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terça-feira, 23 de maio de 2017

Morreu O Santo!

Já toda a gente sabe, mas não quero deixar de aqui a minha modesta homenagem a Sir Roger Moore que me habituei a ver nos idos de 60, ainda a branco e preto, na série de televisão O Santo, atrevido, vaidoso e ... lindo!!




Deixem-me recordar-vos uma ou outra cena.




O seu grande papel foi, porém, o desempenho da personagem Bond, James Bond, o 007, tendo sucedido, neste papel, ao famoso e, a todos os níveis, grande Sir Sean Connery (que eu sempre preferi a todos os outros atores que se lhe seguiram incluindo Roger Moore).




Sir Roger Moore morreu hoje, na Suíça, aos 89 anos, após uma "curta, mas corajosa batalha contra o cancro", nas palavras dos seus três filhos. 

De referir ainda o seu empenho e entusiasmo como embaixador da boa vontade da UNICEF, uma função para a qual fora nomeado em 1991.

Usando as palavras de um amigo: O século XX insiste em desertar à força toda.

Lembremo-lo senhor de todo o seu charme.








segunda-feira, 15 de maio de 2017

O escultor Fernando Marques

Morreu ontem, aos 82 anos, o escultor leiriense Fernando Marques, mais conhecido como o criador das estátuas dos Pastorinhos na rotunda de Fátima.



Nasceu em Cortes, Leiria, em 1934, cursou Artes Plásticas- Escultura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa e foi professor do ensino secundário. Viveu longos anos em Angola, onde executou dezenas de trabalhos oficiais e particulares. A sua obra e multifacetada, estendendo-se desde a ilustração de livros, até à azulejaria, aos vitrais em Igrejas e, naturalmente à escultura.

(O escultor no seu atelier)

Recebeu dezenas de prémios ao longo da sua vida. Foi autor de algumas das estátuas mais emblemáticas da cidade de Leiria.

(estátua de Luís de Camões, no Jardim)

(estátua de D. Dinis, à entrada de Leiria)


No mês de Maio do ano passado, a Câmara Municipal de Leiria organizou uma exposição em sua homenagem que teve lugar na Biblioteca Municipal. Dessa exposição deixo aqui algumas fotografias.


















Que descanse em paz!

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Morreu o BB

Foi com grande espanto e alguma consternação que ontem recebi a notícia do desaparecimento do grande jornalista, cronista e também escritor Baptista-Bastos.

Sabe, quem generosamente frequenta este meu espaço, que para aqui transcrevi muitas das suas crónicas que ele escreveu enquanto não foi ignominiosamente despedido do Diário de Notícias.

Como gostava da sua forma elegantemente escancarada com que ele desferia as suas setas certeiras contra quem, durante os últimos anos, comprimiu e quase quis açaimar este nosso país, este nosso povo ainda e sempre tão necessitado de quem lhe mostre o caminho.

Fazia-o de forma desassombrada mas algo pedagógica, usando o seu estilo fluente mas preciso, chamando as referências históricas, literárias e políticas mais penetrantes e mais esclarecidas, num vocabulário rico, elaborado mas bem truculento, e com a sintaxe de quem estudou (ou não) latim.

Que era assaz duro e que tinha mau feitio. Se calhar assim era. Mas defeitos todos temos, desenganem-se aqueles que assim não se julgam.

Sobre si próprio (e de mais um punhado de outros jornalistas dessa era que fundaram o semanário O Ponto) escreve BB que se tratava de «um singelo sonho de liberdade acalentado por um grupo de jornalistas que de seu só possuía a honra jamais hipotecada e a ingénua convicção de que as palavras (sempre de recusa, sempre de protesto, sempre exaltantes) poderiam ser integradas na grande voz colectiva e aceites pelas minorias sem voz.» E acrescenta que a escrita, a sua e a de outros jornalistas como ele, «é um tributo ao sonho e à esperança. Sonho e esperança de que o homem está sempre em questão, é sempre questionável, deve ser questionado, e que legitima, devido às suas constantes dúvidas, todas as questões. E também porque o homem em questão coloca como ponto prévio, antes de tudo e se necessário contra todos, a questão da liberdade.» (in “Um Homem em Ponto – Entrevistas por Baptista-Bastos, 1984)

É assim que eu penso. E (também) por isso, lamento tanto a perda.





terça-feira, 4 de abril de 2017

Fernando Campos



Aos 92 anos, morreu, no passado sábado, o professor e escritor Fernando Campos. Professor de Português no ex liceu Pedro Nunes em Lisboa, publicou o seu primeiro romance em 1986, aos 62 anos. Foi o romance histórico A Casa do Pó que rapidamente se transformou num enorme sucesso. Aí o professor de liceu aposentou-se a dedicou-se à escrita a tempo inteiro. 

