terça-feira, 31 de janeiro de 2017

A ressonância magnética

Sabe quem já experimentou como é desagradável fazer uma ressonância magnética. A barulheira é de tal ordem que parece que estão a britar as paredes ali mesmo em cima de nós; depois vem o som de fortes marteladas por cima da nossa cabeça, tudo isto acompanhado por aquele som trepidante dos martelos pneumáticos. Tudo isto connosco deitadinhos dentro de um exíguo tubo branco com a recomendação de que não nos movamos sob pena de se ter de começar o exame de início. Até nos põem uma campainha na mão para interromper o exame em caso de emergência.

Hoje tive de fazer um desses exames e, como não foi a primeira vez, mantive-me calma, e tentei pensar em coisas agradáveis e leves.

Foi quando, face à barulheira do “martelo pneumático” a “rebentar o chão” ali mesmo juntinho a mim, me lembrei de uma anedota muito, muito velha, do tempo do liceu que se contava assim:


Um fulano todos os dias passava por uma obra e via um operário de martelo pneumático na mão a perfurar o solo fazendo as fundações. Como era muito gozão, todos os dias lhe dizia:

- Então? A andar de lambreta?

O outro ficava furibundo mas nada podia fazer. Até que um dia pensou esperá-lo com um tijolo na mão para lho atirar em cima.

No dia seguinte, lá estava ele preparado com o tijolo junto à cara para atirar em cima do provocador.

Quando este chega e o vê naquela posição, diz com o ar mais escarnecedor:

- Então? Hoje a ouvir rádio?...


segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Génio lusitano

Tenho dito aqui por mais de uma vez que, menina lisboeta, vivi cerca de ano e meio na vila da Vieira de Leiria onde fiz parte da 1ª classe, a 2ª e o início da 3ª. Foi das experiências mais ricas da minha infância por ser um ambiente tão diferente e distante daquele que conhecia. De recordar que isto se passou em 1957/58. Foi lá que, pela primeira vez, vi uma picota (que encanto!) uma lagartixa, um ancinho para ir à caruma (bem como a própria caruma), cântaros de barro com que as mulheres iam buscar água à fonte e as respetivas cantareiras, mulheres descalças com os canos de lã nas pernas, as camarinhas, aquele mar violento a levantar-se em ondas altas e furiosas, aqueles barcos lindos de proa altíssima a lembrar os Vikings, os bois e as mulheres – tão fortes quanto eles – a puxarem as redes cheiinhas de peixe a saltar, etc. etc.

Foi lá que, pela primeira vez, fui a um baile numa sociedade recreativa, fui empalhar garrafões, fui à caruma, fui a um funeral enquanto menina da escola de batinha branca em fila atrás do féretro.
Foi lá que também pela primeira vez assisti a uma espetáculo estilo revista à portuguesa realizada e interpretada por pessoas da vila e talvez de Leiria, não sei bem. Lembro-me de alguns quadros muito engraçados e houve um que me marcou bastante: era um diálogo em que um dos artistas ia criticando várias circunstâncias e contingências do povo e do país enquanto o outro, vestido de jardineiro – lembro-me bem! – respondia sistematicamente: «Ah! Isso é lá com eles!»

Vem isto a propósito de um artigo que li hoje no DN cujo título é exatamente Génio Lusitano. O autor, que é português mas que tem uma avó checa e outra catalã, um avô austríaco e um pai alemão, faz uma crítica muito bem feita e bem divertida (?) à nossa capacidade (ou será uma incapacidade?) de olhar para o lado…

Diz ele: (…) «Os problemas impossíveis de se resolver em terras lusas são regra geral minúsculos: a luz dum poste de iluminação pública que não funciona há anos, o funcionário sem meios ou vontade para atender pessoas, os fios de telecomunicações que alastram nas fachadas dos prédios como a peste negra, a sala de aulas sem aquecimento, o devedor que não paga, o senhorio que não faz obras, o tempo de espera pela consulta, o autocarro que não passa, o vizinho que estaciona o carro no passeio sem deixar espaço para passar um chico fininho.

