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segunda-feira, 9 de junho de 2014

A minha pátria é a língua portuguesa

Deixei aqui dito há uns dias, a propósito do aforismo pessoano «o melhor do mundo são as crianças» que o bom do Pessoa não tem culpa nenhuma que lhe estafem as tiradas. E assim é! O mesmo acontece com o seu belo verso «tudo vale a pena se a alma não é pequena», com a sua tirada publicitária «primeiro estranha-se, depois entranha-se» e também com a extraordinária frase do Livro do Desassossego «a minha pátria é a língua portuguesa».



Lido mal com o chamado «lugar-comum» desde cedo e exultei quando aí por setenta e tal li um texto do poeta José Gomes Ferreira (não confundir com o papagaio de serviço da SIC) em que ele, no seu habitual tom irónico, faz o levantamento de todos os “bordões” de linguagem usados à época. É que nós, portugueses, por preguiça ou mesmo por falta de vocabulário, somos exímios em deixar que se nos colem ao ouvido palavras ou expressões que depois usamos até à metafísica (esta também é do Pessoa, mas muito pouco usada…)

Bom, mas para introdução, isto já vai longo. Trago aqui esta frase porque, de facto, eu gosto muito da nossa língua e, como já devem ter notado, não gosto de usar palavras emprestadas, nomeadamente do inglês (apesar de ser de Germânicas…) Gosto muito da minha língua ouvida falada, escrita, usada na poesia, no romance, no jornal, seja onde for, seja na sonoridade portuguesa, brasileira, africana...

Sou daquelas que não estou nada preocupada com o acordo ortográfico mais recente. Entendo-o e sei que acontece como já aconteceram uns tantos outros ao longo dos tempos. Já leram Saussure? Já leram Coseriu? Já leram Chomsky? Não? Então, leiam! E desenganem-se aqueles que muito pomposamente vêm com a falácia de que este acordo vem corromper a «bela língua de Camões» porque, garanto-vos que o Camões não escrevia a nossa bela língua de acordo com nenhum dos acordos ortográficos que conhecemos! Além de que as línguas corrompem-se é com o uso ao longo dos tempos e se não se corrompessem, a esta hora, ainda estaríamos a falar latim!

Lá estou eu a divagar!

Ora voltando ao tema: hoje li no jornal que as universidades portuguesas já têm mais de 170 cursos dados em inglês. E estavam todos muito contentes com o facto! Como se estivéssemos a vender cursos superiores para o estrangeiro ministrados em Portugal. Uma espécie de exportação, um empreendedorismo, como se diz agora! Assim como quem faz sapatos, ou camisas ou rolhas, ou garrafas de azeite ou secretos de porco preto para melhorar os níveis da economia.

Fiquei chocada! Se calhar é por estar velha, mas não dá para entender este novo-riquismo provincianês! E onde fica a nossa língua? Já não bastava assistir ao triste espetáculo dos “nossos” “governantes” a realizarem conselhos de ministros para inglês ouvir, senão agora também ver os nossos professores universitários a papaguear fórmulas químicas ou noções de literatura portuguesa em inglês…

Desculpem-me mas não serão estes sinais muito mais preocupantes do que tirar um c ou um p que nem é vocalizado de uma ou outra palavra?


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Dia Internacional da Língua Materna



Todas as invenções – ou direi descobertas? – do Homem desde que pôs os pés na Terra são extraordinárias. Mas a criação de um código linguístico para exprimir e organizar o pensamento e para se entender com o próximo, é das mais espantosas.

A língua em que cada nativo se exprime é a sua primeira condição de pessoa singular e social, de individualidade e de pertença, de igualdade e de diversidade.

Sou suspeita, sou de Letras e as minhas disciplinas preferidas foram mesmo as Linguísticas: o estudo da história da(s) Língua(s) – independentemente de ser a Portuguesa ou outra – do seu funcionamento, da sua evolução, de como é usada por cada falante, por cada pequeno grupo deu-me um imenso prazer.

Porém, apesar de gostar imenso da língua inglesa e até da francesa que não domino tão bem, não tanto da alemã, nada há que chegue, para mim, à bela, fresca e rica Língua Portuguesa.