Após edições sucessivas deste sucesso, mais de uma dezena, lançou vários romances. Seguiram-se O Homem da Máquina de Escrever, Psiché, A Esmeralda Partida (sobre D. João II), que obteve o Prémio Eça de Queiroz, A Sala das Perguntas (inspirado na vida de Damião de Góis), o livro de contos Viagem ao Ponto de Fuga, A Ponte dos Suspiros (sobre o rei D. Sebastião) O Prisioneiro da Torre Velha (a vida de D. Francisco Manuel de Melo), O Cavaleiro da Águia (retrato de D. Gonçalo Mendes da Maia), O Lago Azul (sobre os descendentes do Prior do Crato), ou A Loja das Duas Esquinas. Um ano antes de apresentar em 2011 a sua última obra, Ravengar, o autor editou uma biografia da poeta grega Safo, intitulado A Rocha Branca.

Lembro-me que li o seu primeiro romance já numa terceira edição e que o achei muito bom. Não me lembro da trama, mas o breve comentário inscrito na orelha do livro que diz:

«Romance histórico nas rigorosas reconstituições factuais e locais, no recorte de muitas das figuras que atravessam a cena, ficção na intriga e no delineamento de personagens inteiramente criadas ou apenas recriadas, «A Casa do Pó» tem como pano de fundo um drama ocorrido em Portugal no século XVI protagonizado por membros da mais alta nobreza das cortes de D. Manuel I e D. João III. Drama envolto em mistério, teve o condão de apaixonar a opinião pública da época e inflamar a pena de escritores coevos ou posteriores. «A Casa do Pó» lança sobre os factos uma curiosa hipótese que, não podendo ser mais do que isso à míngua de documentos, é verosímil, hábil e logicamente tecida. A ação estende-se por Portugal, Espanha e toda a bacia mediterrânica dominada por Venezianos e Turcos, até à Palestina e nela se sucedem episódios cheios de lirismo, de crueldade e de aventura. Um humor delicado e uma boa dose de «suspense» à maneira dos bons policiais são outras marcas do texto. Mas o autor, ele mesmo o escreve em nota final, não pretendeu apenas fazer uma mera «incursão pelo chamado romance histórico. O que aí está são velhos problemas da humanidade que, vindos de há séculos, ainda hoje persistem nos mesmos cenários e saltam para outros mais alargados e vastos.»

Um livro a ler ou a reler.


Diz quem conhecia o seu processo de criação que Fernando Campos era exaustivo na investigação, sempre preocupado em não falhar os pormenores históricos que caracterizavam o cenário principal da sua obra. 

(Ler mais aqui)

sábado, 4 de março de 2017

Epitáfio


Ainda correm lágrimas pelos
teus grisalhos, tristes cabelos,
na terra vã desintegrados,
em pequenas flores tornados.

Todos os dias estás viva,
na soledade pensativa,
ó simples alma grave e pura,
livre de qualquer sepultura!

E não sou mais do que a menina
que a tua antiga sorte ensina.
E caminhamos de mão dada
pelas praias da madrugada.

(Cecília Meireles)



Adeus, Teté, ficarás sempre nos nossos corações. Até sempre!






quinta-feira, 2 de março de 2017

O meu Pai

Passaram já 48 anos. E foi a enterrar meses antes de completar os 50. 

Em meia hora ficou-se-nos nos braços, sem avisar. Um coração frágil de nascença que o atraiçoou algumas horas depois do tremendo abalo de terra que agitou Lisboa em 69. Dissera sempre que, se alguma vez desse conta de um tremor de terra, não lhe sobreviveria e assim aconteceu. O inigualável bramido que se ouviu vindo do mais profundo da serra (de Sintra) e o tremor que parecia não ter fim naquele casarão sobre o qual parecia que pendiam dois enormes penedos apanharam-no (e a todos nós) de surpresa. Aterrador.

