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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Decadência do DN

Nada tenho contra a jornalista Ana Sousa Dias. Até gosto da forma serena como entrevista as pessoas, mesmo sendo ‘comentadeiros’ como Marcelo Rebelo de Sousa. Mas quando, na 4ª feira passada, levada pelo hábito de ir àquele rectângulo no canto superior direito de uma das primeiras páginas centrais do DN para me deliciar com a prosa aguerrida e quase sempre certeira das crónicas de Baptista-Bastos, e me dou com uma cronicazinha de bairro assinada pela dita jornalista, o que senti não foi deceção, não! Senti-me mesmo defraudada. E pensei: agora é que o DN vai passar a ser um jornalzinho como os outros – sem grande interesse.

Exagerada como (sabem que) sou, lembrei-me imediatamente daquele domingo de há alguns anos, em que abri a Notícias Magazine e, ao ler o editorial, como habitualmente fazia, me deparei com uma conversinha mixuruca, daquelas destinadas a donas de casa (não desesperadas) de missinha ao domingo, altamente moralista e pseudo feminista que me deixou pelos cabelos. De então para cá, nunca mais olhei para a NM com olhos de ver porque, tirando alguns textos do escritor Gonçalo M. Tavares que preenche a última página, todo o restante conteúdo passou a ter a ver com restaurantes gourmet, chefs (a grande moda da pepineira), modas, maquilhagem e formas de manter a linha.

Hoje, 6ª feira, perguntei-me: «será que a Câncio ainda tem autorização para lá escrever?» Sim. Esta semana ainda escreveu e com que força! A crónica chama-se «A poesia disto» mas nada tem de lamechas que deve ser o novo estilo a dotar no DN e muito menos do estilo yes, minister . Vale a pena dar uma vista de olhos.

A questão será: até quando vai a Câncio poder manter a sua crónica de «mal dizer»?


quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Este é o Estado a que chegámos

« (…) Menos Estado e melhor Estado foi a divisa de quem nunca soube o que era uma junta de freguesia e passou a assinar como primeiro-ministro; de quem passou de gestor de uma empresa de formação de técnicos de aeródromos e heliportos, em que nenhum formando obteve certificação, para a aparente chefia do Governo; do ressaibo de quem não digeriu a autodeterminação das colónias e a queda da ditadura, para líder de um partido fundado por democratas e confiscado por suspeitos que o empurraram para as funções.

O Estado, exonerado de estadistas e de servidores públicos, ficou entregue a paquetes de ex-dignitários que têm passado pelos negócios e traficâncias em absoluta impunidade. O País está em estado comatoso. A ética evaporou-se. A competência entrou de greve e a dedicação à causa pública foi de férias.

O ensino, onde as aulas, durante anos, começaram com assinalável precisão, com todos os docentes colocados no primeiro dia, está em estado ruinoso; as finanças conseguiram passar de um défice de 90% para 134%, e alcançaram o estado de saturação fiscal; as Forças Armadas dirigem-se para o estado de inoperacionalidade; a saúde vai a caminho do estado caritativo; a segurança social, tal como o País, ameaça o estado de falência; a justiça está em estado de Citius e o Governo a caminho do Estado Novo.»


Carlos Esperança, in facebook




quarta-feira, 18 de junho de 2014

Asneiras e Bacoquices

Como já deu para ver, não resisto a uma boa crítica a alguns «utilizadores/trucidadores» da nossa língua, por isso hoje vou transcrever uma crónica do sociólogo Moisés Espírito Santo que saiu no Jornal de Leiria do passado dia 12 e que tem o título de

Asneiras e Bacoquices

«Tenho momentos em que me entretenho a notar as asneiras em português ouvidas nas televisões. Não me refiro às pessoas entrevistadas na rua. Só tenho atenção aos jornalistas, políticos e outras personalidades.

Já se sabe que o Presidente da República (e de todos os portugueses) diz «cidadões» em vez de cidadãos. A presidente do Parlamento inventa palavras: «o inconseguimento... é frustracional» (deve ser para passar por sábia). Não há um assessor que aconselhe o ministro do Emprego e da Solidariedade a deixar de dizer «treuze»? Eu dir-lhe ia que «treuze» é uma saloiice chapada; seria menos criticável dizer «auga» em vez de água porque estávamos a usar uma metátese que é um fenómeno corrente na língua. Ao dizer «treuze» está-se, propositadamente e por vaidade, a tentar usar um processo provinciano de distinção bacoca.

Já se torna raro que alguém nas TV/s utilize correctamente o verbo haver que (aprendam por uma vez!) só se usa na terceira pessoa do singular. Um deputado perguntava ao chefe do governo: «Haverão mais cortes...?». Um jornalista disse: «Vão haver dois pedidos de esclarecimento...». Um anúncio oral na TV diz «Há cem anos não haviam telemóveis nem existia computadores». Duas asneiras. Digam-lhe que, se o verbo haver só se usa na terceira pessoa do singular, o verbo existir conjuga-se em todas as pessoas. Um cartaz da Unilever (entretanto retirado) dizia «Já experimentás-te o chocolate Olá?». Esta maneira de escrever o pretérito também é muito comum. Um rodapé da RTP dizia «Extra-munção» em vez de Extrema-unção. Se dissesse «estra-monção» até tinha lógica...

Um pivô do telejornal entendeu distinguir-se da gente comum dizendo que uma mulher islâmica tinha sido condenada por «apostásia» (duas vezes) em vez de apostasia. O mesmo pensou que seria mais chic nomear a capital da Turquia por Âncara em vez de Ancara. Um político dizia «inclusível» por inclusive. Outros pivôs ou jornalistas pressupõem que, perante uma palavra estrangeira, esta só pode ser do inglês: o termo item (que é do latim e significa «o mesmo») passa a ser dito «aitem»; climax (também do latim, «cúmulo»), ouvi-o a ser pronunciado «claimex». Já para o nome da cidade francesa Chamonix ouvi «Cheimonixe» e Nice, «Naice».

A par deste português cada vez mais mal falado vamos assistindo à invasão dum imenso palavreado inglês quando temos palavras que exprimem as mesmas ideias. Os programas das TV/s passaram a chamar-se Big Brother, Masterchef Portugal, Chef’s academy, Voice Portugal, A tua cara não me estranha - kids, etc. Isto só se justifica por uma palavra: estupidez. Falam mal a sua língua materna e fingem que «falam estrangeiro». (...) Ainda há pouco ouvi, num café, pedir uma «coca-cola leite» (em vez de light, [lait], fugindo-lhe o pé para o chinelo).

