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segunda-feira, 25 de março de 2019

Presságio


Ela há-de vir como um punhal silente
Cravar-se para sempre no meu peito.
Podem os deuses rir na hora presente
Que ela há-de vir como um punhal direito.

Cubram-me lutos, sordidez e chagas!
Também rubis das minhas mãos morenas!
Rasguem-se os véus do leito em que me afagas!
— A coroa de ferro é cinza apenas...

E ela há-de vir a lepra que receio
E cuja sombra, aos poucos me consome.
Ela há-de vir, maior que a sede e a fome,
Ela há-de vir, a dor que ainda não veio.

Pedro Homem de Mello, in "Príncipe Perfeito"



(Foto de F. Mendes)

sexta-feira, 8 de março de 2019

Mulher


A Luz que Vem das Pedras

A luz que vem das pedras, do íntimo da pedra,
tu a colhes, mulher, a distribuis
tão generosa e à janela do mundo.
O sal do mar percorre a tua língua;
não são de mais em ti as coisas mais.
Melhor que tudo, o voo dos insectos,
o ritmo nocturno do girar dos bichos,
a chave do momento em que começa o canto
da ave ou da cigarra
— a mão que tal comanda no mesmo gesto fere
a corda do que em ti faz acordar
os olhos densos de cada dia um só.
Quem está salvando nesta respiração
boca a boca real com o universo?

Pedro Tamen, in "Agora, Estar"



A Vénus de Botticelli


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

«Tenho uma saudade braba»


Passam já 41 anos (fez ontem) sobre a partida do grande senhor da Letras e da Língua e Cultura Portuguesas, meu querido Professor, Vitorino Nemésio. 

Não esqueço nunca a sua erudição, a sua imensa sabedoria, a sua terna sensibilidade nas aulas e nas provas orais a que tínhamos de nos sujeitar obrigatoriamente...

Deixo aqui a minha «saudade braba» do professor e desses tempos de juventude.


Tenho uma saudade tão braba
Da ilha onde já não moro,
Que em velho só bebo a baba
Do pouco pranto que choro.

Os meus parentes, com dó,
Bem que me querem levar,
Mas talvez que nem meu pó
Mereça a Deus lá ficar.

Enfim, só Nosso Senhor
Há-de decidir se posso
Morrer lá com esta dor,
A meio de um Padre Nosso.

Quando se diz «Seja feita»
Eu sentirei na garganta
A mão da Morte, direita
A este peito, que ainda canta.

Vitorino Nemésio, in "Caderno de Caligraphia e outros Poemas a Marga"



Obra de V. Nemésio
(foto de Adélio Amaro)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Aviltamento


Enquanto portuguesa, cidadã, professora de Português e grande apreciadora do poeta dos vilancetes cem glosados, das cantigas de filigrana, dos sonetos perfeitos e da grande, enorme, luminosa epopeia portuguesa, sinto-me dececionada (não com o presidente que esse nunca nem por um dia me criou ilusões), humilhada, aviltada pela escolha que o atual presidente fez para presidir à celebração do Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades. 

Camões deve estar "aos saltos na tumba"! E qual é o português, quais são as comunidades que se reveem em alguém que nunca deu provas em nenhum campo da ciência, da escrita ou do conhecimento em geral, alguém sem qualquer tipo daquela grandeza necessária para nos representar, num simples fazedor de palhaçadas de mau comediante (sem ofensa para os palhaços nem  para os comediantes de profissão, naturalmente!)?



Recolhendo as sempre bem escolhidas palavras do escritor Mário de Carvalho, transcrevo a sua opinião expressa na sua página de facebook, com a qual não podia concordar mais.

«Admitindo que o actual Presidente da República visse conveniência em nomear para o 10 de Junho, Dia de Portugal, Camões e das Comunidades Portuguesas, uma personalidade de direita, não lhe faltariam, em alto nível, cientistas, médicos, professores, arquitectos, artistas, escritores dessa tendência... Assim evitaria o desprestígio do acto. O achincalho. O desconforto do popularucho.»

Tenho para mim que, numa febre de popularidade, Marcelo está a perder o auto controlo...


sábado, 19 de janeiro de 2019

Exposição de Eça e Os Maias na Gulbenkian

Ontem foi dia de "visita de estudo" com os alunos seniores. Foi tempo de visitar a exposição de «Eça e Os Maias - tudo o que tenho no saco» organizada pela Fundação Gulbenkian.

Mais uma exposição com a qualidade a que a Gulbenkian nos habituou: muito bonita, muito sóbria, muito bem fundamentada, muito ampla naquele espaço amplo e muito bem apresentada pela guia que nos recebeu e acompanhou. 