Esta prodigiosa faceta do carácter nacional permite deixarmos de ver as pequenas monstruosidades que nos rodeiam e é única na Europa. Num país, que por semana fica à frente em dezenas de rankings, é estranho não ter ainda aparecido uma revista internacional a colocar-nos em primeiro lugar na modalidade "olhar para o lado". (…) Tentar fazer alguma coisa não serve de nada, é a desculpa que se ouve sempre, por isso não se tenta fazer nada. "Eles", seres distantes algures nos centros de decisão, "também não fazem a ponta de um corno", "aquilo é só tachos", "anda tudo na mama" ou "só mudam as moscas". Em vez de tomarmos a iniciativa e limparmos nós a porcaria à pazada, é uma enxurrada de desculpas para não mexer uma palha e tudo ficar igual.


Em Portugal a cidadania não é vivida como um direito. É um fardo que se carrega às costas. E por cima do fardo ainda estão "eles" empoleirados, os "lá em cima". Se, por sua vez, pergunto a um de "eles lá em cima", também olham para o lado e dizem-me que são "eles", os "ali ao lado", que lhes empatam o serviço. (…)»

Connosco é mesmo assim: «Isso é lá com eles» e assobiamos para o lado.




domingo, 29 de janeiro de 2017

Medicina cubana

E para começar bem a semana, aqui fica uma consulta médica bem divertida.


sábado, 28 de janeiro de 2017

Ano do Galo




Telas de Clotilde Fava.


(Desconheço o autor)


(Galaró de crista... Não da Cristas...)

(De uma amiga que vive na China)

(Galo armado em carapau de corrida...)


O ano de 2017 será o ano do Galo, e como o calendário chinês é diferente do nosso, a mudança do ano é hoje, dia 28 de janeiro.  O signo do Galo caracteriza pessoas cheias de coragem, honestidade e ambição. Portanto, esse ano estará contagiado com essa energia de dinâmica, mudança, de novas ideias e oportunidades. Será um ano para quebrar barreiras, perder o medo, ser uma pessoa destemida em busca do seu destino, ele exigirá muito esforço das pessoas para atingir os seus objetivos. Todos estarão almejando o mesmo, o sucesso pessoal e profissional e estarão, em maior ou menor grau, contagiados com a energia intensa do Galo. Por isso, se você quer ter sucesso e atingir os seus objetivos em 2017, terá a energia ao seu favor mas precisa se dedicar muito para enfrentar a concorrência….


(E eu que sou do signo do Rato... ...)

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Spanish Harlem

Em tempos uma das minhas canções preferidas. Com estas tiranias que aquele troll que ascendeu a presidente  dos Estados Unidos tem prometido fazer - e até já começou a fazer - lembrei-me dos bairros de Nova Iorque com as suas comunidades variadas e veio-me à cabeça esta linda canção.

Nem é preciso dizer que a minha versão preferida é a do Cliff, se bem que o original tenha vindo da multifacetada música americana.

Vejam se se lembram. E se gostam. E qual preferem.







(East Harlem, também conhecido como El Barrio ou Spanish Harlem, é um bairro em Manhattan na cidade de Nova Iorque, no estado de Nova Iorque, nos Estados Unidos. A maioria de sua população é formada de latino-americanos. Harlem é uma das maiores comunidades de predominância latina em Nova Iorque. A comunidade latino-americana cresceu rapidamente após os anos de 1950 e ao final dos anos 60 já compunha a maior parte da população.)  

(informação retirada da Wikipedia)


quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Sinais dos tempos...

- Mãe, vou sair. Vou ao concerto do Justin Bieber.

- Diga, Matilde? Então, mas o concerto do menino não é só na sexta-feira?

- É, sim, mãe. Mas eu e a Benedita vamos acampar lá à porta estas duas noites.

- 'Tá parva? E o frio? E as aulas?

- A mãe sabe que o Justin é a minha vida e tenho de estar na fila da frente.

- Pronto, vá lá então, Tildinha.

- A mãe pode dar-me vinte euros para comer?