E que dizer da praga do inglês nas conversas, teorias ou tretas dos economistas - que fazem lembrar os astrólogos que também usam «língua de pau» para ludibriar - quando há expressões portuguesas exactamente equivalentes? O problema é que, com essa verborreia, os seus autores procuram distinguir-se dos indígenas que por cá vegetam. Isto faz-me crer que quanto mais avança a escolaridade, mais mal se fala a língua portuguesa.»


E, já agora, deixem-me perguntar (de forma retórica e nada mais...) quantas destas pessoas retratadas na crónica se dirão perentoriamente contra o último acordo ortográfico com a desculpa pseudo-purista de que não querem corromper a «bela língua de Camões»

(gargalhadas...)

quarta-feira, 5 de março de 2014

A nossa vil tristeza

(Camões por Júlio Pomar)

Mais uma das certeiras crónicas de Baptista-Bastos! Docemente violenta, suavemente crua, assertivamente crítica e sempre, sempre extraordinariamente culta. De quem sabe do que fala, de quem vivamente conhece a nossa história, a nossa cultura, a nossa literatura. Nos antípodas «desta súcia trepada ao poder»… Referências a Camões, Jorge de Sena, Carlos de Oliveira, Alexandre Herculano e conversas com Alice Vieira para lamentar o estado a que este triste povo chegou mercê da «estratégia de embuste» levada a cabo pela dita «súcia» sem decência e sem vergonha com a cobertura de um presidente que no estrangeiro «diz coisas absurdas e abstrusas» mostrando a sua «tenaz mediocridade» é de mestre!

Não é novidade para ninguém que não perco uma crónica de BB (e até já comprei o seu último livro “Tempo de Combate”) mas aquele final da crónica de hoje «"Isto dá vontade de morrer", para lembrar o grito d"alma de Herculano, em hora de desânimo como a de agora» bateu forte.

É que minutos antes, ao ouvir as notícias da hora do almoço, eu tinha tido o seguinte desabafo: «como compreendo a atitude de Antero de Quental, num país destes!»

Nota: o título da crónica de hoje é decalcada num verso de «Os Lusíadas», desabafo do poeta que, por acaso – ou não por acaso – continua muito, muito actual.

 «O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
D'uma austera, apagada e vil tristeza»


(Lusíadas, X,145)

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Chove mais uma vez




Porque hoje foi mais um dia de chuva, recolhi um poema de 2011 escrito por um poeta e artista de várias outras artes contemporâneo – José Carlos Barros.

chove mais uma vez
oiço lá fora o barulho da água a correr nas caleiras
a espalhar-se nos passeios de cimento
estou na sala da casa da
minha avó
passo a ponta dos dedos pela gravura
japonesa da tampa da
caixa de costura
há um único livro
a velhice do padre eterno
os versos do meu pai em folhas quase
transparentes

chove mais uma vez
a infância é um pássaro aceso nos ramos das árvores
um território de meteoros incendiados
numa bacia de plástico
com água
da chuva

(in «Rumor», 2011)

E, a propósito da sua referência ao livro «A Velhice do Padre Eterno» de Junqueiro, lembrei a excelente (e arrasadora) crónica de Baptista-Bastos ontem no DN, que zurzindo a imagem angelicamente pungente e a prestação hipócrita do pequenino ministro Mota Soares nas celebrações dos 500 anos das Misericórdias, recita de cor e em paralelo, parte do tremendo poema recolhido no livro de Junqueiro, «Os Parasitas», que também aqui deixo.


«No meio duma feira, uns poucos de palhaços
Andavam a mostrar, em cima dum jumento
Um aborto infeliz, sem mãos, sem pés, sem braços,
Aborto que lhes dava um grande rendimento.

Os magros histriões, hipócritas, devassos,
Exploravam assim a flor do sentimento,
E o monstro arregalava os grandes olhos baços,
Uns olhos sem calor e sem entendimento.

E toda a gente deu esmola aos tais ciganos:
Deram esmola até mendigos quase nus.
E eu, ao ver este quadro, apóstolos romanos,

Eu lembrei-me de vós, funâmbulos da Cruz,
Que andais pelo universo há mil e tantos anos,
Exibindo, explorando o corpo de Jesus.»

(Guerra Junqueiro)

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O País a nu


Anda o país todo eriçado com as praxes desde que se deram aquelas seis inefáveis mortes à beira-praia vai para um mês.

Somos assim. Reagimos apenas quando algo de muito grave acontece. Somos do tipo reativo e a longo prazo. Uma pena. Um deixa-andar, um desleixo de pensamento, um desinteresse por tudo (quanto não seja futebol, voyeurismo, e carros a ganhar no Cola-Cau) que só se explica pela enorme ignorância e pelo imenso provincianismo que nos define.

Sempre me crispei (e encrespei) de cada vez, desde há muitos anos, que via aqui nesta pequena cidade onde vivo, hordas de miúdos “mascarados” com as capitas pretas (que por história e tradição apenas se viam em Coimbra) com as caras pintadas com marcadores e com um penico na mão a berrarem que nem borreguitos desmamados aquilo que um outro borreguito saído há mais tempo da barriga mãe lhes vociferava ao megafone. E mais eriçada ainda ficava quando, ano após anos, numa qualquer tarde de 5ªa feira de maio, se entupia a cidade com carros ditos alegóricos dos cursos (diziam eles) com récuas de fedelhos insanos atrás a encharcarem-se em latas de cervejas que emborcavam e arremessavam ao chão deixando no ar um fedor a álcool e a transpiração absolutamente nauseabundo. Passavam na estrada defronte da “minha” escola, enlouquecendo os miúdos pté-adolescentes que abandonavam desvairados as salas de aulas e acorriam imparáveis para os recreios já que aqueles lhes ofereciam cervejas por entre as grades. Os pais e as mães, muitos bem vestidos e rebentando de orgulho pelas figuras que os seus meninos-doutores iam fazendo, apinhavam-se nos passeios para verem o espectáculo do “cortejo” que demorava horas! E, ao fim da tarde, quando eu saía da escola, ia encontrá-los muitos deles e delas, perdidos de bêbados, a chafurdarem em T-shirt na fonte luminosa. Entretanto, já as equipas de limpeza da Câmara lhes tinham seguido no encalço para lavarem as ruas enlameadas de cerveja e recolherem as centenas de latas que ficaram pelo chão.