Nem só de «Os Maias» trata a exposição. A primeira sala dedica-se à «Vasta Máquina» de 1888 que foi o ano da publicação da obra em dois volumes. 

Em carta ao seu amigo Oliveira Martins, Eça dirá : 

«Os Maias saíram uma coisa extensa e sobrecarregada, em dois grossos volumes! Mas há episódios bastante toleráveis. Folheia-os, porque os dois tomos são volumosos de mais para ler. Recomendo-te o começo, as primeiras 100 páginas; certa ida a Sintra; as corridas; o desafio; a cena no jornal A Tarde; e sobretudo o sarau literário. Basta ler isso, e já não é pouco. Indico-te, para não andares a procurar através daquela imensa massa de prosa.» 





A segunda sala mostra o percurso de vida do autor antes de escrever a sua obra prima., nomeadamente as viagens pelo Oriente e que tanto influenciaram toda a sua obra.








Depois falam-nos da «guerra» que Eça e os seus amigos da Geração de 70 declararam ao Romantismo. 






Noutra sala,subordinado ao tema Norma e Desejo, grande destaque para «O Crime do Padre Amaro» com quadros da pintora Paula Rego.





Na Cela
Entre as Mulheres
E muitos outros aspetos do multifacetado e multi viajado escritor.


O dandismo



Os vencidos da vida





A crítica e a ironia

E alguns objetos pertencentes ao escritor.












Vale bem a pena visitar!

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

A Primeira Lua de Inverno





I
Repousa em redor a pequena vila.
Às luzes que cruzam a rua
Juntam-se lanternas de um fiacre.
Poluídos para alguns os frutos do dia,
Deixam o mercado agora ermo,
Sem uvas nem girassóis.
Ouve-se música através dos muros,
No jardim alguém tenta calar o apelo
De um amor recusado, ainda em chaga,
Mas na cascata a água precipita-se,
Fresca, num jorro rápido.



II
Acabou o Sol & o sino da tarde leva
Os deuses, um a um, a um passado provisórios,
Donde irão emergir para o grande cisma
Do Inverno, o primeiro sopro do qual
Já se ouve subir os píncaros da serra.
Para a deusa branca chegou o fim do seu enigma,
A sua ruína coroa agora as ruínas do castelo:
Aqui morrem os deuses & as borboletas.
Rejeitados olhando apenas,
Recíproco, um brilho no vazio.

M.S. Lourenço (1936 – 2009)



(E pensar eu que vivi ali tão perto do poeta M.S.Lourenço, decerto me cruzei com ele algumas vezes  ali nas escadinhas ou no Largo do Vitor onde ele vivia e... nunca o conheci...)




sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Natal de outros tempos

O DN - agora apenas semanário - está a trazer-nos à memória textos do Natal de outros tempos. 

Esta ilustração a preto e branco foi publicada no DN de 25 de Dezembro de 1928 e, com desenho do ilustrador e pintor modernista Bernardo Marques (1898 - 1962) e texto da escritora Fernanda de Castro (1900 - 1994), mostra-nos os brinquedos que faziam as delícias das crianças daquele tempo.




De notar a ingenuidade dos versos que eram, de igual forma, dedicados às crianças...


O cavalinho de pau
não precisa de chicote.
No reino da fantasia
anda a galope, anda a trote.

O vaporzinho de lata
não receia o mar profundo
Adeus! Adeus! Vai partir
Para onde? Para o mundo!

O soldadinho de chumbo
vive contente, é feliz
na caixinha de cartão
que lhe serve de país. 

o comboio vai partir,
a vida é o fim da viagem...
Quem não quer ir para a vida?
Quem não compra uma passagem?

Ninguém sabe quantas voltas
uma bola dá no ar...
Também as voltas do mundo
ninguém as pode contar.

Com esta caixa de tintas
todos nós somos pintores...
A vida é negra? Que importa!
Vamos nós pintá-la a cores.

A bonequinha de loiça
que tem anéis e cordão
chapéu, sapatos, vestidos 
terá também coração?

(Fernanda de Castro)

domingo, 18 de novembro de 2018

Cai a chuva abandonada


Cai a chuva abandonada
à minha melancolia,
a melancolia do nada
que é tudo o que em nós se cria.

Memória estranha de outrora
não a sei e está presente.
Em mim por si se demora
e nada em mim a consente

do que me fala à razão.
Mas a razão é limite
do que tem ocasião

de negar o que me fite
de onde é a minha mansão
que é mansão no sem-limite.
Ao longe e ao alto é que estou
e só daí é que sou.