- 'Tá parva? Vinte euros? Vai andar a comer sandes de fiambre, não? Tome lá cinquenta.

- Obrigada. A mãe é a melhor.

- Avisou as professoras de que não ia às aulas?

- Sim. Avisei a diretora de turma.

- E ela?

- Disse que desde que a mãe e o pai continuassem a pagar o colégio, não queria saber.

- Pronto, ainda há professoras competentes. Então vá, depois peça ao seu pai para lhe pagar umas explicações.

- Não sai mais barato pagar pelas notas?

- Tem razão, que palermice. Que bom ver que a Matilde já sabe cuidar de si.






terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Ainda (e sempre) o acordo ortográfico

Assiste-se a uma nova movimentação (ou será sempre a mesma?) para a anulação do último acordo ortográfico. Que me desculpem talvez a brutalidade da expressão, mas as razões apresentadas para que tal aconteça até me dão volta ao estômago!

Ando a reler as «Lendas e Narrativas» de Herculano e convido os defensores do Não a lerem-nas na escrita do autor de meados de 1800…  Mas em vez de me pôr aqui a perorar sobre motivos e fundamentos sobre os acordos ortográficos que já se realizaram, deixo-vos um texto maravilhoso e até divertido de Francisco José Viegas que li na Ler deste Inverno.

«Por falar em língua – na Língua Portuguesa, permitam-me que lembre que o AO não é o nosso maior problema, nunca foi. Enquanto milhares de portugueses prometiam acorrentar-se às consoantes mudas em protesto, desculpavam-se erros de palmatória de português básico em documentos oficiais, em legendas e rodapés da televisão pública (onde, entre tantos provedores, nunca se encontrou ninguém para aplicar corretivos) ou na avaliação de testes nas escolas (houve inclusive, nos idos de 1990, uma nota distribuídas aos professores para não assinalarem erros ortográficos nas provas de avaliação porque isso seria traumatizante).

Comparando o léxico de Mau Tempo no Canal, de 1944, com o romance de um autor contemporâneo, percebe-se que desapareceu cerca de 20% do vocabulário. A língua portuguesa está confinada ao seu ersatz, um substituto ligeiro, uma língua de anúncios de aeroporto, de fala de supermercado.

A escola é muito responsável por este desastre, preferindo a pobreza do léxico, desculpabilizando os erros, desejando agradar à vulgaridade, parlapatando – esquecendo que quem fala e escreve mal, pensa mal. Para o sistema educativo fazer algo pela defesa da Língua Portuguesa? Duvido. Veja-se este pedaço de, por assim dizer, «competência linguística» do Ministério da Educação num texto sobre educação de adultos: «Este programa deverá assentar numa maior integração das respostas na perspetiva de quem se dirige ao sistema, tornando, na ótica do formando, coerente e unificada a rede e o portefólio dos percursos formativos, que no percurso individual devem ser passíveis de combinação personalizada.» Não há ortografia que lhe valha.

As novilínguas tecnocráticas que os analfabetos popularizam são também um elemento a ter em conta para a perda de identidade da língua. Mesmo desculpando «gentrificação» para significar «gentrification», do inglês (gentry), que vem do francês arcaico (genterise) – ocupação do centro das cidades por gente rica – é estranho ouvir uma pessoa altamente colocada a defender a necessidade de discutir a genderificação (do inglês gender, género) uma vez que há cargos muito genderificados. Semanas antes ouvi uma senhora exigir mais empoderamento (empowerment) para as mulheres e que ela própria tinha contribuído para empoderar mulheres num país latino-americano , e – entretanto – o presidente da Câmara de Valongo publicou um livro sobre política onde insistia na necessidade em «empoderar os cidadãos do concelho», coisa que os deve alegrar. Depois, há «os cidadãos e as cidadãs» que dizem aitem em vez de item (um pronome demonstrativo latino) – e o horror ameaça não ter fim, a avaliar pela forma como toda a gente encolhe os ombros.»