Posso, de facto, ser apelidada de velha antiquada, mas nunca quando andei na Faculdade assisti a nada parecido sequer com desmandos destes. Praxes nesse tempo havia-as quando os agentes da PIDE iam “assistir” às aulas de Linguística e de Literatura para espiarem falas e comportamentos de alunos e de professores e depois prendiam ou torturavam uns tantos…

Mas também não me lembro de qualquer das minhas filhas – e essas, felizmente, nascidas já depois de Abril – se submeterem às ordens esquizofrénicas de nenhum colega mais velho para depois ganharem o estatuto de esquizofrenia necessário para fazerem submeter outros mais jovens.
Por outro lado, também me farto de dizer que, se os meninos e meninas se “submetem” a estas “cenas” é só porque querem e acham giro. E não me venham com a treta da integração e de virem a ser postos de parte se não as cumprirem.
E, enquanto tudo isto foi acontecendo em onda crescente, toda a gente, pais, professores, responsáveis governamentais, sorria com uma bonomia amarela que talvez mascarasse, em muitos, o medo, o acanhamento de mostrar uma posição contrária. Tão giro! Os meninos a brincarem às seviciazinhas para mostrarem que eram… universitários! Muito degradante!

Mas calo-me já! E deixo aqui o melhor texto dos que tenho lido sobre este assunto da estupidez das “praxes”!

O País a nu, como no Meco.

Amanhã, os jovens corvos voltarão às ruas. Não se escondem, o fato é comum para todos, preto e sobre ele uma capa pesada, faça sol ou frio. Aqueles fato e capa não escondem, expõem a aceitação da mais bizarra das afirmações: somos manada. Num jovem não seria de esperar rebeldia e inquietude? Ora, ora, talvez agora o padrão seja outro, ser rancho, ser grupo. E de grupo sem mérito nem voo. Ali, naquele país inculto e pobre, anunciar pelo fato e pela batina uma conquista, mesmo patética, já é conquista: olhem, sou estudante universitário! Fica com a taça, jovem corvo. Nunca saberás que o mérito seria teres participado em debates e ganho, ou perdido, mas participado; seria teres gozado o prazer de aprender, de duvidar, de perseguires, mesmo erradamente, a luz. Mas esse não és tu. Tu, goza os teus três, quatro anos de fato de luto - o único diploma que te distinguirá a vida inteira, três, quatro anos a andar pelas ruas a proclamar nada. Entretanto, sobe um patamar e praxa. Isto é, leva a tua ambição ao nível dos fundilhos do teu traje. No começo, obedece e humilha-te. Serás premiado, depois, com mandar e humilhar. Fica-te por aí, rasteiro. De grande, só a colher de pau. Fica-te por aí, és o País. Sem saberes que um só dos teus podia redimir a todos. Um só estudante, bela palavra, no pátio de uma universidade, bela palavra, dizendo as mais certas das palavras para um jovem: não vou por aí.

Ferreira Fernandes, DN, 25 de Janeiro de 2014



sábado, 28 de dezembro de 2013

Acorda, povo!

Para um povo que aguentou, de cabeça baixa, 48 longos anos de ditadura abençoada pela Igreja e que ainda hoje suspira por esse tempo, não chegam as manifestações que se têm feito um pouco por todo o lado, nem as críticas à destruição do país nas redes sociais e nos fóruns - que a comunicação social está, de um modo geral, submetida ao poder - nem os dilacerantes testemunhos de quem tudo perde diariamente e passa fome, nem os suicídios (de igual modo calados pela comunicação social), nem o desesperado movimento hemorrágico («Diáspora» chama-lhe aquele senhor metido a presidente, sem saber muito bem o que diz) da juventude qualificada para outros países que lhes abrem as portas e os braços, para abrir os olhos e perceber que é preciso agir!

Mesmo assim - ou talvez por isso - é preciso continuar a mostrar por palavras simples e por números, o buraco, a lama em que este "governo", esta "maioria" e este "presidente" nos estão a atolar. E porque há quem o faça muito melhor que eu, transcrevo a crónica da Câncio no DN de ontem. 

Vale a pena ler. Há que acordar Portugal!



Passos natais passados

Em 2010, na oposição, Passos garante que, devido à crise, lá em casa só haverá presente para "a mais nova". "Foi um ano muito duro", diz no vídeo de Natal. "Pelo desemprego, pelo aumento dos impostos, na redução dos salários, na quebra do investimento. Enfim, é um período de grande tensão e de incertezas tanto para os mais jovens como para os menos jovens." Com o IVA a aumentar um ponto percentual nos três escalões e o IRS a subir para todos com um novo escalão de 45% acima dos 150 mil euros, o ano fecha com desemprego de 10,8%, dívida pública de 92,4%, e PIB a crescer 1,9%.

2011: mensagem natalícia é já de PM. O que cortou meio subsídio a toda a gente e anuncia que em 2012 funcionários públicos e pensionistas ficarão sem os dois (Natal e férias). Medidas que não estavam nem no memorando nem no seu programa eleitoral, mas não o impedem de falar de confiança: "É um ativo público, um capital invisível, um bem comum determinante para o desenvolvimento social, para a coesão e para a equidade. São os laços de confiança que formam a rede que nos segura a todos na mesma sociedade. Um dos objetivos prioritários do programa de reforma estrutural do governo consiste precisamente na recuperação e no fortalecimento da confiança." Ano fecha com défice de 4,2% (abaixo do previsto), dívida pública 107,2%, desemprego 12,7%. PIB contrai 1,6%.

2012 é o ano do anúncio do aumento da TSU para trabalhadores, que cairá pela contestação, e do "enorme aumento de impostos" para 2013, depois do IVA no máximo para a restauração, eletricidade e gás. Se desemprego alcança 15,7%, respetivo subsídio é reduzido em duração e valor, como indemnizações por despedimento. RSI e Complemento Solidário para idosos sofrem cortes. Tudo ao contrário da mensagem natalícia do PM, que exorta "todos [a] fazer um pouco mais para ajudar quem mais sofre, quem perdeu o emprego" e a celebrar os 120 mil lugares vazios dos emigrantes: "Esta quadra natalícia será um momento especial para recordarmos aqueles que estão mais longe, ou aqueles que se afastaram de nós no último ano." Tanto sacrifício para défice subir aos 6,4%, muito acima do acordado, dívida pública atingir 124,1% e PIB contrair 3,2%.