Bem sei que há situações nas malhas da política em que é importante usar-se o inglês, mas ver estes jota-governantes que nos calharam em rifa (e ainda não eram sorteados os topo de gama com o voto) a palrar em inglês por essa Europa fora por tudo e por nada para armar ao fino, e o irrevogável (ou direi “inenarrável”?) vice-primeiro a hablar espanhuel, dá-me volta ao estômago! Isto para não falar naquela moda, não sei se de facto aplicada, de dar as aulas no superior em inglês.

E, exagerada que sou, as minhas leituras recaem, quase exclusivamente, sobre obras dos bons autores portugueses – e temos muitos! E são tantos e com obras tão excelentes que lamento não ter tempo (nem dinheiro…) para ler todos!


Acabei há dias de ler “Bastardos do Sol”, uma das primeiras obras de Urbano Tavares Rodrigues (1959) que achei uma verdadeira homenagem à Língua Portuguesa. Claro que ao lermos um romance, o importante é a história, a acção, as personagens e o meio e o tempo em que se movem; mas em “Bastardos do Sol” a história apenas transparece por detrás da língua que funciona como uma poalha leve que se asperge por sobre os acontecimentos e as pessoas e que finalmente dá ligamento à história. Muito bom. Muito bem escrito!



domingo, 2 de fevereiro de 2014

B.C.B.G....

Não sei de onde veio esta moda parva de os apresentadores dos telejornais terem passado a dizer «Costa de Caparica» quando sempre se disse «Costa da Caparica»! Então os mais jovens fazem questão de dizer sempre «Costa de Caparica»! Em que escola de jornalismo terão eles aprendido esta forma sintética de se referirem àquela praia da outra banda?!

Nós, portugueses, (ao contrário dos nossos irmãos brasileiros e africanos) e em especial os da área da capital, temos uma tendência terrível para fecharmos as vogais e ensurdecermos as consoantes. Dá ideia que o que gostaríamos mesmo era de falarmos sem termos de mover os lábios afectando uma indizível «finesse» parola do tipo  «b.c.b.g».... E isso é bem visível nas «boquinhas» que muitas locutoras das televisões fazem ao falarem.

Lembro-me sempre daquela velha anedota do hipopótamo e do crocodilo, sabem?


Eu conto.


«Em época de grande fome na selva, o Leão, rei da selva, mandou reunir a animalesca toda e, depois de debater o problema, tomou a seguinte difícil decisão:

- Para debelarmos a fome, vemo-nos forçados a acabar com todos os animais pequenos.

Foi grande a confusão na selva mas assim teve de ser feito.

A fome, porém, continuou!

O Leão convocou nova reunião e, muito contristado, informou que para acabar de vez com a fome teriam de se exterminar todos os animais de boca grande.

No meio do bruá que se criou face a semelhante decisão, o hipopótamo, premindo bem os beiços e pondo um ar bem preocupado, sussurrou:

- Coitadinho do crocodilo!!»



domingo, 12 de janeiro de 2014

Futebóis

Tenho-me abstido de comentar o «caso Eusébio» por vários motivos: primeiro porque pouco ou nada me diz; depois porque não sou fã de futebol (e muito menos de “futebóis”); depois porque achei excessivo, desmedido, exagerado todo o bruaá (para não dizer “folclore”) que as televisões fizeram em torno da morte do jogador, por muito querido que fosse das pessoas em geral e dos lisboetas em particular; isto para não falar nas discussões provincianas e estéreis sobre a ida ou não ida do mesmo para o Panteão Nacional o qual, tenho a certeza, nunca fora tão falado por toda a gente!

Mas… hélas! há sempre um mas em toda a discussão! Eis que abro a internet aqui no meu computador e com que notícia me deparo em grandes parangonas?!

«O FC Porto não resistiu aos 11 Eusébios que estiveram em campo.»

Por amor de Deus! Que lamechice! Que saloiada! Quem disse ao jornalista responsável por este lamentável título que tem de «fazer poesia»?! Não há quem lhe diga que não é poeta quem quer?!

Não está em causa – para mim – o valor que o jogador Eusébio teve ou não teve, nem qualquer tipo de desrespeito pela sua memória ou pelos seus adoradores; muito menos quero com isto defender o clube A ou atacar o clube B, não obstante achar insuportável a arrogância e a sobranceria de muitos adeptos e do treinador de um e as baboseiras que os presidentes quer de um, quer de outro, lançam inopinadamente pelas bocas fora cada vez que lhes apetece. Em causa está apenas a lamechice requentada que semelhante palavreado (pretendendo ser imagem) transmite. E depois admiramo-nos que o outro senhor nos apode de «piegas»…

De facto, o estudo das Humanidades está completamente esquecido no nosso sistema educativo – leia-se na revista QI de ontem, subordinada ao tema A literatura contra a ditadura do banal, a entrevista a dois professores da Faculdade de Letras de Lisboa comissários da Conferência “A Urgência da Literatura” que se realizou neste fim-de-semana no CCB.