Francisco José Viegas, Revista Ler, Inverno 2016/2017




segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Inglês e Francês

A minha pena era não haver, naquele tempo, cursos de Inglês e Francês na Faculdade. Nesse tempo, a matriz eram as filologias germânica ou românica. Só depois de 80 e tantos as filologias deram lugar às Línguas e Literaturas Modernas que permitiram licenciaturas de Inglês e Francês, que era o que eu gostava de ter feito. Too late!

Daí que tenha sempre gostado de canções que misturem as duas línguas. 

Lembram-se de «Ma Belle Amie», de 1970? Lindinha... mesmo.




Para não falar da belíssima Michelle dos nossos saudosos Beatles. Desta lembram-se de certeza. Uma delícia.





domingo, 22 de janeiro de 2017

Hoje fui à matinée!

Xi! Aos anos que não ia à matinée! Cinema para mim é à noite. Mas as tardes de domingo no inverno são tão deprimentes (no verão também, com as praias cheias de gente e de nevoeiro nestas praias aqui à volta) com o frio e com os programas que nos pretendem impingir na televisão. Então tratei de me enfiar numa das salas do shopping que dava o Silêncio do Scorsese às três. Há tempo que não via uma sala dessas tão cheia de espectadores! Que bom! E todos em silêncio. Nem o crre-crre das pipocas se ouvia! Que bom!

Gostei do filme. Tem um ritmo muito lento, especialmente na primeira parte, mas não me senti nada aborrecida. A história é conhecida, lê-se aí pelos jornais: dois padres jesuítas portugueses pedem ao Vaticano para irem ao Japão numa época de grande fechamento daquele país ao exterior (séc. XVII) em busca do seu professor e mentor que se dizia ter renegado a fé cristã tendo-se aculturado à vida e à religião japonesas. O interessante, porém, não é a história, mas o que o desenvolvimento da narrativa e as vivências das personagens, bem como os seus pensamentos e as suas falas nos fazem pensar.

A violência das religiões: o meu deus é o verdadeiro, o teu não existe ou não serve – uma teimosia que tantas guerras tem originado desde que a humanidade tem história. A inabalabilidade da fé – ou não. A existência de deus ou o seu dramático silêncio nos momentos mais pungentes. A compaixão pelo próximo ou a renúncia objetiva da minha crença? Dramático por isso. Mas não moralista – em nenhum momento. Não podemos cair na nossa pequenina e enviesada tentação de julgar se aquele fez bem ou fez mal, se deveria ter feito assim ou de outra maneira. E aí a inteligência emocional joga o seu papel. Por de mais importante. Marcante.

Os diálogos são bem inteligentes, tanto os dos cristãos como dos japoneses. As emoções são desassombradas, lisas, sem pieguices. As cenas cruéis não são eivadas de violência gratuita – própria dos filmes americanos. O ambiente é sereno, cinzento azulado, silencioso ele próprio, em que perpassa uma constante nebulosidade. Nem o calor nos causa suores como nos filmes passados no Vietnam. Belíssimo o recorte das escarpas face ao mar, as ondas a desenrolarem nas praias.


São quase três horas de filme – sai-se de lá em silêncio.


sábado, 21 de janeiro de 2017

J'ai froid!

Brrrrr!!! Estou farta de frio! Bem sei que daqui por seis meses estou a vociferar porque hei de estar farta de calor! Mas para já, estou enregelada, enrodilhada em roupa, com quilos de dores nas articulações e montes de frieiras nos pés e nas mãos. 

Estou farta de frio! Mesmo com os dias lindos de sol, estou farta de frio! As minhas pobres plantas estão caídas e queimadas. As camélias soçobram castanhas em vez de cor-de-rosa. Só o pequeno azevinho, árvore do frio, parece remoçar.

E nas minhas habituais deambulações pelas minhas canções de sempre, lembrei-me da querida Françoise Hardy - que fez (73) anos há poucos dias  - com aquela canção de 62 em que dizia: «J'ai chaud, j'ai froid, hum, hum cheri» 

Nesta altura  j'ai froid apenas, mas a cançãozinha fica aqui para aquecer-nos o coração...




sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Anda, Bobby!

