Deixei aqui dito há uns dias, a
propósito do aforismo pessoano «o melhor
do mundo são as crianças» que o bom do Pessoa não tem culpa nenhuma que lhe
estafem as tiradas. E assim é! O mesmo acontece com o seu belo verso «tudo vale a pena se a alma não é pequena»,
com a sua tirada publicitária «primeiro
estranha-se, depois entranha-se» e também com a extraordinária frase do
Livro do Desassossego «a minha pátria é a
língua portuguesa».
Lido mal com o chamado
«lugar-comum» desde cedo e exultei quando aí por setenta e tal li um texto do
poeta José Gomes Ferreira (não confundir com o papagaio de serviço da SIC) em
que ele, no seu habitual tom irónico, faz o levantamento de todos os “bordões”
de linguagem usados à época. É que nós, portugueses, por preguiça ou mesmo por
falta de vocabulário, somos exímios em deixar que se nos colem ao ouvido
palavras ou expressões que depois usamos até à metafísica (esta também é do
Pessoa, mas muito pouco usada…)
Bom, mas para introdução, isto já
vai longo. Trago aqui esta frase porque, de facto, eu gosto muito da nossa
língua e, como já devem ter notado, não gosto de usar palavras emprestadas,
nomeadamente do inglês (apesar de ser de Germânicas…) Gosto muito da minha
língua ouvida falada, escrita, usada na poesia, no romance, no jornal, seja
onde for, seja na sonoridade portuguesa, brasileira, africana...
Sou daquelas que não estou nada
preocupada com o acordo ortográfico mais recente. Entendo-o e sei que acontece
como já aconteceram uns tantos outros ao longo dos tempos. Já leram Saussure?
Já leram Coseriu? Já leram Chomsky? Não? Então, leiam! E desenganem-se aqueles
que muito pomposamente vêm com a falácia de que este acordo vem corromper a
«bela língua de Camões» porque, garanto-vos que o Camões não escrevia a nossa
bela língua de acordo com nenhum dos acordos ortográficos que conhecemos! Além
de que as línguas corrompem-se é com o uso ao longo dos tempos e se não se
corrompessem, a esta hora, ainda estaríamos a falar latim!
Lá estou eu a divagar!
Ora voltando ao tema: hoje li no
jornal que as universidades portuguesas já têm mais de 170 cursos dados em
inglês. E estavam todos muito contentes com o facto! Como se estivéssemos a
vender cursos superiores para o estrangeiro ministrados em Portugal. Uma espécie
de exportação, um empreendedorismo, como se diz agora! Assim como quem faz
sapatos, ou camisas ou rolhas, ou garrafas de azeite ou secretos de porco preto
para melhorar os níveis da economia.
Fiquei chocada! Se calhar é por
estar velha, mas não dá para entender este novo-riquismo provincianês! E onde
fica a nossa língua? Já não bastava assistir ao triste espetáculo dos “nossos”
“governantes” a realizarem conselhos de ministros para inglês ouvir, senão
agora também ver os nossos professores universitários a papaguear fórmulas
químicas ou noções de literatura portuguesa em inglês…
Desculpem-me mas não serão estes
sinais muito mais preocupantes do que tirar um c ou um p que nem é
vocalizado de uma ou outra palavra?