2013, e eis Passos redentor: "Começámos a vergar a dívida externa e pública que tanto tem assombrado a nossa vida coletiva. Fizemos nestes anos progressos muito importantes na redução do défice orçamental, e não fomos mais longe porque precisámos dos recursos para garantir os apoios sociais e a ajuda aos desempregados." De facto: num ano cortou-se CSI a 4818 idosos pobres e no OE 2014 vêm mais cortes, também no RSI e ação social. Prevê-se 17,4% de desemprego, com o de longa duração e jovem a aumentar (por mais que o PM jure que se criaram 120 mil empregos). Dívida vai a 127,8%, PIB contrai 1,5% e défice deverá ficar em 5,9%, 1,4 pontos acima do acordado em 2012. Mas o Pedro vê cenas. Este ano, às tantas, até houve presentes para todos lá em casa.

(Fernanda Câncio, DN/ 27/Dez/2013)



quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Ramalho Eanes

Nunca foi daquelas figuras da política que, à partida, me agradou. Não votei nele em 76 aquando da sua primeira eleição e, da segunda vez, foi uma antiga colega, mulher de um militar que o conhecia bem que me "convenceu" a votar nele. A criação do PRD, à saída de Belém, desiludiu-me de todo e, de então para cá, a figura do General desvaneceu-se-me completamente.

Daí que fosse surpreendida por esta homenagem repentina que nem entendi muito bem. Mais moderada do que penso que sou, fiquei, no entanto, um pouco chocada com o "verdete" que algumas pessoas da esquerda de que se pensam donos absolutos tentaram destilar sobre a dita homenagem chegando a afirmar que a ação do general, à época tenente-coronel, no chamado golpe do 25 de Novembro (de 1975) marcou o início do descalabro.

Não encontrei as palavras exatas nem o tempo necessário para, de alguma forma, aqui responder a esse tipo de provocação, mas que bom que há quem tenha as ditas palavras exatas para o fazer com a necessária elegância e subtileza, ainda por cima homem de esquerda. E é esse texto de Baptista-Bastos - uma vez mais (que não há de ser a última) - que deixo aqui como contestação de muitas opiniões, ou melhor, certezas absolutas que uma certa esquerda hermética e empedernida pretende sobrepor a tudo e a todos.


«Uma firmeza de carácter que poderia ser entendida com juízos contraditórios, tanto mais que ele raramente sorria. Conheci-o em 1977, durante o 11 de Junho, na Guarda. Fora enviado à cidade alta, para relatar, em uma página do Diário Popular, o que se me afigurava fastidiosamente desinteressante. Não o foi. E, em vez da página combinada, a qualidade comovente dos acontecimentos impeliram-me a escrever um suplemento de dezasseis. A acompanhar-me, Rocha Pato, correspondente do jornal em Coimbra, estimado camarada e jornalista fora do comum. O homem aparentemente distante, recém-eleito Presidente da República, foi à sala da imprensa. Quando lhe disse o meu nome, ele respondeu: "Sei muito bem quem o senhor é." E apertou-me a mão com firmeza e calor. António Ramalho Eanes. Ficámos amigos até hoje. Com ele viajei por Portugal e ao estrangeiro. Aprendi que ele dispunha de um sentido de ironia por vezes devastador, e que, apenas com uma frase era bem capaz de definir um homem e o seu cunho. Em épocas menos airosas da minha vida, havia sempre umas palavras, pelo telefone ou em carta. Certa vez, estava eu a passar pelos atropelos de uma insídia, ele telefonou e disse-me: "Não se esqueça de que só apedrejam as árvores que dão fruto." Não esqueci.

Um homem como este, que desperta a estima em pessoas tão diferentes como Miguel Torga, Jorge de Sena, Vasco da Gama Fernandes ou Manuel da Fonseca e Augusto Abelaira, terá de possuir algo de distinto e até de oposto aos hábitos e vícios da época. Num tempo desvairado, onde a mentira e a omissão se sobrepõem aos valores da integridade, da honra e da decência, Ramalho Eanes é peça quase única. Eu, pelo menos, conheço poucos ou nenhum que se lhe equipare. Ele é um homem com a respeitabilidade antiga, daqueles para quem o aperto de mão constituía um compromisso irrefragável; um desses raros cavalheiros da velha fidalguia de província que jamais quebra o pacto de decoro e de brio estabelecido consigo mesmo. De contrário, seria "uma vergonha."

A homenagem que lhe fizeram vem na hora própria porque abre um parêntesis de memória virtuosa no lamaçal em que se pretende afogar-nos. O Marcelo, como lhe é costume, tentou confundir a reunião da Aula Magna com o tributo a Eanes, demarcando uma como de Esquerda e outra de Direita. Astúcias frequentes no comentador, tal o velho palhaço Chacrinha, na televisão brasileira, que dizia: "Estou aqui para complicar; não para explicar." A verdade é que tanto Soares como Eanes, se não obtêm unanimidades, conquistaram o afecto de muita gente de Direita e de Esquerda, indiscriminadamente. Viu-se, aliás, nos dois acontecimentos aludidos. E se esse afecto não é determinado pelos mesmos motivos e razões, outros há, de certeza, que aclaram e justificam a sua peculiar natureza. Uma certeza: nenhum destes dois está no outro lado da História.»

BB, DN, 27/11/2013

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Manuel António Pina


O escritor que adorava gatos, poeta discreto, prémio Camões, autor diário de crónicas «com saudade da literatura» no JN, completaria hoje 70 anos se não tivesse partido, também discretamente, há pouco mais de um ano. No Porto, onde vivia, a data foi assinalada de variadas formas: o Museu de Imprensa promoveu a leitura de dez dos seus poemas em sete locais que o autor frequentava nomeadamente a padaria Ribeiro, a belíssima Livraria Lello, o café Piolho, a estação de metro da Trindade, e os cafés Orfeuzinho e Convívio. Esta iniciativa foi acompanhada pelo lançamento de milhares de panfletos com poemas do poeta em diversos locais da cidade do Porto.

Em jeito de homenagem breve ao cronista que eu tanto apreciava, deixo aqui uma das muitas crónicas com que o jornalista/autor animou a última página de tantos e tantos exemplares do Jornal de Notícias. Podia ser uma qualquer outra, mas esta, além de falar de gato, parece-me tão atual!

