para investimento na educação (ao nível da Indonésia) contra os já então baixos 5,9% gastos em 2009. 

Ah! E com mais horas semanais letivas  para os professores, com exames aos miúdos de dez anos - modelo único em todo o mundo ocidental - e com mais alunos por turma, num máximo de trinta!

Não vem daí nenhum mal ao mundo dizem os "treinadores de bancada" da educação e os Velhos do Restelo desta terra - que são muitos! A minha Mãe, que era professora primária, tinha, nos anos 60  na sala, à volta de 40 alunas das quatro classes e o sucesso no exame da 4ª classe e no exame de admissão era quase sempre total. Eu própria tive turmas de 34 alunos nos anos 80 quando as escolas não tinham salas que chegassem para albergar o boom de alunos nos 7º, 8º e 9º anos de escolaridade quando passou a ser obrigatória. 

E deve ser isso que este ministro (C)rato pensa! Só que ele não sabe porque só vê números que os alunos de hoje não são os alunos desses tempos. As condições e os condicionalismos das diferentes épocas são incomparáveis. A sociedade de hoje nada tem a ver com a dos anos 80 e muito menos com a dos tempos do obscurantismo. Nesses tempos não eram todas as crianças que iam para a escola e as que iam, se não obedecessem cegamente às normas impostas ou que não conseguissem ou não tivessem vontade de aprender, acabavam por sair da escola, fazendo-se assim a triste "seleção".

Atualmente as coisas não funcionam assim. Os alunos todos, de todas as condições, têm o direito e o dever de ir à escola e de sair de lá com um diploma. Por outro lado, a forma de ser e de estar das crianças, bem como a das famílias e a da sociedade em geral, nada tem a ver com a forma de viver de antigamente. Assim, como querem que um professor consiga (man)ter 30 alunos em cada turma, de hora a hora, juntando sete ou oito turmas no seu horário e no fim garanta sucesso a todos ou, pelo menos, à grande parte deles? Será que o senhor ministro (C)rato conseguiria?

(Uma turma de rapazes da 4ª classe de uma escola Conde Ferreira nos anos 50)

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Autonomia com rédea curta

(Daqui)



Hoje foi o dia da abertura do ano letivo 2012/13. Foi o dia em que os professores tiveram de se apresentar nas escolas para dar início ao trabalho de receção aos alunos. Foi, ao longo dos anos, o dia do reencontro com os professores “residentes” e o dia de receber os professores novos. Um dia de grande animação para todos. Que não o deste ano tenho a certeza: é que foram tão menos, tão menos os que se apresentaram de novo e tantos dos “residentes” que tiveram de ir “residir” alhures. E tantos tantos os que tiveram de se ir inscrever no Instituto de Emprego!

E porque hoje é o dia de abertura do ano letivo, e para não voltar a escrever ‘aquelas coisas que eu gosto’  sobre o estado em que este ministro pôs a Educação, deixo aqui um texto por de mais bem pensado e bem escrito pelo professor Rui Canário sobre esta temática.



Autonomia com rédea curta

Rui Canário
 «Como alguém escreveu, com sentido de humor, pertinência e oportunidade (Daniel Oliveira no Expresso online), “os autarcas fazem rotundas e os ministros da educação reformas curriculares”. A atual equipa ministerial não fugiu à regra e pretende também instituir a sua reforma. Nesta, as mudanças na estrutura curricular, conjugadas com os modos de avaliação – nomeadamente a imposição de mais exames em disciplinas específicas, e só nestas – enquadram os “limites estabelecidos” no Despacho 13-A/2012, que visa definir “os mecanismos de exercício da autonomia das escolas”, ou seja, aquilo (pouco) que pode ser decidido nas escolas. Esses limites decorrem de uma lei que formalmente não existe e cujo teor tem vindo a ser sujeito a variações frequentes na informação disponibilizada pelo Ministério. Mas, mesmo no quadro destes limites estreitos, as decisões são ainda concentradas na figura do diretor da escola, cuja emergência recente marca a erosão da autonomia real das escolas, instituída a partir de “baixo” com as mudanças democráticas do período do 25 de Abril.



A montante e a jusante da escola, vivemos situações de uma crise social muito dura, sendo que as escolas são “porosas” relativamente a estas mudanças, com repercussões muito diretas nos alunos e nos professores. Porém, a sensibilidade a essa “porosidade” está, estranhamente ou talvez não, ausente das medidas que têm vindo a ser tomadas.