Trata-se disso mesmo: a ditadura do banal. É que lêem-se apenas revistas cor-de-rosa e livros tipo Margarida Rebelo Pinto e Paulo Coelho que nada mais veiculam senão banalidades bege; as criancinhas lêem muito mais do que liam há pouco anos, é certo, mas poucas são as que ultrapassam a leitura dos livrinhos ocos com ilustrações lindíssimas; os manuais de Língua Portuguesa de toda a escolaridade básica usam textos cada vez mais infantilizados e mais facilitados; e depois? Depois aparecem frases (texto até!) banais – para não dizer parolas – como aquela que me saltou aos olhos quando liguei a internet…




domingo, 5 de janeiro de 2014

Mau Tempo no Canal

Já estava há muito nos meus intentos ler a obra-prima do meu muito querido professor Vitorino Nemésio, mas por isto ou por mais aquilo, ou tão-somente porque pensava que se tratava de uma narrativa muito apegada aos hábitos da pesca e de outras fainas das gentes do Açores, ou ainda – o que é pior – por falta daquele «marketing» (como se diz agora) que praticamente não existe no que toca aos nossos clássicos (e aos outros…), foi ficando para trás.

Finalmente decidi-me, muito por influência de uma referência feita pelo crítico Eduardo Pitta a um aspeto da vida humana abordado na obra, lá me resolvi a procurar pelas estantes todas da casa, escada abaixo, escada acima, o exemplar editado por uma daquelas coleções de livros de bolso que brotaram nas nossas editoras depois da Revolução.

Parece-me que há buracos nesta casa porque me desaparecem livros! (Penso que ganham asas até às casas da minhas filhas, mas isto fica só aqui entre nós…)

Livraria com ela, pré-auto-prenda de Natal e lá me lancei na leitura. Tenho a dizer que só leio por prazer em duas situações: em férias na praia e quando me vou deitar, daí que demore algum tempo a ler e a saborear as minhas escolhas. 

Mas só vos digo: desde que li, já adulta, (que no liceu uma pessoa anda por de mais atarefada com os namoricos para se deixar absorver pela beleza de uma obra completa) a obra narrativo-lírica «Viagens na Minha Terra» que não punha os olhos num pedaço de tão boa literatura! Que maravilha de descrições, que forma absolutamente rendilhada de dar continuidade à história, que mestria no uso da língua, das palavras, da sonoridade da escrita, das metáforas, das imagens! As palavras parecem autênticos farrapinhos de espuma daquele mar tão poético como tenebroso do Canal! Bem se vê que o autor, que veste a pele de narrador, (ou será ao contrário?!) conhece aquele mar, aquelas gentes, a cauda do cachalote a bater na água, cada uma das grutas de que constantemente se desprende o cheiro de lava quente, o sentir e o linguajar das pessoas  (muitas vezes parece-me estar a ouvi-lo, nas aulas, com aquele sotaque algo fanhoso, e aquele ar disperso que punha em cada lição: «Eu sou da Terceira que se chama Terceira porque foi a terceira a ser descoberta…» «Ó Machado Pires, (que era o assistente) como é que se chamava aquele que matou o … » Tão delicioso nas aulas como no romance.


O Canal - pequeno, mas furioso, braço de mar entre o Faial e o Pico

E quando me vêm com lutas de alecrim e manjerona do ataque ao acordo ortográfico – este, porque os anteriores não os conheceram – porque é um assassinato à língua de Camões , a qual, de facto, a grande maioria nem conhece) convido-os a todos a que leiam os nossos clássicos, os nossos romancistas, ensaístas e poetas do século XX, esquecidos por força da infame e clerical ignorância do povo e por força de um sistema político opressor e baço que quase só nos permitia ler o catecismo; leiam-nos no registo atual ou noutro qualquer, e aí sim, verão como se maneja com a maestria (com mais um ou menos c- ou p-) a dita língua de Camões!


sábado, 16 de novembro de 2013

Histórias da minha rua (6)

Quando toca o telefone fixo e o mostrador diz “desconhecido”, já se sabe que vem aí uma daquelas meninas que começam logo por dizer o nome (que nós não ouvimos ou nunca mais lembramos) e que nos querem despejar um texto com as vantagens de adquirirmos um determinado serviço ou que pretendem que respondamos a um inquérito sobre o nosso grau de satisfação sobre o nosso banco ou coisa parecida.