Onde se fala de gatos e de homens

Os meus gatos dormem durante a maior parte do dia (e, obviamente, durante a noite toda). Suspeito que os gatos têm um segredo, que conhecem uma porta para um mundo coincidente e feliz, por onde só se passa sonhando. Um mundo criado como Deus terá criado o nosso humano mundo, à sua desmesurada imagem. Porque os que sonham são deuses criadores. Os gatos sonham dormindo, os homens sonham fazendo perguntas e procurando respostas.

Mas os meus gatos dormem e sonham porque não têm fome. Teriam, se precisassem de procurar comida, tempo para sonhar? Acontece talvez assim com os homens. Como se o espírito criador fosse, afinal, prisioneiro do estômago. Talvez, então, a mesquinhez de propósitos da nossa vida colectiva radique, como nos querem fazer crer, no défice, e talvez o cumprimento das normas do pacto de estabilidade seja o único sonho que nos é hoje permitido.

E, contudo, dir-se-ia (e isto é algo que escapa aos economistas) que é o sonho, mais do que a balança de pagamentos, que alimenta a vida, e que os povos, como os homens, precisam de mais do que de números. Os próprios números têm (os economistas não o sabem porque a sua ciência dos números é uma ciência de escravos) o poder desrazoável de, não apenas repetir, mas sonhar o mundo.

Há anos que somos governados por economistas e o resultado está à vista. Talvez seja chegada a altura de ser a política (e o sonho) a dirigir a economia e não a economia a dirigir a política. Jesus Cristo «não sabia nada de finanças, / nem consta que tivesse biblioteca», e o seu sonho, no entanto, continua a mover o mundo.

JN, 09/11/2005

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Quo vadis, schola?


Não é novidade para ninguém de quem por aqui passa a minha repulsa, desde longa data (desde a publicação daquele livreco que escreveu sobre o “eduquês”) pelo senhor (C)rato que para mal dos nossos pecados e da escola pública foi escolhido para ministro da Educação.

As tropelias infligidas à escola por todas as formas por aquele senhor de falinhas mansas e sorrisinho sedutor que tanto encantou os meus colegas professores têm acontecido em catadupa – por acaso sem aquele grande banzé feito pelo grupo do senhor Mário FENPROF há uns três ou quatro anos atrás. Porém a última de que tomei conhecimento – por acaso pela boca da jornalista/comentadora Constança Cunha e Sá, aquela senhora que eu considerava aberrante mas que agora raramente perco, imagine-se! – deixou-me (e a ela também que estava tão irritada que quase espumava e encavalitava as palavras umas nas outras) francamente fora de mim. Então o senhor (C)rato inscreveu no OE um corte de catorze milhões de euros na Educação Especial mas, em compensação, disponibilizou 19 milhões para o cheque-ensino. De facto o presente ano letivo iniciou e já vai em franco adiantamento sem que as escolas tenham recebido autorização para contratar os professores de apoio, os psicólogos e os terapeutas que desde há anos têm vindo a apoiar os alunos com necessidades educativas especiais nomeadamente os que integram as unidades estruturadas de autismo e de multideficiência.

Imagine-se o que vai acontecer para o próximo ano! Cada medida tomada pelo senhor “eduquês” é pior que a anterior. Mas o que francamente me espanta é a passividade dos professores, dos pais, dos sindicatos, das confederações de pais! Do povo em geral, enfim – mas isso não só em relação às coisas da Educação, infelizmente. Ou será que as crianças apoiadas pela Educação Especial poderão, também elas, ter a “liberdade de escolha” com que o senhor (C)rato enche a boca e passar a serem atendidas nos colégios privados?! Duvido… (Eh eh eh, brincadeirinha…)

Não quero nem vou repetir as minhas críticas e repreensões ao venal ministro (C)rato, mas deixo aqui algumas das melhores censuras que li nos últimos dias ao senhor “eduquês” e escritas por quem muito bem sabe fazê-lo.

«(…) Escrevo destas coisas banais para designar o verdete e o vómito que me provocam o ministro Crato e o seu sorriso de gioconda de trazer por casa, quando, por sistema e convicção, destrói a escola republicana, aduzindo-lhe, com rankings e estatísticas coxas, a falsa menoridade da sua acção. Este ministro é um mentiroso, por omissão deliberada e injunção de uma ideologia de que é paladino. Não me interessa se abjurou dos ideais de juventude; ou se mandou às malvas o debate que manteve com o professor Medina Carreira, num programa da SIC Notícias. Sei, isso sim, que os homens de bem devem recusar apertar-lhe a mão.»


__________________________

«(…) Crato não quer ser despesa, é essa a sua pulsão dominante. Ele nem imagina o muito que está a custar ao país. Não são apenas as ideias incapazes e os métodos de guerrilha pessoal, são os muros que ele levanta a cada passo e que bloqueiam tudo à sua volta, em todas as áreas da governação, não apenas na dele.

O Ministério da Educação e os sindicatos de professores vivem hoje entrincheirados numa guerra suja. Talvez seja aqui, mais do que em qualquer outro ministério, que se torna mais chocante o grau de impreparação. As dificuldades financeiras tornam inevitáveis os sacrifícios, a poupança, a redução de professores. É verdade, não há dinheiro. Mas na educação exige-se mais, porque não se joga apenas o presente (isto é tão simples que até custa escrever...), determina-se o futuro próximo.

Crato não olha para a frente, olha para o chão, espezinha, suprime, humilha; e assim torna um pouco mais respeitáveis alguns dos sindicatos mais imobilistas que há em Portugal. Não tenho dúvida alguma: são restos do mesmo caldo, embora hoje o ministro se inspire no ar do tempo e no que ele julga serem as boas práticas do sector privado, o procurement, blá-blá-blá. O funcionário Crato não pensa, martela banalidades. O que sobra é isto: o ensino público transformado num vazadouro de lugares-comuns.»

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

A baderna

«... Os funcionários para aqui mandados são fiscais de contas, sem poder decisório porque esse pertence ao FMI, ao Banco Central Europeu e à Comissão Europeia. (...) os burocratas que nos visitam, a fim de verificar se obedecemos às regras impostas, são paus-mandados, e eles próprios atendem ao que lhes impõem os directores daquelas três instituições, as quais são coordenadas friamente pela Alemanha.