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1'




terça-feira, 6 de novembro de 2018

No aniversário de Sophia



Nascida no Porto em 6 de novembro de 1919, faria hoje 99 anos a voz helénica que sempre se elevava contra todas as injustiças do seu tempo.

Aqui fica um dos seus poemas sempre belos e atuais.

Com Fúria e Raiva

Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada

De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse

Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"

sábado, 3 de novembro de 2018

A vida é o ai que mal soa...

Li o mail esta manhã: "o nosso amigo Carlos Oliveira, (do sempre interveniente blog Crónicas do Rochedo,) morreu na passada 2ª feira. Foi cremado."

Triste de mais. Triste de mais. Apesar daquela sua despedida algo desassombrada em 6 de setembro último, apesar de se estar já à espera, a realidade bate sempre forte e crua.

Não sei se acredito naquela frase de conveniência que se diz: «Descanse em paz.» Mas que descanse em paz se for caso disso.

E, como sempre, é a poesia que me vem de imediato à ideia. E evoco aqui João de Deus.

«A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa.

(...) 

A vida o vento a levou.»




Até um dia, Carlos!



terça-feira, 23 de outubro de 2018

Burgueses somos nós todos ...

Foi Mário Cesariny, poeta surrealista, quem o escreveu pelos anos 40, embora apenas fosse publicado em 1959 no livro Nobilíssima Visão.

Falava, no seu todo, da vidinha, o real do dia-a-dia na vida de gente com pouco que contar. Por isso me lembrei de o trazer hoje aqui - o poema Raio de Luz, título que é a antítese da sua essência.

Burgueses somos nós todos
    ou ainda menos.
Burgueses somos nós todos
    desde pequenos.

Burgueses somos nós todos
       ó literatos.
Burgueses somos nós todos
      ratos e gatos


Burgueses somos nós todos
    por nossas mãos.
Burgueses somos nós todos
    que horror irmãos.


Burgueses somos nós todos
    ou ainda menos.
Burgueses somos nós todos
     desde pequenos. 


(Mário de Carvalho utilizou os dois primeiros versos deste admirável poema como título de mais um dos seus belíssimos livros de contos.)

(daqui)


terça-feira, 25 de setembro de 2018

Inês de Leiria

A propósito da "princesa do Lis" como me chamou o nosso amigo Manuel Veiga, lembrei-me de um poema do poeta/escritor leiriense Afonso Lopes Vieira que tínhamos na Selecta Literária no tempo do Liceu, nos idos de 60, e que se chama Inês de Leiria.

Deve ser muito pouco conhecido porque não no acervo de Mister Google...

Diz assim:

Encontrou Fernão Mendes
no interior da China
(e em que apuros ele ia!)
a velha portuguesa
chamada Inês de Leiria,
que de repente reza:
Padre Nosso que estais nos céus…
Era, de português, o que sabia.

Ouvindo Fernão Mendes
esta voz que soava
(Fernão cativo e cheio de tristeza!),
o Português sorria…

Padre Nosso que estais nos céus…
A velha mais não sabia,
mas bastava.

Boa Inês de Leiria,
cara patrícia minha,
embora te fizesse
a aventura imortal
de Portugal
chinesa muito mais que portuguesa,
- pois por esse sorriso de Fernão
tocas-me o coração.

Deste-lhe em tal ensejo
entre as misérias da viagem,
o mais gostoso e saboroso beijo
- o da Linguagem!

Onde a Terra se Acaba e o Mar Começa (1940)
Afonso Lopes Vieira








quarta-feira, 19 de setembro de 2018

O dinheiro

É indiscutível o poder do dinheiro! O dinheiro tudo pode e não vale a pena estarmos com devaneios e pensamentos ingénuos. No fundo, no fundo, todos temos o nosso preço...

Já o dizia o poeta João de Deus, em cujo "Dinheiro" tropecei hoje, por acaso.

O dinheiro é tão bonito,
Tão bonito, o maganão!
Tem tanta graça, o maldito,
Tem tanto chiste, o ladrão!
O falar, fala de um modo...
Todo ele, aquele todo...
E elas acham-no tão guapo!
Velhinha ou moça que veja,
Por mais esquiva que seja,
                            Tlim!
                            Papo.

E a cegueira da justiça
Como ele a tira num ai!
Sem lhe tocar com a pinça;
E só dizer-lhe: «Aí vai...»
Operação melindrosa,
Que não é lá qualquer coisa;
Catarata, tome conta!
Pois não faz mais do que isto,
Diz-me um juiz que o tem visto:
                            Tlim!
                            Pronta.