Hoje de manhã, estava a preparar-me para a habitual saída da manhã (e muitas vezes infelizmente única) para o café e compra do pão e do jornal, quando toca o telefone e me sai um simpático com uma forte pronúncia do Norte (nada contra, a sério!) que me falava da Optimus para saber o seguinte: «Você está interessada em baixar a conta do telefone?»

Detesto ser tratada por “você” por pessoas que não me conhecem de nenhum lado, mas como tenho toda a complacência com estes jovens que não arranjam emprego em sítio nenhum e acabam por ter de se sujeitar à tirania dos chamados «call centres», respondi amavelmente que estava satisfeita com a minha operadora e que não tinha interesse em mudar. Aí o rapazinho pergunta prazenteiro qual era a minha operadora e eu, cheia de paciência, lá lhe disse que tinha contratado os serviços da Meo. Agora vejam como foi hilariante(!)  a resposta do jovem: «Ah, tem o M4O! Então mesmo que você quisesse mudar, estava lixada porque esse serviço obriga a 24 meses de fidelização e você teria de continuar a pagar…»

Estes “meninos” não devem ter como habilitações nada menos do que o 12º ano. Ora será que ninguém na escola lhes ensinou os registos e os níveis de língua? É que fazem parte dos programas do Português no básico e no secundário! E será que na formação que lhes dão não lhes falam da forma de se dirigirem às pessoas?


Mas que digo eu?! Nestas situações – que por acaso acontecem cada vez com mais frequência – lembro-me sempre de uma outra que se passou comigo há mais de vinte anos quando era subcoordenadora da Coordenação da Área Educativa aqui de Leiria: um dia recebi um telefonema de uma jovem colega professora de uma das escolas secundárias da área que se me dirigiu assim: «Senhora Graça? Daqui fala a professora Madalena…»

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Cambada de desbragados!


Todos nos lembramos bem do criado de libré – o meu muito apreciado Ferreira Fernandes chamou-lhe mordomo, mas a figura do «mordomo» é séria e fina de mais para qualificar semelhantes badamecos. Mas afirmava eu que estamos todos bem lembrados do criado de libré que, aqui há uns anos, serviu uns cafés ao Bush e ao Blair nos Açores e que depois a mando destes seus patrões jurou a pés juntos que o Iraque estava minadinho com armas de destruição maciça. E a troco disso livraram-no de chefiar um governo fraquinho e também de coligação com o irrevogável Portas e mandaram-no para chefiar a Comissão Europeia (ao que a Europa chegou!) não sem antes ele gritar a plenos pulmões que «o país estava de tanga».

Pois foi este ilustrado senhor que no passado sábado veio a um qualquer fórum de empresários realizado em Vilamoura e, certamente encomendado pelos seus congéneres deste “nosso” “governo”, lançou mais umas tantas barbaridades pela boca fora do género: «Portugal tem de cumprir os passos previstos» pela troika e acrescentou que «o recado é válido para todos» incluindo o Tribunal Constitucional (imagine-se o atrevimento!). E no fim, em jeito de conclusão, deixou esta pérola: «Quando as pessoas começam a duvidar, começam a vender dívida pública portuguesa, os juros começam a aumentar e lá temos outra vez o caldo entornado.» Uma expressão de tom elevado que em tudo define a personagem que a proferiu.

Temos de admitir que os “nossos” políticos são de facto pessoas que, além de muito bem formados, bem dominam os níveis da nossa formosa língua portuguesa, espacialmente o nível popularucho que, garanto-vos, não consta da Gramática do Professor L. Cintra… Temos igualmente presentes expressões deste nível de língua preferidas pelo “nosso” primeiro, desde o famoso «que se lixem as eleições!» até ao «Está a sair-nos do lombo», ao «Não estamos a pôr porcaria na ventoinha» e a culminar o «Para trás mija a burra» com que respondeu a uma idosa na campanha eleitoral do mês passado.

