sexta-feira, 30 de abril de 2010

De tudo o que Abril abriu

De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
um menino que sorriu
uma porta que se abrisse
um fruto que se expandiu
um capitão que seguiu
o que a história lhe predisse
e entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo que levantava
sobre um rio de pobreza
a bandeira em que ondulava
a sua própria grandeza!
De tudo o que Abril abriu
Ainda pouco se disse
E só nos faltava agora
que este Abril não se cumprisse.
Só nos faltava que os cães
viessem ferrar o dente
na carne dos capitães
que se arriscaram na frente.

Na frente de todos nós
povo soberano e total
que ao mesmo tempo é a voz
e o braço de Portugal.

           Ary dos Santos
in “As Portas que Abril Abriu” (1975)





Trata-se de uma família desestruturada. Entre muitas no nosso país. São três irmãos: uma está no 1º ciclo, outro tem cinco anos e vai ao jardim-de-infância duas ou três vezes por mês e o mais novo tem três anos e talvez ainda não esteja inscrito no pré-escolar. Na escola ninguém sabe onde eles moram. Pai, não há, ou não se sabe dele. Há uma mãe que às vezes vai à escola e conta o que lhe apetece. Já viveram num carro. As crianças são associais. Naturalmente!

São apoiadas pela Segurança Social. Mas lá também não têm a certeza do seu domicílio. A assistente social daquele serviço fez várias visitas à morada de arquivo, sempre sem sucesso. Perante a ameaça de institucionalizarem as crianças, a mãe lá marcou uma visita que de facto aconteceu. A assistente social compareceu na morada marcada e à hora marcada e, aparentemente, estava tudo bem.

Entretanto, não houve qualquer comunicação com a escola sobre este “avanço” no conhecimento da família. Perante a notícia desta visita da Segurança Social a casa da família, foi a escola que teve de perguntar para aquele organismo o que saberiam sobre os meninos. Na escola, porém, há a suspeita que a visita da assistente social tivesse sido encenada pela mãe numa casa que não é a sua própria morada. E há a certeza de que chamam a mãe e ela não aparece; há a certeza que o menino de cinco anos está prestes a entrar no 1º ciclo e não aparece no jardim-de-infância e, quando aparece, não faz aprendizagens, não fala e tem comportamentos associais; há a certeza que a menina mais velha que adormece nas aulas e nas actividades, tal não será a falta de descanso e, eventualmente, de alimentação regrada. Há essas certezas todas e muitas outras.

Trata-se de uma família a quem os dois filhos mais velhos foram já retirados e institucionalizados. E de que estarão à espera para fazerem o mesmo com estas crianças? E a CPCJ (Comissão de Protecção de Crianças e Jovens) estará a acompanhar esta situação? E estará a trabalhar em sintonia com a Segurança Social e com a Escola? E para que serve a CPCJ? Que protecção oferecem?

E porque se mantém a hipocrisia de não se permitir a esterilização de mulheres que não têm condições físicas, nem mentais, nem materiais para serem mães de família e que continuam e fazerem nascer crianças para que sejam uns inadaptados da sociedade e, pior do qque isso, uns infelizes? Será desta forma que queremos aumentar a natalidade no nosso país?


quinta-feira, 29 de abril de 2010

No Dia Mundial da Dança




Esta semana coube-me a simpática tarefa de acompanhar a minha neta à aula de dança. Só para contextualizar os meus possíveis leitores, trata-se de uma aula promovida pelo SAMP (Sociedade Artística Musical dos Pousos) e orientada pela equipa do professor Paulo Lameiro para crianças muito pequenas (a sala da minha neta é para os nascidos em 2007) onde elas são expostas à música, à dança e à arte dramática sendo convidadas, juntamente com os respectivos acompanhantes a participarem nas actividades propostas pelas professoras. É uma forma muito interessante de educar a sensibilidade, a atenção, a concentração e o gosto das crianças e, ao mesmo tempo, começar a transmitir-lhes alguns conhecimentos culturais.

A aula desta semana foi dedicada ao 25 de Abril, tendo as professoras dramatizado o tema da repressão e do autoritarismo que se vivia antes da revolução e como o povo venceu esse mal,  servindo-se de fortes canções de intervenção daquela época e de símbolos marcantes como a bandeira nacional, o trabalho duro e os cravos. Perguntar-nos-emos se as crianças entenderam  – certamente que não. Elas foram chamadas a intervir de forma ténue: pintaram, jogaram o balão e dançaram de roda. Alguma coisa de certo terá ficado nos seus pequeninos subconscientes. Para os pais e avós acompanhantes o momento terá sido vivido de formas muito diferentes – um ou outro pai apresentava expressão de quem não achou o tema muito apropriado ou talvez até mesmo um pouco forçado.

Por mim, acho sempre muito útil que se aproveitem todas as oportunidades para relembrar e fazer passar a mensagem dos bons momentos da nossa história como povo, das nossas vitórias mais marcantes, de forma a combatermos este nosso sempre presente pessimismo que nos faz pensar que somos os mais pobres, os mais atrasados, os piores, os últimos!

Há que felicitar o professor e a sua equipa e pedir-lhes que continuem para a frente. Mesmo que nem sempre se faça algum silêncio entre os pais quando o professor aparece na sala comum, com a sua viola, a cantar baixinho, chamando as crianças para a aula.... mesmo que nem sempre os acompanhantes saibam controlar as crianças levando-as a comportarem-se como devem numa aula.


(O mítico par M. Fonteyn e R. Nureyev
num magnífico pas-de-deux)


quarta-feira, 28 de abril de 2010

O Estatuto do Aluno


Mesmo sem já estar “no activo”, não sou capaz de deixar de temer o estatuto de aluno que aí vem!