Sabemos todos da irrequietude do atual presidente e de como ele gosta de surpreender toda a gente com visitas ao povo mais simples. Diz-se que um dia destes foi visitar os inquilinos do Hospital Psiquiátrico lá em Lisboa.

Quando lá chegou, o diretor foi avisando o presidente das “manias” de muitos dos doentes para ele saber mais ou menos o que dizer. E chamou a sua especial atenção para um deles que andava a passear uma escova de dentes puxada por uma trela convencido que se tratava do seu cão.

O presidente, com a sua natural habilidade para falar com as pessoas, foi metendo conversa com um ou outro dos doentes até que avistou o que passeava o “cão”.

Chegou-se perto dele e perguntou, cheio de bonomia:

- Então, anda a passear o cãozinho, não é verdade?

O homem fez a sua maior cara de espanto e disse:

- A passear o cão?! Então não se está mesmo a ver que isto é uma escova de dentes?!

O presidente esbugalhou os olhos, mas nada respondeu, limitando-se a ver o homem afastar-se enquanto este, com um certo ar de gozo, sussurrava na direção da escova de dentes:

- Anda, Bobby! Já enganámos mais um!!




quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Do insucesso escolar

(Desculpem, mas hoje é a doer! 40 anos de profissão, com experiência em variadíssimos campos, dão-me autoridade para dizer tudo isto e mais ainda.)

Vem esta entrada a propósito doartigo de opinião de Maria de Lurdes Rodrigues no DN de ontem em que a socióloga/professora defende o combate acérrimo ao “chumbo”.




Noutros tempos, o ensino era só para alguns e a tónica era posta num ensino altamente seletivo com reprovações em barda logo na 1ª classe para desmoralizar quanto mais cedo melhor. Essa realidade conheci-a eu desde muito cedo – anos 50 – quando a minha mãe foi dar aulas para Sintra, com 30 ou 40 alunas das várias classes na sala de aula e, apesar de a minha mãe se levantar de madrugada para passar cópias individualizadas para cada menina da 1ª classe, grande parte delas, que chegavam à escola sem saber pegar no lápis e perante as exigências do programa, tinham de repetir duas e três vezes a 1ª classe até, muitas delas, desistirem da escola.

O liceu era para as elites e para lá serem reproduzidas, por isso havia que chumbar como quem separa a flor das ervas daninhas. Os professores tinham dois objetivos: expor a matéria e classificar se ir a exame (ou não). (No meu 6º ano do liceu – que agora se chama 10º - entrámos 48 alunas na turma de Letras (63/64) e apenas onze conseguimos fazer o 7º ano completo.) Aquilo é que era ensino! Ouve-se ainda dizer.

Também eu, formada nos parâmetros dos estágios dos inícios de 70, fui ensinada a classificar e a… chumbar. Até que um dia, já aqui em Leiria, no inovador Ensino Preparatório do ministro Veiga Simão, houve uma inspetora que me mandou chamar por causa do elevado número de negativas que eu dava… Depois veio o ministro de boa memória Roberto Carneiro que instituiu o ensino obrigatório até ao 9º ano, com todos os alunos na escola cada um com as suas especificidades, as aulas de recuperação para os que não atingiam os objetivos mínimos, os currículos adaptados para os alunos com incapacidades de vária ordem e a legislação que nos ensinava a incluir e nunca a excluir. Aprendi/aprendemos a honestidade, e justiça, a transparência no processo de avaliação. Aprendi/aprendemos que avaliar não é classificar. Aprendi/aprendemos que, nos alunos, há que ter em conta não só os seus conhecimentos, mas os seus comportamentos, as suas atitudes, o esforço despendido e sei lá o que mais.

Mas nem todos aprendemos, não! Tantos de nós que continuaram e continuam a defender e a exercer o seu elitismo bacoco, o seu triste poderzinho de «ter a faca e o queijo na mão». E aqui devo apontar o dedo aos professores do «secundário» – raras as notáveis exceções – que continuaram sempre a pensar que avaliar é apenas classificar e que o objetivo número um do ensino é selecionar, separar “o trigo do joio” … [Exemplo disso, triste exemplo disso, foi o anterior ministro da Educação de má memória.]