Essa enorme comoção e a imediata saída para Lisboa aonde foi apanhar ao aeroporto o filho que chegava de Cabinda depois de a sua companhia ter sofrido um ataque emboscado do qual só por milagre se salvou foram de mais para o dito coração frágil que soçobrou horas passadas.


Foi a enterrar meses antes de completar os 50. Passam hoje 48 anos. Uma vida. Parece que foi ontem.




domingo, 19 de fevereiro de 2017

Passam 20 anos sobre a morte de Rómulo de Carvalho

Em jeito de homenagem.

«...As minhas dores no estômago e nos intestinos continuam sem descanso e os médicos não descobrem o que tenho apesar de todo o seu saber, simpatia e generosidade. É preferível morrer. É neste estado que vos escrevo embora a minha letra, que aqui vêdes, não dê sinal de tantos males e de tão profundo abatimento. Fui sempre pessoa de grande coragem e espero conservá-la até ao último momento.

A todos os que me estimaram e, no extremo, me amaram, um longo adeus com os olhos tristes. Muito em particular para os meus mais íntimos. Deixo, neste vale, a minha mulher Natália, dois filhos (uma filha e um filho) e cinco netos (duas netas do filho, e uma neta e dois netos da filha). Todos me estimaram, e até me amaram muito, cada um com a sua capacidade de expressão.

E é tudo.

Chamo-me Rómulo e nasci no dia 24 de Novembro de 1906 com sete meses de gestação. Faleci em 19 de Fevereiro de 1997.
Adeus.

(Rómulo de Carvalho em "MEMÓRIAS" - uma edição da Fundação Gulbenkian em 2010)

(retirado da página do facebook de sua filha, a escritora Cristina Carvalho)




A morte do poeta António Gedeão deu-se anos antes como muito bem explica o escritor Urbano Tavares Rodrigues. Foi em 1984 com o lançamento de “Poemas Póstumos. O poeta morre, tal como nasceu, pelas mãos do seu criador— Rómulo de Carvalho.

"Em «Poemas Póstumos», Gedeão continua a dar-nos poemas de vibração colectiva, mas as suas tonalidades tornam-se com frequência mais escuras e o tecido lírico é invadido por um certo cepticismo. Lembro o triste, terrível «Poema do Amor Fóssil» (Poemas Póstumos), com o seu advertido receio de insensibilidade do mundo cibernético. Um dos poemas capitais desta segunda fase de António Gedeão é o doloroso «Poema sem Esperança», onde o sujeito poético conta ter simulado por vezes, como um médico, como um soldado, mais esperança do que aquela que sentia.

(…)

Ao optimismo do século XIX, à sua crença ilimitada no progresso, sucede neste final do século XX, uma habituação ao pesadelo.

(…)

Hoje, perante as desigualdades, o desemprego, as monstruosidades sociais e intercontinentais que estão nascendo dos modelos da globalização, sob a tutela de um pensamento único - o do neoliberalismo venerador do dinheiro acima de tudo, sentimos a falta de mais vozes como a de António Gedeão, que se calou após os seus Poemas Póstumos»."

(TAVARES RODRIGUES, Urbano, "Decifrados do mundo, Alquimista do sonho", in Jornal de Letras, Lisboa, 26 de Fevereiro, 1997)

................................................

Poema do amor fóssil

Quem de nós falará aos homens que hão-de vir
quando o grande clarão encher de luz
e pasmo as nossas bocas?
E como?
Que língua entenderão eles?
Que símbolos, que sinais, que apagados murmúrios,
lhes falarão de nós,
desta fluida e versátil multidão,
destes seres que aparentam rosto humano
e como tal comovem,
mas que olhados do alto são lepra do planeta.
Que significará sofrer, amar, lutar,
quando as nossas misérias e tormentos
não forem mais do que pegadas fósseis?
Que palavras há-de o poeta reservar
para o coração de plástico dos homens que hão-de vir?
Que santo e senha entenderão
Que de nós restará neles?
Que parecenças terão com estes hominídeos
que amaram a Natureza porque lhes era hostil
e suportaram o próximo porque não eram livres?
Que verbo deverá ficar gravado na pedra que o vento não corroa,
que lhes fale dos humilhados e dos ofendidos,
dos sonhadores e dos impotentes,
dos ansiosos, dos bêbados e dos ladrões,
desta ridícula, miserável e corrupta humanidade
que instala os arraiais da morte alegremente
num campo que foi verde e que não volta a sê-lo?
Amor?
Como será amor em língua cibernética?