Nem queiram saber o que me custa admitir isto, mas de cada vez que o PS é governo e mexe no chamado estatuto do aluno é sempre para pior. Bom era quando, nos anos 70 e 80, havia o elenco das penas disciplinares que acrescentava as normas para sua aplicação e a quem cabia a aplicação de cada uma delas (Portaria n.º 679/77). Depois, apareceram as decorrências dos estudos realizados pelas Ciências da Educação e aí começou a complicação. Foi o estatuto de 1998 (Dec-Lei n.º 270/98) do tempo do Ministro Marçal Grilo que introduziu o procedimento disciplinar com vista à suspensão das actividades lectivas, com uma tramitação tão complexa para professores e tão demorada de concluir que só dava vontade de não aplicar qualquer suspensão! Ah! Porque o Código de Procedimento Administrativo.... Ah! Porque os pais.... Ah! Porque se puserem um advogado.... Tretas!

Quando entrou o Ministro David Justino (PSD) logo tratou de agilizar o processo dando autonomia ao presidente do Conselho Executivo para aplicar suspensões até cinco dias sem necessidade de qualquer procedimento disciplinar (Lei n.º 30/2002). Mas hélas! que volta o PS ao poder e aí volta tudo ao mesmo no que toca à aplicação das medidas disciplinares com os respectivos procedimentos disciplinares complicadíssims e prolongadíssimos de certo para nos dissuadir de suspendermos os meninos. E com a agravante de que as faltas dadas pelos alunos, enquanto suspensos, não contariam se não para estatística...

Depois, para complicar ainda mais vêm as provas de recuperação para os alunos faltosos - outra complicação de um governo socialista (Lei n.º 3/2008). Tudo sempre na assunção de facilitar a vida às famílias e o trajecto escolar dos alunos. Nem imaginam o que eu vociferei quando tive de estudar as novidades desta lei para proceder à sua aplicação!

Com este historial e com os alertas que a comunicação social e os blogs da especialidade nos estão a fazer diariamente, cuidem-se os professores que não há-de vir de lá coisa boa!


terça-feira, 27 de abril de 2010

A Rapariga do País de Abril

(outro poema de Abril)

Habito o sol dentro de ti
descubro a terra aprendo o mar
rio acima rio abaixo vou remando
por esse Tejo aberto no teu corpo.

E sou metade camponês metade marinheiro
apascento meus sonhos iço as velas
sobre o teu corpo que de certo modo
é um país marítimo com árvores no meio.

Tu és meu vinho. Tu és meu pão.
Guitarra e fruta. Melodia.
A mesma melodia destas noites
enlouquecidas pela brisa no País de Abril.

E eu procurava-te nas pontes da tristeza
cantava adivinhando-te cantava
quando o País de Abril se vestia de ti
e eu perguntava atónito quem eras.

Por ti cheguei ao longe aqui tão perto
e vi um chão puro: algarves de ternura.
Quando vieste tudo ficou certo
e achei achando-te o País de Abril.

Manuel Alegre


(in 30 Anos de Poesia
Publicações Dom Quixote)


(Rio Tejo)



Os jornais que temos!


(jantar-conferência da Casa-Museu)

A direcção da Casa – Museu Dr. João Soares costuma organizar jantares-conferência com figuras públicas que se deslocam a Leiria para falarem sobre temas da actualidade. Há duas semanas promoveram um jantar com a presença do Primeiro Ministro que veio falar da sua acção governativa e da sua visão de futuro para o país.

Sabemos que Leiria não é uma cidade/região da área político-partidária do PM. Por isso fiquei deveras surpreendida com a quantidade de pessoas que se apresentaram para o ouvir. Falando com um membro da organização, fiquei a saber que as inscrições rondaram as 400 e que, desde que começaram a realizar estes jantares, nunca tinham tido um tão grande número de inscrições.

Registei a presença de pessoas do partido, naturalmente; da actual Câmara, claro; mas, para grande surpresa minha, fui lá encontrar pessoas que nada têm a ver com o PS, como a Dr.ª Isabel Damasceno, a Dr.ª Laura Esperança e muitos outros elementos de diferentes áreas partidárias.

Surpresa maior foi a noticiazinha que saiu no jornal Região de Leiria que se arroga ser o jornal de maior tiragem da região, no fim da última página, com o triste título “Sócrates em Leiria discursa sobre energia e acaba a falar sobre Alegre”. Juro que não adormeci pelo meio, mas nem na conferência, nem no debate foi mencionado o nome do candidato a Presidente da República! Pior, porém, é que refere o vetusto jornal que estiveram presentes no jantar-conferência algumas dezenas de pessoas....

Sabemos que se trata de um jornal conservador, mas faltar à verdade e querer ignorar um evento destes na cidade, não me parece que jogue muito a favor da nossa imprensa!

Fez-me lembrar de há uns trinta e tantos anos, poucos anos depois da revolução (não teria ainda chegado a Leiria!), que mandei uma carta ao director queixando-me amargamente dos pobres transportes públicos existentes à época aqui na cidade (actualmente não são muito melhores, acreditem!) e, devolveram-me a carta dizendo que não a poderiam publicar porque não se enquadrava na linha de orientação do jornal.

Dá-me ideia que ainda não mudou de orientação!



 

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Escolas pedem a lésbicas e ‘gays’ para esclarecer alunos?


Li hoje no jornal que, no passado ano lectivo, 40 escolas pediram a uma associação de jovens lésbicas e ‘gays’ para esclarecerem os alunos sobre o tema da homosexualidade e da bissexualidade e, no presente ano, a referida associação já recebeu outros tantos pedidos de outras escolas.

Que fique bem claro que não venho aqui com moralismos bacocos e que nada tenho contra a orientação sexual de cada um. Mas, face a esta notícia, perguntei-me se os professores não estarão a perder a sensatez!

Não estarão a fazer da lei da educação sexual um bicho-de-sete-cabeças? Os primeiros documentos do Ministério da Educação com orientações para a inclusão da educação sexual nos programas datam do ano 2000 a preparar a exploração desta área com muita naturalidade e com muita leveza no âmbito da educação para a cidadania que haveria de ser legislada no ano seguinte. Tudo a ser explorado numa base de educação para os afectos que poderia ser feita por qualquer professor do Conselho de Turma de acordo com o combinado no âmbito do mesmo.