Nessas espécies de exames
Que a gente faz em rapaz,
São milagres aos enxames
O que aquele demo faz!
Sem saber nem patavina
De gramática latina,
Quer-se um rapaz dali fora?
Vai ele com tais falinhas,
Tais gaifonas, tais coisinhas...
                            Tlim!
                            Ora...

Aquela fisionomia
É lábia que o demo tem!
Mas numa secretaria
Aí é que é vê-lo bem!
Quando ele de grande gala,
Entra o ministro na sala,
Aproveita a ocasião:
«Conhece este amigo antigo?»
— Oh, meu tão antigo amigo!
                            (Tlim!)
                            Pois não!

João de Deus, in 'Campo de Flores' 


E a propósito, esta excelente cena de Cabaret.




sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Lobo Antunes na Pléiade

Fiquei feliz quando, esta manhã, ouvi a notícia de que António Lobo Antunes – o nosso melhor escritor vivo (digo eu) – vai ter a sua obra editada pela Biblioteca Pléiade incluída na coleção que desde 1931 reúne a obra de uma selecionada lista de grandes autores mundiais.

De referir que o único autor português que até hoje teve a sua obra publicada por aquela Biblioteca de referência foi o poeta Fernando Pessoa, em 2001.

O escritor afirma que este “é o maior reconhecimento que algum escritor pode ter". A escolha da Pléiade é dedicada pelo escritor "aos meus amigos, aos meus leitores e ao meu irmão José Cardoso Pires, que esteja onde estiver estará muito feliz". (daqui)




Parabéns ao escolhido pelo seu talento, pela sua entrega, pelo seu valor!

E para falar de Lobo Antunes, chamo aqui o poeta Manuel Alegre que escreveu assim:

«António Lobo Antunes é um dos que sabe, como o poeta René Char, que certas guerras não acabam nunca. Devemos-lhe as páginas que sobre ela escreveu. Mas devemos-lhe sobretudo a revolução literária em que ele trouxe para a escrita a continuação, as consequências, o rasto e o rosto dessa guerra cá dentro. Está nas docas, nos contentores. E nas personagens que trazem dos arrabaldes para o centro uma fala nova. cada uma delas é à sua maneira o regresso das caravelas. Não só os que partiram, mas os que nunca mais terão oportunidade de o fazer.

Do Esplendor de Portugal ao Manual dos Inquisidores ou ao Sôbolos Rios Que Vão às vezes eu não sei se é o António que escreve ou um coro que fala por ele naquela estranha forma de partitura em que se vão transformando os seus romances. Como uma sinfonia de muitas vozes. Dizem alguns que não há história. São os que não percebem que pela pena do António todas as vozes estão a contar a nossa História, ainda que por vezes pareça uma história dos subúrbios que são afinal os arredores da História. Sinais, ecos, rastos de um império e de uma guerra que acabou e não acaba. Se repararmos bem, nós estamos nessas frases, somos essa paródia, falamos nessas falas. E somos esse texto.»

Manuel Alegre, in “Uma outra memória”, 2016



quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Aquilino Ribeiro (1885-1963)

E porque passam hoje, 13 de setembro, 133 anos sobre o nascimento do grande autor de O Malhadinhas, deixo aqui o excerto de um texto de Baptista-Bastos sobre o grande Homem que foi Aquilino.



«Para Aquilino Ribeiro, a questão essencial do homem sempre foi a questão da liberdade. E a relação do grande escritor com Portugal teve em constante cuidado a ausência dessa dimensão e a exigência de um compromisso moral em combater essa ausência. E, também, na defesa da razão, na crença no progresso e no poder da palavra. A obra vasta, poderosa e singular do autor de A Casa grande de Romarigães constitui o mais fascinante quadro poliédrico da realidade portuguesa. Na História, nas fontes medievais, nas ficções, nos ensaios, nas polémicas ele procurou uma espécie de «modernidade» sem deslocação temporal que identificasse a passagem do catecismo religioso para as diversas outras formas de autoritarismo concebido como a mais atroz forma de atraso.