Perante uns “governantes” assim desbragados que nos apodam de tudo o que é mau, que nos desrespeitam, nos ignoram, nos vilipendiam, que governam à nossa revelia e contra nós, estamos de facto muito mal entregues!


domingo, 8 de setembro de 2013

Ai os piropos!

E se eu encontrasse este jeitoso por aí e lhe dissesse:
«Ó jeitoso, vai um tirinho?»....

Anda meio país a discutir esta cena dos piropos e eu, francamente não entendo porquê. Há dias que não se fala de outra coisa nos jornais, mas eu cá acho o tema tão estéril que não me dei ao trabalho de ler nada. Ou quase nada. Li umas frases de uma daquelas breves crónicas diárias do meu querido Ferreira Fernandes e, como não achei interesse nenhum, passei à frente. Depois é que eu percebi que querem criminalizar o piropo porque o confundem com uma forma de assédio sexual.

Isto só acontece porque as pessoas cada vez sabem menos Português! Ironicamente, andam uns milhares de maduros a lutar contra um – apenas mais um, diga-se – acordo ortográfico por causa de menos uns cês e uns pês e por causa de mais acento ou menos acento com o argumento tremendamente falacioso da «defesa da língua de Camões» – quando grande, grandíssima parte deles nunca leu Camões – sem se preocuparem

  • com a invasão constante dos empréstimos de palavras do inglês norte-americano;

  • nem com a pobreza de linguagem dos nossos jovens que não fazem a mais pálida ideia do que seja «tirar significados» que é uma das melhores formas de ganhar vocabulário;

  • nem com a forma deplorável como os miúdos e os jovens – e muitas adultos que se querem armar em  jovens – escrevem mensagens e falam entre si;

  • nem com o desconhecimento da semântica, ou seja, do(s) significado(s) das palavras.

Ora diz o grande dicionário da língua portuguesa coordenado pelo professor José Pedro Machado que a palavra «piropo» significa galanteio, frase amável ou lisonjeira dirigida a alguém, especialmente a mulheres – muito diferente de palavras como «brejeirice», «grosseria» ou «ordinarice». Isto no âmbito da língua! Porque depois há condicionantes paralinguísticas como o tom, a expressão, a intenção entre outras que são, parece-me, quase impossíveis de quantificar e de provar por forma a criminalizar interações destas. (Eu juro que não estou escrever isto da língua por ser o Dia Mundial da Alfabetização!...)

Eu acho graça a um piropo bem mandado e gabo-me de, em jovem, ter recebido alguns com muita piada de desconhecidos sem que alguma vez me tivesse sentido humilhada e muito menos ameaçada de violência ou de abuso que são situações verdadeiramente deploráveis e completamente diferentes.

E, a propósito, até deixava aqui um desafio – ai, ai, ai que já estou a fazer concorrência ao Rui da Bica, ao Carlos e à Teté!... Seria então enviarem-me uma mensagem para aqui com o melhor piropo que ouvirem ou disseram e, se quiserem, de forma breve, a circunstância em que tal aconteceu. 

Depois eu faria a seleção e poria à votação para apurarmos o melhor piropo.

Que dizem? Alinham? Se assim o entenderem, receberei os vossos piropos até 15 de Setembro que é o próximo domingo. Depois informarei das restantes datas.

Vá lá! Deixem de se mostrar tímidos e venham de lá esses piropos!


terça-feira, 13 de agosto de 2013

Hoje não há post

Peço desculpa pela utilização do empréstimo post que nunca ou muito raramente uso porque há montanhas de palavras na nossa língua pelo que não vejo razão (a não ser a petulância, a saloiice ou até a ignorância) para terem de se usar empréstimos do inglês. Mas é que para título não ficava nada apelativo dizer: «Hoje não há entrada» ou «Hoje não há verbete»…

Mas, pronto! Hoje não há post porque estou por de mais chateada.