A educação sexual que se pede agora para se fazer junto dos alunos continua a ter de ser planificada em termos de Conselho de Turma e registada no respectivo Projecto Curricular. Tenho a certeza que isso pode (e deve) ser feito pelos professores da turma. Sei que há, muitas vezes, o recurso a médicos ou a psicólogos e muito bem! A questão da homossexualidade pode aparecer na discussão ou por proposta dos alunos e aí continuo a acreditar no amplo conhecimento e na facilidade dos nossos colegas em satisfazer a curiosidade dos alunos. Que mais podem os próprios ‘gays’ acrescentar à discussão ou ao esclarecimento da questão? Defender o seu estatuto? Aconselhar os alunos?



Abril de sim, Abril de não

(outro poema de Abril, mais apropriado ao" dia seguinte" - o(muito) que há por fazer)

Eu vi Abril por fora e Abril por dentro
vi o Abril que foi e Abril de agora
eu vi Abril em festa e Abril lamento
Abril como quem ri como quem chora.
Eu vi chorar Abril e Abril partir
vi o Abril de sim e Abril de não
Abril que já não é Abril por vir
e como tudo o mais contradição.
Vi o Abril que ganha e Abril que perde
Abril que foi Abril e o que não foi
eu vi Abril de ser e de não ser.
Abril de Abril vestido (Abril tão verde)
Abril de Abril despido (Abril que dói)
Abril já feito. E ainda por fazer

(Manuel Alegre)




domingo, 25 de abril de 2010

Que infâmia!



Retomo o assunto abordado no passado dia 10 sobre a morte do pequeno Leandro, aluno de uma EB 2,3 de Mirandela. É que fui verdadeiramente surpreendida por mais uma notícia no DN de anteontem, com o explosivo título “Porteiro de escola arrisca pena de expulsão”.

Um inquérito feito pela Câmara Municipal de Mirandela, serviço de onde o porteiro depende, dá-o como responsável por ter deixado sair o aluno da escola, à hora do almoço, sem autorização dos pais. Assim, vai ser alvo de um processo disciplinar que pode levá-lo à expulsão.

Não vou voltar a referir as dificuldades que se põem a um assistente operacional que esteja à porta de uma escola, mesmo que de pequena dimensão, quando as turmas estão a sair para a sua hora de almoço: todos a quererem passar os cartões pelo terminal do computador, alguns a passarem com cartões de colegas, outros a quererem passar mesmo sem cartão, e eu sei lá que outras invenções os miúdos arranjam para simplesmente saírem e vêm-me agora culpar o porteiro? Só com torniquete de saída é que seria possível cumprir todos os procedimentos!  De outro modo, até podia lá estar o director que haveria sempre um ou outro aluno que se escaparia. E querem culpar o porteiro?

Será que a Escola em Portugal tem actualmente de abarcar todas as responsabilidades? Além de ter de ensinar desde a letra A até à forma de evitar uma gravidez adolescente, agora também vai ser responsabilizada por todas as falhas de uma sociedade a que todos parecem querer fechar os olhos?

Está na moda referir a falta de segurança das escolas, por isso vamos forçar até dar! Nem que seja à conta da expulsão de um assistente operacional! É o elo mais fraco – saia! E assim as consciências ficarão mais tranquilas.

A falta de segurança nas escolas também é um dos elos mais fracos já que é de uma relatividade suprema. Pensem só: quando nem a Casa Branca do Presidente Obama é 100% segura!

Poema de Abril



(desenho de Clotilde Fava nos anos 80)

A farda dos homens
voltou a ser pele
(porque a vocação
de tudo o que é vivo
é voltar às fontes).
Foi este prodígio
do povo ultrajado
do povo banido
que trouxe das trevas
pedaços de sol.

Foi este o prodígio
de um dia de abril,
que fez das mordaças
bandeiras ao alto,
arrancou as grades,
libertou os pulsos,
e mostrou aos presos
que graças a eles
a farda dos homens
voltou a ser pele.

(Sidónio Muralha, in “Poemas de Abril”, 1974)


sábado, 24 de abril de 2010

Opressão


(Em 24 de Abril)


 (Alexandre O´Neill)



sexta-feira, 23 de abril de 2010

ECD, ADD e Estatuto do Aluno

O Conselho de Ministros aprovou ontem, dia 22,  alterações aos Estatutos da Carreira Docente e do Aluno e à Avaliação do Desempenho Docente.

O comunicado do Conselho de Ministros que resume as alterações pode ser lido aqui.

Se ficar incomodado com as novidades, há umas dicas do Professor Ramiro Marques que  podem ajudá-lo a relaxar e a saber como lhes sobreviver... Leia-as aqui!


Calma! Tudo se resolve...



No Dia Mundial do Livro


“Há quem nunca tenha lido e que por isso tem vergonha, há os que já não conseguem tempo para ler e que por isso se lamentam, há os que nunca lêem romances, só livros úteis, ensaios, obras técnicas, biografas, livros de História; há os que lêem tudo, que “devoram” e cujos olhos brilham, há os que lêem os clássicos, meu caro senhor, “pois a melhor crítica é o crivo do tempo”, há os que passam a idade madura a “reler”, e os que leram o último do fulano e o último de cicrano, porque, meu caro senhor, temos de estar a par...

Mas todos, todos, em nome da necessidade de ler.”

(Daniel Pennac in "Como um Romance")


Abril

  (Mais um poema de Abril)

(Pinhal de Leiria)

Brinca a manhã feliz e descuidada,
como só a manhã pode brincar,
nas curvas longas desta estrada
onde os ciganos passam a cantar.

Abril anda à solta nos pinhais
coroado de rosas e de cio,
e num salto brusco, sem deixar sinais,
rasga o céu azul num assobio.