(António Gedeão, in Poemas Póstumos)


quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Quién subirá la cuesta d'enero?

Tem morrido tanta gente! E não me refiro apenas a figuras mediáticas estrangeiras e nacionais. São amigos e familiares deles que têm partido, alguns em grande sofrimento, em condições precárias de saúde.

O outono, com a sua proverbial queda da folha, e o inverno com o seu ar traiçoeiramente gélido, enfraquecem e fragilizam quem já está débil e levam ao apagar do último sopro de vida.

Lembro sempre um dito que a minha avó espanhola usava muito: «Quién subirá la cuesta d’enero?» Também repetia esta máxima porque o seu último marido se ficou no sono nos inícios de 60, a 8 de Janeiro. Tinha 51 anos. Ela própria não conseguiu subi-la que se apagou, aos 91 anos, já tão frágil, a 28 de Dezembro, nos alvores de 80.

Tem morrido tanta gente! «Quien subirá la cuesta d’enero?»



Sinto um prenúncio de morte
Dentro do meu coração.
Virá quando a der a Sorte.
Quando vier, virá em vão.

Porque a morte é sombra e nada,
É só a vida vulgar
Que de um lugar é tirada
E posta em outro lugar.

Ri, alma, do que acontece!
Nada existe, salvo seres.
A aranha da vida tece
Só teias de o não saberes.


(Fernando Pessoa, 16-03-1934)

sábado, 7 de janeiro de 2017

Sem palavras



























Até sempre!!


segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Ironia do destino

Por uma forte ironia do destino, o autor de uma das mais emblemáticas canções modernas de Natal, George Michael, partiu - dizem que serenamente - no próprio dia de Natal. 

Jovem de mais para partir, digo eu. Só que o coração não avisa, nem nos desperta antes de partirmos...











(Para saber mais, ver em   https://pt.wikipedia.org/wiki/George_Michael   

http://www.jn.pt/artes/interior/morreu-o-cantor-george-michael-5571564.html  )


terça-feira, 19 de janeiro de 2016

1926 - 2016




Lá longe ao cair da tarde
Quando uma saudade se esvai, ao sol poente
Como canção dolente duma mocidade
Lá longe ao cair da tarde.


Até sempre!

domingo, 8 de novembro de 2015

Uma morte mais

(daqui)

Recebi a notícia de manhã: que tinha falecido de madrugada. Já se falava nos últimos meses do mau estado da sua saúde. Confesso que me foram sempre indiferentes essas notícias. E o seu passamento apenas me sugeriu um pensamento – que descanse em paz e que deixe os outros também em paz. A morte não pode forçar o branqueamento automático de todas as maldades que se foram fazendo ao longo do nosso trajeto.

Pessoa ressentida com a vida, sem modos, nem polidez, nem a civilidade que a sua profissão exige, foi quem mais me desconsiderou na escola sem outro motivo que fosse o ataque pelo ataque, a vingançazinha por ter ganho as eleições ao “grupinho” da sua predileção. E, tirando as pessoas que integravam o tal “grupinho”, posso aqui afirmar com um «saber de experiência feito» que incomodou muita e boa gente naquela escola, para além de mim. A mim incomodou-me muito. Posso dizer desafrontadamente que me fez chorar muitas lágrimas com as suas palavras e comportamentos, quase sempre, injustamente (digo eu!) agressivos e deseducados.