Ignoram a História, a cultura, as características, as idiossincrasias dos povos por onde passam, em curto ou ampliado tempo. Pouco se importam se humilham ou desdenham das nações em que foram encarregados de proceder aos seus varejos. Os vexames a que têm sujeitado o povo grego são das situações mais ignóbeis verificadas no nosso tempo, e possuem as distintivas particulares de um sórdido ajuste de contas. O que a Alemanha não conseguiu, com duas guerras mundiais, está a obtê-lo agora, com a mediocridade ultrajante, a cumplicidade servil e a sevandijice nojenta dos dirigentes políticos europeus.»

Baptista-Bastos

A baderna a que o escritor-jornalista se refere na crónica da passada 4ª feira, inclui, para além dos funcionários da troika, o chefe deste "governo", todo o executivo, «o dr. Cavaco, dito Presidente da República» a, acrescento-lhe eu agora a senhora Merkel depois da retumbante vitória nas eleições de ontem no seu país. 




quarta-feira, 11 de setembro de 2013

O mentiroso compulsivo

Eu bem sei que muitos dos meus queridos seguidores não falham a leitura das crónicas das 4ªs feiras do jornalista/escritor Baptista-Bastos pelo que se torna repetitivo transcrevê-las para aqui. Mas a crónica de hoje é por de mais relevante e atual - e por de mais bem escrita - para não a reproduzir.

Não posso deixar de chamar a vossa atenção para o vocabulário meticulosamente escolhido para que o efeito nos leitores tenha a força contundente tão grande e tão contundente como é a atuação do visado sobre o povo. Muito bom!

O mentiroso

«Pouco há a fazer senão demonstrarmos a nossa indignada repulsa. O homem é um mentiroso compulsivo. Há dois anos ameaçou-nos com o empobrecimento, "única alternativa", dizia, à soberba que de nós se apossara para vivermos "acima das nossas possibilidades." Íamos, pois ficar mais pobres do que temos sido. Depois, como a Fénix que renasce das cinzas, gozaríamos de um cintilante futuro. O rol de miséria que se seguiu causou-nos infortúnios e desditas sem nome. Agora, o mesmo homem, possuído de amnésia contumaz, veio afirmar que nenhum político seria capaz de afirmar tal destino. A SIC, pressurosa e cheia de zelo informativo, foi aos arquivos e retransmitiu a primeira e a segunda mensagens. Acaso para avivar a lembrança do desmemoriado ou, simplesmente, para reforçar o que dele sabemos: transformou a mentira numa banalidade.

O pior de tudo é que não nos podemos esconder nem fugir deste homem. Ele está em todo o lado, com rostos diversos e múltiplos, a mesma voz enfática, a mesma mentira travestida, as mesmas maneiras afáveis e frias. Mentir a nós, que temos cama, mesa e roupa lavada asseguradas, é o menos. Mentir aos desempregados, aos velhos, aos miúdos famintos nas escolas, aos moços e moças que não sabem o que fazer porque lhes foi tirada a mais ínfima parcela de sonho - essa, sim, é uma mentira monstruosa, a merecer todas as maldições, os maiores dos desprezos, a mais vil de todas as execrações.

Como é possível que haja gente, presuntivamente de bem, a apoiar este mentiroso que não só nos empobreceu materialmente como nos enfraqueceu a alma, nos amolgou o espírito com perseverança infame, e continua a impelir-nos para uma perdição tão maldosa que, ela própria, nos escapa; como é possível?

A mentira multiplicada quebrou a coesão e colocou portugueses contra portugueses, numa endemia moral que irá prolongar-se. Com extrema dificuldade, os governos que se seguirão conseguirão repor o que nos indicava como o povo mais lógico, por mais unido, da Europa. O mentiroso conseguiu o que mais ninguém obteve, com repressão ou com o montante. Levou-nos até ao desgosto da palavra, porque houve quem acreditasse na voz de tenor, falsamente casta, e na insistência maviosa dos temas.


Redignificar a função, reabilitar a grandeza do falar verdade, é tarefa de resgate incomum; e não vejo quem disponha da elevação necessária e urgente para tal empreitada. Os políticos entenderam a facilidade como norma de uma vitória sobre o tempo, e abandonaram, por incúria e ignorância, as convicções e a consciência de missão. O seu combate é outro. E no caso português muito mais evidente, pelas debilidades culturais dos intervenientes. O mentiroso comum é desprezível; o mentiroso político, abominável: pertence a uma época estimulada pela incerteza, e incapaz de se opor às estruturas ideológicas que tomaram conta da Europa.»




segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O fascismo a bater-nos à porta


Corre pelo Facebook – abençoada janela aberta onde as vizinhas conversam de janela para janela como se costumava e eu vi fazer-se lá na minha terra, Algés, nos longos idos de 50 – e decerto muitos dos meus amigos já se deliciaram a ler, mas não resisto a passar aqui algumas partes deste extraordinário texto que saiu no DN do sábado passado.

Nem sempre leio os textos do provedor do leitor – o jornalista Óscar Mascarenhas – por demasiado longos, mas este realmente não me passou pelo apelativo e por de mais direto título «Poiares Maduro e Lomba sãotão-somente o fascismo a bater-nos ao de leve à porta».
Se não leram ainda, deem uma vista de olhos que merece a pena.

«Aldrabões. Não faço por menos. Mandam as artes e manhas dos artigos de opinião que não se diga logo ao que vem o autor, para manter o leitor agarrado ao prazer do texto. Mas desta vez, iconoclasta como me quero, finto as regras e vou direto ao assunto: os senhores (professores doutores ou doutorandos e mais o que desejarem ser no currículo e na mercearia do bairro) Miguel Poiares Maduro e Pedro Lomba, nos poucos dias que levam de governo, já deram provas de terem sido aldrabões. Não digo que o sejam, que não sou tão pateta e desajeitado que abra um alçapão legal sob os meus próprios pés perante juristas assim ditos tão eminentes: afirmo que o foram. Episódica e admito que corrigivelmente.

E vou mais longe: nos poucos dias em que estes governantes exerceram o poder, o fascismo deu um passo em frente. Nem lhes vou dizer que limpem as mãos à parede, porque podem espalhar a peste, a cólera e a tinha. Lavem-nas, com sabão azul e branco e, de caminho - vão ao banho! (...)