Surge uma criança de olhos vegetais,
carregados de espanto e de alegria,
e atira pedras às curvas mais distantes
- onde a voz dos ciganos se perdia.

(Eugénio de Andrade)

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Da utilização da avaliação do desempenho para os concursos de professores



Não se trata aqui de dirimir se concordamos ou não com o facto de a avaliação do desempenho contar para os actuais concursos dos professores, nem de discutir se os sindicatos estão ou não a trair estes profissionais. A questão é sempre a mesma: sai uma legislação e o problema está criado - é para cumprir ou não?

De facto, a legislação sobre a avaliação do desempenho docente “caiu-nos em cima” em Janeiro do ano 2008, sem apelo nem agravo e nós, professores, nunca a levámos a sério. E, à boa maneira portuguesa, esperou-se que nunca chegasse a ter de ser cumprida, como tem acontecido, ao longo dos tempos, com muitos dos normativos publicados para serem aplicados nas escolas.

Com toda a consideração pelo trabalho dos movimentos de professores, que muito fizeram, e dos Sindicatos, face à questão da avaliação dos professores, penso que, se não queremos obedecer às normas do “patrão”, ou lutamos e vencemos, ou vamo-nos embora. Se ficarmos, teremos de obedecer. Fazer tábua rasa das leis apenas porque não concordamos com elas, parece-me absolutamente ignóbil.

Vêm agora os paladinos dos professores dizer que a avaliação realizada no passado ano lectivo foi uma palhaçada, foi injusta e sei lá que mais! Lamento! Injusta qualquer avaliação é e, se foi uma palhaçada, foi apenas porque alguns dos responsáveis por realizá-la nas escolas não foram suficientemente sérios para com os colegas a quem tinham de avaliar e, repito, à boa maneira portuguesa, foram adiando à espera que se tratasse de mais uma legislação para não ser cumprida e, quando viram que não havia forma de lhe escapar, terão efectuado um mau trabalho.

Houve, porém, muitas escolas em que os professores dos conselhos pedagógicos e dos departamentos disciplinares trabalharam com toda a seriedade e profissionalismo para que a avaliação dos seus colegas fosse levada a cabo nas melhores condições possíveis. E agora, como alguns não cumpriram o que lhes foi pedido e realizaram mal a sua tarefa, apague-se tudo e faça-se tábua rasa de tudo o que foi realizado como máximo profissionalismo e a maior consideração pelo próximo.

Mais uma vez e, à boa maneira portuguesa, premeiam-se os que não cumprem!


Abril


Abril é o meu mês. É o mês da Primavera. É o mês da Liberdade. Rebentam as flores. Rebentaram os cravos pela madrugada na cidade. É o mês do amor, da força, da Terra, da criação, da explosão da Natureza. Abril, encantos mil.

Aqui vai um belo poema de Miguel Torga, de imediatamente antes do 25 de Abril. Cheio de força e carregado de erotismo.

Hão-de aparecer outros.


Dia feliz, passeado.
Sol a jorros, sem calor;
Os santos, de sentinela
Nos miradoiros lavados
Onde flameja a brancura
Da graça do seu renome;
Centeio a jurar à forma
O advento da fartura;
Ninhos, namoros, ternura,
E caminhos de amargura
Atapetados de flores
De uma insolência sincera:
Vulvas de todas as cores
No impudor da primavera.

S. Martinho da Anta, 14 de Abril de 1974

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Certificação de Competências TIC

Saiu ontem a Portaria n.º 224/2010 que republica o anexo I à Portaria n.º 731/2009, de 7 de Julho, sobre certificação de competências em TIC.




Da tolerância de ponto pela visita do Papa

  
     (Pe. Manuel Antunes) 

 Parece-me exagerada se não mesmo ridícula esta tolerância de ponto que o governo concede aos funcionários públicos pela próxima visita do Papa ao nosso país.

Porquê tolerância se a constituição diz que somos um país laico (apesar da tradição fortemente católica)? Porquê para os funcionários públicos? E os outros que não são funcionários públicos porque não hão-de usufruir do mesmo direito?

Nem no tempo da ditadura foi concedida qualquer tolerância de ponto a funcionários públicos nem não públicos! De facto, se havia qualidade da qual o Presidente do Conselho, vulgo, Salazar, não dava mostras era de tolerância.

Ao sair esta notícia e com toda a polémica que tem gerado, de imediato me lembrei da visita do Papa Paulo VI a Portugal, nos idos de 1967. Andava eu no 1º ano do meu curso na Faculdade de Letras de Lisboa e era aluna de História da Cultura Clássica do Professor Dr. (Padre) Manuel Antunes que, lembro-me bem assinava Manuel Antunes s. j. (sacerdote jesuíta). Ora tínhamos (nós de Germânicas , mais os de Românicas, os de Clássicas e os de História e Filosofia) no nosso horário, aula teórica daquela cadeira ao sábado de manhã. E o dia 13 de Maio desse ano, dia da visita do Papa ao Santuário de Fátima, calhou ao sábado. Claro que começámos logo a ver-nos com um feriadinho ao sábado que calhava mesmo bem! E, na aula teórica anterior, um dos meus colegas mais ousados (à época não se falava com os professores como se faz agora), pediu licença para falar e perguntou: “O Senhor Doutor dá aula no próximo sábado?” Resposta imediata do professor: “Claro! Porque não haveria de dar?” E acabou-se o diálogo. Qual tolerância de ponto, qual quê?

Gato

(sobre a misteriosa natureza dos gatos)


Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pelo, frio no olhar!

De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?

Alexandre O’Neill (1951)

“No Reino da Dinamarca”

terça-feira, 20 de abril de 2010

Tão amigos que nós somos!

E por lisonja e por hipocrisia, admirem este momento tão bonito entre dois "amigos de sempre"... Para memória futura...
 Registado no Diário de Notícias de ontem. Se eu não visse, não acreditava, juro!