Muitos professores não listam para os alunos a matéria que vai sair nos testes; muitos professores dão uma matéria e testam outra algo diferente; muitos professores aplicam aos seus alunos testes de colegas que não têm em conta o que foi feito nas suas aulas; muitos professores fazem testes cheios de rasteiras (até os exames nacionais vêm cheios delas…) em que muitas vezes se testa o acessório e se esquece o essencial; muitos professores – ou quase todos – vêem os testes como o único instrumento de avaliação…

E que me dizem de uma professora que está a explorar nas aulas um conto de Herculano e anunciou para esta semana uma mini-ficha sobre Os Maias que ainda nem mencionou nas aulas?


quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Mesmo que o frio queime

Poesia num dia de frio




No te rindas, aun estas a tiempo
de alcanzar y comenzar de nuevo,
aceptar tus sombras, enterrar tus miedos,
liberar el lastre, retomar el vuelo.

No te rindas que la vida es eso,
continuar el viaje,
perseguir tus sueños,
destrabar el tiempo,
correr los escombros y destapar el cielo.

No te rindas, por favor no cedas,
aunque el frio queme,
aunque el miedo muerda,
aunque el sol se esconda y se calle el viento,
aun hay fuego en tu alma,
aun hay vida en tus sueños,
porque la vida es tuya y tuyo tambien el deseo,
porque lo has querido y porque te quiero.

Porque existe el vino y el amor, es cierto,
porque no hay heridas que no cure el tiempo,
abrir las puertas quitar los cerrojos,
abandonar las murallas que te protegieron.

Vivir la vida y aceptar el reto,
recuperar la risa, ensayar el canto,
bajar la guardia y extender las manos,
desplegar las alas e intentar de nuevo,
celebrar la vida y retomar los cielos,

No te rindas por favor no cedas,
aunque el frio queme,
aunque el miedo muerda,
aunque el sol se ponga y se calle el viento,
aun hay fuego en tu alma,
aun hay vida en tus sueños,
porque cada dia es un comienzo,
porque esta es la hora y el mejor momento,
porque no estas sola,

porque yo te quiero.

(Mario Benedetti)

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Companhia para o café...

Um lanchinho a meio da manhã na Praça Rodrigues Lobo é o melhor que me pode acontecer. É o sítio mais bonito de Leiria e traz-me belas recordações de outros tempos. 






E, mesmo com as temperaturas baixas que se estão a fazer sentir, dá vontade de vir cá para fora, para debaixo das arcadas. 

Estou normalmente sozinha porque gosto e porque, de manhã, as esplanadas estão quase vazias. Só que, esta manhã, tive umas companhias muito especiais...













Em cima da minha mesa, com todo o descaramento, todo o à vontade a pedir as migalhinhas do meu croissant... Já viram uma coisa assim?!


domingo, 15 de janeiro de 2017

Je ne veux pas travailler...

No limiar de mais uma semana de trabalho (e com o frio que faz, apesar do solinho amarelo) apetece mesmo é parafrasear os Pink Martini (lembram-se deles?) e gritar: «Je ne veux pas travailler!!!» que é como quem diz «eu não quero trabalhar!»




Boa semana!! 

sábado, 14 de janeiro de 2017

O Museu da Notícia

Em tempo de congresso de jornalistas, parece bem mostrar o Museu da Notícia que nasceu em Sintra no espaço tristemente deixado pelo Museu do Brinquedo - antigo quartel dos Bombeiros da Vila. (ricos bailes se faziam naquele espaço nos idos de 50, 60!...)




O museu, muito alegre, moderno e cheio de luz, estende-se por três andares com várias secções dedicadas a notícias sobre a história portuguesa e mundial.

Na entrada um globo interativo que mostra os ainda poucos locais do mundo que gozam de liberdade de imprensa.




Na vertical e a apanhar os três andares, uma espiral – a lembrar a imagem do ADN – a "Pirâmide de Babel", uma torre metálica com 69 televisões ligadas aos principais canais de notícias de todo o planeta.