Se lhe consigo perdoar todas essas ofensas? Não, meus amigos. Não tenho esse poder. Tenho para mim, desde sempre, que o perdão como a vingança é para os deuses, não para nós simples mortais. Se outros não me perdoarem as minhas ofensas? Paciência! Fica na minha conta-corrente. E depois logo se vê.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

«Para ti, meu amor»

No dia em que foi a enterrar, depois de uma longa vida de luta, de humanismo, de amor, a homenagem mais simples e mais tocante à Senhora Dona Maria Barroso.




«Para ti
Meu amor
Levanto a voz
No silêncio
Desta solidão em que me encontro
Sei que gostas de ouvir
A minha voz
Feita de palavras ternas e doces
Que invento para ti
Nos momentos calmos
Em que estamos sós
Sei que me ouves
Agora…
… uma vez mais
Apesar da distância

E do silêncio

… … …

Opera esse milagre
Simples
Como tudo o que é natural»



«Até sempre, meu amor!»


quarta-feira, 22 de abril de 2015

Morreu o Richard Anthony

Pois foi: morreu o Richard Anthony. Aos poucos vão desaparecendo as pessoas que nos estruturaram os gostos, os dias, a vida enfim. E, qualquer dia vamos nós.  

Vão os nossos poetas, vão os nossos cantores e ícones do cinema – não falei aqui da passagem de Herberto Hélder ou de Manoel de Oliveira por serem grandes de mais e por me sentir verdadeira gota no oceano para os enaltecer. 

Foi o grande (e discreto e ainda novo) ministro Mariano Gago – que me apanhou de surpresa – e que «apesar de ser do partido socialista» [estou a citar] deixa um imenso vazio no seu lugar na Ciência e na política educativa. [De surpresa me apanhou também, a forma como o meu jornal diário deu a notícia da sua morte, ocupando quase uma quarto da capa com a fotografia de uma qualquer senhora Mariana, professora de Economia não de onde, relegando a morte do nosso grande senhor da Ciência lá para as páginas do meio do jornal com uma insignificante chamadinha no cantinho inferior direito, do mesmo tamanho da «nova vida de Tiago “Saca”», seja ele quem for… Enfim! Afinal sempre era do partido socialista…]

Mas… voltemos ao Richard Anthony que foi quem aqui me trouxe. Quem é que, da rapaziada da minha idade, não dançou que se fartou ao som das suas canções (normalmente versões francesas de grandes êxitos da canção anglo-saxónica?

Quem se lembra do “J’entend siffler le train”?





Ou de "Aranjuez, mon amour"




Ou da alegre "C'est ma fête"






Mas o melhor mesmo era dançar o twist ao som do "Let's twist again".

https://youtu.be/2-zKA997dV8  

(Vão ver ao YouTube ver que se vão fartar de rir...)

terça-feira, 14 de abril de 2015

When A Man Loves A Woman

Apesar da voz poderosa, não posso dizer que era um dos meus cantores preferidos, mas hoje, no dia em que anunciaram a sua morte aos 77 anos, não posso deixar de recordar aqui uma das mais belas canções do ano 66 do século passado que voltou a ser cantada por tantos cantores de nome como Joe Cocker, Michael Bolton, Art Garfunkel e outros.

Relembremos.


domingo, 15 de março de 2015

Superstições

Não temos a culpa. Somos modelados sem que nos demos conta desde a mais tenra idade e vão ser esses arquétipos que nos vão marcar indelevelmente para o resto da vida. Por muito que os combatamos.

A avó com quem fui criada na infância, sem se dar conta, modelou-me à sua imagem e muito do que sou, como sou e em que creio tem a ver com ela. Dela – e também de minha mãe – herdei algumas crenças daquelas que, simbolicamente, eram passadas às mulheres e a muitos homens naquele tempo obscuro do Portugal de 40/50. Era, porém, de ideias bem arejadas a minha avó espanhola e até a minha mãe – foi o que valeu!

Nunca suportei ouvir cães a uivar – uma das crenças de miúda – porque sempre ouvi dizer que era sinal de morte próxima. Havia um cão grande na quinta de uma família inglesa fronteira à casa onde vivíamos em Sintra, Brownie, chamava-se e fazia os nossos encantos de bonito e majestoso que era! Na véspera de meu pai morrer repentinamente, toda a tarde o bom do Brownie uivou e toda a tarde estivemos, sem qualquer êxito, a mandá-lo calar.