Todo-o-Mundo e Ninguém


Não é novidade para ninguém, mas vejam só a actualidade dos escritos de Mestre Gil Vicente! Um extracto do Auto da Lusitânia escrito em 1531 e representado na corte de D. João III no ano seguinte.

Os diabos Belzebu e Dinato encontram-se em cena. Dinato escreve o que lhe é mandado por Belzebu.
Entra Todo-o-Mundo, homem como rico mercador e faz que anda buscando alguma coisa que se perdeu. E logo após ele um homem vestido como pobre: este se chama Ninguém.


Ninguém: Que andas tu aí buscando?

Todo-o-Mundo: Mil cousas ando a buscar:
delas não posso achar,
porém ando porfiando
por quão bom é porfiar.

Ninguém: Como hás nome, cavaleiro?

Todo-o-Mundo: Eu hei nome Todo-o-Mundo
e meu tempo todo inteiro
sempre é buscar dinheiro
e sempre nisto me fundo.

Ninguém: Eu hei nome Ninguém,
e busco a consciência.

Belzebu: Esta é boa experiência
Dinato, escreve isto bem.

Dinato: Que escreverei, companheiro?

Belzebu: Que Ninguém busca consciência.
e Todo-o-Mundo dinheiro.

Ninguém: E agora que buscas lá?

Todo-o-Mundo: Busco honra muito grande.

Ninguém: E eu virtude, que Deus mande
que tope com ela já.

Belzebu: Outra adição nos acude:
escreve logo aí, a fundo,
que busca honra Todo-o-Mundo
e Ninguém busca virtude.

Ninguém: Buscas outro mor bem qu'esse?

Todo-o-Mundo: Busco mais quem me louvasse
tudo quanto eu fizesse.

Ninguém: E eu quem me repreendesse
em cada cousa que errasse.

Belzebu: Escreve mais.

Dinato: Que tens sabido?

Belzebu: Que quer em extremo grado
Todo-o-Mundo ser louvado,
e Ninguém ser repreendido.

Ninguém: Buscas mais, amigo meu?

Todo-o-Mundo: Busco a vida a quem ma dê.

Ninguém: A vida não sei que é,
a morte conheço eu.

Belzebu: Escreve lá outra sorte.

Dinato: Que sorte?

Belzebu: Muito garrida:
Todo-o-Mundo busca a vida
e Ninguém conhece a morte.

Todo-o-Mundo: E mais queria o paraíso,
sem mo Ninguém estorvar.

Ninguém: E eu ponho-me a pagar
quanto devo para isso.

Belzebu: Escreve com muito aviso.

Dinato: Que escreverei?

Belzebu: Escreve
que Todo-o-Mundo quer paraíso
e Ninguém paga o que deve.

Todo-o-Mundo: Folgo muito d'enganar,
e mentir nasceu comigo.

Ninguém: Eu sempre verdade digo
sem nunca me desviar.

Belzebu: Ora escreve lá, compadre,
não sejas tu preguiçoso.

Dinato: Quê?

Belzebu: Que Todo-o-Mundo é mentiroso,
E Ninguém diz a verdade.

Ninguém: Que mais buscas?

Todo-o-Mundo: Lisonjear.

Ninguém: Eu sou todo desengano.

Belzebu: Escreve, ande lá, mano.

Dinato: Que me mandas assentar?

Belzebu: Põe aí mui declarado,
não te fique no tinteiro:
Todo-o-Mundo é lisonjeiro,
e Ninguém desenganado.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

O “problema grave” de indisciplina na D. Dinis



Quem leu o artigo que saiu no Jornal de Leiria do passado dia um decalcado em entrevista ao novo director do agrupamento de escolas D. Dinis, deve ter ficado com a ideia de que naquelas escolas o clima que se respira é da maior balbúrdia e da maior confusão no que toca à indisciplina. Por outro lado, pensará que daqui para a frente, com as “novas” medidas anunciadas pelo director, tudo vai passar a ser completamente diferente para muito melhor!
De facto, nada do que o professor se propõe fazer é novidade naquele agrupamento (nem nos outros!). Se não, vejamos:

1. “... acredita que é possível solucionar o problema através do envolvimento de toda a comunidade educativa.” Deixem-me refrescar a memória do professor e lembrar-lhe que as primeiras reuniões de turma com os pais na D. Dinis para se tratar desta questão remontam à primeira metade da década de oitenta! E, daí para cá nunca mais deixámos de envolver os pais nesta problemática. Claro que os restantes elementos da comunidade educativo – professores, alunos e pessoal não docente – estão, à partida naturalmente envolvidos.

2. “... propõe formar uma equipa de supervisão da disciplina para acompanhar problemas específicos... e dar formação no domínio do controlo da disciplina.” Quem foi que criou o GAP – grupo de apoio aos alunos – para onde eram encaminhados os alunos com episódios de indisciplina na sala de aula? Quem criou na escola a figura de Tutor que mais não é se não um professor que acompanha semanalmente e de perto cada um dos alunos identificados com problemas de indisciplina, de absentismo e de insucesso? Não posso deixar de recordar que um dia foi atribuída uma tutoria ao professor actual director (dado o seu perfil) para um aluno problemático do 4º ano de uma das nossas escolas. O professor esteve com o aluno um sessão, finda a qual, se nos dirigiu dizendo que o problema estava resolvido. Teve de ser o conselho executivo em articulação com as professoras daquela escola a resolver a situação... Mais uma coisa: Quem criou uma equipa formadora no âmbito da formação para a disciplina que trabalhou, ao longo dos dois último anos e com muito sucesso, com pais, professores e encarregados de educação?

3. “... a prevenção da indisciplina passa pela adopção de regras contempladas no projecto curricular de cada turma (PCT), realização de assembleias de turmas....” ou o professor estava distraído quando se elaboravam os PCT e nas reuniões de conselho de turma, ou desdiz do trabalho de todo um conselho pedagógico e dos colegas directores de turma! Quanto às assembleias de delgados de turma estão previstas (e têm-se realizado) há mais de dez anos nos Regulamentos Internos da escola.