Vejamos quem são estes figurões de que falo - e o leitor trace a opinião sobre o civismo, carácter, ou o que lhe aprouver deles. Miguel Poiares Maduro, ministro, colega de sala de um tal irrevogável Paulo Portas, que preferiu trocar a sua reputação pela salvação da pátria, numa espécie de martírio de Santa Maria Goreti mas ao contrário, no corpinho frágil de São Domingos Sávio que se finou aos quinze anitos. (Este mostra-se mais resistente, sinal de que o Senhor hesita em chamá-lo para junto de si, transferindo o ónus para a tolerante e inexcedível bondade de Cavaco Silva, sempre bem aconselhado pela sua nunca por demais citada esposa, não eleita pelo voto mas calculo que pelo coração de uma cabina telefónica cheia de portugueses, pelo menos!) Paz às almas! Miguel Poiares Maduro, igualmente colega de carteira de um tal Chancerelle Machete que, de ainda mais maduro, se atascou na podridão, ipsis verbis, de uma coisa que dá pelas siglas de SLN e BPN e o qual, diz o WikiLeaks, tem uma reputação tão elevada junto dos americanos que, quando eles quiserem fazer qualquer negócio em Portugal, não duvidarão em consultar certo escritório de advogados porque, como dizem os ianques naquela língua-de-trapos, every man has his price e... money is no problem. Gostaria patrioticamente de estar enganado, mas, em diplomacia, o que parece... é o que diz o WikiLeaks. O outro: Pedro Lomba, colega de Agostinho Branquinho, a criatura que não sabia o que era a Ongoing e teve de ter emprego na Ongoing para perceber o que é a Ongoing. E ser colega de tal figura é coisa para se trazer ao peito, com orgulho, como um broche de bom latão.

Os dois, Poiares Lomba e Pedro Maduro, são herdeiros - com pouco jeito - de Miguel Relvas, que, com muito menos estudos do que eles, lhes deu lições de como fazer política nestes tempos.

Pois os colegas de Portas, Machete e Branquinho - e aprendizes de Relvas - deram-se à missão de gerir a informação ao povo, através dos jornalistas, prometendo briefings diários que duraram dois dias e que retomaram agora, com a honradez da palavra que os caracteriza, em encontros diários duas vezes por semana, não sei se o leitor entende. (...)

Aqui é que estes grandes educadores dos jornalistas aldrabaram. Começaram por dizer - ponho no plural porque tão aldrabão foi o secretário de Estado que disse, como o ministro que mandou dizer ou, pelo menos, não o desautorizou - que os briefings com os jornalistas seriam umas vezes em on - isto é, podia dizer-se quem disse o quê - outras vezes em off (que na sabedoria analfabeta do secretário de Estado e do ministro não sei de quê nem interessa se convertia numa figura nova em que suas excelências expenderiam umas quantas patacoadas espremidas dos seus notáveis bestuntos e os jornalistas papagueá-las-iam, mas sem dizer quem esvurmou tais pústulas de sabedoria). E disseram, ex cathedra, que era assim que se fazia em Inglaterra. Aldrabaram. (Vês, Pedro Tadeu, que há uma palavra ainda mais forte do que "mentiram"? Quando a falta à verdade é rasca e torpe, a palavra é "aldrabice".) Os briefings em Inglaterra são sempre atribuídos ao PMS (Prime Minister Spokesperson), isto é, ao porta-voz oficial do primeiro-ministro, pessoa conhecida e identificada - e as respostas são sempre factuais, nada de divagações onanistas de ministros ou secretários de Estado fala-barato armados em palestrantes.

E, com esta aldrabice, intrujaram: no segundo dia de briefing, levaram uma conceituada jornalista da rádio a reproduzir todos os vómitos e regurgitações opinativas do ministro ou do secretário de Estado, atribuindo-os sempre a "fonte do Governo". Intrujaram a jornalista, que, eventualmente, por temor reverencial ou mau conselho, se esqueceu dos seu dever deontológico de não reproduzir comentários sem identificar a autoria. (...)

Mas não se fica por aqui a impertinência e a incivilidade destes dois cavalheiros: mais recentemente, o ministro Maduro esticou-se nas pontas do pés, esganiçou--se e verberou jornalistas sobre as perguntas que deveriam ou não fazer!

Mas quem é ele?

E, pior do que isso, porque é que não houve nenhum jornalista presente que dissesse a Sua Impertinência que lhe cabe responder ou não às perguntas dos Senhores Jornalistas (com maiúsculas, perante tão vulgar e efémero ministro) e não dizer-lhes o que devem ou não perguntar?

Aviso solene aos jornalistas do Diário de Notícias - e estou seguro de ser levado a sério: manda o nosso Código Deontológico, no seu ponto 3, que "o jornalista deve lutar contra as restrições no acesso às fontes de informação e as tentativas de limitar a liberdade de expressão e o direito de informar. É obrigação do jornalista divulgar as ofensas a estes direitos."

Venham os Poiares Pedros ou os Lombas Maduros que vierem, jornalista do DN que se acobarde perante este fascismo com pés de lã, pode ter a certeza, à fé de quem sou, que fica com o nome num pelourinho de cobardolas que prometo expor aos leitores. Porque é dos direitos dos leitores que estamos a falar. Enquanto estiver nesta casa e nela tiver voz, o fascismo não entra de esguelha.

Estamos a viver tempos perigosos. Em Espanha, o alegado recebedor por baixo da mesa Mariano Rajoy proíbe que se fotografe, que se grave, não sei mais quê. Em Itália, é o que sabe do império Berlusconi (ou é Burlesconi?). Na Grécia, silencia-se a televisão e mesmo com ordens do tribunal não se reabre.

O fascismo anda por aí. É bem visível no ovo da serpente.

Já não há a Europa da liberdade: somos governados por filhos de Putin.

Inúmeros filhos de Putin.

Cabazes de filhos de Putin.

Em Portugal, os devotos de Putin, discípulos de Miguel Relvas, condiscípulos de Agostinho Branquinho e quejandos chamam-se, entre outros, Miguel Poiares Maduro e Pedro Lomba, lamentáveis expoentes de um passado que parecia inconformista e rebelde, transformados num estalar de dedos em esbirros da política da mordaça, assim que os convidaram a sentar-se num mocho cambaio a metro e meio da mesa do orçamento com direito a côdea bolorenta.(...)»



sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O bom senso

Sabe quem me conhece bem que eu sou – sempre fui – esquisita. Esquisita com o comer; esquisita com o aspeto das coisas; esquisita com a forma de fazer as camas; esquisita com as amizades; esquisita com os gostos em geral. Lembro-me de, jovem adolescente e mesmo jovem adulta, detestar (quase) tudo e (quase) todos e de a minha mãe, que tinha uma forma de ser bem austera, me chegar a proibir de usar o verbo «detestar»… Lembro-me de um colega/amigo com quem há anos trabalhei e bem lá na direção da “minha” escola diariamente durante dois anos (e que depois se “passou” para a “oposição” mas que, apesar de tudo, nunca detestei…) me perguntar um dia em tom de brincadeira: «Mas haverá alguém do teu partido que tu não detestes?!»