Subimos e vamos vendo antepassados da rádio, da televisão, da imprensa.








Interessante a sala dos Imortais.










A sala dedicada aos duelos mais mediáticos.








Uma sala dedicada à propaganda jornalística.








E há o lounge, como lhe chamam, que é uma grande sala de estar com ecrans a toda a volta a passarem acontecimentos mundiais que foram notícia.




Podem "visitar" o museu em http://www.newsmuseum.pt/ mas o melhor mesmo é ir lá. A Sintra, à entrada da Vila. Com tempo, que há muito para ver e experimentar.




sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

De que lado estariam?

Todos nós assistimos já ou estivemos no centro ou de um lado de uma situação parecida com a que o jornalista Paulo Farinha tão bem aqui descreve.

De que lado estariam os meus queridos amigos?



O pai. «Calma. Vou contar até dez. Ele é uma criança, está a testar os meus limites. É isto que as crianças fazem. Testam os limites dos pais. Moem a paciência dos adultos. Isto é fita. Está a sujar o pijama todo no chão mas não vou fazer nada. Acabou de tomar banho e já está todo transpirado de tanto berrar. Vou respirar fundo. Agora não posso voltar atrás. Tenho de manter a postura. Dei uma ordem, disse-lhe para apanhar os brinquedos, agora não posso dar o flanco. Mas por que é que eu me lembrei de fazer isto agora, caraças?! E logo quando os meus pais estão cá em casa. O puto ia para a cama e arrumava eu a porra dos legos e amanhã logo se falava nisso. Deus me perdoe, mas há alturas em que me apetecia mesmo dar-lhe uma bolachada. Ou duas. Se calhar é o que está a merecer. Uma palmada bem assente. Ou uma chapada. Palmadas no rabo, o sacana fica a olhar para mim e a desafiar-me. Parece que está a gozar comigo. Só lhe bati uma vez e fez um berreiro que parecia que vinha a casa abaixo. Vinha a casa e vinha eu, com remorsos. Estou aqui estou a levantar a mão. Já o ameacei três vezes. Ou bato ou fico calado.»

A mãe. «Eu não me vou meter, eu não me vou meter. Não me posso meter. É uma coisa entre pai e filho. Se me meto para dizer ao miúdo para vir para a cama, o pai perde autoridade. Se o deixo estar ali no chão aos gritos a chamar por mim, parte-me o coração. Vou mas é sair. Vou passear o cão e o pai que se desenrasque. Não. Não posso fazer isso. Vou-lhe dizer para fazer o que o pai está a dizer. “Vai já apanhar os brinquedos como o teu pai mandou.” É isso mesmo. Mas não via adiantar. Só vou piorar. Este caminho não está a resultar e o pai está a ficar enervado e o filho está a ficar frustrado. Não percebe por que é que hoje tem de arrumar brinquedos. Está frustrado e está sujo. Irra, ainda há pouco tomou banho e já está todo encharcado em baba e suor. Eu não me vou meter.»

O avô. «O meu filho está a perder mão no puto. Estou aqui estou a levantar-me para dar uma chapada ao catraio. Este miúdo precisa de apanhar para perceber quem é que manda. Eduquei três filhos, todos apanharam quando tiveram de apanhar e não lhes fez mal nenhum. Um bom açoite faz maravilhas. A eles fez. Cresceram todos bem crescidinhos. E agora nenhum encosta o dedo nos filhos. Tenho seis netos e nenhum apanha dos pais. E todos deviam apanhar. Já todos mereceram umas lambadas. Este, está aqui está ali.»

A avó. «Meu rico filho. Apanhou do pai e agora não quer bater no filho. Este miúdo mói a paciência a um santo, um puxão de orelhas não lhe caía nada mal, mas os meus filhos sempre disseram que nunca iam bater nos filhos deles. Eu já lhe tinha chegado a roupa ao pelo. Mas o meu filho é que sabe. Os pais é que sabem.»