4. “...prevê ainda um sistema de controlo das “ocorrências”. Não sei o que tem feito a equipa de avaliação interna que funciona há dois anos e da qual o professor fazia parte!

5. “Os casos mais graves serão encaminhados para o director ou para o coordenador de estabelecimento no caso do 1º ciclo.” Sim, porque até agora nem o conselho executivo nem as coordenadoras de estabelecimento ligavam nenhuma aos casos de indisciplina!

É, no mínimo, lamentável o senhor professor venha para a comunicação social divulgar um problema que não existe, nem de longe, nem de perto, na dimensão em que ele o coloca e pior do que isso apresentar soluções que de inovador nada, mas absolutamente nada têm!

Mais lamentável é apresentar – e a jornalista aceitar como notícia, como algo de última hora – uma estatística que ninguém conhecia e que a ninguém diz nada porque data de 2003/04!

E de então para cá, nada se fez? Deixou-se chegar as escolas ao caos que o senhor professor, sem razão de ser, foi divulgar para o jornal? Ou será que pretende, daqui por algum tempo, voltar ao mesmo jornal para dar notícia das enormes melhorias que operou?


domingo, 18 de abril de 2010

O Gato da Madame



Ora aqui vai mais uma das minhas músicas de sempre que, (sem ser) por acaso tem a ver com gatos.

Eu teria uns 12 ou 13 anos e passava na rádio, cantada em português de Portugal por uma cantora que se chamava Lina Maria, a cantiguinha “O gato da Madame”.

À época ouvia-se imensa rádio porque a televisão tinha chegado a Portugal uns dois anos antes e só emitia, num único canal, entre as 21.00 e as 23.00 horas. Além disso, eram poucas as famílias que tinham um aparelho em casa e para se assistir ao programa tinha de se ir ao café. Cheguei a ir algumas vezes, com os meus pais, à Periquita (sim, a das queijadas, em Sintra, na vila velha) ver televisão.


um aparelho de televisão

A rádio enchia-nos a vida. Eram as notícias (poucas, porque mesmo que já existisse globalização, o que estava longe de acontecer, o Senhor Presidente do Conselho, vulgo Salazar, não permitia que o povo soubesse o que se passava), eram os folhetins do Tide (remotos antecessores das novelas da TVI), eram os relatos de futebol e de hockey-em-patins ( em que éramos craques) , os anúncios (muitas vezes cantados e sempre os mesmos) e era a música – que alegrava o dia-a-dia. Evidentemente muita música portuguesa, música brasileira e alguma música francesa. Para vos situar, estou a falar de 1959/60, mais coisa, menos coisa.

                                                              um aparelho de rádio

E eu que já nessa altura adorava gatos, “apaixonei-me” pela cançãozinha e tratei logo de copiar para o meu caderninho de letras de canções os versos do “Gato da Madame”, um fox-trot bem mexidinho, de autoria brasileira da primeira metade do século XX.

Dizia assim:

 O Gato da Madame,
Anda perfumado,
Laço no pescoço,
Todo alinhado.

 Bebe uísque,
Nem parece um gato,
Foge arrepiado, apavorado,
Quando vê um rato.

Anda sempre
De unhas pintadas.
Não anda na rua
Pelas madrugadas.

Não come sardinhas,
Porque têm espinhas.
Carne, tem que ser fillet mignon,
E não faz miau,
Só faz miôô….

E, graças à imensa enciclopédia que é a net, até fui encontrar a capa do disco pela cantora Lina Maria!





sábado, 17 de abril de 2010

A Casa da Música


Como lisboeta que sou, corro sempre muito mais para Lisboa do que para o Porto. Por isso, só num dia da semana passada conheci a Casa da Música, edíficio muito sui generis que, pela primeira vez no nosso país, foi pensado e construído excusivamente para acontecimentos ligados à Música.

Somos um país com tantos anos de atraso em relação aos países ditos desenvolvidos, que qualquer construção desta grandeza (lembremo-nos da construção do Centro Cultural de Belém) é sempe acompanhada da maior publicidade e, o que é mais estranho, das maiores dúvidas, contradições de opiniões, críticas de toda a ordem. Assim aconteceu com a Casa da Música que foi pensada no âmbito das celebrações do Porto Capital da Cultura Europeia, em 2001 e, mercê da nossa proverbial desorganização e do habitual descalabro nas contas, apenas em 2005 estava pronta a ser inaugurada.


Trata-se de um edíficio que rompe com toda a tradição arquitectónica a que sempre estivemos habituados. Visto de fora tem a forma de um poliedro irregular que não deixa prever a organização do espaço interior.


Lá dentro perdemo-nos por salas e corredores que nada têm a ver com o normal cenário de um museu ou de uma sala de espectáculos e de formação. Há corredores que terminam em recantos com sofás minimalistas e, sem que nos apercebamos, aparece uma sala também de forma irregular que se deixa admirar através de enormes vidros coloridos, ondulados e meio tranlúcidos que nos estonteiam criando ambientes diáfanos.



São imensas as escadas, umas altíssimas, outras rolantes e há chão inclinado onde as pessoas se deitam a respirar descansadamente a cor e o espaço. 


E, sem esperarmos, aparece, através dos imensos vidros grossos e ondulados a belíssima sala principal dos instrumentos onde acontecem os epectáculos maiores.


Passei lá uma grande parte da tarde e não cheguei a visitar todos os andares. Tudo parece inclinado e oblíquo. Mas belo, de uma regular irregularidade que nos toca e nos invade.

Corte com a normalidade. Rasgão nos nossos esteriótipos. Saí de lá entontecida.