Estou chateada porque Agosto já vai a meio e os dias estão mais pequenos;

porque está muito calor aqui na cidade e quando chegamos à praia está nevoeiro e frio;

porque as “férias” já terminaram;

porque me vão voltar a cortar (ou devo dizer: roubar) na pensão de reforma;

porque o país está na mais pura miséria que não se via desde os anos 60 e os fulanos dos telejornais moem-nos o juízo com o fim da recessão e com os aumentos dos lucros e com a luz ao fundo do túnel;

porque o (C)rato vai instituir o chamado cheque-ensino (outra invenção daquela luminária como foram a do «Eduquês» ou a da implosão do ME);

porque o PR e alguns membros do “governo” não são pessoas de bem;

porque este “governo” é tão irrevogável que não cai;

porque os que roubaram o dinheiro do Estado aos milhões não são obrigados a devolvê-lo – é que neste país o crime compensa;

porque já não estou com os meus netos há quinze dias;

porque nesta terra não há nada para fazer e estar sempre no Facebook também cansa…

porque o Seguro não presta…

porque este povo não reage…

E depois de tudo isto, nem me posso queixar de nada porque há milhares de pessoas no meu país que estão bem pior que eu!

E por isso estou chateada!

E por isso hoje não há post!




sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O bom senso

Sabe quem me conhece bem que eu sou – sempre fui – esquisita. Esquisita com o comer; esquisita com o aspeto das coisas; esquisita com a forma de fazer as camas; esquisita com as amizades; esquisita com os gostos em geral. Lembro-me de, jovem adolescente e mesmo jovem adulta, detestar (quase) tudo e (quase) todos e de a minha mãe, que tinha uma forma de ser bem austera, me chegar a proibir de usar o verbo «detestar»… Lembro-me de um colega/amigo com quem há anos trabalhei e bem lá na direção da “minha” escola diariamente durante dois anos (e que depois se “passou” para a “oposição” mas que, apesar de tudo, nunca detestei…) me perguntar um dia em tom de brincadeira: «Mas haverá alguém do teu partido que tu não detestes?!»

Vem todo este introito ao caso para dizer que sou bem esquisita também com as palavras e com as expressões que ouço e que uso. Claro que somos todos assim e que a psicolinguística achará explicação para estas nossas preferências ou embirrações na escolha dos imensos e variados vocábulos que temos à nossa disposição para usarmos.

Ora uma das expressões com que eu mais embirro e que detesto ouvir ou ler é o “bom senso”. Para mim, o “bom senso” não existe. Existe a sensatez, a prudência, o senso até, mas nunca o “bom senso”. Primeiro porque se trata de uma redundância e depois porque todo o conceito que vem acompanhado pelos adjetivos “bom” ou “mau” já vem absolutamente carregado de juízos de valor da pessoa que o profere pelo que não tem qualquer valor preciso. E, a partir das minhas “análises de conteúdo” caseiras, tenho concluído que quem mais utiliza esta expressão (e desde já peço desculpa se vou suscetibilizar alguém) são, entre outras, as pessoas ligadas à direita, à igreja, os “escuteirinhos” de Massamá e quejandos, ou seja, quem se sente na obrigação de se mostrar muito bonzinho e, claro está, quem sofre de manifesta falta de vocabulário.

Agora imaginem a cara com que fiquei quando hoje fui ler a crónica das 6ªs feiras da Fernanda Câncio, que até uma mocinha que eu gosto bastante de ler, e me deparo logo a abrir com a minha mal-amada expressão. Depois, incrédula, lá retrocedi, voltei a ler e concluí que se tratava de uma citação. E sabem retirada de onde? Do acórdão da Relação do Porto! É verdade! Mal está a coisa quando juízes, que deveriam ser o mais objetivos possível e deter-se o mais próximo possível da(s) lei(s), também apelam (espero que não por falta de vocabulário…) para o dito “bom senso”, conceito moralista, impreciso, polissémico até mais não, mais maleável e escorregadio do que uma enguia viva, a fim de dar razão ao homenzinho que estava trabalhar podre de bêbado. Salazar (infelizmente) cada vez mais na moda: «Beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses!»



(A propósito da questão que motivou este triste acórdão lembrei-me de uma brincadeira que se contava acerca de um presidente de uma qualquer sociedade recreativa que terminou um dos seus discursos em noite de festa  da seguinte maneira: «Cômamos e bêbamos para que esta coletividade próspere!»…)

terça-feira, 7 de maio de 2013

Dia da Língua Portuguesa



Comemorou-se no domingo, dia 5, mas nesse dia tudo foi Dia da(s) Mãe(s). Mas como esquecê-la, a ela, também nossa Mãe, nossa Pátria, à nossa bela e versátil Língua Portuguesa? 