Mais profunda se tornou em mim a aversão aos uivos dos cães.

(possível imagem do Brownie)

Foi, toda a semana, um exagero de uivos da cadela dos vizinhos da frente que encontraram eco noutros cães da rua. Várias vezes estremeci de vago susto tentando, ato contínuo, afastar da cabeça maus pensamentos.

Hoje aconteceu. Uma vizinha aqui da rua, na sua habitual pressa de uma vida feita de corre-corre, não respeitou a barreira que as cancelas baixas impunham aos automóveis, quis atravessar a linha antes do comboio – que passa ali ao fundo da minha rua – e foi mortalmente colhida por ele. Apesar de ronceiro, apesar de anunciado, apesar de alguns outros terem sofrido antes igual sorte.

São uns fofos, mas não suporto ouvi-los a uivar!


quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Vítor Crespo (1932 - 2014)

«Quanto à Armada, fechou-se completamente em copas até ao último momento. Pelo menos no que a mim próprio diz respeito, pois nem sequer no posto de comando, em pleno desenrolar da acção, Vítor Crespo acedeu a responder-me à pergunta que lhe fiz nesse sentido. E a minha surpresa (e satisfação) seria grande ao ver, na noite de 25 de Abril, no quartel da Pontinha, um capitão-de-mar-e-guerra de aspecto façanhudo e resoluto e um sorridente e calvo capitão-de-fragata prepararem-se para a assumpção das pesadas responsabilidades que a Junta de Salvação Nacional lhes ia carregar em cima dos ombros. Ao menos, a Armada, sabidona, não se tinha deixado enlear na habitual conversa mole da preservação da hierarquia apesar de tudo, jogando forte na personalidade dos seus dois representantes! (…)

Perante a recusa do comodoro [Ferraz de Carvalho a pretexto da idade e do cansaço] e mantendo o nome de Pinheiro de Azevedo, só a caminho do posto de comando, onde se me foi juntar pelas dez horas e trinta da noite do dia 24, é que Vítor Crespo, com base no consenso anterior, se decide a passar por casa do Rosa Coutinho. Este, de nada sabe. Crespo passa-lhe para as mãos os três documentos que leva na pasta – a proclamação do MFA, o protocolo secreto entre o MFA e a Junta e o programa político – que o comandante lê atentamente. Quando termina, sacode os papéis e diz a Vítor Crespo:

 - Com isto, ponho o meu navio à vossa disposição!
 - Muito obrigado, senhor comandante, mas isso não é preciso porque já está – desconcerta-o Vítor Crespo. – O que eu lhe venho propor é que faça parte da Junta.

Rosa Coutinho abre a boca de espanto. Estava-se a uma hora apenas do primeiro sinal rádio através dos Emissores Associados! Vítor Crespo põe-no ao corrente. O comandante aceita o cargo a que o destinam.»

In memoriam do Almirante Vítor Crespo que faleceu ontem, aos 82 anos de idade.



"É com profundo pesar que vos comunico o falecimento do militar de Abril, ocorrido hoje, almirante Vítor Manuel Trigueiros Crespo. Nascido em Porto de Mós, em 21 de Março de 1932, Vítor Crespo foi um Militar de Abril de todas as horas, um dos principais dirigentes da Marinha no Movimento das Forças Armadas, integrando a equipa do Posto de Comando da Pontinha, nas operações militares do 25 de Abril", pode ler-se no comunicado da Associação 25 de Abril, da qual o Almirante era sócio fundador nº 2.

O texto que acima transcrevi foi retirado do extraordinariamente empolgante livro «Alvorada em Abril» (pp 367-8) da autoria de Otelo Saraiva de Carvalho que, em cerca de 600 páginas, faz, em 1ª pessoa, o relato pormenorizado das causas e de toda a preparação do 25 de Abril, começando pelo início da Guerra Colonial até à noite do dia 25 de Abril de 1974.

Um livro extraordinário, de leitura obrigatória para quem reverencia o 25 de Abril. Comprei a edição limitada a 1974 exemplares que saiu em Abril deste ano e li-o quase de rajada depois de ter terminado os Memoráveis de Lídia Jorge.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

E um dia...