                                     


sexta-feira, 16 de abril de 2010

"Indisciplina, Bullying e Violênca na Escola"





O Professor Ramiro Marques volta hoje a sugerir no seu ProfBlog que se leia o seu novo livro Indisciplina, Bullying e Violência na Escola que anunciei aqui no passado dia 12. Isto a propósito do inquérito que foi aberto pela IGE na EB 2/ 3 de Fitares, em Sintra, sobre a alegada ligação entre o suicídio de um nosso colega e a indisciplina dos seus alunos.

Isentos desta sugestão ficarão certamente os colegas da minha escola (ou ex-escola?) dadas as "inovadoras medidas" que actual director anunciou no Jornal de Leiria do dia um de Abril (ou seria mentira?) para terminar com os "graves"  problemas de indisciplina que ele afirmou serem a principal questão daquela escola. 


As cadeiras


Sala de aulas


À aula de
quarta-feira assistiram 13 alunos e

27 cadeiras. Em resumo: a sala cheia.
Quando a
lição terminou os 13 alunos partiram e
acto contínuo contei 20 casais de cadeiras.
Às aulas que tenho dado nunca faltam
as cadeiras
ficam a ouvir-me atentas
(as costas muito direitas).
É bom de ver que as cadeiras entendem
tudo à primeira
parecem ser mais maduras (mais
pés
assentes na terra).

João L. B. Guimarães

Non, rien de rien

Esta será a primeira das (muitas) canções da minha vida. Foram escolhidas ao longo dos tempos, desde muito jovem e todas me marcaram muito e ajudaram até a formar a minha personalidade e a minha maneira de ser. Sempre dei muita importância às letras, ao seu significado, à sua força e por isso as transcrevo aqui.


Non ! Je ne regrette rien

Ni le bien qu'on m'a fait

Ni le mal, tout ça m'est bien égal !

Non ! Rien de rien...

Non ! Je ne regrette rien

J'ai payé, balayé, oublié

Je me fous du passé !

Avec mes souvenirs

J'ai allumé le feu

Mes chagrins, mes plaisirs

Je n'ai plus besoin d'eux !

Balayer mes amours

Et tous leurs tremolos

Balayer pour toujours

Je repars à zero...

Non ! Rien de rien...

Non ! Je ne regrette rien

Ni le bien qu'on m'a fait

Ni le mal, tout ça m'est bien égal !

Non ! Rien de rien...

Non ! Je ne regrette rien...

Car ma vie, car mes joies
Aujourd'hui, ça commence avec toi !

  http://www.youtube.com/watch?v=DKwHXCboufQ

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O perdão e a vingança



A Igreja Católica veio agora “conceder o perdão” aos  Beatles por uma frase tonta de um então superjovem e superstar John Lennon.

O ex-Beatle Ringo Starr apressou-se a vir a terreiro dizer que recusa o perdão do Vaticano porque eles é os acharam satânicos.

Não interessa aqui discutir se o Vaticano se torna ridículo com estes perdões nem se o Ringo está carregado de razão. 

Veio-me à cabeça aquilo que sempre pensei e afirmei e por que sempre me regi: pedir desculpa por um erro é um acto de humildade; conceder um perdão é uma arrogância, é um sinal de que estamos a olhar o nosso semelhante de cima para baixo. O perdão assim como a vingança é para os deuses.



 

O novo ECD




Porque ainda me sinto muito próxima da escola e porque acredito que este espaço seja visitado por alguns professores, transcrevo para aqui uma reflexão sobre o novo Estatuto da Carreira Docente de um dos blogs que leio diariamente.

Os professores, na sua maioria, e porque têm muito "mais que fazer" - as   nove ou dez horas de trabalho individual que constam do seu horário de trabalho não lhe chegam para preparar as lições, corrigir trabalho, procurar textos e criar fichas de trabalho e de informação - deixam para último (ou para nunca) o trabalho de se informarem sobre a legislação que sai - e a força com que ela agora sai! - e que rege e molda as suas vidas e o seu trabalho. Mas esta atitude tem de mudar! Basta de dizer: "não tenho paciência para a legislação", "isso é com o conselho executivo" porque de facto, cada vez mais é com cada um de nós/vós.

Transcrição:

"Não estamos perante um novo estatuto da carreira docente mas sim perante um documento que pura e simplesmente extermina o estatuto da carreira docente!

Os poucos colegas que leram esta última proposta sabem do que "falo". O panorama deixou de ser clara e inequivocamente "negro" e passou a "perda total". Vejamos o resumo (elaborado pela FENPROF) das alterações mais significativas:


- Eliminação das regras de recrutamento para os quadros das escolas ou agrupamentos, sendo também estes eliminados, bem como a existência de vagas;

- Separação entre ingresso nos quadros (que seriam substituídos por mapas de pessoal) e ingresso na carreira, na qual apenas se poderá entrar por procedimento concursal dependente do Ministério das Finanças;

- Consideração de precariedade como regra, bem patente quando se afirma que os “postos de trabalho existentes nos mapas” das escolas e agrupamentos “podem ser ocupados por docentes integrados na carreira”;

- Reforço da arbitrariedade da administração educativa no que respeita à possibilidade de transferir compulsivamente os professores de escola;

- Fim de todas as formas de mobilidade actualmente existentes – concurso, permuta, destacamento, requisição e comissão de serviço – e substituição por “mobilidade interna” (por prazos de 4 anos) e “cedência de interesse público”;

- Aplicação pura e simples da Lei 12-A/2008, de 27 de Fevereiro, ou seja, negação, na prática de um estatuto profissional e de carreira específico para o pessoal docente, o que traduz um retrocesso de mais de 20 anos;

- Aplicação generalizada das regras de contrato individual de trabalho, quer a docentes actualmente contratados, quer dos quadros.