Não se deu conta da sua comemoração este ano! Mas não terá sido certamente apenas por causa das coisas das Mães. É que embrulhados nas guerras de palavras (de mau português) entre o primeiro e o vice (este um pouquinho melhor, em termos de português, digo) e apoucados pelos tristes e pobres comentários que lhes seguiram, esquecemo-nos de celebrar aquela que nos permite desde há oito ou nove séculos ser chamados de povo, sermos chamados de cultura.

Difícil escolher um, apenas um, dos muitos rendilheiros que a trabalharam ao longo dos tempos desde D. Sancho, desde D. Dinis para a presentear.

Mas escolhi este assim:

«Sou um homem do extremo ocidental da Europa, cresci a ouvir o marulhar do Atlântico, onde nasceram os ritmos e os decassílabos de Camões. Creio que toda a nossa língua está marcada por esse ritmo. Nas suas harmonias e nas suas dissonâncias, nas suas vogais azuis e verdes e nas suas consoantes sibilantes. Tem a cor do mar e o assobio do vento Oeste. Amo essa cor, esse assobio, esse murmúrio. E o cheiro a alga e a sal. E o sol e o sul que estão dentro das sílabas. Há na minha língua uma aspiração universalista e, ao mesmo tempo, uma nostalgia da errância e um sentimento de exílio em relação à pátria física e à circunstância histórica concreta. Há n minha língua uma página chamada Atlântico, onde há sempre uma viagem que não acaba até outros mares, outros poemas.


O meu amor começa na música secreta da minha língua, porque a minha língua fez a minha pátria e porque pátria e língua portuguesa são sempre o outro lado da viagem, da errância e de outras pátrias.»

Manuel Alegre,

JL 3/Abril/2012

sexta-feira, 1 de março de 2013

Só eu sei porque não fico em casa!

Não, não sou só eu que sei porque não fico em casa. Sabemos todos,. Ou talvez não. Mas sabemos muitos de nós porque não podemos ficar em casa amanhã a partir das quatro da tarde.

Mesmo assim, deixo aqui algumas razões.
 
Acho uma moral ruim
trazer o vulgo enganado:
mandarem fazer assim
e eles fazerem assado.


Sou um dos membros malditos
dessa falsa sociedade
que, baseada nos mitos,
pode roubar à vontade.


Esses por quem não te interessas
produzem quanto consomes:
vivem das tuas promessas
ganhando o pão que tu comes.


Não me dêem mais desgostos
porque sei raciocinar...

Só os burros estão dispostos
a sofrer sem protestar!


Esta mascarada enorme
com que o mundo nos aldraba,
dura enquanto o povo dorme,
quando ele acordar, acaba.


António Aleixo

E num registo mais popular...


Portugal está na pobreza
Mas a Língua Portuguesa
Continua a enriquecer,
Já era uma Língua rica
Se agora mais rica fica
É o que está p'ra se ver.

Há vocábulos usados
Com vários significados
Denominados homónimos;
Também se exprime a preceito
Uma ideia ou um conceito
Usando vários sinónimos.

Está neste caso " ROUBAR "
" FURTAR "," DESAPROPRIAR "
" SURRIPIAR" e " EXTORQUIR";
" RAPINAR" ou " SAQUEAR "
" ESBULHAR "e " GATUNAR "
" PILHAR " e " SUBTRAIR ".

" PALMAR " e " LARAPIAR "
" BIFAR ", "FANAR ", ou " GAMAR"
Mesmo que seja em calão;
" ASSALTAR " ou " SALTEAR "
" TIRAR ", " LIMPAR ", " DESPOJAR",
Tem tudo a mesma acepção.

" CONFISCAR ", " DESAPOSSAR ",
" APROPRIAR ", " ESPOLIAR "
São conceitos semelhantes;
" RIPAR " e "AMARFANHAR "
" ARREPANHAR ", " EMPALMAR ",
Larápios são uns tratantes.

Surge agora um novo termo
Criado por um estafermo
Que nos está a " (des ) governar";
Com imprevidentes " PASSOS "
Fazendo de nós palhaços
Inventa o verbo ... " gaspar ".

" GASPAR " é neologismo
Que nos lança para o abismo
Num desastre humanitário;
Mesmo com o país enfermo
Vamos extirpar tal termo
Do nosso vocabulário.


(Autor desconhecido)


Todos à Fonte Luminosa, amanhã pelas quatro da tarde!