Um dia acordamos e vemos que aos poucos fomos ficando mais sós. São os avós que partem e os tios mais velhos e nós, na voragem fulminante da adultez nem tempo temos – e se calhar ainda bem – para reparar no menos brilho que nos ilumina a vida.

São os pais que nos deixam – alguns ainda bem novos – e a dor torna-nos a realidade quase translúcida. Mas ainda resta um irmão mais velho, um tio, uma tia, que se vão perdendo no virar de cada uma das esquinas do tempo. Até que chega o momento em que se despede o último dos mais velhos e passamos a ser nós os mais velhos. Apagam-se-nos as últimas velas que nos guiavam e é chegado o momento de, quase opacos, servirmos de velas aos que vieram depois de nós.

Não se trata de tristeza. A dor já não nos consome. (Ai os que saltam a ordem e partem antes do tempo, do seu tempo, do nosso tempo – esses doem mais!) É tão só o sentimento de passarmos a ser nós os mais velhos.


Hoje, sem que se esperasse, serenamente partiu a mais velha da família. E é como já disse: é o sentimento de passarmos a ser nós os mais velhos.


Último grande momento em família quando, em Maio último, completou 86 anos
a mãe do meu marido.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Oh captain, my captain

Morreu hoje o «captain» que conseguiu pôr os alunos a gostar e a sentir a poesia e os ensinou a «aproveitar o dia».

Acredito ter sido este o melhor de todos os filmes que interpretou  - «O Clube dos Poetas Mortos».

Vamos recordar.









Entretanto, como resistir ao apelo de deixar aqui o belíssimo poema que Walt Whitman escreveu sobre a morte de A. Lincoln?


O Captain! my Captain! our fearful trip is done;
The ship has weathered every rack, the prize we sought is won;
The port is near, the bells I hear, the people all exulting,
While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring:

But O heart! heart! heart!
O the bleeding drops of red,
Where on the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.

O Captain! my Captain! rise up and hear the bells;
Rise up—for you the flag is flung—for you the bugle trills;
For you bouquets and ribboned wreaths—for you the shores a-crowding;
For you they call, the swaying mass, their eager faces turning;

Here Captain! dear father!
This arm beneath your head;
It is some dream that on the deck,
You’ve fallen cold and dead.
My Captain does not answer, his lips are pale and still;
My father does not feel my arm, he has no pulse nor will;
The ship is anchored safe and sound, its voyage closed and done;
From fearful trip, the victor ship, comes in with object won;

Exult, O shores, and ring, O bells!
But I, with mournful tread,
Walk the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.
Ó capitão! Meu capitão! terminou a nossa terrível viagem,
O navio resistiu a todas as tormentas, o prémio que buscávamos está ganho,
O porto está próximo, oiço os sinos, toda a gente está exultante,
Enquanto seguem com os olhos a firme quilha, o ameaçador e temerário navio;

Mas, oh coração! coração! coração!
Oh as gotas vermelhas e sangrentas,
Onde no convés o meu capitão jaz,
Tombado, frio e morto.

Ó capitão! meu capitão! ergue-te e ouve os sinos;
Ergue-te – a bandeira agita-se por ti, o cornetim vibra por ti;
Para ti ramos de flores e grinaldas guarnecidas com fitas – para ti as multidões nas praias,
Chamam por ti, as massas, agitam-se, os seus rostos ansiosos voltam-se;

Aqui capitão! querido pai!
Passo o braço por baixo da tua cabeça!
Não passa de um sonho que, no convés,
Tenhas tombado frio e morto.

O meu capitão não responde, os seus lábios estão pálidos e imóveis,
O meu pai não sente o meu braço, não tem pulso nem vontade,
O navio ancorou são e salvo, a viagem terminou e está concluída,
O navio vitorioso chega da terrível viagem com o objectivo ganho;

Exultai, ó praias, e tocai, ó sinos!
Mas eu com um passo desolado,
Caminho no convés onde jaz o meu capitão,
Tombado, frio e morto.

Walt Whitman (1819–1892). Leaves of Grass, 1855.
- tradução de Mª de Lurdes Guimarães - in: “Os poemas da minha vida", Diogo Freitas do Amaral, ed. Público