Muitos colegas só se irão aperceber do alcance desta mudanças a partir dos concursos nacionais de 2011 (será, por razões óbvias, tarde demais). Infelizmente... A dormência nas escolas é grande e continuo a considerar que o facto de estarmos perante um ano de "apreciação intercalar" (para os colegas contratados não se aplica este conceito) e de uma certa satisfação pela eliminação da divisão da carreira (a que preço, meu Deus... a que preço!) irá contribuir para uma fraca contestação (e por consequência, adesão a eventuais iniciativas sindicais).

Quero acreditar que ainda podemos fazer algo, enquanto classe profissional, no entanto, tenho de admitir que perante tão gravosas mudanças, o panorama afigura-se de extrema complexidade. É importante, neste momento, que todos os colegas leiam a última proposta de ECD e formem as suas próprias opiniões. Só informados poderemos ter uma real capacidade de contestação e de mobilização consequente.

A luta tem de continuar, por maior que seja o cansaço..."


                        (in Proflusos)

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Mourinho e a BD





Ouvi ontem, nas notícias, que José Mourinho vai ser uma personagem de uma nova banda desenhada da Disney em Itália que integrará novas aventuras com o clássico Pato Donald.

 

Big Mou, assim se chama a personagem do treinador português, será o “mais importante especialista do futebol virtual desde a pré-história até aos nossos dias” e vai explicar ao Pato Donald as instruções do jogo de vídeo “Ultimate Mundial”. Nessa BD vão também aparecer outras personagens como Quaquá que representa Kaká e Paperinho que incarna Ronaldinho, jogadores bem conhecidos do público italiano.

Até aqui, tudo bem. Mas depois lembrei-me da crónica de Clara Ferreira Alves que aqui comentei há dias e pensei: será que o povo italiano também estará a perder os símbolos e que, tal como para os portugueses, os seus homens de referência sejam o treinador e os jogadores de futebol?


terça-feira, 13 de abril de 2010

Ode ao Gato


Todos sabem que eu adoro gatos. Eles vão ser uma companhia constante aqui neste espaço como têm sido na minha vida. Tive uma gata que apareceu lá por casa pela altura em que nasci. Tinha mais ou menos a minha idade. Morreu quando tínhamos 14 anos. Chamava-se Piriquita e era linda! Era mais ou menos como esta, a Branquinha.



Hoje encontrei este poema e não resisti a transcrevê-lo para aqui:


Ode ao Gato

Tu e eu temos de permeio
a rebeldia que desassossega,
a matéria compulsiva dos sentidos.
Que ninguém nos dome,
que ninguém tente
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza,
pois nós temos fôlegos largos
de vento e de névoa
para de novo nos erguermos
e, sobre o desconsolo dos escombros,
formarmos o salto
que leva à glória ou à morte,
conforme a harmonia dos astros
e a regra elementar do destino.

José Jorge Letria, in "Animália Odes aos Bichos"


Mais gatos:

Este é o Gorki




E este é o Socas




Não são mesmo lindos?



Poema para Lili

A minha neta chama-se Elisa e tem quase três anos. Os pais, às vezes, chamam-lhe Lili. Por isso me lembrei de lhe dedicar aqui um poeminha muito lindo e muito leve do nosso poeta Pessoa que se chama "Poema para Lili".

Como não posso, por questões de segurança, pôr aqui uma fotografia dela, tenho o verdadeiro atrevimento de copiar o desenho que o pintor e ilustrador dos anos setenta, Tóssan, fez para ilustrar este poema e que também faz lembrar a minha Lili.


Levava eu um jarrinho
Pra ir buscar vinho,
Levava um tostão
Pra comprar pão;
E levava uma fita
Pra ir bonita.

Correu atrás
De mim um rapaz:
Foi o jarro pra o chão,
Perdi o tostão,
Rasgou-se-me a fita...
Vejam que desdita!

Se eu não levasse um jarrinho
Nem fosse buscar vinho,
Nem trouxesse uma fita
Pra ir bonita,
Nem corresse atrás
De mim um rapaz
Para ver o que eu fazia,
Nada disto acontecia.

(Fernando Pessoa - Obras Completas)






segunda-feira, 12 de abril de 2010

"Somos um pequeno e desgraçado país"




Na página de resumo remissivo, lia-se qualquer coisa como “Clara Ferreira Alves – Pobre país – deixámos de ter símbolos e não temos modelos. O português mais influente é jogador de futebol”. Reagi automaticamente: como não temos símbolos? Então e a bandeira? E o hino? E a nossa belíssima língua? Além de que não gosto de ouvir dizer mal de nós. E menos ainda por nós próprios. É um péssimo defeito nosso, este dizermos mal de tudo o que é nosso! Só o que não é nacional é que é bom?


Apressei-me a ler o artigo que tem o infeliz título “Somos um pequeno e desgraçado país” e fiquei ainda mais mal disposta. Fiquei sem saber qual o intento da autora do artigo: fazer coro com os muitíssimos que realmente acham que o nosso é mesmo um pequeno e desgraçado país ou se, pelo contrário, teria a intenção de levar os leitores a abandonar essa miopia que ataca grande parte dos portugueses. Inclino-me para a primeira hipótese – a jornalista é mais uma daquelas pessoas que acha que os outros povos, neste caso os americanos, é que são empreendedores e completos, enquanto nós temos como símbolo apenas o jogador de futebol.

Claro que termina o artigo responsabilizando as elites e a classe política por isto. Esquece-se a senhora de duas coisas, entre algumas outras, que considero importantes: primeiro, que ela própria terá responsabilidades na criação e manutenção da atitude depressiva dos portugueses já que assina há anos aquele espaço de opinião e, a escrever artigos como este apenas conseguirá fazer com que as pessoas se sintam ainda mais embotadas; em segundo lugar, parece esquecer-se que foi apenas há pouco mais de trinta anos que saímos de uma ditadura velha de 48 anos que nos sufocou, fechando-nos sobre nós próprios, mantendo-nos na mais ignóbil ignorância e na mais profunda tristeza. Nesse tempo, sim, os nossos símbolos eram tão-somente o Eusébio, a Amália e a Senhora de Fátima!