Seria expectável, por outro lado, que qualquer normativo legal, relativo à autonomia da escola fosse claro e económico. O despacho normativo 13-A/2012 corresponde ao contrário da clareza: peca por omissões, peca por remissões e peca por uma codificação, recorrendo a linguagens que, sob a forma verbal ou matemática, tornam obscuro o que deveria ser claro e transparente. Esta “autonomia” sempre definida por limites muito estreitos, ou inexistente, configura para as escolas uma situação paradoxal de duplo constrangimento que remete para uma situação de esquizofrenia. Não é possível concretizar a obediência à ordem. “Sê autónomo”!

O tempo do otimismo relativamente à escola, ainda grandemente retórico, e da aposta nas potencialidades da criatividade, da inovação e da diversidade das escolas já passou. Terminou com o fim do ciclo político das Grandes Reformas e com a extinção de órgãos de apoio à investigação e à difusão de práticas inovadoras, com base em dispositivos de apoio clínico à construção de projetos educativos.

Hoje aposta-se numa gestão de tipo homólogo ao da gestão empresarial, com ênfase na competição entre alunos, entre professores e entre escolas. Em períodos de fortes restrições orçamentais as repercussões sobre o funcionamento das escolas são, como é evidente, importantes, nomeadamente no agravamento das condições objetivas e subjetivas dos professores para se empenharem com zelo. Empenhar-se com zelo implica a disposição para infringir regras, tendo como finalidades a melhoria dos resultados de aprendizagem, a diminuição das taxas de insucesso e abandono escolar, uma contextualização mais pertinente com uma mais elevada participação dos atores locais, incluindo naturalmente as famílias. Infringir regras não é, no caso vertente, sinónimo de “desobediência”, mas de uma ação instituinte que permita melhorar o desempenho da Escola Pública, tornando-a mais hospitaleira e com mais capacidade de resposta às especificidades dos lugares e dos públicos. Tudo isto só é possível a partir de um reforço do profissionalismo dos professores que contrarie um processo de proletarização do trabalho intelectual que atinge professores e outros grupos profissionais.»

Rui Canário – Prof. Universitário e investigador do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa

JL 27/Jun a 10/Jul 2012 

(sublinhados meus)

Às minhas amigas bloggers que sempre me “dão na cabeça” por continuar a falar nas coisas da escola e da educação, tenho a dizer que no terceiro ano em que já não vou à escola, ainda há umas noites atrás me fui apresentar e, como nos anos em que trabalhava, era-me tudo tão estranho e desconhecido!... 

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Ressentimento? Se calhar é. E então?



Desde o ano passado que uma professora lá da “minha” escola organiza um passeio de fim de ano letivo para professores e funcionários do agrupamento, o que me parece bastante agradável. Realizaram-se, ao longo dos anos, (e continuam a realizar-se, se bem que agora tenham destinos muito mais ambiciosos e portanto muito mais dispendiosos) passeios mais ou menos longos, de mais ou menos dias, dentro ou fora do país, nas interrupções letivas, que foram por de mais simpáticos e completamente inesquecíveis. Por isso, parecem-me bastante saudáveis e aglutinadoras estas saídas de fim de ano letivo. 

Estou a falar disto porque a colega organizadora que é professora lá na escola há meia dúzia de anos e portanto há poucos anos me conhece deve a delicadeza e a simpatia de me mandar recado e até de me telefonar a convidar-me para participar no passeio.

Por outro lado, o jantar (ou almoço, conforme) de fim de ano acontece naquela escola não sei dizer há quantos anos, mas ainda estávamos na “escola velha” (finais de 70) e já se fazia. Sempre houve o cuidado, a delicadeza, a deferência de convidar os colegas reformados para esse e outros eventos, convites que, enquanto foram poucos os aposentados, eram feitas por telefone pelos conselhos diretivos, depois chamados de executivos. Com o aumento de reformados e dos trabalhos exigidos aos órgãos de gestão, os convites passaram a ser enviados pelo correio até que, este ano, ficaram os coordenadores de departamento encarregados de enviar por correio eletrónico os convites aos professores reformados do seu departamento. O que, diga-se, me parece muito bem. 

O jantar deste fim de ano realizou-se há dois dias e, por ironia, o coordenador do “meu” departamento “esqueceu-se” de me enviar o convite. Eu sei que não tenho estado presente nos últimos jantares que se fizeram mas até cheguei a ter o cuidado de telefonar a agradecer quando declinava o convite.