É um momento sem par na cultura portuguesa, em que a ética do empenhamento se associa à estética funcional do trabalho literário. A vastíssima galeria d personagens aquilinianas é uma avaliação do que somos e do que fomos. E o que impõe a distinção desta obra a todas as outras, suas contemporâneas ou precedentes, é a poderosa persuasão de cada um seguir a sua consciência e de não desistir de conquistar a sua própria liberdade. (…)

O grande autor desta biografia-crítica [O Galante Século XVIII – Textos do Cavaleiro de Oliveira] passou a vida a correr riscos, a afrontar os poderes, a denunciar a mentira, a fustigar a hipocrisia. Desprezava os escreventes de vários matizes que desonravam a Imprensa e a literatura. Quando foi imperioso, colocou de lado a pena e empunhou o trabuco. (…) As relações de domínio tão bem expressas por Aquilino, podem ajudar-nos a refletir acerca da natureza do poder e da tendência do poder (qualquer que ele seja) para o autoritarismo. É preciso, pois, não temer o tirano. É preciso protestar contra a servidão. É preciso resistir: resistir é uma forma superior de sobrevivência, e sobreviver é permanecer enfrentar as contínuas tentativas de degradação da condição humana.

Aquilino Ribeiro ensinou-nos a liberdade.»

Baptista-Bastos, Julho 2008

sábado, 1 de setembro de 2018

Parabéns, António Lobo Antunes!

António Lobo Antunes, o nosso melhor escritor vivo, (digo eu...) completa hoje 76 anos de vida e não para de publicar romances.

Acabei há poucos dias a leitura de "Para aquela que está sentada no escuro à minha espera" e só vos digo que é um belo pedaço de literatura! Um emaranhado de memórias, de pedaços de vida de uma quantidade de personagens dado pelo pensamento silencioso de uma narradora que sofre da doença de Alzheimer e que não fala mas observa e recorda - sem nunca se perder o fio à meada, sem alguma vez deixar um fio solto. Um espanto de corrente de pensamento que não nos deixa interromper a leitura e que, embora algo deprimente, termina num imenso jorro de luz. 

Muito bom! (como todos os outros romances que dele li)

Pelos longos anos de vida plena que tem vivido e pelos muitos milhares de páginas de excelente escrita com que nos tem premiado, parabéns, António Lobo Antunes!




terça-feira, 14 de agosto de 2018

Ode ao Futebol



Agora que (infelizmente) os campeonatos estão de volta com os respetivos resumos, relatos, transmissões, comentários de comentadeiros musculados e tudo, parece-me bem, deixar aqui uns versos engraçados do desenhador, ilustrador, caricaturista e também poeta quase desconhecido  António Fernando dos Santos - o Tóssan.


“Retângulo verde, meio de sombra meio de sol
Vinte e dois em cuecas jogando futebol
Correndo, saltando, ziguezagueando ao som dum apito
Um homem magrito, também em cuecas
E mais dois carecas com uma bandeira
De cá para lá, de lá para cá
Bola ao centro, bola fora.
Fora o árbitro!
E a multidão, lá do peão
Gritava, berrava, gesticulava
E a bola coitada, rolava no verde
Rolava no pé, de cabeça em cabeça
A bola não perde, um minuto sequer
Zumbindo no ar como um besoiro,
Toda redonda, toda bonita
Vestida de coiro.
O árbitro corre, o árbitro apita
O público grita
Gooooolllllooooo!
Bola nas redes
Laranjadas, pirolitos,
Asneiras, palavrões
Damas frenéticas, gordas esqueléticas
esganiçadas aos gritos.
Todos à uma, todos ao um
Ao árbitro roubam o apito
Entra a guarda, entra a polícia
Os cavalos a correr, os senhores a esconder
Uma cabeça aqui, um pé acolá
Ancas, coxas, pernas, pé,
Cabeças no chão, cabeças de cavalo,
Cavalos sem cabeça, com os pés no ar
Fez-se em montão multidão.
E uma dama excitada, que era casada
Com um marinheiro distraído,
No meio da bancada que estava à cunha,
Tirou-lhe um olho, com a própria unha!
À unha, à unha!
Ânimos ao alto!
E no fim,
perdeu-se o campeonato!”

Tossan  (1918-1991)


Tóssan

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Ode ao Gato

Dizem que hoje é o Dia do Gato. Sabia do dia 17 de fevereiro, mas se o facebook  diz que é hoje, é porque é hoje.

Para mim, todos os dias são dias dos gatos, por isso, pouca diferença me faz. Procurei e encontrei este belo poema que dedico aos gatos e a todos os amantes de gatos.

Ode ao Gato

Tu e eu temos de permeio
a rebeldia que desassossega,
a matéria compulsiva dos sentidos.
Que ninguém nos dome,
que ninguém tente
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza,
pois nós temos fôlegos largos
de vento e de névoa
para de novo nos erguermos
e, sobre o desconsolo dos escombros,
formarmos o salto
que leva à glória ou à morte,
conforme a harmonia dos astros
e a regra elementar do destino.

José Jorge Letria, in "Animália Odes aos Bichos"