O irmão. «Ainda bem que eu já estou na cama. Daqui a pouco tenho de chorar e fingir que acordei com esta gritaria toda. Mas está a ser divertido. O meu irmão é mesmo bom nisso. Leva uma birra até ao limite. Só tem 2 anos mas grita como se tivesse 4. Eu já não faço birras destas, já tenho 5. O meu pai ainda não aprendeu que tem filhos diferentes e deve fazer coisas diferentes. E ter reações diferentes. Mas se eu lhe disser isto ele vai perceber que eu e o meu irmão falamos sobre estas coisas. Mania de os adultos acharem que são mais espertos do que nós e só nos conseguem dobrar à força. Com conversa vamos muito melhor.»

O filho. «Já me dói a garganta de tanto chorar, mas o meu pai não se cala. Se ele vier aqui dar-me um abraço e me pegar ao colo, vou espernear um pouco mas depois acalmo. Já estou farto deste número. Mas a culpa é do meu pai. Ele é que começou. E está ali aos gritos, feito histérico. Quem é que é a criança aqui? Eu ou ele?»


(Paulo Farinha, in Notícias Magazine, 8/jan/2017)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Maria Teresa Horta distinguida em Londres

Poema de Maria Teresa Horta foi escolhido pelo jornal britânico The Guardian para a sua secção «Poema da Semana» do passado dia 28 de novembro. Foi publicado na sua versão original em português e na versão traduzida em inglês por Lesley Saundres. Esta apresentação bilingue é acompanhada por um artigo que fala do percurso da poeta e da sua escrita, com destaque para a obra Novas Cartas Portuguesas escrita em co-autoria com Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno, nos inícios dos anos 70, ainda no tempo do Estado Novo.

A tradução do Poema foi distinguida com o primeiro prémio do Stephen Spender Prize 2016 que poderá levar à publicação da obra poética de Maria Teresa Horta no Reino Unido.

(informação retirada da revista Autores da SPA)

Poema

Deixo que venha
se aproxime ao de leve
pé ante pé até ao meu ouvido

Enquanto no peito o coração
estremece
e se apressa no sangue enfebrecido

Primeiro a floresta e em seguida
o bosque
mais bruma do que neve no tecido

Do poema que cresce e o papel absorve
verso a verso primeiro
em cada desabrigo

Toca então a torpeza e agacha-se
sagaz
um lobo faminto e recolhido

Ele trepa de manso e logo tão voraz
que da luz é a noz
e depois o ruído

Toma ágil o caminho
e em seguida o atalho
corre em alcateia ou fugindo sozinho

Na calada da noite desloca-se e traz
consigo o luar
com vestido de arminho

Sinto-me quando chega no arrepio
da pele, na vertigem selada
do pulso recolhido

À medida que escrevo
e o entorno no sonho
o dispo sem pressa e o deito comigo


(daqui)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Quién subirá la cuesta d'enero?

Tem morrido tanta gente! E não me refiro apenas a figuras mediáticas estrangeiras e nacionais. São amigos e familiares deles que têm partido, alguns em grande sofrimento, em condições precárias de saúde.

O outono, com a sua proverbial queda da folha, e o inverno com o seu ar traiçoeiramente gélido, enfraquecem e fragilizam quem já está débil e levam ao apagar do último sopro de vida.

Lembro sempre um dito que a minha avó espanhola usava muito: «Quién subirá la cuesta d’enero?» Também repetia esta máxima porque o seu último marido se ficou no sono nos inícios de 60, a 8 de Janeiro. Tinha 51 anos. Ela própria não conseguiu subi-la que se apagou, aos 91 anos, já tão frágil, a 28 de Dezembro, nos alvores de 80.

Tem morrido tanta gente! «Quien subirá la cuesta d’enero?»



Sinto um prenúncio de morte
Dentro do meu coração.
Virá quando a der a Sorte.
Quando vier, virá em vão.

Porque a morte é sombra e nada,
É só a vida vulgar
Que de um lugar é tirada
E posta em outro lugar.

Ri, alma, do que acontece!
Nada existe, salvo seres.
A aranha da vida tece
Só teias de o não saberes.


(Fernando Pessoa, 16-03-1934)