Não tenho a pretensão de ser considerada especial – era o que mais faltava – mas saí da escola apenas há dois anos, continuo a ser conhecida por lá, além de que, como já tive oportunidade de aqui escrever, estive naquela escola 36 anos – que, por acaso passaram tão rapidamente de tão bem que lá me senti e de tão bem que lá trabalhei – além de que, digo-o sem qualquer ponta de falsa modéstia, grande parte da história daquela escola foi escrita pelos grupos de colegas que comigo trabalharam. 

Que não pertenço ao “grupo de amigos” que atualmente domina completamente a escola/agrupamento, ah lá isso é verdade e ainda bem! Gabo-me de nunca, em termos de direção da escola, ter funcionado com “grupos de amigos” a quem são dados privilégios, por isso saí da escola sem quase ninguém ter dado conta como se se tratasse de um professor que tivesse estado na escola seis meses a contrato. E agora – e se calhar por causa disso – já nem o “meu” coordenador se lembra que eu existo.

Nada de estranho se me lembrar que, quando o diretor fundador desta escola, em 68/69 – o Dr. Serra que não foi sequer diretor saneado com o 25 de Abril e que continuou a desempenhar as suas funções de professor, de orientador de estágios e do que fosse necessário à escola até à sua aposentação, – morreu em inícios de 90, estava este “grupo de amigos” à frente da escola, nem a delicadeza, a polidez tiveram de destacar alguém do tempo desse professor para estar presente no funeral e mandar um ramo de flores em nome da escola. 

terça-feira, 10 de abril de 2012

Primeiro dia do 3º período


Mantenho – mesmo correndo o risco de ser admoestada pelas minhas amigas/colegas aposentadas – aquela sensação estranha de “friozinho no estômago” no início de cada período escolar. 

Não esqueço, não consigo esquecer, a sensação de quase primeira vez sempre que iniciava um novo ano letivo. Era todos os anos como se fosse a primeira vez que me punha frente às novas turmas. Dias antes começava a ter sonhos incríveis como não saber onde eram as salas de aulas – e imaginem, eu estive na mesma escola trinta e tantos anos! – ou de ter de dar aulas de Físico-Química quando sou de Inglês, ou até mesmo de chegar às turmas e não me lembrar de uma única palavra em Inglês! 

Já no início do 2º período, vinda da rapidíssima interrupção do Natal, a sensação era de uma tristeza, de uma nostalgia apenas explicada pelo desfazer do presépio e da árvore e pela incerteza que nos traz o alvorecer de um novo ano. O dia 3 de Janeiro era sempre, para mim, dos mais difíceis do ano letivo parecendo-me sempre o início de algo interminável. Claro que, no dia 4, as nuvens cinzento-chumbo desadensavam-se e o sol do meu habitual entusiasmo recomeçava a brilhar. 

O início do 3º período foi sempre o mais fácil. No final do 2º período todos nós, nas escolas, nos sentimos exaustos: é o acumular de muitos meses daquela tensão criada pelo ato do ensino-aprendizagem que dá ou não dá frutos; é o acumular do cansaço que vem do facto de termos de tratar por vezes com 180 alunos ao longo de semanas e com cada um de forma diversa porque cada um deles é uma pessoa diferente com personalidades e necessidades diferentes; é a tensão da avaliação que é a mais verdadeira do ano letivo – no Natal ainda mal os conhecemos e damos-lhes o benefício da dúvida; no final do ano é o balanço final e há que sopesar muito bem a progressão ou a retenção de cada um; mas é na Páscoa que se atribuem as notas verdadeiras, diz-se-lhes o que eles verdadeiramente valem e “apertam-se” um pouco as bitolas para os levar ao não desmazelo em termos de interesse e de estudo. Além de que, de Fevereiro para Março, cai-nos a pré-primavera em cima com aquele clima morno que nos amolece os músculos e nos amolenta o espírito enquanto põe os alunos todos com a adrenalina em alta, em elevada alta! No fim de tudo isto vêm aqueles diazinhos de pausa – sempre tão mal entendidos pelos restantes trabalhadores e entende-se porquê… - que, em terminando, nos lança na corrida do 3º período, por vezes, tão curto que nem dá para respirar! 

Hoje é um desses dias. De recomeço antes do grande final. Apetece-me sempre mandar mensagens aos meus ex colegas a desejar-lhes “um bom recomeço”, assim num misto de desejo sincero e de invejazinha, estão a ver?

É esse voto que deixo aqui a todos e todas que eventualmente me leiam: tenham e façam ter um bom 3º período! Só quem é – ou foi – professor é que consegue saber a correlação de forças que se exerce durante cada um dos períodos letivos!