Vem todo este introito ao caso para dizer que sou bem esquisita também com as palavras e com as expressões que ouço e que uso. Claro que somos todos assim e que a psicolinguística achará explicação para estas nossas preferências ou embirrações na escolha dos imensos e variados vocábulos que temos à nossa disposição para usarmos.

Ora uma das expressões com que eu mais embirro e que detesto ouvir ou ler é o “bom senso”. Para mim, o “bom senso” não existe. Existe a sensatez, a prudência, o senso até, mas nunca o “bom senso”. Primeiro porque se trata de uma redundância e depois porque todo o conceito que vem acompanhado pelos adjetivos “bom” ou “mau” já vem absolutamente carregado de juízos de valor da pessoa que o profere pelo que não tem qualquer valor preciso. E, a partir das minhas “análises de conteúdo” caseiras, tenho concluído que quem mais utiliza esta expressão (e desde já peço desculpa se vou suscetibilizar alguém) são, entre outras, as pessoas ligadas à direita, à igreja, os “escuteirinhos” de Massamá e quejandos, ou seja, quem se sente na obrigação de se mostrar muito bonzinho e, claro está, quem sofre de manifesta falta de vocabulário.

Agora imaginem a cara com que fiquei quando hoje fui ler a crónica das 6ªs feiras da Fernanda Câncio, que até uma mocinha que eu gosto bastante de ler, e me deparo logo a abrir com a minha mal-amada expressão. Depois, incrédula, lá retrocedi, voltei a ler e concluí que se tratava de uma citação. E sabem retirada de onde? Do acórdão da Relação do Porto! É verdade! Mal está a coisa quando juízes, que deveriam ser o mais objetivos possível e deter-se o mais próximo possível da(s) lei(s), também apelam (espero que não por falta de vocabulário…) para o dito “bom senso”, conceito moralista, impreciso, polissémico até mais não, mais maleável e escorregadio do que uma enguia viva, a fim de dar razão ao homenzinho que estava trabalhar podre de bêbado. Salazar (infelizmente) cada vez mais na moda: «Beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses!»



(A propósito da questão que motivou este triste acórdão lembrei-me de uma brincadeira que se contava acerca de um presidente de uma qualquer sociedade recreativa que terminou um dos seus discursos em noite de festa  da seguinte maneira: «Cômamos e bêbamos para que esta coletividade próspere!»…)

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Que mau feitio o meu!

(retirado da net)

Será uma questão de mau feitio ou estarei mesmo a ficar velha e rezinga? 

Aqui há umas semanas, grande sururu nos jornais e nas redes ditas sociais porque “apanharam” o safado do José Sócrates a passear na classe executiva da TAP, enquanto o diligente e esfalfado primeiro-ministro do país, coitado, vinha, no mesmo avião, de pernas encolhidas e quiçá com os cabelos do vizinho/a do lado a caírem-lhe para o ombro sobre o qual a cabeça daquele/a descaía forçada pela sonolência da viagem, tudo em nome de uma poupança que o honesto governante prometeu ainda na campanha eleitoral. Hoje, porém, não consigo encontrar aqueles ”amigos” do Facebook que tanto puxaram pelo baço sinal de poupança do PM perante a proverbial megalomania do seu antecessor, questionando-se sobre o número absolutamente hiperbólico – 4463, para ser exata – de membros, ou direi boys?, para trabalharem nos catorze gabinetes ministeriais (que foram apenas catorze para evitar despesas…) 

Outra “cena” – como dizem agora os nossos jovens – que me chocou foi folhear o jornal e, nas suas páginas centrais, ler o grande título «Benfica vinga-se ao sagrar-se campeão europeu no Dragão». Não sou, nunca fui, grande desportista nem nunca fui muito em “futebóis”. Toda a vida me manifestei contra a noção de competição pela competição o que, em família de atletas, jogadores e treinadores, sempre me trouxe grande oposição. Agora ver plasmado e aceite que as vitórias possam ser glorificadas em termos de vingança é que é de mais para mim. Ou estarei a ver mal?

Mal, mesmo mal, penso, e não é de agora, dos escritos malévolos e fascizantes de um senhor que diz que dá pelo inócuo nome de Alberto Gonçalves, apresentado como sociólogo que, domingo após domingo, assina há anos uma rubrica de opinião no DN. Por vezes, forro-me de paciência e lanço-me na aventura de lhe ler as barbaridades mas raramente chego ao fim. É assim daquelas pessoas que destrata tudo e todos e não mostra um pingo de prurido por qualquer situação ou pessoa. Deve ser uma pessoa com estranhos défices de realização emocional (e outra, talvez) e com bastantes conflitos interiores por resolver que não entendo como continua a ser mantido com residente daquele jornal. Ontem, depois de atirar as suas unhas sujas de nazi procrastinado sobre a reunião das pessoas de esquerda convocada por Mário Soares e António da Nóvoa – o resto já não li, que náusea! Mas os meus amigo podem ler aqui, se tiverem paciência para tal  – deixou o seguinte destaque: 

Aprender com o Outro

Enquanto o parlamento nigeriano aprova a criminalização da homossexualidade, um escritor egípcio lançou uma campanha no Twitter para convencer as mulheres a deixarem os empregos em lojas e locais públicos que uma lei recente lhes concedeu. O sr. Al-Dawood, segundo a imprensa autor de livros de autoajuda, está preocupado com o assédio sexual que as senhoras sofrerão no trabalho, pelo que incentiva o povo a molestá-las de uma vez. É o velho método de dar um tiro na cabeça para evitar sofrer de pneumonia anos depois. Infelizmente, o Ocidente fechou-se numa redoma materialista e descura o enriquecimento espiritual que sopra do islão. Felizmente, o islão preocupa-se com o Ocidente e, com crescente regularidade, procura também autoajudar-nos.


Será mesmo que estou a ficar com mau feitio?!